quinta-feira, 10 de dezembro de 2009


Tenho andado sobressaltada. É tanto cansaço que quando me sobra algum tempo, saio daqui e fico viajando, viajando... Daí deixei derreter umas mamadeiras, queimei a papinha... conclusão: agora vivo assombrada. Hoje cheguei tão cansada do consultorio que almocei e dei uma deitadinha antes de buscar minha riqueza na escola, mãe também é filha de Deus, né. Cochilei e acordei desesperada achandoque tinha perdido o horario, como se fosse ainda de manhã e eu ainda não tivesse ido trabalhar. Nossa, que susto! E tem sido assim. Sento no computador e de repente me vem um desespero como se eu tivesse esquecido algo no fogo, vou olhar e não tem nada. Estou ficando muito parecida com minha mãe, ela é que quase põe fogo na casa toda semana desde que minhas lembranças se recordam. Sempre me gabei de ser atenta, cuidadosa, agora ando com a mão frouxa, tudo cai, e com a mente vagante, será efeito colateral de ser mãe? É, porque do meu bebê não descuido. Posso esquecer de colocar a fraudinha na bolsa, mas nunca de colocar a meia no pezinho. Ai, ai, tomara que isso passe. Meu pai ficava furioso com a distração da minha mãe e temo que isso pegue no meu marido, mas confesso, não sei bem o que fazer pra isso passar e ficar sobressaltada como estou não é nada bom. Quem gosta de viver assustado?

As boas noticias: minha mãe já retirou os pontos da cirurgia e está nova em folha, graças a Deus, mas um vento forte que passou e foi embora.

Domingo foi a festinha de fim de ano da Escola da Luiza, foi lindo demais. O tema era cinema e minha fofura dançou uma musica do filme 101 Dálmatas, vestida de cachorrinho, meu bichinho lindo! Lembrei que quando tinha oito anos ganhei uma medalha Honra ao Merito, por declamar a poesia do Saci no Show de Calouros promovido na minha escola, fiquei tão feliz e orgulhosa, embora por muito anos ainda fiquei sem saber o que aquela frase significa: Honra ao Mérito. Pra dizer bem a verdade eu nem li o que estava escrito, só me interessava o fato de ter ganhado e de ela ser dourada,uau, de ouro. Meu pai é que leu a bendita quando fui mostrar meu feito, ele também ficou muito orgulhoso. E hoje estou orgulhosa do meu bichinho, que chorou, chorou, mas que depois dançou, dançou, brincou, foi lindo!

Se todo o resto der errado, viver já valeu a pena só por ver essa fofura crescendo.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Meu baú de memórias...

Quero passar minha vida escrevendo. Tenho um baú de memórias. Às vezes fico feliz, às vezes fico triste, aí abro meu baú e fico remexendo, lembrando de coisas boas e de coisas não tão boas, mas que sempre me ensinam outras coisas. Hoje estou tentando encontrar outro rumo pra minha vida. Muita coisa mudou e penso que quando uma porta se fecha em nossa vida é porque em alguma canto alguma janela se abriu, só não estou conseguindo encontra-la, por enquanto. Tenho me dedicado a cuidar da minha família e isso só já me toma muito tempo, tempo demais confesso, certas coisas deveriam se fazer sozinhas pois contribuem apenas para o nosso cansaço, mas chegar ao fim do dia e ver que sua família está feliz, que não falta nada também é muito bom, mas não é só. Ás vezes minha pequena dorme e eu, cansada das coisas do dia-a-dia, me permito deitar no sofá e sonhar. Aí abro meu baú e retiro de lá alguns sonhos antigos misturados com algumas lembranças e vislumbro um futuro próspero, farto, cheio de sucessos e relembro minha trajetória. Ainda sofro com momentos duros, difíceis e me alegro em ver que venci, que não foi só o tempo que passou, mas os obstáculos também e me vejo hoje pendurando quadros na parede da minha memória, apenas para não esquecer quem eu sou, de onde eu vim, aonde cheguei. E continuo remexendo meu baú e rindo de quanto fui boba muitas vezes, me orgulhando das vezes em que fui safa, das vezes em que driblei o adversário e venci, das vezes que não desisti diante do muro mais alto, mais intransponível, mas que hoje é só uma historia pra contar. E choro de saudade de alguns momentos que não voltam mais e de saudade das pessoas que amei e que já partiram. Enquanto escrevo a tarde cai e minha sala vai sendo envolvida por uma penumbra e essa luz faz meu coração se encher de nostalgia. Posso apertar o interruptor e acabar com este sentimento, posso fechar o meu baú e seguir adiante, mas é bom parar e lembrar. Quando penso no passado, enxergo o futuro e meu presente é assim. Não sei bem ao certo para onde estou caminhando, nem sei o que me espera, então cuido bem do meu baú, pois ele me acolhe e nele descanso enquanto reúno forças pra continuar, meu baú de memórias, o que fui, o que sou, o que ainda ouso sonhar. Tudo guardado num cantinho do meu coração ao alcance de minhas mãos, pronto para ser aberto e me fazer de novo sonhar...

Como tornar-se eterno...

Nossa, quero tanto fazer tanta coisa e meus dias se tornaram tão curtos depois que minha riqueza nasceu. Agora ela vai pra escola, o que me dá uma folga, mas uma folguinha, é tanta coisa por fazer...
Eu adoro escrever, desse jeito que escrevo aqui, mas até isso não tenho conseguido fazer, afe, que vida corrida!
Minha mãe retirou um nódulo da mama na segunda feira, foi bem simples, graças a Deus. Fui para lá para ficar com ela, mas que sufoco eu passei! Não dá pra fazer muita coisa com um bebê pra cuidar, às vezes eu sentia que mais atrapalhava que ajudava, então vim embora, minha mãe ficou bem e estava feliz de ter a neta por lá nesse momento complicado, mas que já passou. É engraçado, depois que o desespero da perda passa, quem já partiu ganha uma moldura e se torna um "quadro na parede da memória". O que nunca imaginei é que meu pai também se tornaria um quadro. É que, enquanto a gente não se conforma, a raiva, a indignação, a revolta deixa tudo muito próximo e muito vivo, mas o tempo trata de abrandar e a gente passa a lembrar de outra forma, mais doce, mas também mais distante. Já não choro mais como antes e nestes dias lá com minha mãe pensei que estar desesperada também o mantinha mais vivo. Dói um tanto ver minha Luiza sapequíssima e não ter ele babando em cima dela, mas a falta da revolta minimiza demais essa dor. Fiquei brava comigo, como posso me conformar? Não sei, só sei que é assim.

Lá no nosso quintal nasceu um pé de melancia, pode? A mangueira que foi cortada também foi meio assim, quer dizer, a mangueira foi plantada pra ver no que dava e deu muita manga por muito anos. A melancia não, nasceu sozinha, provavelmente oriunda de uns caroços que alguém cuspiu por lá. E já tem duas melanciazinhas crescendo, já estão do tamanho de uma bola, lindas. Neste exato momento estou me martirizando por não tê-las fotografado, mas quando as vi fiquei doida e pensei: meu pai ficaria maluco com essas belezinhas, cuidaria como se fossem um bebezinho frágil até que estivessem no ponto de comer. E meu irmão e minha mãe fizeram direitinho como ele faria, cercaram o quintal pro meu cachorro não destruir este milagre da natureza. Ainda bem que o Manchinha, meu cachorro nem foi pra lá desta vez.
Meu pai morreu. Meses depois a mangueira foi cortada e agora nasceu a melancia. Só posso concluir que a vida continua e continuou mesmo, já não sinto mais a necessidade de pedir ao mundo que pare de girar pra eu chorar. Dói uma dor sem fim pensar que ele já não está aqui pra ver isso e não está pra ver a Luiza mandar beijo, dar tchau, dançar com o celular na mão, fazer bico, fazer bilu bilu, ameaçar ficar em pé e uma porção de outras coisinhas fofinhas que ela aprende todo dia. E ela está crescendo, a melancia está crescendo, e penso que muitas outras coisas milagrosas vão nascer naquele pedacinho de terra fértil que tem lá em casa, mesmo ele não estando aqui pra ver. A terra do tomate misterioso veio de lá (já contei essa historia aqui - Todos os caminhos levam à Leonardo da Vinci). E nossa vida é uma terra fértil que tem o poder de fazer germinar uma porção de milagres que nos fazem felizes enquanto vivos, mas que um dia partem e se tornam quadros, ou ainda melhor, viram histórias pra contar, ora bonitas, ora engraçadas, ora tristes, historias, memórias. Muitas delas a gente nem lembra, mas um dia, uma frase dita por alguém ou algo visto as traz de volta para nossa consciência e nos faz reviver aquele momento e sermos felizes de novo, ainda que por apenas um segundo. Peço a Deus que muitas melancias nasçam no meu quintal e que Luiza cresça forte e saudável e seja protagonista de muitas historias de sucesso, assim quando ela fizer trinta e dois anos, como eu, quem sabe ela comece também a escrever sobre estas historias e mesmo que eu não esteja mais aqui (espero estar), nossa vida, ainda que em forma de quadro, ou relatada em algumas palavras, será eterna, nossa vida, nossa família, nossos amores...