domingo, 30 de novembro de 2008

Carros, aviões e sonhos.

Meu pai consertava carros, mas ele gostava mesmo era de avião. Hoje teve um evento aqui em São Paulo, Renault Road Show, com a demonstração de um carro de formula 1 pilotado pelo Nelsinho Piquet. Eu adoro formula 1, desde pequena. Quando acordei hoje meu cansaço era maior do que a minha vontade de assistir ao show. Lá pelo meio dia vi pela TV e fiquei com uma pontinha de arrependimento de não ter ido, lembrei-me do meu pai. Todo dia lembro, mas domingos são sempre mais vazios, com mais espaço pra saudade. Lembrei-me de sua paixão por aviões e do dia em que a esquadrilha da fumaça foi se apresentar em Cambuí. Que coisa linda! Nunca meus olhos presenciaram tanta beleza. Ele, claro, foi assistir lá do alto do morro, no meio do mato. Sozinho, porque ele tinha um quê de cientista, físico talvez, que mantinha uma relação calorosa consigo mesmo, muitas vezes ele mesmo se bastava. Eu acho isso formidável, pois todos nós temos essa mania de só sermos felizes se temos outros em nossa vida, nunca nos bastamos. A manobra da esquadrilha que mais me impressionou foi aquela em que o avião cai em queda livre, ai que medo!, ai que emoção! Depois da apresentação foi um dia inteiro só falando nisso, relembrando cada pedacinho daquela performance fantástica.
Quando eu ainda nem era nascida meu pai foi pra Bahia, Salvador. Meus irmãos eram pequenos. Ele pegou o ônibus em Cambuí, foi até São Paulo, aeroporto de Congonhas, comprou uma passagem pra Salvador e se mandou. Audácia pura! Engraçado ele escolher Salvador, que é uma cidade histórica, ele adorava modernidade e detestava velharia. Desconfio que ele queria mesmo era andar de avião, Salvador deve ter sido um destino aleatório, não pensei em perguntar, agora já foi, fiquei sem saber. Ele passou a vida falando desta viagem, da emoção de ver a terra de cima, do alto, quanto emoção e orgulho continham nas sua palavras, acho que já nasci encantada por aviões. Partida: 21/11/73. Chegada 25/11/73. Eu nasci em 76. Minha mãe é que não gostou muito desta história. Ele, marido safado, só contou quando ligou de Salvador dizendo que estava lá.
Quando me formei meu namorado, hoje marido, foi trabalhar num país distante. Depois de 2 meses fora ele me enviou uma passagem para me encontrar com ele. Quando fui contar pro meu pai, morrendo de medo dele me proibir de viajar, ele fez menção de dizer não, mas eu, muito esperta na arte de convencer meu pai, não dei tempo dele falar e já contei pro meu irmão, que disse assim: "ele te mandou uma passagem? pergunta se não tem uma pra mim também. " Pronto, pai desarmado, já gostou da ideia, apesar do medo que eu sei que ele sentiu de me perder. Um mês de preparativos, era segredo até quase a véspera da viagem. Tira passaporte, compra mala. Minha mãe é que não gostou muito de novo, "e se o avião cair, e se você se perder num país estranho, o que os vizinhos vão falar da minha filha viajar pra encontrar o namorado?" Meu pai resolveu de outra forma: promoveu meu namorado a noivo, assim dá mais cara de compromisso e não parece que ele deixou a filha se perder lá pelas Europas. Dia da viagem. Era tempo de vaca louca então quis comer um bifinho antes de partir, o que quase me custou a viagem. Dez minutos depois de sair de Cambuí o carro parou na estrada, que estava em reforma. Eu já havia me certificado que as interrupções no tráfego duravam cerca de 20 minutos, mas... não era a obra, era um acidente. Eu prestes a realizar meu maior sonho de consumo por pouco não fico presa em Camanducaia, cidade vizinha, era muito humilhante, nem sei dizer pra quantos santos fiz promessa naquele dia. Naquele tempo eu ainda fazia promessa, que não cumpria. Hoje penso um pouco diferente. Meu pai ficou irado, ficou repetindo que por ele teria saído logo cedo. Tínhamos tempo, mas acidente pode ser resolvido em meia hora ou em dia inteiro. Teve uma vez que eu dormi na estrada porque tombou um caminhão de gás com risco de explosão. Uma hora e pouco depois, transito liberado, um carro por vez e o sonho de novo real. Chegamos ao aeroporto com folga ainda, deu pra fazer o check in com 3 horas de antecedência, como recomendado, comprar dólares, matar o tempo, olhar os aviões. Foi ele e o Tião me levar. O Tião era o melhor amigo dele, nosso vizinho de frente. Meu pai estava com a carteira de motorista vencida, sei lá, desde quando esteve na Bahia? O Tião foi dirigindo. Fico imaginando quanto ele deveria estar orgulho e ao mesmo tempo com o coração partido da menininha dele voar pra tão longe. E vamos nóis. Era tudo tão lindo, tão mágico, ai ai. Um avião tão grande! E o povo falando todo tipo de língua que eu não entendia, quase não consigo jantar. Doze horas voando e uma imagem que nunca vou esquecer: a terra vista de cima tal qual meu pai havia me contado, linda!
Agua e terra, um mapa que hoje a gente vê pelo google earth, mas que em 2001 ainda não estava nesse requinte de detalhes, só ao vivo mesmo. Pousei. As turbinas do bichão eram tão grandes que eu tinha que coçar meus olhos pra ter certeza de que eram daquele jeito mesmo. E aquele povo falando inglês, ai que aflição. E o meu guia de viagem nunca me ajudava quando de fato eu precisava. Muda de terminal, espera, espera, que vontade de ligar pra casa! E como usa o telefone nesta terra? Outro vôo, enfim no destino, o Dri lindo me esperando e a notícia pra casa de que tudo correu bem. Dois meses e a volta, ainda mais difícil que a ida. O mundo atravessava grave crise desencadeada pelo ataque terrorista às torres gêmeas. Oito horas esperando em conexão, de volta pra casa. Saindo do portão de desembarque ele estava lá, sem cor, transparente de preocupação. Entre o avião pousar e você sair leva um tempo, tem que pegar mala, enfim. Quando me viu, ele ressuscitou! Criou vida de novo, seu rosto se iluminou, ganhou de volta aquela cor linda que ele tinha, nunca vou me esquecer. Eram muitos vôos chegando ao mesmo tempo e muita gente saindo por aquele portão. Ele me contou que foi ficando desesperado porque eu nunca que aparecia, e se aconteceu alguma coisa? Graças a Deus eu cheguei e corri a abraçá-lo. Depois fomos tomar um café expresso. O pneu furou, ninguém achava o macaco pra trocar, o carro estacionado ao lado emprestou o dele, e bora pra casa, com direito a bife à milanesa feito pela mamãe. Que aventura! enquanto estava fora eu escrevia e-mails pro meu irmão contando tudo o que estava vivendo. E-mails que ele imprimia e lia pra todo mundo, pelos meus olhos meu pai foi à Europa também. Até ele morrer, ficava repetindo as historias como se ele mesmo as tivesse vivido, lembrava de detalhes que eu logo esqueci e seus olhos brilhavam quando narrava nossas aventuras, minhas e do Dri, naquelas terras distantes. Quanta riqueza, quanta luz ele possua dentro dele, nunca conheci ninguém assim, tão formidável, tão apaixonado, tão deslumbrante. Que honra meu Deus ter sido escolhida pra ser filha de um homem assim!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Por isso que o senhor faz tanta falta!!!!!!!!
Vim morar bem próximo do aeroporto de Congonhas e da minha janela dá pra ver os aviões decolando e pousando. São tantos... enquanto ele esteve aqui, passou algumas horas encantado pela sua paixão e pra mim foi uma honra ter proporcionado isso a ele, uma coincidência divina, não planejei exatamente morar aqui, aconteceu. Minha única frustração é que combinamos uma centena de vezes de viajar de avião e nunca sobrou dinheiro. Aí ele ficou doente. Eu estava planejando levá-lo com minha mãe pro Rio de Janeiro, pra conhecer o Cristo Redentor, pensei em irmos em agosto, mas Deus o chamou de volta antes, não era pra ser... que pena! Mas sei que muito a maneira dele, peculiar como só ele sabia ser, ele viajou o mundo e andou de avião uns cem milhões de vezes em sua imaginação...

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Contagem Progressiva....

Dia 23 completaram 4 meses desde sua partida. Lembro-me de cada instante no hospital, da sua chegada até o momento de voltar pra casa. Não consigo precisar as horas, minhas lembranças, embora vivas, se confundem no quesito tempo. Fui te visitar na última sexta-feira, dia 21. Te visitei na sua nova casa, te visitei na sua velha casa e no seu local preferido. Não me sentei no seu banco porque meu irmão estava lá, até brinquei com ele que ele herdou aquele banco velho e aconchegante. Aliás, a cada dia ele está cada vez mais parecido com o senhor. A careca, as manias, o jeito. Ele é realmente seu filho e herdeiro de tudo o que foi em vida e de tudo o que construiu. Até mandei fazer uma placa para colocar no seu túmulo, achei tudo muito feio por lá e sei que o senhor não era tão desleixado assim.
Algumas coisinhas de família andam nos aborrecendo, mas seu descendente está lá para garantir que a família permaneça unida, coesa, como sempre foi à sua volta. Mas tem uma coisa que não adianta, não entra na cabeça de ninguém lá em casa, principalmente na minha: como assim o senhor não está mais aqui, como assim não vamos -lo nem abraça-lo mais, como assim?
A Luiza está grandona e sapeca, acho que vai ser um bebezão de quase 4 quilos quando nascer, minha mãe também acha isso, quem sabe? A Maria Clara está uma boneca, comprida, sapeca também e andando. É manhosa como essa tia aqui e eu acho que é porque ela é o xodó do seu herdeiro, assim como eu era o seu xodó. Minha mãe sente muito a sua falta, mas está tocando a vida, o senhor sabe que ela é osso duro de roer. Minha irmã mais velha foi morar com ela, o que foi muito conflituoso no começo, mas já a situação já está acalmando de novo. Foi muita mudança de uma vez, não sei pra que isso. Parece que é uma tentativa desesperada de fazer apagar a dor que dói demais, como se adiantasse. Minha outra irmã é que parece não estar contente de como as coisas ficaram, mas o mais importante é que, com todas as neuroses que nossa família tem, continuamos todos juntos e nos amando muito, como o senhor nos ensinou. É difícil às vezes, como sempre foi, mas não o suficiente para nos fazer desistir de passarmos juntos a virada do ano, como tem sido todo ano nem me lembro desde quando, e este ano não será diferente. E o senhor, como está sua nova vida? Estamos com saudades e desejando te encontrar dia desses, quem sabe... mande noticias através de nossos sonhos se puder...

Você conhece o Amigo Deus?

Há duas noites sonhei que o mundo tinha acabado. Estava meio que dentro de uma piscina muito grande, mas vazia, com algumas pessoas estranhas à minha volta. Estava sozinha, sem meu marido, sem minha filhinha, sem as pessoas que amo. Eu havia sido deixada para trás, tinha ficado sozinha, completamente sozinha. Fiquei desesperada, acreditando que nunca mais teria ao meu lado as pessoas que amo. Olhei para o céu e pedi a Deus que me levasse também, que não me deixasse aqui. Acordei, eram 03:45h. Para meu conforto e alívio minha pequena já estava acordada e pulando dentro de mim e isso me fez ver que não passou de um sonho ruim, mas que passou. Enxergo os momentos de desespero como falta de fé, falta de fé em Deus, fé Naquele que tudo vê e tudo pode. Ainda assim tenho certa dificuldade em entregar completamente meu caminho a Ele e deixar que Ele me conduza. Tenho o mal hábito de achar que posso estar no controle de minha vida, mas todo os dias eu e todos nós nos deparamos com coisas que não controlamos, que não podemos sequer opinar ou intervir. Ou seja, não podemos grandes coisas mesmo. Mas tem uma coisa que a gente pode escolher, para isso Deus nos deixou livres: podemos escolher que caminho seguir, se vamos ser bons ou maus, se seremos tementes a Ele ou se vamos esquecê-Lo. O mais impressionante é que, quando tudo parece negro, Ele sempre acende a luzinha para dizer que está aqui, ao meu lado. Seja um PowerPoint, seja o contato de um amigo, seja uma ideia maluca que de repente brota em meus pensamentos, ou a presença da Luiza naquele momento de desespero e falta de ar que quem já teve um pesadelo conhece bem.
Alguém conhece o valor de uma amizade? Amigo é alguém que a gente escolhe pra vida da gente, nada nos obriga. Mas é importante que a gente seja escolhido também, não há relação possível em via de mão única. E Deus nos escolhe todos os dias, basta escolhê-lo também. Ocorre-me que todos os dias vivemos inúmeros encontros, pessoas de todos os tipos cruzam nossos caminhos, umas mais confiáveis, outras nem tanto, e alguns anjos também, que de maneira silenciosa nos protegem sem que percebamos. Eu costumava dizer que família a gente não escolhe, a gente nasce, e amigo, o contrário, então é mais que família muitas vezes. Mas de repente me salta os olhos que de fato não escolhi onde nascer, mas fui escolhida. Não por minha mãe ou por meu pai, mas por nosso grande Pai. Fui escolhida para ser filha e irmã e agora fui escolhida para ser mãe e anjo de minha filhinha. Somado a tudo isso, fui escolhida para ser esposa do meu marido e amiga de várias pessoas queridas. E a mim coube escolher fazer parte de tudo isso.
Falei com minha grande amiga Anna esta semana e estava contando a ela a experiência de ser mãe. O quanto faz diferença estar disponível para viver este momento e o quanto tantas mães não valorizam isso. Nós, que somos Psicólogas, convivemos com cada historia, hoje custo acreditar que possam existir almas que não se encantem com este milagre, com esta riqueza. Pois é assim que me sinto, parte de um milagre e abençoada com uma grande fortuna, uma afortunada é o que me tornei assim que a Luiza começou a se formar aqui dentro. Mas de repente me parece que o que acontece é que as pessoas estão vivendo suas vidas de maneira distraída e não se dão conta do momento em que são escolhidas, logo ficam sem escolher fazer parte, sendo arrastadas pelo que está posto.
Tenho medo. Tenho medo de não ser uma boa mãe, de não conseguir honrar com este maravilhoso compromisso que aceitei assumir, mas tenho muito mais medo de ficar distraída e perder os detalhes deste momento, tenho medo de acordar e ver que o meu mundo de fato acabou e eu não vivi o que tinha pra viver.
Não dá pra ver e viver tudo, mas acredito que dá pra dar conta de uma boa parte. Que Deus, nosso Pai misericordioso nos ajude a escolher a melhor forma de estar por aqui e que assim seja.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Todos os caminhos levam à Leonardo Da Vinci


Há um ano e meio vim morar num bairro que tem uma Rua que se chama Leonardo da Vinci. É uma rua muito peculiar. É longa, cortando praticamente todo o bairro, mas não segue um caminho linear. Ela vai fazendo curvas, entrecortando todos os caminhos, como se fosse um rio desbravando a mata. Se você andar em linha reta, ora cruza com o rio, ora se afasta dele. Assim é a Leonardo da Vinci. Como meu bairro não foi planejado, não necessariamente virar sempre à direita vai te levar de volta ao ponto de partida. Se você optar por seguir por esta rua, logo vai ver que ela mudou de nome, quer dizer, você saiu dela, para em seguida retornar a ela. Assim aprendi que todos os caminhos de alguma forma ou cruzam ou terminam na Leonardo da Vinci. Sendo assim, mesmo que alguém se perca, logo se acha. Isso me faz lembrar o movimento de uma gangorra, ora embaixo, ora em cima, sempre em movimento. Saio de uma posição, logo retorno a ela para em seguida sair de novo. Essa brincadeira de sempre chegar à Leonardo me fez parar de ter medo de circular por aqui. Quando me mudei o bairro me assustava um pouco, como tudo o que é novo, e sair de carro por aqui me apavorava, porque é muito fácil se perder, o que eu não sabia é que mais fácil ainda é voltar a se achar. Basta manter a calma e ficar atenta ao que se mostra e logo o caminho se desvenda. Quem já brincou em gangorra sabe que gostoso mesmo é estar em cima, mas se a gente não volta para baixo para pegar impulso, a brincadeira acaba, ninguém fica no alto o tempo todo. Até dá pra ficar se alguém se sacrificar, mas que graça tem? O legal é o movimento.
De repente percebo algumas coincidências, ao passar pela rua, penso na vida. Minha amiga me disse que para fazer o biscoito precisa misturar cada ingrediente antes de ser assado, e só depois do passo-a-passo é que se tem o resultado. Posso imaginar biscoitos amanteigados deliciosos saindo do forno, aquele cheiro - huuuummm! - que delicia, mas dá um trabalho, principalmente na parte que envolve enrolar e cortar um a um. E assar. Nunca cabe todos de uma vez no forno, assim a produção de biscoitos numa cozinha de casa é trabalho pra um dia inteiro, quase como a pamonha. E vai, e mistura, e prova, e mexe, e enrola, e corta, aff, haja paciência. E o biscoito tem o tempo do biscoito, a vida tem o tempo da vida e todos os caminhos nos levam à Leonardo da Vinci, ops, todos os caminhos nos levam aonde temos que chegar, ainda que a gente se perca um pouco no meio do percurso. Basta manter a calma, respirar fundo pra otimizar a capacidade de raciocinar e conseguir traçar as estratégias certas de continuar. E chegar. No tempo do biscoito, no tempo certo, no tempo da vida.
Tive um namorado anos atrás que me aprontou uma daquelas: foi pra uma festa sem me contar. Como eu não o encontrava em lugar nenhum, entrei em desespero achando que podia ter acontecido algo de ruim. Na época, eu deveria ter uns 16, 17 anos, ainda não tinha compreendido a frase que diz que noticia ruim chega rápido. Enfim, no meu desespero, fui à reunião do grupo de jovens do qual participava e pus-me a orar, pedindo a Deus que protegesse o infeliz aonde ele estivesse. Foi quando um dos meus colegas bateu em meu ombro e me disse assim: "não apresse o rio, deixe que ele corra sozinho". Não apresse o rio... Anos mais tarde, já formada e trabalhando fui plantar uma horta com meus pacientes sob a orientação da terapeuta ocupacional e, que coisa maravilhosa, a semente germina quando é a hora dela, não tem água ou adubo que consiga apressar isso. Na mesma época eu plantei uma florzinha num vaso que morreu, mas como eu pretendia plantar de novo, continuei regando o vaso para a terra não endurecer. De repente nasceu uma plantinha que logo mostrou ser um pé de tomate, até deu tomate, tenho até foto, porque aquela semente já estava lá sem ter sido colocada por mim, mas só nasceu quando o tempo dela enfim chegou.
Parece que assim é a vida: de biscoitos, ruas Leonardos da Vinci, rios, gangorras, tomates. E cada coisa a seu tempo, no tempo certo de cada coisa, ainda que nosso desejo deseje um tempo diferente. Por que será que tem dias que a gente custa a acreditar nisso?

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Esperando, esperando...

Alguma coisa está partida dentro de mim. Hoje até a Luiza está mais triste, quietinha. Minha vontade é dormir até tudo passar e este é o problema, tenho dormido muito pouco. Quando estou acordada não tenho tido vontade de fazer muita coisa e não tenho feito, o que faz aumentar minha angustia e deixa difícil o ato de tentar colar o que se quebrou. Não sei se é a morte do meu pai ou o peso de viver, que às vezes pesa um bocado, mas o fato é que meu sentimento é de pesar e eu nem sei bem o por quê. O tempo têm demorado um bocado pra passar e ao mesmo tempo tem voado, o ano já está no fim e, ao mesmo tempo, fiz um cem milhões de coisas e tem mais um cem milhões que não dei conta de fazer. Quando estou deitada ainda faço planos, mas a coragem de colocá-los em prática desaparece tão logo me levanto. Tenho vivido dias vazios de uma longa espera que nunca acaba e não é a espera da chegada do meu bebê. Aliás, esta tem sido a única coisa realmente boa dos meus dias vazios. Quando a Luiza acorda e começa a brincar meu coração se enche de alegria e já começo a ficar com saudades dela aqui, dentro de mim, pulando, dançando, num tempo em que ela é só minha, o que me torna o ser mais especial deste mundo e de outros também, a mãe da Luiza, o Anjo que Deus escolheu para trazê-la a este mundo e protegê-la, ensiná-la, acolhê-la, amá-la.
Enquanto ela dorme, me lembro de minha condição de cansaço e desânimo e a coragem volta a desaparecer. Penso tentando descobrir de onde vem tanta tristeza e angústia, não estou habituada a ser triste, ao contrário, essa palavra para mim sempre existiu no papel, nunca na vida. Não sei ser triste, não sei ter mal humor, não sei ficar desanimada. Toda vez que isso acontece em minha vida, penso que estou dando um tempo, tomando fôlego, para enfim me lançar novamente na vida. Mas desta vez está diferente. Os últimos anos foram muito difíceis, embora tenham sido ao mesmo tempo os anos de maior realização em minha vida. Todo grande feito dá um certo trabalho e eu fico me perguntando sempre porque as coisas não acontecem uma de cada vez. Agora mesmo, desejei tanto estar liberada de outros compromissos para estar grávida que fico brava por estar angustiada, me ocupando com outros sentimentos que não somente a descoberta de Luiza, da minha riqueza. Fico me cobrando, gostaria de estar apenas atenta a ela e a mais nada. Tenho passado tantos dias trancada em casa, ociosa, mas esse desânimo anda me vencendo de um jeito que nunca aconteceu, às vezes me pego sem esperança, o que dá um nó na minha cabeça, porque gerar uma vida é a maior expressão da esperança que já senti. Estou tão encantada com a maternidade que custo a acreditar que não consigo me encantar com mais nada. Minha vida parou e eu realmente gostaria que tivesse parado para apenas me dedicar à Luiza, mas não foi dessa forma que ela que aconteceu. Sinto-me de mãos atadas, sem muito trabalho, sem muito dinheiro, sem quase nada de ânimo, me dedicando a coisas que não andam pra frente, numa eterna espera por coisas que independem de minhas ações ou vontade. Taí, descobri. Não sou pessoa de "esperar o biscoito assar", como se diz lá em Minas. Sou pessoa de fazer e acontecer, mas 90% das coisas que estão na minha vida hoje só serão tocadas adiante pela vontade de outros e enquanto isso eu tenho que ficar aqui, esperando, esperando. Eu só queria esperar a Luiza e curti-la crescendo dentro de mim, apenas isso e mais nada. Não há solução possivel para minha situação e isto é um fato.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Jardim da Fantasia

Tem um artista mineiro que se chama Paulinho Pedra Azul. Pouca gente conhece porque ele é destes artistas que são fiéis ao que acredita e não se sujeita ao desejo das gravadoras apenas para vender disco. Ele compõe e canta o que gosta e acredita. Suas músicas falam de coisas simples do dia-a-dia e são cheias de significados e sentimentos e suas canções têm o poder de nos fazer sonhar. Há dias tenho cantado dentro do meu coração algumas canções suas e tem uma em especial que tem ressoado nos ouvidos de minha alma. O nome é Jardim da Fantasia, mas é mais conhecida como Bem te vi. Como todo mundo que conhece, eu acreditava que esta música havia sido composta por ele para uma noiva que morreu, mas nestes momentos recentes de ressoar andei procurando seus CDs pela Internet, que aliás são impossíveis de encontrar, e achei uma entrevista dele dizendo que não, ele fez sim pra uma namorada importante, mas que está viva. Ainda assim, a letra nos remete a alguém que não está, um grande amor e é por isso que essa música voltou com tanta força em minha lembrança. Enquanto tento descobrir como é que faz para colocar o vídeo do YouTube, aí vai a letra, que é linda, e ainda mais linda com a melodia.

Jardim da Fantasia

Bem te vi
Bem te vi
Andar por um jardim em flor
Chamando os bichos de amor
Sua boca pingava mel
Bem te quis
Bem te quis
E ainda quero muito
Maior que a imensidão da paz
E bem maior que o sol
Onde estás?
Voei por este céu azul
Andei estradas do além
Onde estarás meu bem?
Onde estás?
Nas nuvens ou na insensatez?
Me beije só mais uma vez
Depois volte pra lá

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A triste noticia.

Agora há pouco, enquanto eu preparava meu almoço, tocou o telefone. Era do Hospital São Paulo procurando pelo meu pai. O Sr. Anivio por favor?, perguntou a moça do outro lado da linha. De que se trata? Respondi, perguntando. Ela queria atualizar o cadastro. Meu pai faleceu, disse, aí mesmo no Hospital São Paulo. Sinto muito, ela falou se desculpando por não saber, apenas confirmando se foi este ano mesmo. Sim. Desliguei o telefone e não me contive, que triste notícia para ser dada mesmo para alguém que apenas liga para atualizar um cadastro! Não sei quantas vezes disse essa frase até hoje e não sei quantas vezes ainda vou repeti-la. Mas sempre parece ser a primeira vez, sempre é a constatação do que houve, mas que sempre teimamos em pensar que podia não ser de verdade. Que ninguém morre, que somos todos eternos e estamos todos aqui, vivos e felizes, sem doenças nem tristezas.
Ontem quando fui dormir fiquei pensando que no inicio toda vez que pensava em minha filhinha, era com meu pai que eu conversava. O tempo está passando e minha bonequinha sapeca está cada vez mais sapeca, e pula, e brinca. Hoje tenho conversado bem mais com ela do que com ele. Penso nele todos os dias e todos os dias sinto uma saudade absurda e um desejo incontrolável de ir lá na casa dele procurá-lo para enfim constatar que tudo não passou de um triste engano, que nada aconteceu, que tudo é como antes.
Passado o impacto da noticia e os primeiros dias de luto, as lembranças boas vão voltando, as coisas boas que fizemos juntos, mas o contato do Hospital trouxe de volta a dor do fim, do não poder, da nossa impotência diante daquilo em que não podemos interferir. Penso que, se fosse eu atendente de tele marketing e recebesse esta noticia ao contactar um cliente, nossa, que chato. Porque noticia de morte sempre causa constrangimento, como escrevi outro dia, é como se fôssemos pegos inteiramente de surpresa. Quando o Dorival Caymmi morreu, já nos seus 94 anos, dias depois de eu ter enterrado meu pai, vi a Nana dando entrevista e dizendo que ela, uma burra velha, com pai era um privilégio. Nunca senti tanta inveja de alguém, desejei ardentemente estar no lugar dela e ter o que ela teve, pai até depois dos 60 anos, que honra! Hoje me lembrei disso e voltei a sentir um sentimento bem egoísta, de que meu desejo não queria nada disso e a qualquer preço, embora recupere meu juízo e em seguida me dê conta que ter Seu Anivio por aqui até os seus 94 anos só seria bom de fato se ele estivesse saudável e independente, do contrário ele não viveria feliz e eu também não poderia ser feliz. Vi umas fotos da minha família no orkut do meu sobrinho que devem ser recentes, mas só consegui enxergar a ausência. E daqui por diante sempre vai aparecer a falta, sempre vai ficar evidente a ausência. Mesmo que algum dia minha mãe encontre alguém e se case de novo e um novo membro passe a compor as fotos de família, sempre será a foto em que ele não está.
Ele faleceu, triste noticia, e não é para fins de atualização de cadastro. É um fato, embora pareça um sonho ruim que logo vai passar.

Se alguém por curiosidade se dedicar a ler este post e tiver seus pais vivos, por favor, curtam bastante essa dádiva, pois não somos eternos como gostamos de pensar.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Ai que vontade de comer pamonha.

Ai, que vontade de comer pamonha! Aqui em São Paulo é muito comum a gente encontrar carrinhos nas esquinas vendendo milho e delícias de milho, o problema é que as delícias não são tão deliciosas assim. Comprei um cural uma vez que não havia sido coado, então estava tão cheio de farelo que mal dava pra comer. É que, um bom cural é feito com milho ralado e passado pela peneira várias vezes até ficar bem fininho e só depois vai pro fogo. Tem que cozinhar bem também, para não ficar com sabor "cru". Pamonha é um pouco mais trabalhoso. Aliás, bem mais trabalhoso e minha mãe é a única pessoa que eu conheço que ainda se atreve a fazer, porque hoje em dia dá pra comprar pronto. Mas pamonha nenhuma no mundo é tão boa quanto a dela, nem as de Piracicaba. Nos últimos tempos, quase toda vez que a gente ia pra Cambuí meu pai comprava milho pra fazer pamonha. Meu tio João, viúvo da minha tia Dita, irmã do meu pai, inventou uma maquininha que rala o milho, o que facilitou bem o processo, mas ainda faz uma sujeira danada fazer a tal da pamonha. Dia de fazer pamonha não dá pra fazer mais nada. Acorda cedo, vai buscar o milho, descasca o milho, separa os que estão bons pra pamonha e os que só dão cural, é, porque tem diferença, milho bom pra pamonha precisa estar mais verdinho, se estiver muito granado a pamonha fica dura. Mas o milho, quanto mais maduro, melhor o cural. Quer dizer,se ainda não tiver chegado no ponto de debulhar e jogar pras galinhas. Aí só dá pra elas mesmo.
Voltando. Descasca o milho, separa o milho. Ah, tem técnica pra descascar, pois a casca precisa estar inteira para virar copo. Então com uma faca corta-se na horizontal a parte superior da espiga, como se fosse um chapeuzinho, e vai retirando a "roupa" cuidadosamente. As palhas maiores ficam para os copos, mas não podem estar muito duras, senão não dobra. Ufa, já cansei, e o milho nem foi ralado ainda. Rala o milho, passa na peneira, que tem que ser destas de vime, senão o caldo fica muito ralo e não pára no copo na hora de cozinhar. Depois de ralado e coado, molha-se o bagaço com leite e passa pela peneira de novo para não desperdiçar nada. Separa o caldo em porções e tempera, doce e salgada. Na doce pode pôr manteiga derretida e canela, na salgada, banha de porco. Ou só açúcar e sal. A canela é importante também. Enquanto tempera já tem um tacho bem grande no fogão esquentando água. E "vamo enrolá a pamonha". Pega palha, dobra como se fosse um envelope. Enche com o caldo, coloca um pedaço de queijo minas, que a esta altura já está picado e metade dele já foi consumido pra ver se está bom, próprio para rechear a pamonha. Com outra palha envolve-se o copo, dobrando da mesma maneira. Amarra-se com barbante e coloca no tacho pra cozinhar. Não sei quanto tempo leva pra cozinhar, nunca marquei no relógio, mas minha mãe sempre sabe a hora de tirar uma pra ver se já está cozida. E vai umas boas horas enrolando e cozinhando as benditas. A cada leva, come-se algumas de modo que, quando ficam prontas todo mundo já está estufado. No fim sobra a bagunça pra arrumar. Chão, armários, fogão, a gente, tudo fica respingado de milho, só lavando tudo mesmo pra ficar limpo de verdade. Ah, esqueci da parte que tem que tirar o cabelo do milho, logo depois de descascar, senão fica pamonha com cabelo. Acho que essa é a parte mais chata, dá um trabalho...
Dia de pamonha é dia de festa... ontem, quando fui dormir fiquei com vontade de ligar pra minha mãe e convida-la pra fazer pamonha na semana que vem, que estarei lá, mas me deu um dó de fazer pamonha sem meu pai... A primeira vez que o Adriano foi pra minha casa conhecer minha família teve pamonha. Era reveillon de 2000/2001. Ele ajudou minha mãe a ralar o milho na maquininha e depois disso meu pai entendeu que ele gosta, então sempre que era tempo de milho ele ligava perguntando quando a gente ia pra lá pra fazer. E foi assim, a última vez foi em maio, a pamonha nem ficou boa porque o tempo do milho já tinha passado. É, porque tempo de milho começa agora, final de ano, e vai até no máximo março, depois disso o milho fica xoxo. Hoje em dia a gente vê milho o ano todo, mas do bom mesmo, só no tempo dele. Nos últimos tempos fizemos pamonha tantas vezes... acho que intuitivamente meu pai sabia que seriam as últimas (dele, porque a vida continua, não é? Acho até que ele ficaria bravo se nos privássemos disso porque ele partiu). Não que ele gostasse tanto assim de pamonha, ele gostava de agradar. Em agosto ele comprava morangos pra fazer geléia pro Adriano. Mal sabia ele que a tarada pela geléia sou eu, bom pra mim. Acho que nunca conheci alguém que se deliciava tanto em agradar as pessoas como meu pai. Minha mãe também é assim, mas um pouco menos que ele. Ele até irritava a gente porque ele providenciava o milho, mas não era ele que fazia o serviço sujo. Ele ajudava bastante, mas o grosso mesmo sempre foi ela quem fez e a sujeira eu limpava.
Não tenho números pra contar quantas vezes em minha vida esse ritual se repetiu. Acho que nasci fazendo pamonha. Que dizer, ajudando. Fazer mesmo nunca fiz e nem acho que vou fazer, só num surto de loucura e saudade, ou pra agradar minha mãe quando ela já não der conta do recado.
Quando estava na quinta-série mudou-se pra minha cidade alguns engenheiros que foram pra trabalhar na COFAP, que acabara de se instalar lá, e a filha de um deles nunca tinha visto uma galinha até então.
Essas coisas quase de roça minha princesa não vai ter, porque minha geração é de mulheres empreendedoras, mas muito moles para as prendas domésticas. Por exemplo: não conheço absolutamente ninguém da minha idade que tenha matado um frango, então acho que a Luiza não vai aprender a fazer pamonha como eu aprendi, só se a vovó se mantiver ativa por muitos anos ainda e ensinar. Na época deles, meus pais, não tinha isso de comprar o milho descascado e o frango caipira já morto e depenado, mesmo morando na cidade. uns bons 15 anos aí, ou mais, alguém teve a ideia de abrir a "Delicias do milho" lá em Cambuí, a pamonha é boa, bem feitinha, aí já não dá coragem de enfrentar tanto trabalho, só minha mãe mesmo. Na época já existia as pamonhas de Piracicaba.
Quando a gente ia pra lá e minha mãe não estava disposta a enfrentar o batidão, meu pai ia na feira e comprava, mas acho que ele insistia na trabalhareira porque a cozinha dela é a melhor do mundo, e ele concordava com isso. Nos tempos de hospital ouvi ele dizer isso um sem número de vezes, longe dela claro, porque homem daquele tempo não fica elogiando, o que não o impedia de apreciar o que é bom.
Dá uma dor pensar que hoje eles estão separados da forma mais triste e que ele não vai estar lá mais torrando a paciência dela pra fazer pamonha porque a Luiza está chegando pra visitar o vovô e a vovó...

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Deus está no controle de tudo

Meu amigo Nicolino me contou semana passada que acompanha o meu blog e me deixou muito feliz, porque, como apenas minha amiga Lu deixa comentários, fico com sensação de que somente ela lê, e o meu marido, que acompanha fielmente cada capítulo de minha vida. Fiquei realmente feliz, porque se meu desejo não fosse dividir minhas experiências eu teria feito um diário e não um blog.
É engraçada essa coisa de conviver com os dois lados da moeda, vida e morte. Convivemos o tempo todo com estes dois lados e sempre optamos por negligenciar o primeiro e negar o segundo, o que acaba por tornar nossa existência vaga, sem expressão. Um dia na aula do Professor José Carlos Michelazzo ele disse que, quando alguém morre somos tomados de surpresa, como quem diz: "Oh, morreu, como pôde acontecer!" Como se não soubéssemos que isso pode sim acontecer, como se realmente fôssemos pegos de surpresa.
Tenho estado muito angustiada por estes dias, não porque meu pai morreu, mas porque viver às vezes é um tanto trabalhoso. Como qualquer ser humano normal, sofro de ansiedade pelas coisas que não posso controlar e às vezes tenho muita dificuldade em ter paciência e esperar o tempo certo das mesmas. Daí me angustio, fico sem ar.
Tem um ditado popular que diz: o que não tem remédio, remediado está. Pois bem, se não controlo tudo é porque nem tudo precisa ser controlado, algumas coisas são apenas, quer a gente queira, quer não, não é assim?
Domingo, tomada por esta angústia enquanto voltava do aeroporto após ter deixado meu marido, achei que ia sufocar se voltasse pra casa, foi quando me veio a ideia de ir à missa. Devia ser umas 19:15h. A missa costumava ser às 20h e eu pensei que não teria paciência de esperar começar, mas decidi parar assim mesmo. Como os arredores da Igreja não são um ambiente assim muito familiar, pensei que se não conseguisse um bom lugar para estacionar, talvez fosse melhor ir embora. Parei na porta da Igreja, tinha uma vaga perfeita esperando por mim e, para minha surpresa, cheguei às 19:30h e a missa estava começando, não poderia ter sido mais perfeito. Deus, que é quem está no controle de tudo me levou até lá para me dizer que Ele está cuidando de tudo, que não tenho motivos pra me preocupar. Enquanto a missa se desenrolava meu coração ia se acalmando e acabei me lembrando que quando criança eu ia à missa com meu pai e depois a gente parava na lanchonete quintal para comer doce. Eu não gostava da missa, sentia sono, mas adorava os doces. Tinha um bolo amarelinho com uma cobertura toda branca que eu adorava, ele era molhadinho por dentro. Nunca mais comi. Até tentei conseguir a receita com o Seu Jesus, dono da finada lanchonete, com quem trabalhei por 5 anos na prefeitura de Cambuí, mas ele não se lembrou que bolo era aquele. Eu também gostava de uma torta de côco que a massa era meio salgadinha, talvez devido à manteiga usada para untar a forma, mas que tinha um recheio bem docinho, huuummm. E o arroz doce também era dos deuses, com açúcar queimado e canela em pó. Naquele tempo penso que Deus falava comigo através dos doces, pois em companhia deles a vida também se tornava doce e eu sentia a confiança de que tudo ia dar certo. Hoje os doces são calorias a mais e uma bela bronca na consulta de pré-natal, mas acho que a maturidade me ensinou a ouvir o que Deus tem a me dizer de outra maneira, pela palavra, pela leitura da Bíblia e pela sensibilidade em perceber sua obra em minha vida.
Ainda assim me desespero às vezes, porque eu acho que ainda não aprendi a entregar minha vida a Ele e fico sempre querendo controlar tudo.
Dia 05 deste mês fez um ano que meu pai fez sua primeira consulta na UNIFESP. No dia 25 fará um ano que ele veio em definitivo pra se tratar. Dia 04/12 completará um ano da cirurgia, um dia que ele desejou muito que chegasse pois seria a concretude de que tudo deu certo, dia 21/12, um ano que ele teve a primeira complicação a primeira re-internação. Dias 24 e 25/12, um ano do Natal que passamos no hospital, dia 28/12, alta. Dia 31/12, passagem de ano com todos felizes e saudáveis, cheios de esperança de que a cura era possível e que tudo não passou de um sonho ruim. E assim por diante.
Penso que se dedicássemos um tempo para pensar na morte, saberíamos melhor aproveitar a vida. Tenho sonhado com meu pai e ele sempre está vivo no meu sonho, embora eu não consiga saber se está feliz ou triste. Eu fico triste quando penso nele, fico feliz quando sinto a Luiza se mexer no meu ventre e fico triste de novo em não poder dar uma ligadinha pra ele pra contar como a neta dele está sapeca e forte. Penso que conviver com tudo isso é realmente um dom que Deus nos dá, porque não é fácil. Todos os dias tomo a decisão de seguir adiante porque a vida não pára, embora às vezes o cansaço é tanto que dá vontade de pedir a Deus que, já que Ele está no controle de tudo, será que não daria pra dar uma paradinha no mundo só pra gente tomar uma águinha, dar uma descansadinha antes de continuar?
Quande penso que estou grávida penso também que o mundo tem jeito. Várias amigas minhas estão grávidas também ou tiveram filho à pouco. São muitas as razões que levam uma mulher ou um casal a querer ter um filho, mas acho que o que pouca gente pensa é que ter um filho é uma atitude que envolve e beneficia toda a humanidade. Alguém disse, acho que no curso de gestante que fiz, que essa geração do terceiro milenio é aquela que está vindo para dar um novo rumo, uma nova esperança ao mundo. E isso só pode ser coisa de Deus. Será? De qualquer modo, uma nova vida é sempre esperança, seja de um mundo, seja de uma vida melhor. A vida segue e se renova e nós, bom, nós seguimos também até cumprir nossa jornada.

sábado, 8 de novembro de 2008

Bom dia!

Hoje quando acordei lembrei-me de quando entrei na faculdade. Fui pra Bauru pro inicio das aulas muito triste, primeiro porque meu sonho era estudar na USP, em São Paulo, segundo porque na época sentia-me triste porque ficaria longe do namorado que tinha na época (depois de um tempo o namoro acabou e compreendi que a saudade era de todos e não só dele, mas com 18 anos...). Meu irmão e minha cunhada me levaram e já voltaram pra casa e eu acordei numa segunda-feira totalmente sozinha, numa terra estranha. Faltava chão e eu mal conseguia respirar. Fui às compras e lá pelo meio da tarde descobri que havia perdido minha única esperança de ainda ser chamada pela FUVEST. Chorei compulsivamente na Igreja da Praça Rui Barbosa, por muito tempo. Um rapaz que me viu chorando entrou atrás de mim e me abordou, me consolou, nem perguntei seu nome. Dia destes lembrei disso e pensei: "tal rapaz gentil e solidário deve ter me achado uma boba, sofrendo tanto por tão pouco, afinal eu não entrei na USP, mas estava na UNESP, que também é um grande feito. Mas isso é outra historia.
Terça-feira, primeiro dia de aula,quer dizer, aula-trote. Brincadeiras, pedágio na esquina da Torre de Belém, uma padoca que já não existe mais, cortei o pé e tomei uma bronca da Esli, minha veterana, por não estar com nenhum documento. É que em Cambuí a gente não saía com documentos, não precisava, todo mundo te conhece.
Quarta, nada de aula, quinta, festa do bicho da UNESP, que eu fui com a Angela, minha primeira amiga da faculdade, num bar-boate que, eu acho, se chamava Tequila. E rodoviária, bora pra casa, cansei de brincar de faculdade.
Estava com um trem no pé que achei que era frieira e pense que chegando em casa o meu namorado iria me emprestar a solução de iodo,que eu passaria e ficaria tudo bem. Mas não era frieira, era dermatite de contato, um trem sem causa específica, mas que fica muito feio e incomoda muito e que me impediu de colocar o pé no chão por duas semanas e meia. Na mesma época meu pai quebrou o braço direito numa estrepolia destas de andar no mato. Ficamos os dois de castigo em casa, eu num sofá, ele no outro, o dia todo juntos. Lembro-me que foi a primeira vez que me dei conta de que ele estava envelhecendo, já não tinha mais a mesma desenvoltura de antes e hoje penso que foi daqui que surgiu o medo terrível de perdê-lo que me assombrou a faculdade inteira. Eu sonhava com o velório dele de tempos em tempos e rezava pra Deus não permitir que acontecesse, que me desse mais um tempo, que me deixasse casar antes e ter minha família porque acreditava que isto me daria estabilidade e força pra aguentar a saudade. Ele ouviu minhas preces.
No dia que peguei o ônibus pra ir pra facul vi meu pai chorando pela segunda vez na minha vida. A primeira foi no velório do meu tio Joaquim, irmão dele, que faleceu quando eu ainda era criança. E ainda me lembro dele e da minha mãe olhando o ônibus passar da esquina perto de casa.
Nos dias em que ficamos de castigo, o dia todo um fazendo companhia pro outro, ele ficou me convencendo de desistir de voltar pra Bauru, tentou me seduzir dizendo que pagaria o cursinho, mas e se eu não passasse de novo no vestibular da FUVEST? Era muito arriscado, então quando deu, voltei.
Primeiro dia de aula de fato: Psicologia Experimental. A turma já estava toda entrosada e eu lá, já conhecia o povo, mas totalmente perdida. Precisava fazer dupla para o laboratório do ratinho e tinha mais duas meninas que estavam começando naquele dia também, a Flávia e a Lu Arruda. Figuras inesquecíveis. A Flavia com um visual roqueira, com umas correntes penduradas, umas unhas pretas, uma camiseta meio assim, tipo rasgada, ou era a calça. Enfim. Não tenho muita certeza se era mesmo o primeiro dia dela, porque eu não fiquei amiga dela neste dia,era figura demais pra minha caipirisse, mas ela também não tinha dupla de laboratório. Depois nos tornamos grandes amigas, ela me ensinou a usar o computador, minha única professora deste universo que ainda não domino, nem acho que vou dominar, mas ela me lançou neste milênio, me tirou da pré-história e é uma amiga muito querida até hoje, destas que mesmo longe não sai do nosso pensamento.
E a Lu Arruda, que o Luiz Carlos, nosso professor, determinou que seria minha dupla. Outra imagem inesquecível, aquela menina muito linda de pele branca, olhos muito azuis e um cabelo tingido de preto, destacando toda aquela beleza. Fiquei intimidada. Primeiro dia de laboratório, que era sábado pela manhã, ela passou mal e lá fui eu comprar comida pra ela, ela conta essa história no blog dela, e este foi o inicio de uma amizade sem fim. Lembro-me de um sem fim de histórias em que a Lu esteve presente em minha vida, como quando me decepcionei com uma "amiga" com quem morava e que me traiu e a Lu me levou pra morar uns dias na casa dela, porque eu não aguentava olhar na cara da fulana, eu ainda não era essa tipinha apimentada que não guarda nada. Na época eu engolia tudo, faz um mal... Nesta ocasião a Lu acordava com um galo cantando, um despertador muito surreal que, na primeira noite que dormi na casa dela custei a entender porque tinha um galo cantando no quarto, só a Lu mesmo pra ter um despertador assim.
E teve a outra vez que eu saí no tapa com outra menina com quem eu também morava - nossa, minha Luiza vai achar que a mãe dela é uma encrenqueira lendo este post - e que me mudei pra casa da Val outra amiga queridíssima que eu não sei bem por onde anda, por dois dias até acertar minha mudança de república. No dia de mudar lá vamos eu, a Lu e uma "gangue" convocada por ela pra me proteger da sicrana que me agrediu, porque eu fui agredida, coisa fácil de provar comparando ambas as partes do conflito.
Mas acho que o laço de amizade com a minha querida Lu ficou forte mesmo depois do barbante. Nossa professora de dinâmica de grupo fez uma dinâmica com nossa turma, no ultimo dia de aula, antes da festa na casa da Ângela, em que cada um tinha que entregar uma ponta do barbante pra alguém e dizer porque estava entregando. Eu recebi da Lu Bratt e entreguei pra Lu Arruda. Da turma toda eu conseguia olhar pra ela, só conseguia enxergá-la e sei que este momento foi importante para ela também, tanto quanto foi pra mim, ou até mais. Ela entregou pro Cris, nosso amigo que hoje é padre. Nesse dia soubemos que o Clever seria pai. Nossa, quanta lembrança...
Foi difícil sobreviver em Bauru, principalmente com eu paizinho todo o tempo me dizendo pra voltar, que aquele lugar não prestava, só me fazia mal, me deixou doente... Essas figuras inesquecíveis, e outras que não estão listadas aqui, são os grandes responsáveis por eu não ter desistido, são parte ativa na conquista do meu diploma que, há pouco meu pai enfim reconheceu que não foi em vão o sacrifício. Já hospitalizado ele disse uma vez que tudo o que ele havia feito por mim eu estava agora fazendo por ele. De fato, penso que se eu não tivesse me revelado essa pessoa teimosa, talvez tivesse desistido e teria sido muito mais sofrido pra ele ficar nesta terra de gigantes que é São Paulo. Meu pai nunca frequentou escola então ele não entendia muito bem essa coisa de faculdade e pior, nunca consegui explicar direito pra ele o que faz um Psicólogo, aliás, quem consegue? Mas de alguma forma ele reconheceu que foi sim um bom investimento. Graças a Deus, à minha teimosia, ao amor apaixonado que ele sentia por mim e à força e companhia dos meus amigos queridos que tiveram tanta paciência com a menina chorona que só reclamava.
Fico pensando que quando chegar a hora da Luiza vou pirar, e ela ainda nem nasceu, mas espero que ela encontre pessoas tão carinhosas e sinceras como a mãe dela encontrou.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O tempo passa, a saudade aumenta...

Continuo triste. O tempo vai passando e vai ficando muito evidente que não foi só um sonho, que de fato aconteceu, que não está mais aqui mesmo.
A proximidade do Natal também faz isso com a gente, tempo de refletir, relembrar antes de fazer planos. Estou me sentindo especialmente sozinha, solitária. E com muita saudade...muita.
Hoje o dia está nublado e chovendo uma chuva bem fininha, deve ser para disfarçar minhas lágrimas que andam teimando em cair...

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Tarde de sol

Hoje estou especialmente triste. Lá fora está uma bela tarde de sol, com céu limpo, mas não tão azul, destes que parece que tem tanta luz que torna o azul meio desbotado. Um dia igual ao que o meu pai morreu. Dias de sol em São Paulo são meio raros, principalmente como este, que não está muito quente. Normalmente aqui é cinza ou porque está nublado, ou porque está poluído. E quando tem sol são aqueles dias quentes de "rachar" que faz você pensar "que bom que é excessão, que esta cidade é quase sempre cinza".
Hoje acordei muito cedo, para ir ao banheiro como toda boa grávida e, ao retornar para meu merecido sono lembrei-me que hoje eu tinha uma palestra pra ir. Não deu outra, precisei pular da cama pra deixar algumas coisas encaminhadas. Como tinha esquecido da palestras, não preparei nada pra minha saída tão cedo. Ao termino da palestra, quando já me direcionava para a saída, cruzei com uma pessoa dos tempos da faculdade. Nossa, que surpresa! Cinco minutos de conversa e um percurso inteiro de lembranças até o trabalho. Reunião, um papinho antes de vir embora e o percurso de volta pra casa debaixo deste céu ensolarado. Tive que me controlar pra não chorar, pois as lágrimas ofuscam a visão e dirigir chorando pode ser um tanto perigoso. Está um dia muito bonito, e quente. Meu pai detestava frio, ele sofreu um bocado aqui em São Paulo porque aqui só faz frio, especialmente na minha casa que fica bem próxima da serra do mar, como venta! Mas Deus o abençoou com um dia lindo e quente em sua despedida da vida. E também foi um dia lindo e quente o dia de nossa ultima despedida, era um sol tão lindo que minimizava a dor. O cemitério onde ele mora agora fica em lugar alto e ele está descansando defronte de uma linda vista, como ele adorava em vida. Acho que Deus também o abençoou com esta vista.
A doença do meu pai me deu algumas coisas: todo o medo que ainda me restava de dirigir nesta cidade ficou pra trás. Fiz tanta baliza com transito, rampas terríveis e ultrapassagens emocionantes que me habituei. Acho que nunca tinha sido tão independente em minha vida. Até fiquei de motorista de um amigo escritor que veio pra lançar um livro. Se faltar grana dá ate´pra ser taxista (é, não vamos exagerar). O fato é que no sufoco, dizem, se aprende até a nadar, comigo não foi diferente. Sempre fui independente e sempre fui destas que tomam a frente das coisas e sai resolvendo. E com a doença e morte do meu pai não foi diferente. Claro que não fiz tudo sozinha, mas no dia em que ele partiu, no fim eu fiquei pra acertar o que restava para a liberação do corpo e o translado até Cambuí, onde ele foi enterrado. Na viagem pra casa, durante boa parte do percurso eu tinha a forte sensação de que ele estava no banco de trás, embora ele estivesse no carro funerário que não estava nos seguindo. Sentia que era a minha missão levá-lo de volta pra casa mais uma vez, como fiz muitas outras, a ultima vez. Foi a viagem mais triste de minha vida e doía uma dor tão profunda... eu não estava sozinha, meu marido era quem dirigia e minha mãe estava no banco de trás, mas minha sensação era de que ele também estava lá. Chegamos antes do carro funerário, que chegou em seguida. Que tristeza! A casa estava cheia de amigos aguardando ele chegar, já deveria ser umas onze e meia da noite e durante toda a viagem estava uma noite muito escura. Acho que tinha estrelas no céu, mas ainda assim era tudo muito escuro. Na madrugada fez um frio. Fiquei tentada a colocar uma manta em cima do meu pai para que ele não sentisse frio, mas pensei que se fizesse o povo ia me achar muito doida. Passou a noite, chegou o dia, tanta gente. Lá em Cambuí ainda conserva-se a tradição de velar o morto em sua residência e assim foi feito com meu pai.
Minha família é católica e tem o hábito de rezar o terço. Quase na hora de sair o cortejo, olhei o relógio e ainda dava tempo de rezar mais um terço. Minha mãe pediu pra D. Elza, que foi minha catequista, para rezá-lo e ela começou dizendo que rezaria os mistérios milagrosos, porque sempre em velório rezam-se os dolorosos, mas que deveríamos rezar pelo corpo glorioso que já estava junto do Pai, porque aquele corpo ali na sala era só o cadáver. Fiquei muito emocionada e agradecida, e mais, explicou a sensação estranha que tinha de que meu pai não era aquele ali. Um cadáver. Duro, frio, sem vida. Retardei o máximo que consegui a saída do velório porque não o veria mais depois do enterro, mas ela tinha razão: a parte vital já não estava mais ali. É muito curioso. Nunca tinha chegado tão perto de alguém que morreu. Penso que talvez eu tivesse mesmo transportando meu pai de volta pra casa enquanto a funerária levava seu corpo. Não que eu acredite em espíritos que circulem por aí, mas minha missão era muito importante e minha sensação muito forte. E hoje tudo isso me voltou à memória de maneira muito viva, enquanto dirigia, nos trinta minutos que levei para chegar em casa.
Não pude visitá-lo no domingo, dia de finados. Acho que fiquei devendo a visita. Será que ele ficou me esperando, como no dia dos pais que só consegui ligar tarde da noite?