segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Viveu intensamente

Neste fim de semana pintamos o quarto da Luiza. Meia parede em lilás, ficou lindo! Nossa princesa vai morar num castelo colorido, preparado com muito amor. Ontem, enquanto buscávamos o que faltava para finalizar a pintura, fiquei lembrando dos tempos de criança e disse ao Dri que gostaria que ele fosse um pai como o meu. Não lembro bem que idade eu tinha, mas era pequena. Ele fez um balanço para mim, com uma corda e um banquinho de madeira. Lembro que durante a confecção do mesmo eu estava ansiosíssima e quando ficou pronto eu balançava tão alto que meus pés quase tocavam o céu. Acho que este foi o melhor brinquedo que tive. Já estava na escola e uma vez a professora levou uma casinha destas que você monta pra criança brincar dentro dela, era tão bonitinha! Fiquei encantada. Quando cheguei em casa peguei umas varinhas e uns pedaços de retalho e fui pro quintal tentar montar uma casinha pra mim, claro que nunca dava certo. Lá pelas tantas meu pai ficou curioso e perguntou o que eu estava tentado fazer. Quando contei ele disse que faria uma casinha para mim assim que pudesse. E fez. Era na verdade bem diferente daquela da escola, mas era só minha. Ele aproveitou a parede e fez um teto, cobrindo com plástico e tecido, lembro que tinha alguma coisa branca no meio. Era tão pequenininha que só cabia a mim e mais ninguém. Passava mais tempo lá do que em qualquer lugar. Não consigo lembrar em que momento estes brinquedos foram sendo desmontados, acho que fui crescendo e perdendo o interesse, mas eles foram brincados ao máximo com certeza. Eu não pedia nada, era sempre ele que tinha as ideias, como quando ele me deu as galinhas de estimação. Acho que ele foi um pai que curtiu muito ser pai. Ele tinha as ideias e as executava e eu me apaixonava por tudo o que ele fazia.
Meu pai era mecânico e sua oficina fica do lado da nossa casa, então ele estava lá, disponível o dia todo, ainda que nem sempre livre para me dar atenção. Sempre que podia ele me mostrava os motores dos carros em funcionamento, falava de velas e pistões, de como funcionava um motor a explosão, por onde passava o combustível, que precisava de uma faisca acionada pela partida elétrica do carro... enfim, minhas melhores lembranças de infância estão dentro daquela oficina. Lembro que eu pedia dinheiro para ele o dia inteiro pra comprar doce. E ele dava. Uma vez ele me deu 50 centavos de alguma moeda que não lembro qual é, mas era muito dinheiro. Era tanto dinheiro que eu nem sabia o que fazer com ele. Acho que comprei aquele chiclete que é bem fininho e compridinho e tem sabor azedinho. E devo ter comprado outras coisas também.
Como meu pai trabalhava em casa, eu estava sempre em volta dele. Toda vez que ele saía para experimentar um carro e saber se ficou bom do defeito, ele me levava. Eu adorava. Largava o que fosse pra sair com ele. Uma vez ele foi testar o freio de um caminhão no morro do Solar Club, que é um senhor morro, eu diria que está mais para montanha. Ele levava o caminhão lá pra cima e descia com toda a velocidade, pisando no freio só no final. Fez isso várias vezes comigo junto. Hoje quando lembro disso penso que ele não tinha juízo algum e morro de medo. Ele só me pedia para me segurar, e eu obedecia. Não aconteceu nada demais, afinal cá estou contando esta historia. Meu pai era doido, não tinha medo de nada, por isso viveu intensamente. Falei pro Dri que é uma pena ele ter se despedido da gente. Tenho certeza de que se estivesse aqui a Luiza e a Maria Clara, minha sobrinha de um ano, também ganhariam um balanço de corda com banquinho de madeira dentro da oficina do vovô.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Tempo tempo tempo

Tempo, tempo, tempo. Tempo de amar, tempo de sonhar, tempo de viver. Tempo de sorrir, tempo de chorar, tempo de se magoar. Tempo de perdoar. Tempo de repetir, tempo de inovar, tempo de dar um tempo. Tempo pra tudo, tempo pra nada, sempre o tempo. O tempo.
Minha professora de antropologia dizia em suas aulas que o tempo não existe. Dizia ela que o tempo é o movimento do espaço. Na época, há mais de dez anos, fez algum sentido, mas hoje acordei achando a coisa mais doida que já ouvi: "o tempo não existe!" Ilusão medida no relógio, não vai dar tempo. Ilusão. E o tempo passa, o tempo não volta, perdeu o tempo, perdeu-se no tempo. E continua a ilusão.
Nossas certezas continuam no ano que vem. E nossos sonhos. De fazer um tempo diferente deste tempo, não é assim? "O tempo cura tudo!"
É engraçado, Natal é um tempo triste. Mas deveria ser um tempo feliz pois Cristo nasceu para nos salvar. Tempo de reflexão, de fazer exame de consciência, de lembrar e pensar no que já foi, fazer um balanço. Tempo de renovar a esperança. Esperança. Nosso sopro de vida que faz tudo ter sentido e valer a pena. Tempo de ter fé. Nosso sopro de vida que nos impulsiona a caminhar sem ver para onde nem como, mas certos da chegada.
Tempo de reunir tudo o que foi com tudo o que se deseja que seja. E contamos com o tempo, fazemos o nosso tempo. Ele não existe sozinho, nós o construimos dentro do nosso tempo. E é só.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Homenagem ao meu marido

Homem bom, honesto. Meu único namorado que caiu nas graças de meu pai, ele sabia das coisas. Toda menina de Minas sonha em viver um grande amor. Toda menina sonha em viver um grande amor. Eu sonhava com um amor de filme, daqueles que a gente conhece, se apaixona, se separa e se reencontra no final, para o Happy End. "Cuidado com o que deseja".
Adriano. Adrianinho. Meninão, moleque, brinca como criança. Inteligente, adorável, sensível, estressadinho, mau humorado de um jeito delicioso. Capaz de lutar, capaz de buscar. Ansioso. Sofre do mau do bicho carpinteiro. Aventureiro. Fiel. Companheiro. Leal. Capaz de buscar a felicidade. Capaz de abrir mão de seus sonhos para nos amparar. Marido cuidadoso. Pai apaixonado. Minha força, minha segurança, meu chão, meu sol. Meu tudo. Minha alegria. Meu anjinho. Meu grande amor. Meu amparo nas horas duras, minha leveza. Ao seu lado tudo é melhor, tudo é mais fácil, tudo é colorido. Longe de você o dia fica nublado. Ao seu lado nunca falta luz. Ao seu lado tudo vale a pena. Ao seu lado somos uma família. A família perfeita e feliz. Amo muito você! Obrigada por existir. Obrigada por me escolher. Também te escolho todos os dias, quero ficar com você para sempre, para todo o sempre. Deus abençõe nossa familia.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Estou cansada de tanto luto! É tanto caixão e cemitério pra carregar que anda faltando espaço pra alegria. Aja resiliência!

Segunda chance

Existem coisas que a gente não entende. Existem coisas que a gente não aceita. Existem coisas que, sinto muito, não vejo muita validade. Minha amiga Lu colocou um video no blog dela que mostra mulheres em várias situações dando um passo atrás antes de se lançar adiante. A gente faz tanta besteira na vida e às vezes o desafio é tão maior do que parece que a gente dá conta, que optamos por sentar e chorar. Ou desespero, ou revolta. Mas dentro de mim brota uma força. Hoje lembrei-me do dia em que não passei no vestibular da FUVEST. Perdi o chão, meu mundo caiu, tudo ficou preto. De repente, já cansada de chorar, ela brotou: a força. Estava na praia, já devia ser quase madrugada. Levantei-me, lavei o rosto e comecei a arrumar a mala, como se fosse sair dali e começar a estudar naquela hora mesmo pro próximo vestibular, no fim do mesmo ano. No dia seguinte eu passei na VUNESP. De repente todo àquele sentimento me voltou com tanta nitidez. Não consegui ficar feliz por ter enfim passado no vestibular, ainda estava convivendo com a dor do que não foi. Só me dei conta quando meus amigos vieram me cumprimentar. Ainda assim levei uns cinco anos da minha vida pra perceber a validade daquilo tudo e hoje vejo que foi melhor assim, senão não teria conseguido. Dizem que se Deus fecha uma porta, logo abre uma janela. É duro de ficar contente com a janela quando a porta que se fechou era o seu sonho, mas acredito que sempre se tem um proposito. Meu pai, perto de morrer conseguiu enxergar o retorno de todo o investimento que ele fez na minha formação, já escrevi sobre isso. E quando me lembro destas passagens da minha vida sempre enxergo que para tudo se tem uma segunda chance. Questiono: por que não podemos ficar com a primeira? Por que não podemos ter a primeira opção? Como Psicologa eu diria que é porque escolhemos errado, direcionamos d eamneira inadequada o nosso olhar. Quando estava na faculdade eu tinha mania de me interessar sempre pelo homem errado. Minha terapeuta dizia que essa era uma forma que eu mesma inventava de impossibilitar o sucesso. De fato, ao me dar conta disso casei-me com um homem bem diferente daqueles pelos quais costumava me interessar. E foi a escolha certa. E eu a refaço todos os dias.
Segunda chance é oportunidade de fazer diferente. E acertar. Às vezes a janela é ainda maior e deixa entrar muito mais luz e alegria que qualquer portão gigante.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Amanhã? Quem sabe...

Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;

o que só agora vejo que deveria ter feito,

o que só agora claramente vejo que deveria ter sido

isto é que é morto para além de todos os Deuses...

Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.

Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci

de sonhar?

Esses, sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.

Enterro-os no meu coração para sempre, para todo o tempo,

Para todos os universos...(Álvares de Campos, Poesias, “Na noite

terrível...”)

Os sonhos por haver... Hoje ao voltar de uma palestra passei ao lado da árvore do Natal do Parque do Ibirapuera e pensei que gostaria de levar novamente meu pai pra ver aquela beleza de árvore e para curtir a fonte das águas que dançam. Ano passado, quando viemos de Cambuí para a cirurgia, passamos ao lado da árvore antes de chegar em casa, para que ele e minha mãe contemplassem aquela imensa árvore de Natal, ainda que só de dentro do carro. Árvore que lá pros lados de Minas não é comum. Lembrei-me deste poema e voltou-me à consciência tudo o que não fiz com meu pai. Não o levei para ver a fonte, não o levei para conhecer o prédio do Banespa e ver a cidade de cima. Não o levei ao relógio do Conjunto Nacional, não fomos à Fortaleza, não andamos de avião juntos. Nem ao Rio conhecer o Cristo Redentor deu tempo. Algumas destas coisas estavam ao alcance das mãos, mas ele já sem tanta energia, não quis ir. Sua auto-estima ficava abalada por estar doente. Como ele sempre acreditou que estava acima do bem e do mal no quesito boa saúde, estar doente para ele era meio que motivo de vergonha. Esse era o grande defeito do Sr. Anivio: o orgulho. Penso que ele deixou de viver algumas emoções no fim de sua vida por sentir-se envergonhado com sua situação e eu, Psicóloga, filha zelosa e apaixonada, nada pude fazer para mudar sua percepção daquele momento. Se bem que não sei se pra ele fez falta como fez pra mim. Acho que não. Eu é que não vivi estas alegrias.
Na minha profissão todos os dias sou confrontada com minha grande impotência: a vontade do outro. E é assim na vida de maneira geral. Meu pai sentia dor, mas só contava quando a mesma já tinha passado, o que dificultava muito o tratamento. Ele falava que os médicos fariam exames e estes revelariam qualquer coisa. O que ele se recusava a entender é que os exames eram pedidos baseados em suas queixas e só ele era capaz de saber exatamente o que sentia, mais ninguém, nem tecnologia alguma. Aprendi com minha amiga médica que quanto maior for o detalhamento de um incômodo, mais condições damos ao médico de nos ajudar. Desconfio que meu pai já andava se sentindo mal e nada disse até que passou mal. Ele ficava repetindo o tempo todo que "agora acabou tudo mesmo", referindo-se à seus incômodos, parecia que estava querendo convencer a si mesmo. E esse jeito teimoso dele de ser nos privou de uma centena de coisas prazerosas que faríamos juntos. Às vezes penso que talvez pudesse ter feito mais, que pudesse arrancar dele mais informações que me fizessem correr, mas logo me consolo em pensar que seus últimos dias ele passou despedindo-se dos amigos e fazendo o que gostava e considero isso um milagre. Ele poderia ter ficado dias a fio num hospital que ele odiava. Poderia ter feito outra cirurgia que não o salvaria. Mas não. Ele viveu. Apenas sinto pena dele ter partido porque ele amava tanto a vida, amava tanto viver.
Nenhum destes lugares que citei lá em cima serão para mim os mesmos lugares. Antes eles eram aqueles que eu queria levá-lo. Agora são aqueles que não o levei. E o não ter feito é que sempre vai pesar. A vida passa num sopro, não dá tempo de refazer, de reviver. Ou é agora ou pode não ser mais. Aí só resta a lembrança do que não foi. Tinham umas frases que a gente escrevia no caderno das amigas quando adolescentes: "prefiro a dor da derrota do que vergonha de não ter lutado" e "prefiro me arrepender do que fiz do que daquilo que não fiz". Hoje é que é a hora. Amanhã? Quem sabe...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Instantes

Sonhei com meu pai esta noite. Não consigo lembrar direito, mas ele estava partindo. Era uma cena bem diferente da que vivi de fato, mas no sonho estava me despedindo. Acho que tenho me despedido todos os dias, nos textos escritos, nas histórias contadas, nas lembranças. Pela manhã falei com minha mãe e ela disse que eles descobriram que meu pai tinha um valor de pis para receber ainda da década de 50, pode? Não sei se isso é bem verdade, a parte da década, mas que o dinheiro existem aí isso sim, só não está muito fácil receber. Meu pai era trabalhador autônomo, não contribuía com previdência alguma até porque acreditava que nunca se aposentaria, o que de fato aconteceu, trabalhou quase que até o dia de sua morte. Parou por uns tempos para se tratar, mas retomou tão logo teve disposição para isso. Engraçado é que eu imagino um futuro igual pra mim: nunca me aposentar. Ele viveu como se nunca fosse morrer, como se fosse eterno, mas se esqueceu de observar como a vida evolui de fato. Não se preveniu, não tomou precauções e agora aparecem estas surpresas. Da maneira maluca dele de ser ele deixou várias heranças, inclusive as que amparam a minha mãe, o mais impressionante é que ele não planejou nada disso. Doces surpresas, até nisso ele foi formidável sem saber.
Estava relendo um dos posts e fiquei me lembrando o quanto ele era expressivo. De olhar você já sabia se ele estava feliz ou triste, preocupado, nervoso. A expressão de seu rosto era de uma autenticidade única, ele não disfarçava. Até fazia a gente passar vergonha às vezes. Algumas imagens ficam voltando à minha consciência, como o último olhar que ele me lançou antes de morrer. Ele estava deitado numa maca no corredor do pronto socorro e eu ao lado tentando ouvir o que diziam os médicos. Contei a ele algumas coisas que ouvi e seu rosto se iluminou de esperança. Não sei porque hoje fiquei com a impressão de que aquele olhar perdido, distante já era um olhar de despedida, não de mim, mas despedida da vida. De repente me pareceu que ele sabia que seu fim estava próximo, era uma questão de horas. Então quando eu contei o que eles fariam com ele e parece que o fio de vida se fortaleceu e ele sorriu, levou as mãos uma de encontro à outra, como quem faz uma prece ou agradece por uma graça. Meus últimos momentos com ele. Aí a médica veio me dizer o que fariam de fato e eu me distraí, por um segundo tirei os olhos dele e quando retornei meu olhar eles o estavam levando para dentro da sala de emergência. Tive um impulso de sair correndo para abraçá-lo, mas me contive, a médica falava comigo nesta hora. Só tive tempo de dizer a ele que o estavam levando, mas que eu estaria ali esperando por ele. E ele me olhava, com a cabeça levantada, como quem não quer se despedir. Sabe aquela cena da gente ou de alguém no ônibus torcendo o pescoço até perder de vista a quem se ama? Foi mais ou menos assim. Toda vez que essa imagem me volta, tento afastá-la. Foi a última vez que o vi e que ele me olhou e nem a dor de tê-lo perdido dói tanto quanto a lembrança daquele olhar. Fico me perguntando porque não saí correndo pra abraçá-lo, o que será que ele pensou naquela hora, com eu ia saber que seria a última vez? Depois disso só o vi entubado e ele já não reagiu mais à minha presença. Fico pensando que se ele pudesse prever seu fim, teria estado mais atento à sua saúde e fico brava por observar à minha volta o quanto as pessoas vivem de maneira distraída, como se fossem imortais e inatingíveis. Meu maior aprendizado nisso tudo é que só se vive uma vez, o que dizem à respeito, até que se prove, são apenas especulações, então não dá pra viver uma vida de rascunhos, não sei se tem outra para passar a limpo. Ainda perco muito tempo com bobagens, mas estou aprendendo a dar valor ao que realmente importa nesta vida. Não tenho certeza de que vou conseguir, mas tenho me esforçado para viver o mais intensamente possível, para que não sobre rascunhos nem arrependimentos. Vou deixar aqui um poema, Instantes, que diziam ser do Jorge Luís Borges, mas que depois descobriram que não é. Seja de quem for, quem escreveu isso se deu conta de que certeza mesmo só temos desta vida aqui.


"Se eu pudesse novamente viver a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.

Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério. Seria menos higiênico. Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios. Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto de sua vida; claro que tive momentos de alegria. Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente de ter bons momentos.
Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos; não percam o agora. Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas. Se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono. Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente. Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo"

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

E a vida segue...

Quanta coisa boa a gente tem na vida, ! Dias de sol, barulho de crianças brincando, cachorro abanando o rabo, pedindo carinho...
O que mais me deixa indignada na historia da doença do meu pai é que eu sempre soube que seria assim, me dizia minha intuição. Meu pai tinha um jeitão arrogante, vivia se gabando de que gozava de boa saúde e não precisava de médico. Eu sempre desconfiei de que em algum momento alguma coisa o derrubaria e seria assim, algo grave, porque como ele achava que não ficava doente, também não conhecia exames preventivos. Apenas na minha imaginação seria mais sofrido e duraria mais tempo. Então sofri tempo demais por desconfiar disso. Por outro lado, parece que só aproveitamos de fato a vida quando nos damos conta de nossa finitude, não é?
Estou com muitas saudades, parece que já são 10 anos sem ele, mas o tempo tem dado conta de resignificar esta saudade.
Estamos preparando o cantinho da Luiza. É engraçado porque há um ano eu preparei o mesmo quarto pra chegada e conforto dele. Tiramos umas tranqueiras de lá, compramos uma bicama, colchões, lençóis novos, tudo para que ele ficasse bem acomodado se recuperando da cirurgia. E agora cá estamos de novo numa faxina bem mais enérgica, tentando realmente dar fim no maior número de tranqueiras pra que Luiza chegue num castelo e ocupe seu lugar de princesa. O mesmo espaço. Eu não gosto de ficar relacionando uma coisa com a outra, porque é peso demais pra quem chega, mas as coincidências são muitas. Deus chamou de volta meu pai e me mandou Luiza. E ela cresce, e ela mexe, tá muito sapeca, é o dia inteiro fazendo algazarra na minha barriga. Às vezes interage, às vezes faz doce, é uma pessoinha que já tem vontade própria. Quanta riqueza, meu Deus, tem essa vida.
E meu marido, lindo, que eu amo e que me ama também. Tem coisa melhor nesta vida que família? Meu marido é quem me dá apoio, me sustenta, me segura quando quero cair, me puxa quando quero parar, me devolve a esperança quando perco minha fé. Acho que tudo isso foi o que mais desejei ter na vida: um amor, um marido apaixonado, uma filhinha sapeca e um cachorro espevitado. Para dizer a verdade o cachorro veio de troco, mas já não consigo pensar na vida sem ele, apesar de muitas vezes querer eliminá-lo de minhas vistas.

Obrigada paizinho, boa parte de toda essa riqueza foi o senhor que me ensinou a valorizar. Nas inúmeras vezes que fomos visitar suas irmãs e sua madrinha, nas inúmeras vezes que o senhor me levou à força pra visitar a minha madrinha e brigou comigo quando eu, adolescente, lutava para me livrar de tudo isso. Obrigada paizinho por me receber nesta vida e me dar uma família grande e unida, que é o exemplo que hoje sigo pra construir a minha família. Obrigada por acolher o meu marido como a um filho e por abençoar meu casamento. Obrigada por sorrir pra minha filhinha antes de partir. Obrigada por me contar o quanto, à sua maneira meio esquisita, o senhor amou a minha mãe. Tudo isso hoje faz de mim o que sou e o que desejo me tornar, uma pessoa todo dia melhor. Que Deus o receba de volta e quem sabe, se isso for possível, dia destes a gente se encontra, quem sabe... por enquanto olho o céu e vejo a estrelinha lá brilhando, aquela que faço de contas que é o senhor fazendo diferença aí em cima e que vou ensinar a Luiza a admirar também. Gostaria de poder te pedir assim: volta logo! se puder, venha me ver nos meus sonhos, estou com muitas saudades, mas estou bem, vivendo feliz cada minuto da espera de nossa pequenininha que Deus enviou para que o senhor pudesse partir...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Hoje meu pai virou nome de rua.

Hoje, 04 de dezembro, fez um ano que meu pai fez a cirurgia de retirada do tumor. Lembrei-me ontem, lembrei-me hoje de madrugadinha quando acordei, no horário de sempre, para ir ao banheiro, como boa gestante que sou. Lembrei que um ano atrás devo ter acordado no mesmo horário para ir ao hospital esperar com ele pelo inicio da cirurgia. Meu pai, com 75 anos, tinha direito a ter acompanhante, garantido pelo estatuto do idoso. Ele foi atendido no Hospital São Paulo, que pertence à UNIFESP, pelo SUS. A enfermeira nos orientou a guardar energia para quando ele precisasse de ajuda, então ele ficou sozinho nos dois dias de pré-operatório. Acordei, acordamos, eu e minha mãe, e antes das seis da manhã já estávamos chegando lá. Ele subiu pro centro cirúrgico perto das oito. Minha irmã chegou de Cambuí, não lembro se ela o viu. Depois de um tempinho trouxe minha mãe pra casa, ela estava com uma gripe, e retornei ao hospital para esperar lá. A enfermeira disse que não adiantava muito a gente ficar lá porque as noticias só vem quando o procedimento termina, como se a gente conseguisse arredar o pé de lá, . E assim foi. Hoje pela manhã rememorei cada um destes momentos ate adormecer de novo, ainda era muito cedo. Acordei de novo e pensei o quanto meu comemoraria este dia se tivesse chegado até aqui. O tempo era expressão de vitoria e ele desejou tanto comemorar este dia: um ano sem câncer. Passei o dia mexida. Há uma ano atrás tive muito medo de perdê-lo, tivemos muito medo, mas também tínhamos muita esperança. E hoje ele não está mais aqui, nem bom, nem doente. Passei o dia mexida. Mais para o fim da tarde conversei sobre isso com meu amigo Nicolino e ele me disse que em novembro fez 34 anos que seu pai faleceu e neste tempo todo não teve um único dia que ele não se lembrasse do pai. Sinto que será assim todos os dias até que de alguma forma essa dor fique assim meio desbotada, mas passar...
Lá pela hora do almoço eu estava atendendo e ligaram da casa da minha mãe. Não pude retornar e acabei esquecendo depois. Quando cheguei em casa tinham ligado aqui também, aí liguei pra saber e fui presenteada com noticia mais bela: meu pai vai virar nome de rua. Não é lindo isso. E hoje, justo hoje. É o nosso presente. Agora além dos nossos corações ele vai estar vivo as olhos de todos que passaram por ali, nossa casa vai ficar na esquina da Rua Lino Lopes da Conceição com Rua Anívio Rodrigues Gonçalves. Daqui há muitos anos, quando as crianças estiverem estudando a historia da cidade vão saber que o nome daquela rua é de um cidadão honrado que viveu para fazer amigos e que muito bem fez com seu sorriso, seu amor e sua dedicação a todos. Quando Luiza puder entender eu poderei mostrar a ela a plaquinha na esquina e dizer assim:"tá vendo aquela placa ali? Tem o nome do vovô." aí quando ela me perguntar porque eu vou poder dizer:" porque ele era um homem muito importante!" Acho que ela vai gostar e vai achar i]legal ter tido um avô que virou nome de rua.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Nós e os bichos.

Continuando. Meu pai promoveu meu namorado a noivo e assim ficou sendo até que me casei dois anos depois. Quando voltamos ao Brasil, fomos morar juntos, quer dizer, mais ou menos, o Dri alugou um apê e eu deixei umas coisas lá. Meu pai nunca tocou no assunto. Nos casamos e começaram as perguntas sobre como era nossa casa. Depois de uns meses de casamento nos mudamos pra um lugar maior e logo meu pai veio nos visitar, veio dar um passeio por esta terra de gigantes.. Passeio escolhido por ele: o zoológico. Essa era uma das coisas adoradas por ele, bichos. Eu nunca tinha ido ao zoológico daqui, só tinha ido ao de Bauru que tem pinguim e fui várias vezes. Acho que tinha uma criança dentro dele que nunca cresceu, porque ele adorava zoológico e circo. Chegamos no zoo e eu estava ansiosíssima pra ver a girafa, eu nunca tinha visto uma pessoalmente! Logo na entrada, eu muito aflita, de repente paro bem em frente a ela: a Dona Girafa, linda, imensa, era muito melhor do que eu imaginava, fiquei fascinada, me senti criança de novo sendo levada pela primeira vez no zoológico pelo meu pai.
Quando criança ele sempre me levava pra passear. Costumávamos frequentar as casas dos parentes dele que em grande parte ainda moravam na zona rural. Eu adorava. Corria atrás das galinhas, tentava pegar os pintinhos e patinhos, mas as donas mamães dos bichinhos eram bem bravas. Andava pelo meio do pasto entre vacas e cavalos e quando eu ficava com medo,meu pai me carregava no colo. Quando eu tinha uns 7, 8 anos, meu pai me deu meus primeiros bichinhos de estimação: um casal de galinhas garninzé, que é uma galinha que não cresce muito, tipo uma galinha anã. Elas não tinham nome, mas viveram um bom tempo no meu colo como se fossem gato ou cachorro. Elas eram bem ariscas quando chegaram, mas com o tempo foram ficando mansinhas, eu chamava e elas vinham. Não lembro quando tempo durou. Meu pai trouxe outro galo mais bonito que aquele e teve que levar aquele embora, é porque não existem dois galos no mesmo terreiro. E elas foram ficando até o dia em que o galo foi atropelado. Ficamos desesperados, tinha que sacrificar o bichinho, mas ninguém conseguiu. Virei enfermeira, cuidei dele até ficar bom e acabei concordando que o melhor mesmo era ele voltar pra roça, que não tinha tanto perigo. Tempos depois fui visitar meus bichinhos e minha galinha já não se lembrava de mim, mas estava bem, parecia mais feliz lá no terreiro da Tia Iracema, então mesmo triste, fiquei tranquila. Eu costumava adotar todos os gatos que apareciam por lá, mas meu pai nunca permitiu que eles ficassem. De cachorro eu tinha medo. Depois de adulta fui descobrir que meu pai teve um cachorro quando casou-se com minha mãe que era seu companheiro. Era um vira-latas de rua que o acompanhava de manhã quando saía pra trabalhar e o esperava de volta à noite, quando voltava. O bichinho teve um tumor e precisou ser sacrificado. É que naquele tempo Cambuí nem tinha veterinário. Penso que seu sofrimento foi tão intenso por ter de fazer esta escolha que nunca mais quis esse tipo de bicho, o que explicou muita coisa. Até que chegou o Johnny. O Johnny é um Yorkshire que minha irmã comprou pra minha mãe, mas que ela não quis, porque cachorro de raça é muito melindroso. Aí minha irmã resolveu devolver e o bichinho ficou por uma manhã na casa dos meus pais, aguardando ser buscado. Não saiu mais de lá. No começo chorava a noite inteira e escolhia os lugares mais inusitados pra fazer suas necessidades, mas encantava a todos com seu carinho. Aí foi adestrado e os problemas terminaram. De noite ele ia chamar meu pai pra sentar no sofá pra ele deitar ao lado e colocar a cabeça no colo do meu pai, era lindo de se ver. Depois que meu pai partiu ele não deitou no colo de ninguém. Agora eu também tenho um cachorro, o Manchinha, que é um vira-latas de raça, branquinho, lindo, mas uma pimenta. Nem sei o que vou fazer quando a Luiza nascer, falta espaço pra tanta gente aqui em casa, mas na hora a gente vê.
Quando ia circo pra Cambuí, lá íamos nós ver os leões e os macacos, mas variedade mesmo só fui ver no zoo em Bauru. Queria ter levado meu pai lá, mas não deu. Embora ele tenha ido algumas vezes me buscar, me levar, ele tinha uma pressa de voltar pra casa. No dia da girafa aqui em São Paulo também não foi diferente. Fomos ao zoo, depois pro shopping, coitadinho, quase matei meu pai de fome, é porque a gente tá acostumado a ficar o dia inteiro sem comer, mas pessoa da idade dele não pode passar muito do horário. Depois fomos ver os aviões pousando e decolando do estacionamento do shopping, mas a vista de lá não era privilegiada como a daqui de casa. Aí ele quis voltar pra casa.
A girafinha da foto foi o primeiro presente que nós, papai e mamãe, compramos pra Luiza, foi uma semana antes de sabermos que ela é ela. Vimos numa loja e nos encantamos, meu pai já tinha partido, mas estou certa de que ele também se encantaria por bicho tão simpático. Esse encantamento por estas pequenas coisas que meu pai me ensinou a ter é que preenchem de um sentido especial toda a minha existência e torna tudo à minha volta tão belo. Já falei em outro post que nenhum passarinho me passa despercebido e nem bicho algum. Meu pai se encantava até pelas lagartixas que, diga-se de passagem, tenho pavor, não acho nada encantador, mas ele achava, todas criaturas de Deus que merecem ser respeitadas acima de tudo. Fala a verdade, meu era ou não era um homem muito especial? E girafa de estimação só assim mesmo, de pelúcia.

domingo, 30 de novembro de 2008

Carros, aviões e sonhos.

Meu pai consertava carros, mas ele gostava mesmo era de avião. Hoje teve um evento aqui em São Paulo, Renault Road Show, com a demonstração de um carro de formula 1 pilotado pelo Nelsinho Piquet. Eu adoro formula 1, desde pequena. Quando acordei hoje meu cansaço era maior do que a minha vontade de assistir ao show. Lá pelo meio dia vi pela TV e fiquei com uma pontinha de arrependimento de não ter ido, lembrei-me do meu pai. Todo dia lembro, mas domingos são sempre mais vazios, com mais espaço pra saudade. Lembrei-me de sua paixão por aviões e do dia em que a esquadrilha da fumaça foi se apresentar em Cambuí. Que coisa linda! Nunca meus olhos presenciaram tanta beleza. Ele, claro, foi assistir lá do alto do morro, no meio do mato. Sozinho, porque ele tinha um quê de cientista, físico talvez, que mantinha uma relação calorosa consigo mesmo, muitas vezes ele mesmo se bastava. Eu acho isso formidável, pois todos nós temos essa mania de só sermos felizes se temos outros em nossa vida, nunca nos bastamos. A manobra da esquadrilha que mais me impressionou foi aquela em que o avião cai em queda livre, ai que medo!, ai que emoção! Depois da apresentação foi um dia inteiro só falando nisso, relembrando cada pedacinho daquela performance fantástica.
Quando eu ainda nem era nascida meu pai foi pra Bahia, Salvador. Meus irmãos eram pequenos. Ele pegou o ônibus em Cambuí, foi até São Paulo, aeroporto de Congonhas, comprou uma passagem pra Salvador e se mandou. Audácia pura! Engraçado ele escolher Salvador, que é uma cidade histórica, ele adorava modernidade e detestava velharia. Desconfio que ele queria mesmo era andar de avião, Salvador deve ter sido um destino aleatório, não pensei em perguntar, agora já foi, fiquei sem saber. Ele passou a vida falando desta viagem, da emoção de ver a terra de cima, do alto, quanto emoção e orgulho continham nas sua palavras, acho que já nasci encantada por aviões. Partida: 21/11/73. Chegada 25/11/73. Eu nasci em 76. Minha mãe é que não gostou muito desta história. Ele, marido safado, só contou quando ligou de Salvador dizendo que estava lá.
Quando me formei meu namorado, hoje marido, foi trabalhar num país distante. Depois de 2 meses fora ele me enviou uma passagem para me encontrar com ele. Quando fui contar pro meu pai, morrendo de medo dele me proibir de viajar, ele fez menção de dizer não, mas eu, muito esperta na arte de convencer meu pai, não dei tempo dele falar e já contei pro meu irmão, que disse assim: "ele te mandou uma passagem? pergunta se não tem uma pra mim também. " Pronto, pai desarmado, já gostou da ideia, apesar do medo que eu sei que ele sentiu de me perder. Um mês de preparativos, era segredo até quase a véspera da viagem. Tira passaporte, compra mala. Minha mãe é que não gostou muito de novo, "e se o avião cair, e se você se perder num país estranho, o que os vizinhos vão falar da minha filha viajar pra encontrar o namorado?" Meu pai resolveu de outra forma: promoveu meu namorado a noivo, assim dá mais cara de compromisso e não parece que ele deixou a filha se perder lá pelas Europas. Dia da viagem. Era tempo de vaca louca então quis comer um bifinho antes de partir, o que quase me custou a viagem. Dez minutos depois de sair de Cambuí o carro parou na estrada, que estava em reforma. Eu já havia me certificado que as interrupções no tráfego duravam cerca de 20 minutos, mas... não era a obra, era um acidente. Eu prestes a realizar meu maior sonho de consumo por pouco não fico presa em Camanducaia, cidade vizinha, era muito humilhante, nem sei dizer pra quantos santos fiz promessa naquele dia. Naquele tempo eu ainda fazia promessa, que não cumpria. Hoje penso um pouco diferente. Meu pai ficou irado, ficou repetindo que por ele teria saído logo cedo. Tínhamos tempo, mas acidente pode ser resolvido em meia hora ou em dia inteiro. Teve uma vez que eu dormi na estrada porque tombou um caminhão de gás com risco de explosão. Uma hora e pouco depois, transito liberado, um carro por vez e o sonho de novo real. Chegamos ao aeroporto com folga ainda, deu pra fazer o check in com 3 horas de antecedência, como recomendado, comprar dólares, matar o tempo, olhar os aviões. Foi ele e o Tião me levar. O Tião era o melhor amigo dele, nosso vizinho de frente. Meu pai estava com a carteira de motorista vencida, sei lá, desde quando esteve na Bahia? O Tião foi dirigindo. Fico imaginando quanto ele deveria estar orgulho e ao mesmo tempo com o coração partido da menininha dele voar pra tão longe. E vamos nóis. Era tudo tão lindo, tão mágico, ai ai. Um avião tão grande! E o povo falando todo tipo de língua que eu não entendia, quase não consigo jantar. Doze horas voando e uma imagem que nunca vou esquecer: a terra vista de cima tal qual meu pai havia me contado, linda!
Agua e terra, um mapa que hoje a gente vê pelo google earth, mas que em 2001 ainda não estava nesse requinte de detalhes, só ao vivo mesmo. Pousei. As turbinas do bichão eram tão grandes que eu tinha que coçar meus olhos pra ter certeza de que eram daquele jeito mesmo. E aquele povo falando inglês, ai que aflição. E o meu guia de viagem nunca me ajudava quando de fato eu precisava. Muda de terminal, espera, espera, que vontade de ligar pra casa! E como usa o telefone nesta terra? Outro vôo, enfim no destino, o Dri lindo me esperando e a notícia pra casa de que tudo correu bem. Dois meses e a volta, ainda mais difícil que a ida. O mundo atravessava grave crise desencadeada pelo ataque terrorista às torres gêmeas. Oito horas esperando em conexão, de volta pra casa. Saindo do portão de desembarque ele estava lá, sem cor, transparente de preocupação. Entre o avião pousar e você sair leva um tempo, tem que pegar mala, enfim. Quando me viu, ele ressuscitou! Criou vida de novo, seu rosto se iluminou, ganhou de volta aquela cor linda que ele tinha, nunca vou me esquecer. Eram muitos vôos chegando ao mesmo tempo e muita gente saindo por aquele portão. Ele me contou que foi ficando desesperado porque eu nunca que aparecia, e se aconteceu alguma coisa? Graças a Deus eu cheguei e corri a abraçá-lo. Depois fomos tomar um café expresso. O pneu furou, ninguém achava o macaco pra trocar, o carro estacionado ao lado emprestou o dele, e bora pra casa, com direito a bife à milanesa feito pela mamãe. Que aventura! enquanto estava fora eu escrevia e-mails pro meu irmão contando tudo o que estava vivendo. E-mails que ele imprimia e lia pra todo mundo, pelos meus olhos meu pai foi à Europa também. Até ele morrer, ficava repetindo as historias como se ele mesmo as tivesse vivido, lembrava de detalhes que eu logo esqueci e seus olhos brilhavam quando narrava nossas aventuras, minhas e do Dri, naquelas terras distantes. Quanta riqueza, quanta luz ele possua dentro dele, nunca conheci ninguém assim, tão formidável, tão apaixonado, tão deslumbrante. Que honra meu Deus ter sido escolhida pra ser filha de um homem assim!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Por isso que o senhor faz tanta falta!!!!!!!!
Vim morar bem próximo do aeroporto de Congonhas e da minha janela dá pra ver os aviões decolando e pousando. São tantos... enquanto ele esteve aqui, passou algumas horas encantado pela sua paixão e pra mim foi uma honra ter proporcionado isso a ele, uma coincidência divina, não planejei exatamente morar aqui, aconteceu. Minha única frustração é que combinamos uma centena de vezes de viajar de avião e nunca sobrou dinheiro. Aí ele ficou doente. Eu estava planejando levá-lo com minha mãe pro Rio de Janeiro, pra conhecer o Cristo Redentor, pensei em irmos em agosto, mas Deus o chamou de volta antes, não era pra ser... que pena! Mas sei que muito a maneira dele, peculiar como só ele sabia ser, ele viajou o mundo e andou de avião uns cem milhões de vezes em sua imaginação...

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Contagem Progressiva....

Dia 23 completaram 4 meses desde sua partida. Lembro-me de cada instante no hospital, da sua chegada até o momento de voltar pra casa. Não consigo precisar as horas, minhas lembranças, embora vivas, se confundem no quesito tempo. Fui te visitar na última sexta-feira, dia 21. Te visitei na sua nova casa, te visitei na sua velha casa e no seu local preferido. Não me sentei no seu banco porque meu irmão estava lá, até brinquei com ele que ele herdou aquele banco velho e aconchegante. Aliás, a cada dia ele está cada vez mais parecido com o senhor. A careca, as manias, o jeito. Ele é realmente seu filho e herdeiro de tudo o que foi em vida e de tudo o que construiu. Até mandei fazer uma placa para colocar no seu túmulo, achei tudo muito feio por lá e sei que o senhor não era tão desleixado assim.
Algumas coisinhas de família andam nos aborrecendo, mas seu descendente está lá para garantir que a família permaneça unida, coesa, como sempre foi à sua volta. Mas tem uma coisa que não adianta, não entra na cabeça de ninguém lá em casa, principalmente na minha: como assim o senhor não está mais aqui, como assim não vamos -lo nem abraça-lo mais, como assim?
A Luiza está grandona e sapeca, acho que vai ser um bebezão de quase 4 quilos quando nascer, minha mãe também acha isso, quem sabe? A Maria Clara está uma boneca, comprida, sapeca também e andando. É manhosa como essa tia aqui e eu acho que é porque ela é o xodó do seu herdeiro, assim como eu era o seu xodó. Minha mãe sente muito a sua falta, mas está tocando a vida, o senhor sabe que ela é osso duro de roer. Minha irmã mais velha foi morar com ela, o que foi muito conflituoso no começo, mas já a situação já está acalmando de novo. Foi muita mudança de uma vez, não sei pra que isso. Parece que é uma tentativa desesperada de fazer apagar a dor que dói demais, como se adiantasse. Minha outra irmã é que parece não estar contente de como as coisas ficaram, mas o mais importante é que, com todas as neuroses que nossa família tem, continuamos todos juntos e nos amando muito, como o senhor nos ensinou. É difícil às vezes, como sempre foi, mas não o suficiente para nos fazer desistir de passarmos juntos a virada do ano, como tem sido todo ano nem me lembro desde quando, e este ano não será diferente. E o senhor, como está sua nova vida? Estamos com saudades e desejando te encontrar dia desses, quem sabe... mande noticias através de nossos sonhos se puder...

Você conhece o Amigo Deus?

Há duas noites sonhei que o mundo tinha acabado. Estava meio que dentro de uma piscina muito grande, mas vazia, com algumas pessoas estranhas à minha volta. Estava sozinha, sem meu marido, sem minha filhinha, sem as pessoas que amo. Eu havia sido deixada para trás, tinha ficado sozinha, completamente sozinha. Fiquei desesperada, acreditando que nunca mais teria ao meu lado as pessoas que amo. Olhei para o céu e pedi a Deus que me levasse também, que não me deixasse aqui. Acordei, eram 03:45h. Para meu conforto e alívio minha pequena já estava acordada e pulando dentro de mim e isso me fez ver que não passou de um sonho ruim, mas que passou. Enxergo os momentos de desespero como falta de fé, falta de fé em Deus, fé Naquele que tudo vê e tudo pode. Ainda assim tenho certa dificuldade em entregar completamente meu caminho a Ele e deixar que Ele me conduza. Tenho o mal hábito de achar que posso estar no controle de minha vida, mas todo os dias eu e todos nós nos deparamos com coisas que não controlamos, que não podemos sequer opinar ou intervir. Ou seja, não podemos grandes coisas mesmo. Mas tem uma coisa que a gente pode escolher, para isso Deus nos deixou livres: podemos escolher que caminho seguir, se vamos ser bons ou maus, se seremos tementes a Ele ou se vamos esquecê-Lo. O mais impressionante é que, quando tudo parece negro, Ele sempre acende a luzinha para dizer que está aqui, ao meu lado. Seja um PowerPoint, seja o contato de um amigo, seja uma ideia maluca que de repente brota em meus pensamentos, ou a presença da Luiza naquele momento de desespero e falta de ar que quem já teve um pesadelo conhece bem.
Alguém conhece o valor de uma amizade? Amigo é alguém que a gente escolhe pra vida da gente, nada nos obriga. Mas é importante que a gente seja escolhido também, não há relação possível em via de mão única. E Deus nos escolhe todos os dias, basta escolhê-lo também. Ocorre-me que todos os dias vivemos inúmeros encontros, pessoas de todos os tipos cruzam nossos caminhos, umas mais confiáveis, outras nem tanto, e alguns anjos também, que de maneira silenciosa nos protegem sem que percebamos. Eu costumava dizer que família a gente não escolhe, a gente nasce, e amigo, o contrário, então é mais que família muitas vezes. Mas de repente me salta os olhos que de fato não escolhi onde nascer, mas fui escolhida. Não por minha mãe ou por meu pai, mas por nosso grande Pai. Fui escolhida para ser filha e irmã e agora fui escolhida para ser mãe e anjo de minha filhinha. Somado a tudo isso, fui escolhida para ser esposa do meu marido e amiga de várias pessoas queridas. E a mim coube escolher fazer parte de tudo isso.
Falei com minha grande amiga Anna esta semana e estava contando a ela a experiência de ser mãe. O quanto faz diferença estar disponível para viver este momento e o quanto tantas mães não valorizam isso. Nós, que somos Psicólogas, convivemos com cada historia, hoje custo acreditar que possam existir almas que não se encantem com este milagre, com esta riqueza. Pois é assim que me sinto, parte de um milagre e abençoada com uma grande fortuna, uma afortunada é o que me tornei assim que a Luiza começou a se formar aqui dentro. Mas de repente me parece que o que acontece é que as pessoas estão vivendo suas vidas de maneira distraída e não se dão conta do momento em que são escolhidas, logo ficam sem escolher fazer parte, sendo arrastadas pelo que está posto.
Tenho medo. Tenho medo de não ser uma boa mãe, de não conseguir honrar com este maravilhoso compromisso que aceitei assumir, mas tenho muito mais medo de ficar distraída e perder os detalhes deste momento, tenho medo de acordar e ver que o meu mundo de fato acabou e eu não vivi o que tinha pra viver.
Não dá pra ver e viver tudo, mas acredito que dá pra dar conta de uma boa parte. Que Deus, nosso Pai misericordioso nos ajude a escolher a melhor forma de estar por aqui e que assim seja.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Todos os caminhos levam à Leonardo Da Vinci


Há um ano e meio vim morar num bairro que tem uma Rua que se chama Leonardo da Vinci. É uma rua muito peculiar. É longa, cortando praticamente todo o bairro, mas não segue um caminho linear. Ela vai fazendo curvas, entrecortando todos os caminhos, como se fosse um rio desbravando a mata. Se você andar em linha reta, ora cruza com o rio, ora se afasta dele. Assim é a Leonardo da Vinci. Como meu bairro não foi planejado, não necessariamente virar sempre à direita vai te levar de volta ao ponto de partida. Se você optar por seguir por esta rua, logo vai ver que ela mudou de nome, quer dizer, você saiu dela, para em seguida retornar a ela. Assim aprendi que todos os caminhos de alguma forma ou cruzam ou terminam na Leonardo da Vinci. Sendo assim, mesmo que alguém se perca, logo se acha. Isso me faz lembrar o movimento de uma gangorra, ora embaixo, ora em cima, sempre em movimento. Saio de uma posição, logo retorno a ela para em seguida sair de novo. Essa brincadeira de sempre chegar à Leonardo me fez parar de ter medo de circular por aqui. Quando me mudei o bairro me assustava um pouco, como tudo o que é novo, e sair de carro por aqui me apavorava, porque é muito fácil se perder, o que eu não sabia é que mais fácil ainda é voltar a se achar. Basta manter a calma e ficar atenta ao que se mostra e logo o caminho se desvenda. Quem já brincou em gangorra sabe que gostoso mesmo é estar em cima, mas se a gente não volta para baixo para pegar impulso, a brincadeira acaba, ninguém fica no alto o tempo todo. Até dá pra ficar se alguém se sacrificar, mas que graça tem? O legal é o movimento.
De repente percebo algumas coincidências, ao passar pela rua, penso na vida. Minha amiga me disse que para fazer o biscoito precisa misturar cada ingrediente antes de ser assado, e só depois do passo-a-passo é que se tem o resultado. Posso imaginar biscoitos amanteigados deliciosos saindo do forno, aquele cheiro - huuuummm! - que delicia, mas dá um trabalho, principalmente na parte que envolve enrolar e cortar um a um. E assar. Nunca cabe todos de uma vez no forno, assim a produção de biscoitos numa cozinha de casa é trabalho pra um dia inteiro, quase como a pamonha. E vai, e mistura, e prova, e mexe, e enrola, e corta, aff, haja paciência. E o biscoito tem o tempo do biscoito, a vida tem o tempo da vida e todos os caminhos nos levam à Leonardo da Vinci, ops, todos os caminhos nos levam aonde temos que chegar, ainda que a gente se perca um pouco no meio do percurso. Basta manter a calma, respirar fundo pra otimizar a capacidade de raciocinar e conseguir traçar as estratégias certas de continuar. E chegar. No tempo do biscoito, no tempo certo, no tempo da vida.
Tive um namorado anos atrás que me aprontou uma daquelas: foi pra uma festa sem me contar. Como eu não o encontrava em lugar nenhum, entrei em desespero achando que podia ter acontecido algo de ruim. Na época, eu deveria ter uns 16, 17 anos, ainda não tinha compreendido a frase que diz que noticia ruim chega rápido. Enfim, no meu desespero, fui à reunião do grupo de jovens do qual participava e pus-me a orar, pedindo a Deus que protegesse o infeliz aonde ele estivesse. Foi quando um dos meus colegas bateu em meu ombro e me disse assim: "não apresse o rio, deixe que ele corra sozinho". Não apresse o rio... Anos mais tarde, já formada e trabalhando fui plantar uma horta com meus pacientes sob a orientação da terapeuta ocupacional e, que coisa maravilhosa, a semente germina quando é a hora dela, não tem água ou adubo que consiga apressar isso. Na mesma época eu plantei uma florzinha num vaso que morreu, mas como eu pretendia plantar de novo, continuei regando o vaso para a terra não endurecer. De repente nasceu uma plantinha que logo mostrou ser um pé de tomate, até deu tomate, tenho até foto, porque aquela semente já estava lá sem ter sido colocada por mim, mas só nasceu quando o tempo dela enfim chegou.
Parece que assim é a vida: de biscoitos, ruas Leonardos da Vinci, rios, gangorras, tomates. E cada coisa a seu tempo, no tempo certo de cada coisa, ainda que nosso desejo deseje um tempo diferente. Por que será que tem dias que a gente custa a acreditar nisso?

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Esperando, esperando...

Alguma coisa está partida dentro de mim. Hoje até a Luiza está mais triste, quietinha. Minha vontade é dormir até tudo passar e este é o problema, tenho dormido muito pouco. Quando estou acordada não tenho tido vontade de fazer muita coisa e não tenho feito, o que faz aumentar minha angustia e deixa difícil o ato de tentar colar o que se quebrou. Não sei se é a morte do meu pai ou o peso de viver, que às vezes pesa um bocado, mas o fato é que meu sentimento é de pesar e eu nem sei bem o por quê. O tempo têm demorado um bocado pra passar e ao mesmo tempo tem voado, o ano já está no fim e, ao mesmo tempo, fiz um cem milhões de coisas e tem mais um cem milhões que não dei conta de fazer. Quando estou deitada ainda faço planos, mas a coragem de colocá-los em prática desaparece tão logo me levanto. Tenho vivido dias vazios de uma longa espera que nunca acaba e não é a espera da chegada do meu bebê. Aliás, esta tem sido a única coisa realmente boa dos meus dias vazios. Quando a Luiza acorda e começa a brincar meu coração se enche de alegria e já começo a ficar com saudades dela aqui, dentro de mim, pulando, dançando, num tempo em que ela é só minha, o que me torna o ser mais especial deste mundo e de outros também, a mãe da Luiza, o Anjo que Deus escolheu para trazê-la a este mundo e protegê-la, ensiná-la, acolhê-la, amá-la.
Enquanto ela dorme, me lembro de minha condição de cansaço e desânimo e a coragem volta a desaparecer. Penso tentando descobrir de onde vem tanta tristeza e angústia, não estou habituada a ser triste, ao contrário, essa palavra para mim sempre existiu no papel, nunca na vida. Não sei ser triste, não sei ter mal humor, não sei ficar desanimada. Toda vez que isso acontece em minha vida, penso que estou dando um tempo, tomando fôlego, para enfim me lançar novamente na vida. Mas desta vez está diferente. Os últimos anos foram muito difíceis, embora tenham sido ao mesmo tempo os anos de maior realização em minha vida. Todo grande feito dá um certo trabalho e eu fico me perguntando sempre porque as coisas não acontecem uma de cada vez. Agora mesmo, desejei tanto estar liberada de outros compromissos para estar grávida que fico brava por estar angustiada, me ocupando com outros sentimentos que não somente a descoberta de Luiza, da minha riqueza. Fico me cobrando, gostaria de estar apenas atenta a ela e a mais nada. Tenho passado tantos dias trancada em casa, ociosa, mas esse desânimo anda me vencendo de um jeito que nunca aconteceu, às vezes me pego sem esperança, o que dá um nó na minha cabeça, porque gerar uma vida é a maior expressão da esperança que já senti. Estou tão encantada com a maternidade que custo a acreditar que não consigo me encantar com mais nada. Minha vida parou e eu realmente gostaria que tivesse parado para apenas me dedicar à Luiza, mas não foi dessa forma que ela que aconteceu. Sinto-me de mãos atadas, sem muito trabalho, sem muito dinheiro, sem quase nada de ânimo, me dedicando a coisas que não andam pra frente, numa eterna espera por coisas que independem de minhas ações ou vontade. Taí, descobri. Não sou pessoa de "esperar o biscoito assar", como se diz lá em Minas. Sou pessoa de fazer e acontecer, mas 90% das coisas que estão na minha vida hoje só serão tocadas adiante pela vontade de outros e enquanto isso eu tenho que ficar aqui, esperando, esperando. Eu só queria esperar a Luiza e curti-la crescendo dentro de mim, apenas isso e mais nada. Não há solução possivel para minha situação e isto é um fato.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Jardim da Fantasia

Tem um artista mineiro que se chama Paulinho Pedra Azul. Pouca gente conhece porque ele é destes artistas que são fiéis ao que acredita e não se sujeita ao desejo das gravadoras apenas para vender disco. Ele compõe e canta o que gosta e acredita. Suas músicas falam de coisas simples do dia-a-dia e são cheias de significados e sentimentos e suas canções têm o poder de nos fazer sonhar. Há dias tenho cantado dentro do meu coração algumas canções suas e tem uma em especial que tem ressoado nos ouvidos de minha alma. O nome é Jardim da Fantasia, mas é mais conhecida como Bem te vi. Como todo mundo que conhece, eu acreditava que esta música havia sido composta por ele para uma noiva que morreu, mas nestes momentos recentes de ressoar andei procurando seus CDs pela Internet, que aliás são impossíveis de encontrar, e achei uma entrevista dele dizendo que não, ele fez sim pra uma namorada importante, mas que está viva. Ainda assim, a letra nos remete a alguém que não está, um grande amor e é por isso que essa música voltou com tanta força em minha lembrança. Enquanto tento descobrir como é que faz para colocar o vídeo do YouTube, aí vai a letra, que é linda, e ainda mais linda com a melodia.

Jardim da Fantasia

Bem te vi
Bem te vi
Andar por um jardim em flor
Chamando os bichos de amor
Sua boca pingava mel
Bem te quis
Bem te quis
E ainda quero muito
Maior que a imensidão da paz
E bem maior que o sol
Onde estás?
Voei por este céu azul
Andei estradas do além
Onde estarás meu bem?
Onde estás?
Nas nuvens ou na insensatez?
Me beije só mais uma vez
Depois volte pra lá

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A triste noticia.

Agora há pouco, enquanto eu preparava meu almoço, tocou o telefone. Era do Hospital São Paulo procurando pelo meu pai. O Sr. Anivio por favor?, perguntou a moça do outro lado da linha. De que se trata? Respondi, perguntando. Ela queria atualizar o cadastro. Meu pai faleceu, disse, aí mesmo no Hospital São Paulo. Sinto muito, ela falou se desculpando por não saber, apenas confirmando se foi este ano mesmo. Sim. Desliguei o telefone e não me contive, que triste notícia para ser dada mesmo para alguém que apenas liga para atualizar um cadastro! Não sei quantas vezes disse essa frase até hoje e não sei quantas vezes ainda vou repeti-la. Mas sempre parece ser a primeira vez, sempre é a constatação do que houve, mas que sempre teimamos em pensar que podia não ser de verdade. Que ninguém morre, que somos todos eternos e estamos todos aqui, vivos e felizes, sem doenças nem tristezas.
Ontem quando fui dormir fiquei pensando que no inicio toda vez que pensava em minha filhinha, era com meu pai que eu conversava. O tempo está passando e minha bonequinha sapeca está cada vez mais sapeca, e pula, e brinca. Hoje tenho conversado bem mais com ela do que com ele. Penso nele todos os dias e todos os dias sinto uma saudade absurda e um desejo incontrolável de ir lá na casa dele procurá-lo para enfim constatar que tudo não passou de um triste engano, que nada aconteceu, que tudo é como antes.
Passado o impacto da noticia e os primeiros dias de luto, as lembranças boas vão voltando, as coisas boas que fizemos juntos, mas o contato do Hospital trouxe de volta a dor do fim, do não poder, da nossa impotência diante daquilo em que não podemos interferir. Penso que, se fosse eu atendente de tele marketing e recebesse esta noticia ao contactar um cliente, nossa, que chato. Porque noticia de morte sempre causa constrangimento, como escrevi outro dia, é como se fôssemos pegos inteiramente de surpresa. Quando o Dorival Caymmi morreu, já nos seus 94 anos, dias depois de eu ter enterrado meu pai, vi a Nana dando entrevista e dizendo que ela, uma burra velha, com pai era um privilégio. Nunca senti tanta inveja de alguém, desejei ardentemente estar no lugar dela e ter o que ela teve, pai até depois dos 60 anos, que honra! Hoje me lembrei disso e voltei a sentir um sentimento bem egoísta, de que meu desejo não queria nada disso e a qualquer preço, embora recupere meu juízo e em seguida me dê conta que ter Seu Anivio por aqui até os seus 94 anos só seria bom de fato se ele estivesse saudável e independente, do contrário ele não viveria feliz e eu também não poderia ser feliz. Vi umas fotos da minha família no orkut do meu sobrinho que devem ser recentes, mas só consegui enxergar a ausência. E daqui por diante sempre vai aparecer a falta, sempre vai ficar evidente a ausência. Mesmo que algum dia minha mãe encontre alguém e se case de novo e um novo membro passe a compor as fotos de família, sempre será a foto em que ele não está.
Ele faleceu, triste noticia, e não é para fins de atualização de cadastro. É um fato, embora pareça um sonho ruim que logo vai passar.

Se alguém por curiosidade se dedicar a ler este post e tiver seus pais vivos, por favor, curtam bastante essa dádiva, pois não somos eternos como gostamos de pensar.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Ai que vontade de comer pamonha.

Ai, que vontade de comer pamonha! Aqui em São Paulo é muito comum a gente encontrar carrinhos nas esquinas vendendo milho e delícias de milho, o problema é que as delícias não são tão deliciosas assim. Comprei um cural uma vez que não havia sido coado, então estava tão cheio de farelo que mal dava pra comer. É que, um bom cural é feito com milho ralado e passado pela peneira várias vezes até ficar bem fininho e só depois vai pro fogo. Tem que cozinhar bem também, para não ficar com sabor "cru". Pamonha é um pouco mais trabalhoso. Aliás, bem mais trabalhoso e minha mãe é a única pessoa que eu conheço que ainda se atreve a fazer, porque hoje em dia dá pra comprar pronto. Mas pamonha nenhuma no mundo é tão boa quanto a dela, nem as de Piracicaba. Nos últimos tempos, quase toda vez que a gente ia pra Cambuí meu pai comprava milho pra fazer pamonha. Meu tio João, viúvo da minha tia Dita, irmã do meu pai, inventou uma maquininha que rala o milho, o que facilitou bem o processo, mas ainda faz uma sujeira danada fazer a tal da pamonha. Dia de fazer pamonha não dá pra fazer mais nada. Acorda cedo, vai buscar o milho, descasca o milho, separa os que estão bons pra pamonha e os que só dão cural, é, porque tem diferença, milho bom pra pamonha precisa estar mais verdinho, se estiver muito granado a pamonha fica dura. Mas o milho, quanto mais maduro, melhor o cural. Quer dizer,se ainda não tiver chegado no ponto de debulhar e jogar pras galinhas. Aí só dá pra elas mesmo.
Voltando. Descasca o milho, separa o milho. Ah, tem técnica pra descascar, pois a casca precisa estar inteira para virar copo. Então com uma faca corta-se na horizontal a parte superior da espiga, como se fosse um chapeuzinho, e vai retirando a "roupa" cuidadosamente. As palhas maiores ficam para os copos, mas não podem estar muito duras, senão não dobra. Ufa, já cansei, e o milho nem foi ralado ainda. Rala o milho, passa na peneira, que tem que ser destas de vime, senão o caldo fica muito ralo e não pára no copo na hora de cozinhar. Depois de ralado e coado, molha-se o bagaço com leite e passa pela peneira de novo para não desperdiçar nada. Separa o caldo em porções e tempera, doce e salgada. Na doce pode pôr manteiga derretida e canela, na salgada, banha de porco. Ou só açúcar e sal. A canela é importante também. Enquanto tempera já tem um tacho bem grande no fogão esquentando água. E "vamo enrolá a pamonha". Pega palha, dobra como se fosse um envelope. Enche com o caldo, coloca um pedaço de queijo minas, que a esta altura já está picado e metade dele já foi consumido pra ver se está bom, próprio para rechear a pamonha. Com outra palha envolve-se o copo, dobrando da mesma maneira. Amarra-se com barbante e coloca no tacho pra cozinhar. Não sei quanto tempo leva pra cozinhar, nunca marquei no relógio, mas minha mãe sempre sabe a hora de tirar uma pra ver se já está cozida. E vai umas boas horas enrolando e cozinhando as benditas. A cada leva, come-se algumas de modo que, quando ficam prontas todo mundo já está estufado. No fim sobra a bagunça pra arrumar. Chão, armários, fogão, a gente, tudo fica respingado de milho, só lavando tudo mesmo pra ficar limpo de verdade. Ah, esqueci da parte que tem que tirar o cabelo do milho, logo depois de descascar, senão fica pamonha com cabelo. Acho que essa é a parte mais chata, dá um trabalho...
Dia de pamonha é dia de festa... ontem, quando fui dormir fiquei com vontade de ligar pra minha mãe e convida-la pra fazer pamonha na semana que vem, que estarei lá, mas me deu um dó de fazer pamonha sem meu pai... A primeira vez que o Adriano foi pra minha casa conhecer minha família teve pamonha. Era reveillon de 2000/2001. Ele ajudou minha mãe a ralar o milho na maquininha e depois disso meu pai entendeu que ele gosta, então sempre que era tempo de milho ele ligava perguntando quando a gente ia pra lá pra fazer. E foi assim, a última vez foi em maio, a pamonha nem ficou boa porque o tempo do milho já tinha passado. É, porque tempo de milho começa agora, final de ano, e vai até no máximo março, depois disso o milho fica xoxo. Hoje em dia a gente vê milho o ano todo, mas do bom mesmo, só no tempo dele. Nos últimos tempos fizemos pamonha tantas vezes... acho que intuitivamente meu pai sabia que seriam as últimas (dele, porque a vida continua, não é? Acho até que ele ficaria bravo se nos privássemos disso porque ele partiu). Não que ele gostasse tanto assim de pamonha, ele gostava de agradar. Em agosto ele comprava morangos pra fazer geléia pro Adriano. Mal sabia ele que a tarada pela geléia sou eu, bom pra mim. Acho que nunca conheci alguém que se deliciava tanto em agradar as pessoas como meu pai. Minha mãe também é assim, mas um pouco menos que ele. Ele até irritava a gente porque ele providenciava o milho, mas não era ele que fazia o serviço sujo. Ele ajudava bastante, mas o grosso mesmo sempre foi ela quem fez e a sujeira eu limpava.
Não tenho números pra contar quantas vezes em minha vida esse ritual se repetiu. Acho que nasci fazendo pamonha. Que dizer, ajudando. Fazer mesmo nunca fiz e nem acho que vou fazer, só num surto de loucura e saudade, ou pra agradar minha mãe quando ela já não der conta do recado.
Quando estava na quinta-série mudou-se pra minha cidade alguns engenheiros que foram pra trabalhar na COFAP, que acabara de se instalar lá, e a filha de um deles nunca tinha visto uma galinha até então.
Essas coisas quase de roça minha princesa não vai ter, porque minha geração é de mulheres empreendedoras, mas muito moles para as prendas domésticas. Por exemplo: não conheço absolutamente ninguém da minha idade que tenha matado um frango, então acho que a Luiza não vai aprender a fazer pamonha como eu aprendi, só se a vovó se mantiver ativa por muitos anos ainda e ensinar. Na época deles, meus pais, não tinha isso de comprar o milho descascado e o frango caipira já morto e depenado, mesmo morando na cidade. uns bons 15 anos aí, ou mais, alguém teve a ideia de abrir a "Delicias do milho" lá em Cambuí, a pamonha é boa, bem feitinha, aí já não dá coragem de enfrentar tanto trabalho, só minha mãe mesmo. Na época já existia as pamonhas de Piracicaba.
Quando a gente ia pra lá e minha mãe não estava disposta a enfrentar o batidão, meu pai ia na feira e comprava, mas acho que ele insistia na trabalhareira porque a cozinha dela é a melhor do mundo, e ele concordava com isso. Nos tempos de hospital ouvi ele dizer isso um sem número de vezes, longe dela claro, porque homem daquele tempo não fica elogiando, o que não o impedia de apreciar o que é bom.
Dá uma dor pensar que hoje eles estão separados da forma mais triste e que ele não vai estar lá mais torrando a paciência dela pra fazer pamonha porque a Luiza está chegando pra visitar o vovô e a vovó...