Ontem foi meu aniversário de 36 anos. Confesso, me apavora pensar no número, porque não me vejo com essa idade, não me sinto com essa idade, mas já vivi tudo isso. Enfim, tanto faz.
Foi um dia especial. Tenho sentido falta de celebrar, comemorar. Comecei a me sentir em paz depois de muito tempo triste, chateada, ansiosa, sem esperanças. E boas novas tem surgido, ainda que de maneira tímida, mas é sinal de bons ventos sim.
Fui passar meu dia numa feira de gestão de pessoas. Na volta fiquei pensando que não tem como dar errado essa fórmula. Mesmo que demore um pouco, não tem como não dar certo. Comecei uma pós-graduação, esse foi o presente que me dei de aniversário. Se vou conseguir concluir é outra história, mas estou feliz de ter vencido o desafio de sair de casa depois de tanto tempo reclusa nos moldes passados. Claro que ainda tenho alguns muitos questionamentos, mas nada parece mais abalar a serenidade que estou sentindo.
E meu dia foi assim: marido madrugou e preparou uma linda mesa de café da manhã, com flores e delícias! Mas a surpresa mesmo foi a imagem acima: minha pequena assinou seu primeiro cartão pra mim. Quanto orgulho!!!!!!! E meus olhos marejaram e eu só pude pensar: "como eu posso reclamar da vida!" Minha fofa só tem 3 anos e já escreve seu nome. E claro, eu me lembrei dele, meu pai. Seu jeito peculiar de lembrar dos aniversários, e o orgulho que sentiria da neta pequenina que já escreve o nome. E me lembrei de mim mesma, pequena, escrevendo meu nome! Foi como se um filminho passasse na minha frente, eu pequena, minhas irmãs me ensinando a escrever minhas primeiras letras. Claro, eu já era mais velha, uns 5 anos talvez. E eu treinando, escrevendo incansavelmente meu nome e mostrando: "olha pai, eu já sei escrever meu nome". E ele elogiando, achando lindo! E quando os mais velhos me ensinaram a contar até 10 em inglês e ele ficava pedindo pra eu contar para todos os clientes e amigos que apareciam na oficina dele, ai ai, não ouve no mundo pai mais orgulhoso do que ele! E Luiza, menor que eu, já sabe estas coisas. E também me lembrei de pouco tempo atrás, ter achado uns cadernos antigos com a minha letrinha, meu nome, uns nomes escritos certos, a maioria errado, NVA, NIA, NIVIA. E me lembrei do dia em que pedi dinheiro pra comprar livros, com 7 para 8 anos, tão logo aprendi a ler. Lembrei de seus olhos brilhando muito, sempre, olhos orgulhosos e apaixonados, me olhando e admirando tudo o que eu fazia e dizia, em qualquer tempo, a qualquer hora. Acho que quando a Luiza diz que sou sua princesa e diz que me ama, seus olhinhos inocentes também carregam amor parecido com o dele, mas ainda assim estou certa de que ninguém nesse mundo me olhou como ele me olhava, me amou como ele me amava! Ele sabia amar sem nada pedir em troca. Toda vez que um de nós, ou eu ou meus irmãos, reclamávamos de qualquer coisa, ele só falava: "mas eu não mandei fazer isso!" Ele nos deixava livres, mas mantinha seus braços abertos para nos receber de volta! Que amor especial ele era capaz de sentir... claro, ele não era perfeito, tinha suas críticas para nós também, mas estava lá, nos amando, nos colocando no pedestal especial dos filhos. E quantas coisas importantes ele ensinou com seus exemplos e seus conselhos. Hoje, com 36 anos, seus ensinamentos estão mais claros que nunca!
Tenho pensado nele todos os dias, o dia todo. Tenho sentido uma falta imensa! Eu já tinha me habituado à sua ausência, mas, sei lá, de repente a coisa andou pra trás, e eu voltei a sofrer de saudade. Sua imagem anda ficando distante, minha saudade começou a berrar! Talvez a tentativa de manter mais forte essa imagem. Saudade, saudade, saudade...
E a vida segue! Minha crise me ensinou várias coisas sobre mim. Ainda não enxergo a próxima estação, mas já embarquei no trem. Não consigo crer que meu pai morto possa me ver, pra mim essa ideia é um tanto absurda, porque nem tudo que faço, faria na frente dele. Mas se pudesse acreditar em algo do tipo, então pediria que seu amor me acolha e me guarde como quando ele estava aqui, para que minha viagem nessa nova fase de vida seja tranquila e que o destino seja de fato o sucesso. E que ele possa sentir orgulho de mim. Ou que eu possa sentir orgulho de mim junto com o pai que ainda está vivo e mora em mim! E que assim seja!
