terça-feira, 28 de dezembro de 2010

E o Natal? Foi bem, obrigada!

Toda familia tem suas tradições, também inventamos a nossa. Desde que me casei passo o Natal na casa da sogra, mas antes de viajarmos fazemos nossas trocas de presente aqui em casa e comemoramos uma especie de Natal antecipado. Isso porque gosto de manter a intimidade do casal apenas com o casal, se é que me entende. Ano passado já tinha a Luiza pequenina, mas já nem tanto, ganhando seu primeiro veículo, uma scooter. E esse ano, bom, precisava ser diferente, porque ela precisa entender o que é esse tal de Natal. Logo vi que se montássemos a árvore com muita antecedência, ela não chegaria até o dia D, então fizemos assim: montamos no dia, como a gente vê nos filmes americanos, e foi demais. Durante o dia fomos eu e ela comprar a árvore, já que nem isso tínhamos conseguido fazer, esse ano foi um tanto sofrido. Claro que já não tinha coisa muito bonita, mas saiu uma pechincha, então tá valendo. E chega a noite, monta a árvore, coloca as bolas, o pisca pisca, Luiza cuidou de tudo junto com papai, enquanto mamãe registrava o momento. E montamos o presépio, mamãe contou toda a história enquanto surgia cada personagem, foi muito legal. E ela já assimilou alguns nomes, como o do Menino Jesus, nosso protagonista, e assim, a cada ano, ela vai entendendo o que é Natal de verdade. Ela ganhou uma boneca que ela mesma escolheu e disse que ia pedir pro Papai Noel. Ao ser questionada sobre quem deu a boneca, ela respondeu que foi o papai, acho que porque foi ele quem pegou o pacote no quarto e trouxe para a sala, para suas mãos.

Dia seguinte, bora acordar cedo para ir pra casa da vovó. Dia inteiro de espera, os primos ansiosíssimos para abrir os presentes que aumentavam a cada hora do dia, com a chegada de mais um familiar. E resolveram contar, no fim concluíram que tinha mais de 100 presentes embaixo da árvore. Primeiro come, canta parabéns pro Tio Léo que faz aniversário e enfim, vamos ao que interessa. E foi a bagunça de sempre, todo mundo presenteando todo mundo, montinhos de presentes sendo feitos por cada integrante desta grande familia, de membros e herdeiros a agregados, todos sempre sendo muito presenteados. Uma boa oportunidade de renovar o guarda-roupa, a adega, a biblioteca. Minha cunhada disse que inovei este ano, demos batom liquido pras meninas. É que tendo todo ano, é fatal repetir os tipos de presentes. Tudo bem, o que vale é a grande festa que se forma e este é o único dia do ano em que eu realmente me sinto muito feliz e satisfeita de estar no meio desta bagunça, junto de minha sogra, embora longe de minha mãe (na casa dela não tem nada disso, tradição é tradição e lá a coisa é outra). Mas hoje, ao acordar, dei-me conta de uma coisa: não fiquei triste. Não tive vontade de chorar nem senti aquela terrivel dor que se instalou em mim depois que meu pai se foi. Talvez mais um milagre de Natal? Quem sabe...

E o Papai Noel? Ah, desta vez ele veio como se deve, depois que todos foram dormir e, ao acordar na manhã seguinte tinha um lindo e grande e pesado presente ao lado de nossa "cama" para a Luiza, um pula pula. E eu fiquei pensando o quanto meu pai se divertiria em vê-la pular e brincar e gargalhar. Isso o faria muito feliz. Isso o fazia muito feliz. E fiquei me lembrando dos brinquedos que ele fazia pra mim, dos passeios no rio para nadar, da casinha que ele me fez no quintal. Ela ganhou uma destas barracas de personagens, da princesa Mônica, toda rosinha e lilás. Ela chamou de guarda-chuva, mas quem foi presenteada mesmo fui eu, foi uma destas que vi na escola quando tinha 6 anos. Era uma destas que eu queria ter tido e que meu pai, sem entender direito tentou fazer parecido, muito melhor na verdade. De repente fui criança de novo, pena ele não estar aqui para ver.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Feliz Natal! E por que não?


E é com essa imagem magnífica que desejo Feliz Natal a quem costuma passar por aqui. Meu pai era louco por aviões, já contei essa história aqui. Passou a vida maravilhado com essa invenção fantástica e Santos Dumond era por ele considerado um dos mais inteligentes homens já vistos por aqui. E quando vi as cortinas do teatro se abrirem no domingo, na festa de fim de ano da escolinha da Luiza pirei. Olha que aeromoça mais linda! É ou não é de parar o quarteirão aéreo? E pensei o seguinte: se vovô estivesse dando sopa por aí pegaria esse avião na hora só para babar nesta comissária lindíssima de pernas grossas e ficaria tumultuando o vôo só para contar a todos os passageiros a borda que essa riqueza é sua neta! Ainda passo mal de pensar como encontro nela coisas que eram tão dele. Acho que ela já ama os aviões também!

Pai, essa é para o senhor. Te amo, você continua vivo na minha saudade e mora no meu coração. Ainda bem que te levei comigo no domingo, como sempre te levo aonde vou, assim pelos meus olhos o senhor também pôde admirar e babar na nossa Luiza!


Alguns recadinhos: Flávia e Kécia, vocês são uns amores e eu amei os selinhos, prometo postá-los assim que conseguir, mesmo quando a gente não tem porque correr, a vida nessa época do ano vira uma correria, aff.

Minha querida Lu, depois vou fazer um post só para contar a emoção que senti em saber de sua gravidez, acho que fiquei um pouco grávida também, te amo amiga linda, te amo muito!

A todos e todas que passearem por aqui eu desejo um ótimo Natal, com muita festa e solidariedade, com muita comilança e presentes, com muita gente querida em volta. E só para dar noticias, o Papai Noel virá nos visitar este ano pela primeira vez, vai trazer uma boneca, entre outras coisas, e juntos vamos celebrar e cantar parabéns para o menino Jesus e agradecer a Ele e ao Papai do Céu por cada descoberta nesse pequeno pedaço de vida, mas já com tanta história pra contar.

Muitos beijos no coração.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Apenas o de sempre.

É, mas nem sempre o de sempre acontece como sempre. Estou especialmente triste neste final de ano. Não há dor maior do que a perda da ilusão. Quem não sonha não consegue seguir adiante, apenas se deixa levar.

Acabo de receber a ligação de um tio, irmão do meu pai, uma pessoa que nunca significou muita coisa em minha vida, que nunca fez muita questão de fazer parte da minha família e que tinha tudo para desaparecer de nossas vidas agora que meu pai já não está mais por aqui, mas não, ele ligou. Passei o ano meio preocupada com sua saúde achando que deveria ligar, mas como já disse, nunca houve uma intimidade, sempre esquecia. E hoje quando ele ligou eu quis mesmo falar com ele. É o terceiro Natal sem meu pai e falar com o seu irmão que ele adorava é meio que falar um pouquinho com ele também.

Semana agitada, tudo ficou pra última hora e não é como sempre, começo a pensar no Natal lá no inicio de novembro, mas este ano a vida ficou suspensa aguardando que minha sogra fizesse uma angioplastia que aconteceu só na semana passada e que correu tudo bem. Então, corre, corre, corre, para não ficar para a ultima das ultimas horas. A partir de amanhã sou mãe em tempo integral e aí não dá pra me estapear comas pessoas por aí atrás daquela lembrancinha que faltou. Montei a sacolinha de Natal da criança que adotamos na Igreja e foi a coisa mais doce que já fiz na vida. Não sei quem é a pessoa que vai receber a sacola, não sei que carinha tem essa menina, mas uma vez na vida achei realmente especial essa coisa de brincar de Papai Noel. Acho que eu fui mais um dos duendes dele, saí por aí procurando o melhor presente, não podia ser qualquer coisa. E consegui comprar a calça super fashion, com umas flores bordadas e pespontos em cor rosa. Uma blusinha pink combinando, tom sobre tom. Tênis preto de bolinhas pink, meias da mesma cor do sapato, brilho do Boticário, caixinha com três, necessaire também rosa para guardar o brilho e um ursinho de pelúcia, amarelo, mas com orelhas listradas de rosa. Tudo combina. Ia fotografar, mas estava tão empolgada pra embrulhar tudo que só me lembrei quando quase metade já tinha virado pacote, aí desisti, porque o que conta mesmo é o amor depositado por mim em cada detalhe, em cada peça. No cartão escrevi assim: "Neste Natal nosso coração ficou mais aquecido e desejamos que o seu coração sinta-se assim também". E foi o tempo gasto cuidando deste gesto que fez meu coração bater forte este ano. Não foi bem essa a minha ideia, não era essa caridade que eu desejei fazer neste fim de ano, mas como não costumo duvidar de que Deus nos coloca no lugar certo, quem eu quis ajudar também pôde receber o amor de mãos caridosas e carinhosas. A esta hora o anjo que aqueceu meu coração talvez já tenha recebido o presente e talvez esteja neste momento se aventurando a abrir cada um dos pacotes que coloquei dentro de um pacote maior para que ela tenha a emoção de ter uma surpresa de cada vez. Talvez ela ame tudo o que comprei, talvez nem seja a cara dela todas essas fofuras em tom rosa, mas enquanto cuidava de tudo com muito, muito carinho, eu ficava pensando o quanto teria feito diferença na minha vida ter recebido um carinho vindo sei lá de onde. E tomara, ela consiga sentir todo o afeto que mora em meu coração.

Esse ano foi difícil. Eu ando cansada demais já faz tempo, porque eu sempre tive que lutar muito, pedir muito, buscar muito, brigar muito, fazer muito tudo, tudo, para conseguir alguma coisa. E escolhi dedicar a minha vida a ajudar as pessoas a serem um pouco mais felizes, talvez porque buscasse minha própria felicidade. Mas lidar com o desejo do outro é uma frustração sem fim, então cansei pra valer e decidi dar um tempo, descansar um pouco, só que estou mais cansada como nunca estive antes. Dei-me conta de que meu dia este ano começou no primeiro minuto do primeiro dia de janeiro e não vai acabar no ultimo minuto do ultimo dia de dezembro. Sem sair de casa para trabalhar, trabalhei horrores, trabalhei como nunca, sem direitos de ordem alguma, uma completa escravidão, porque meu único compensador pra tudo isso se perdeu pelo tempo. Enquanto escrevo tem um senhorio na minha cabeça me lembrando de que tenho que fazer o almoço e passar as roupas senão a coisa vai ficar ainda mais feia pro meu lado. Eis que vejo surgir no horizonte algumas oportunidades de trabalho fora de casa, mas o que será de mim se tudo aqui dentro continuará me esperando pacientemente, como aconteceu essa semana que saí às compras? Perdi a ilusão, estou sendo arrastada pela avalanche desta vida.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

"O TEMPO PASSOU E ME FORMEI EM SOLIDÃO"

Cheguei em casa à pouco e como de costume vim checar meus e-mails e afins. Alguns cartões de Natal de empresa. O que dizer de um ano em que o que posso esperar é isso, malas diretas? Aí abri o e-mail enviado por um amigo, um dos poucos amigos que ainda me enviam coisas, cujo título é este aí em cima. E não resisti, resolvi postar aqui, pois com toda a correria deste fim de ano nada convencional em minha vida, eu também não consegui enviar nada a ninguém. Ainda, espero.


De: José Antônio Oliveira de Resende Professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João del-Rei.

Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.
Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.
– Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.
E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.
– Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!
A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro... casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.
Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:
– Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.
Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite... tudo sobre a mesa.
Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança... Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam.... era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade...
Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa.. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, t ambém ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos... até que sumissem no horizonte da noite.
O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail... Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa.
Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:
– Vamos marcar uma saída!... – ninguém quer entrar mais.
Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.
Casas trancadas... Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite...
Que saudade do compadre e da comadre!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A criança que mora em mim quer acreditar em Papai Noel. A criança que mora em mim é a criança que já fui outrora e que não cresceu. Continua esperando presente no sapatinho, continua esperando a boneca a pilha que nunca veio, continua esperando uma confraternização como aquelas de filmes, não sei o que fazer pra essa criança crescer. Alguém já sentiu saudades do que nunca viveu?

Sábado fomos ver passar o comboio de Natal da Coca-Cola, aqueles caminhões iluminados: lindo! Foi tão rapidinho, mas a Luiza curtiu ao máximo, ficou dando tchau e jogando beijos pro Papai Noel que vinha puxando o comboio a bordo do seu trenó e que por sua vez jogava balas pras crianças. Eu chorei como criança pequena. Aí fiquei na dúvida: chorei emocionada por ver minha florzinha encantada, ou foi a criança em mim que chorou por nunca ter tido nada disso. Todo mundo tem suas crises, suas faltas, mas a gente se adapta e sempre segue adiante. Eu não tenho conseguido. Uma palavra mal dita desencadeou em mim um sentimento ruim que teima em não ir embora, há semanas ando querendo sumir, fazia tempo que não tinha destas coisas. Às vezes me dá uma ansiedade, parece que vou explodir, estou atolada neste sentimento e por mais que eu tente, não consigo sair do lugar. Tem certas coisas que ficam tão enraizadas dentro da gente que, não importa o esforço, os anos de terapia, não sai, não morre, pode até adormecer, mas está lá, quietinho esperando pra pular pra fora na hora certa, pra nos fazer sofrer de novo. Deveria existir uma modalidade de terapia que permitisse passar uma borracha.

Comecei esse ano tendo que digerir um fracasso e sinceramente, estou com medo de fazer planos pro ano novo. Um dia meu marido me disse que o que deu errado pra mim na verdade tinha dado é muito certo. Foi bom dar um tempo e durante este tempo cuidar da casa e da familia me preencheu, me satisfez, me fez feliz. Aguentei um tanto de gente me enchendo pra eu voltar logo a trabalhar, mas era intriga da oposição, eu sentia assim e sentia que no tempo certo as coisas aconteceriam. Perdi a conta do número de vezes que agradeci a Deus por não ter que sair pra trabalhar este ano, depois de uma noite muito mal dormida por conta de uma dor de ouvido, um dentinho novo que está querendo nascer, um pesadelo. Sou mãe e me folgava saber que tinha tempo para ser mãe. Tempo para dormir quando todos já estão trabalhando e repor minhas energias para ser mãe, para ter paciência de ser mãe, para ajudar a minha filha a crescer e dar seus primeiros passinhos, os primeiros que a levarão a ganhar o mundo. Ajuda esta que me faltou, que me foi dada pela metade, que fez de mim uma pessoa insegura, me completava saber e sentir que abrir mão de parte da minha vida me tornava eficiente naquele pedaço que é hoje o mais importante da minha vida: a maternidade. Num dia, num instante tudo desabou na minha cabeça. Sei que cometi alguns erros, dei passos em falso e no tempo certo trataria de cuidar de cada um deles, mas não agora, não nesta hora, não desta forma. Fiquei mal comigo. Tudo o que andei escondendo de mim mesma enquanto descansava e tomava fôlego para enfrentar, puf, pulou na minha frente, pra me machucar, pra me fazer sofrer. Só ando conseguindo enxergar a falta. E anda me faltando muita coisa.

Estou com medo de recomeçar, de fracassar de novo, de novamente fazer escolhas efêmeras, de chegar no fim da próxima metade da minha vida e de novo ver que não consegui, que não foi da forma que planejei e sonhei. Quando criança eu logo aprendi a não desejar o que não poderia ter, apenas sonhava, bem poucas coisas pedia e apenas uma vez pedi uma coisa que de fato não poderia ter e não ganhei e doeu uma dor sem fim, doeu uma vida inteira até que cresci e pude enfim realizar o tal desejo por meus meios. Fechei uma gestalt (como dizem os gestalterapeutas). A partir daí não desejei mais nada, essa coisa de querer um objeto ou outro, uma bolsa nova, um móvel novo, uma viagem. De repente não precisava mais desejar ou sonhar com estas coisas, eu poderia tê-las se quisesse. As revistinhas, discos, livros e mais tarde cds e dvds que não podia comprar até uns anos atrás poderiam ser meus se quisesse, não me faltava nada, enfim eu tinha chegado em algum lugar e ganhado algum poder. E nem por isso me tornei uma pessoa consumista e perdulária. Talvez por nunca ter tido dinheiro pras melhores roupas, sapatos e brinquedos, sempre corri atrás do conhecimento, sempre amei uma biblioteca e logo que aprendi a ler, com 7 anos, pedi dinheiro pro meu pai para comprar livros (afinal eu já sabia ler). Comprei Chapeuzinho Vermelho e Os Três Porquinhos. Esses foram os meus primeiros livros e eu mesma fui lá papelaria da minha cidade comprá-los. Escolhi estes não porque os desejasse, mas porque eram os disponíveis, e eram meus. De resto, qualquer coisa me bastava. Minha inquietude no entanto não me deixou ficar com qualquer coisa e eu quis mais, quis ser melhor e não só ter mais coisas. Mas parece que eu rodo, rodo, rodo e caio no mesmo buraco. Como se eu tivesse errado feio quando desejei ser melhor. Eu poderia apenas ter ficado com o desejo de querer comprar isso ou aquilo, mas eu quis ir além. Só que eu não consegui ir tão além assim. E me perdi pelo caminho e não sei como me achar desta vez. Estou com medo de fazer planos e quebrar a cara de novo. Assim como quando criança, se eu não desejar não vou sofrer se der errado. Dá pra entender? Só que esse sentimento é muito ruim. Ando me sentindo não merecedora das coisas. Falta, falta, falta. Olho o armário e me faltam roupas e sapatos e bolsas. Olho o resto da casa e falta espaço, falta organização, falta coragem. Olho dentro de mim... falta. Meu marido me perguntou o que eu queria de Natal e eu, quase dormindo, respondi: muito dinheiro. Muito dinheiro pra contratar uma lista de personais: um pra me ajudar a me vestir, um pra me ajudar a me comportar. Outro pra me ensinar a procurar emprego. Um pra organizar a minha casa e minha bagunça. Outro pra me ajudar a emagrecer. Uma secretária do lar pra que eu não tenha tanta coisa pra fazer o dia inteiro e enfim possa ter tempo para usufruir de todos os serviços descritos acima. Não quero ser outra pessoa, mas quero ser diferente do que tenho conseguido ser até hoje. Quero mudar o que me faz infeliz, quero aperfeiçoar o que tenho de bom, quero aprender o que ainda não sei quero conseguir chegar lá e ter orgulho do que fui e vivi. Tentei ser melhor, tentei ser diferente, tentei ir além, tentei fazer tudo sozinha, só que eu não consegui.

Ao invés de adotar uma carta no correio meu marido optou por adotar uma criança na Igreja e isso tem me tirado o sono. Não a conheço, nunca nem vi foto, mas gostaria que ela ganhasse coisas que realmente não pode ter por seus recursos. Temo gastar demais nessa hora de pouca grana (é que tem uma lista grandinha com roupa, sapato, lembrancinha...). Penso que não é porque uma pessoa depende da bondade de outras que qualquer coisa serve. Adoraria ser um bom Papai Noel, um de verdade, igual no filmes e nas histórias que a gente ouve contar. Assim esta menina que nem conheço, ao menos uma vez na vida, poderá sair na rua e exibir os lindos presentes que o "bom velhinho" lhe trouxe. Era assim que acontecia quando eu era criança...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Sabe aquela sensação de ter faltado à aula em dia de prova? Pois é, hoje acordei com ela, só não sei o que fiz de errado. Acabo de chegar da rua e, apesar de ainda ser dia 6, tudo já está com aquele ar de 23, quase véspera, quase Natal. Uma música no rádio, uma centena de lembranças e uma esperança. Planos para o Ano Novo? Talvez eu faça algum, talvez não. Minha experiência me diz que promessas de Ano Novo são feitas para não serem cumpridas, então, pelo sim, pelo não, acho que apenas vou desejar o de praxe: muito dinheiro no bolso (amém) e saúde pra dar e vender (amém, amém). De resto... bem, me parece que o Papai Noel virá este ano.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Mulheres e carros.

Nada me causa mais admiração do que ver uma mulher da terceira idade dirigindo. Na verdade, da quarta idade, estou falando de mulheres já passadas dos 70, 75. Fico impressionada sempre, porque não é cena comum. Agora mesmo, parei na padaria para cometer alguns abusos e ao entrar no carro para vir embora notei que o carro ao lado do meu era conduzido por uma senhorinha de, digamos, uns 80 anos. Fico admirada porque esta geração de mulheres ainda é àquela submissa ao poder dos homens, a que ficava em casa cuidando do marido e dos filhos e sempre sujeita ao que era por ele, o marido, determinado. E dirigir é coisa de homem, ao menos era. Já as mulheres de 60 são coisa mais comum de se ver ao volante. Estas fazem parte da geração Paz e Amor, irmãs e primas daquelas que queimaram sutiã na década de 60 pedindo igualdade de direitos. Como minha mãe e minha sogra, ambas com idade na casa dos 60. Minha sogra sabe dirigir, minha mãe não. Minha sogra parou de dirigir, só o fazendo em caso de necessidade. Como pode alguém parar de exercer sua liberdade e independência? Agora que sobreviveu a um infarto pensa em retomar esta prática, porque não há experiência de maior liberdade do que o encontro com a morte. Será por isso que dirigir é tão libertador? Não entrarei nesta questão.

As rodas de um carro são a extensão de suas pernas, mais ágeis e fortes, capazes de te levar aonde for possível chegar assim. E a direção. Bem, o nome já diz. E eu posso decidir ir para lá, para ali, meu desejo decide, minhas mãos comandam e o carro obedece. A cada dia percebo que dirigir é um ato muito mais intuitivo que técnico. No inicio é difícil porque precisamos incorporar o carro, fazê-lo parte de nosso corpo para que bem possamos conduzi-lo. Não posso tomar decisões por quem vai ao lado, apenas decido pelo que está dentro de mim. E este complexo brinquedo para a ser parte de mim, parte do meu corpo e obediente aos meus desejos, compensa o que a natureza não me deu, mas que posso conquistar, graças a um certo número de malucos sonhadores que ousou ir além. Que bom que cheguei neste mundo depois deles.

Neste mês completo 5 anos de motorista, uma vitória. Sempre fui destas pessoas que nunca se deixou intimidar diante de nenhum obstáculo. Prestei vestibular contra a vontade do meu pai, fui morar longe, muito longe de casa e completamente sozinha, eu e Deus, nenhum amigo, parente. Viajei para fora do país sem falar nenhuma palavra de outro idioma que não o meu, enfrentei e venci muitos desafios, mas nenhum foi tão difícil quanto este. Aprender a dirigir até que não foi tão complicado. Logo na primeira aula já saí me aventurando por aí e enfrentei uma tempestade. Eu pensava: esse professor é louco. E evolução nas aulas, balizas perfeitas e: reprovei no teste. que desânimo, foi tudo tão rápido, nem deu tempo de repensar a resposta antes de passar para o gabarito. Puf, acabou. Fiquei deprimida, passei quase um ano sem sequer passar de novo na porta da auto-escola, quem dirá entrar. Aí me deu um medão de ter que fazer tudo de novo se não tomasse coragem logo, afinal já estava na última etapa para conseguir o meu "porte de arma" como gosta de brincar uma amiga, ou minha "carta de alforria", minha passagem para a liberdade. No dia do exame quase não consigo ir por conta de uma diarreia. Chegando na auto escola, meu Deus, era um pesadelo, as mesmas pessoas que haviam reprovado comigo anteriormente também estavam lá. Quantos exames não teriam feito até então. Tive um amigo que reprovou 7 vezes antes de passar. Já tinha até perguntado sobre o "quebra", o suborno, me recusava a ficar reprovando uma centena de vezes. E não é que de fato eu tinha escolhido uma auto escola honesta? Nada de quebra, vamos ter que ir na raça. Chego no local do exame, quem estava lá? Meu algoz. O delegado que me reprovou, era uma pesadelo, só podia ser. Ah, a luz no fim do túnel surgiu, não era ele e sim uma delegada que estava comandando os exames. E o meu foi o primeiro, que bom, não iria suportar a pressão de ver a galera reprovando antes de mim, precisava me livrar logo daquilo. E entra no carro, coloca o cinto, liga, engata a primeira, sai, põe segunda, liga a seta, pára, vira a esquina, primeira, segunda, seta, vira, pára no meio do quarteirão e faz a baliza, uma, duas... sua última chance. Puts, e agora? Ao menos desta vez tive chance de rever a resposta. Espera um pouquinho. Respira. Fale consigo mesma, converse com Deus, tudo em voz alta. Organiza o pensamento, os sentimentos, as emoções e vamos lá. Perfeita. Pode seguir. Um errinho bobo, mais duas esquinas e, "cabô". Nem tive coragem de olhar pra delegada, tentava de canto de olho olhar a nota no papel, mas tive de perguntar. PASSEI!!!!!!!! Ela me deu os parabéns e até hoje frequenta minhas boas lembranças e recebe minhas boas vibrações. Eu dizia que Deus mandou um anjo para me ajudar. Minha terapeuta na época brincou que talvez ela tenha ficado com medo do meu Deus caso me reprovasse, afinal conversamos na frente dela no meio da prova. E eu considero esta a minha maior vitória.

Mas a coisa não acaba por aqui. Porque entre ter a permissão e dirigir de fato tem uma enooooorrrrrrrme distância. E foi num destes momentos de exame de consciência, de estar insatisfeita com minhas escolhas que percebi que precisava sair do lugar, figurado e literalmente. De repente me vi com uma criança doente nos braços e outra sendo puxada pela mão, mais sacolas, dentro do metrô, ou um ônibus, não lembro agora, com um carro parado na garagem e uma permissão vencida sem nunca ter sido usada na carteira. Tremi por dentro e daqui saiu a minha coragem de enfim enfrentar este que foi o meu maior desafio até hoje. E consegui. E o resto de medo que ainda morava em mim dissipou-se quando meu pai ficou doente. Na necessidade não dá tempo de ficar pensando muito. E de repente me via fazendo coisas que achei que nunca seria capaz (dirigir tarde da noite e sozinha; fazer baliza com uma fila de carros buzinando e esperando pra passar, e outros).

Cresci numa oficina mecânica e sempre amei os carros. Dirigir pra mim sempre pareceu coisa natural, mas na hora do vamos ver vi que a coisa não era assim, mas consegui. Estou fazendo fisioterapia e por isso tenho saído todos os dias de carro, ando me sentindo. É como se o mundo se rendesse aos meus pés, posso conquistar tudo o que quiser, sou livre e independente para isso. É um prazer inexplicável.


Flávia, quando vi a senhorinha dirigindo logo pensei em você e continuo pensando. Se você quizer, eu te ajudo, a gente acha uma forma.