sábado, 22 de outubro de 2011

Os acordos com Deus.

Quando escrevi meu penúltimo post eu não imaginava o que estava para acontecer. Quando recebi a noticia meu coração estremeceu: "será meu Deus, que minha filha vai conhecer essa dor assim tão cedo?" Meu irmão descobriu um tumor no rim direito. Depois esse pensamento me pareceu egoísta, afinal tem tantas outras coisas na vida dele, enfim.
Meu irmão é meu outro pai. Dez anos mais velho que eu, ele sempre foi aquele misto de irmão mais velho e amigo, aquele pai mais próximo, mais parecido comigo, capaz de gostar e compartilhar coisas como meu pai mesmo nunca foi capaz apenas porque entre nós dois havia um muro de 43 anos de diferença, meu pai era velho. Meu irmão era o pai jovem. Aquele que me enchia de orgulho exibir por aí. Ele me levava de moto pra escola e eu me 'achava' com isso. Ele andava de mãos dadas comigo pelas ruas e eu fingia que ele era o meu namorado mais velho. Ele apontava o relógio pra mim no clube como quem diz "hora de ir pra casa" às 19hs e eu respondia meio que por mímica que não, era cedo ainda, mas achava graça, adorava, me sentia protegida, cuidada. Protegida e cuidada como nunca senti dos meus pais, nem pai, nem mãe. Porque pro meu pai eu era a filha-neta, e pra minha mãe, sei lá, parece que ela nunca teve muito tempo pra mim. Teve até um tempo que eu desejava que ele entrasse comigo na igreja no dia do meu casamento, mas isso faz tempo, eu era muito jovem e deveria estar naquela fase em que a gente se envergonha dos pais. Meu irmão era diferente, ele conversava comigo de igual pra igual e ao mesmo tempo se preocupava como um pai se preocupa com um filho, como no dia em que nós caímos da moto e ele ficou desesperado, e isso me dava confiança de seguir com a vida. Eu até o ajudei a conquistar sua esposa bem lá atrás, faz tanto tempo. E a gente sempre teve uma sintonia incrível. E a gente gostava das mesmas coisas.
E o tempo passou e ele se casou. Aí eu fui obrigada a deixar que a outra moça da vida dele fizesse as batatas fritas e o macarrão com mussarela gratinada. E tanta coisa aconteceu. Aí eu voltei a trabalhar lá, onde ele mora, e de novo ele voltou a cuidar de mim. E mais, ele cuida da minha Luiza também. Eu vou trabalhar tranquila porque eu sei que ele vai estar sempre por perto, zelando por ela, como sempre zelou por mim. E ela se apaixonou por ele como eu sempre fui apaixonada e isso fez com que eu me apaixonasse mais ainda por ele e pensasse: "mesmo casado, com filha, ele nunca desampara ninguém". Então pra mim foi um choque, eu não esperava, fui pega de surpresa, todos fomos. E para nós, a família toda, outro diagnóstico desses vem com um temor gigante de estar vivendo novamente o pesadelo. São muitas as diferenças de um caso pra outro, mas eu desabei. Eu fico tentando colocar todo mundo pra cima, mas só agora estou conseguindo digerir a noticia, compreender e aceitar. Fico indignada matutando como foi que isso aconteceu e me causa um sofrimento terrível não saber usar toda a minha psicologia para ajudar quem eu mais amo. Desta vez não me desesperei, não pedi oração pra todo mundo. Fiquei um tempo sem querer entender, depois um tempo tentando entender e hoje tudo ficou mais claro, acho que estou voltando a ficar forte de novo pra ajudar.
Nossos pais não nos ensinaram a conversar, logo não sabemos fazer isso, mas tem horas que eu tenho tanta coisa pra dizer. Lembro que no meu trote do vestibular me deram um porre e no auge do mesmo eu disse pra ele que o amo, mas acho que foi a única vez. Embora eu saiba que ele sabe disso, mas é tão difícil falar. E eu também queria pedir a ele que lute, que não desista, que não perca a fé de que logo a gente acorda e o pesadelo passou, mas a gente sente medo de falar na dita cuja, a doença, parece bicho papão que vai nos pegar. Talvez eu escreva uma carta pra ele, talvez eu envie este texto, mas o fato é que hoje, agora há pouco quando cheguei em casa me veio a seguinte situação: meu pai quando estava internado rezava e pedia a Deus três meses pra ficar em casa e descansar. Fomos ver a oficina deles que está ficando pronta e meu irmão me mostrou o lugar onde pretende colocar uma foto do nosso pai e disse que depois pode ser pendurada uma dele também, daqui há vinte anos, ele disse. Ao me lembrar disso me veio um alivio tão grande! Fiquei aliviada por compreender que nos seus acordos com Deus ele pretende viver mais vinte anos, então significa que ele pretende lutar por eles ainda que dê trabalho e isso me confortou, embora eu deseje que ele viva muito mais. Mas, se pensarmos nas devidas proporções, nosso pai pediu três meses e viveu quatro meses e meio. Se ele pede vinte, acho que posso acreditar que Deus o presenteie com trinta anos? Para Deus nada é impossível não é?!

Pro caso de você meu irmão, ler este texto, saiba que aqui neste espaço moram os meus sentimentos que traduzo em palavras escritas para que eu mesma possa compreendê-las. Foi a forma que encontrei de lidar com a partida do nosso pai e é por isso que pareço tão forte e tão prática. E de fato sou assim, porque não é qualquer doencinha besta que me derruba não. Eu confio em Deus e acredito que tudo dá certo no final. Só precisamos observar que lição a vida quer nos ensinar e tratar de aprender logo, pro sufoco ir logo embora. Eu te amo. Você sempre foi meu irmão preferido e se você não foi meu padrinho de casamento nem é padrinho da minha filha, é porque você nunca foi bom nisso e eu te respeito e te amo do jeito que você é, com todos os seus encantadores defeitos (risos). E porque nós não precisamos desta formalidades para que o amor que temos um pelo outro seja evidente, isso é coisa pros outros falarem e eu sei que você também pensa isso. E que no dia do meu casamento você desejou que eu fosse muito feliz nem que pra isso você precisasse dar umas porradas no meu marido (risos). E que você cuida e ama minha filha como se ela fosse sua. Sua netinha ela deve ser mesmo, . Quero que você saiba que no dia do seu casamento meu coração se encheu de alegria por saber que você naquele momento também estava começando uma família, embora eu confesso, senti um pouco de ciúmes, afinal você não seria mais só meu, mas eu não era mais só sua também, tive que aceitar. E que entendi sua atitude de só se casar depois de mim, porque, sendo meu pai também, você precisava garantir que eu estivesse segura antes de seguir com a sua vida e essa foi a maior prova de amor que você me deu. E preciso te pedir perdão por ter te dado de presente de casamento a noite no hotel, eu quis agradar, mas agradei só sua jovem esposa porque você não gosta do que não foi planejado, eu já deveria saber porque eu também não gosto, perdoe-me, quando me lembro ainda me sinto mal por isso e sei que você vai dizer assim: "mas cê ainda tá nessa?". É, meu irmão, eu tenho boa memória. E no dia que sua filha nasceu sofri de não estar lá com você, a vida seguiu em frente e eu tinha que me preparar pra cuidar do Anizio. E isso me chateou porque eu só queria ficar babando na sua fofura, linda, sua cara, meu gênio ruim (risos), mas tinha que ficar frequentando hospital, sendo boa filha. Sendo assim, não fui boa tia. Mas eu a amo como amo a minha fofura e é delicioso ver o amor que uma tem pela outra, a Luiza reza todos os dias pro Papai do Céu abençoar a Maria Clara Prima, e agora reza pro 'Tio Nelso' também. E isso é a melhor coisa de todos os meus dias.
Eu estou aqui, sempre, seja pra comprar peças na Ladi peças, seja pra acudir você neste momento. Se tem alguém neste mundo que você pode pedir tudo sou eu, mesmo que seja coisa impossível, você sabe que comigo não existe "não posso", mas sim "eu vou dar um jeito".

E estou muito orgulhosa de você, do império que você construiu e da sua vontade de viver. E como você é mais velho, eu só posso me espelhar pra ser como você. Então viva muito! Não importa quanto leões você ainda tenha que matar para vencer, você não está sozinho nessa!!! Te amo. Muito!!!!