sexta-feira, 24 de julho de 2009

Um ano

Era quarta feira. O dia começou o sol ainda nem tinha nascido. Aliás, era continuação do dia anterior que não tinha acabado. Tinha chegado em casa por volta das duas da manhã, minha mãe, de tão exausta, deitou como estava e dormiu. Meu cachorro, num acesso de saudade de nós, rasgou um saco de carvão e ficou todo pretinho. Limpei a bagunça, talvez tenha comido alguma coisa, não lembro, e fui deitar. Já na cama pensei: meu Deus, será que vai começar tudo de novo? Será que eu vou passar minha gravidez no hospital? Adormeci. Acordei. Já estava saindo quando minha mãe acordou e pediu que eu a esperasse, mas que estava com muita dor de cabeça. Falei pra ela ficar e descansar mais um pouco, pois nosso dia seria longo. E foi. Só terminou no outro dia, depois que voltamos do cemitério. Hoje faz um ano que meu pai partiu. Passei o dia sendo assombrada por estas lembranças e tentando espantar todas elas, pra que lembrar dos momentos de dor? Cada vez que olhava no relógio pensava: há um ano acontecia isso. Parece que foi ontem, que foi hoje, quase não acredito que já faz um ano.
Meu pai era uma pessoa muito generosa, foi generoso até na sua morte. Nos poupou de passar anos a fio frequentando hospitais, salas de quimioterapia. Não entra na nossa cabeça essa morte repentina, ele saiu curado do hospital, do câncer e da infecção hospitalar. Passeou quatro meses e meio de bicicleta como sempre fazia, tomou sua pinguinha antes do almoço, foi feliz e de repente: bum, morreu. Difícil de aceitar, acho que nunca vou conseguir.

A vida segue, dói demais, mas ela segue. Muito outros aniversários ainda virão, se Deus quiser, pretendo viver muito pra ver minha riqueza crescer, mas vou continuar sem entender direito, sem aceitar que ele não vai mais entrar pela porta da cozinha, nem vai mais descansar no seu cantinho do sofá, nem vai levar Luiza pra jogar pedrinhas no rio...

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Relógio de sol

Mês de junho já se foi, mês das festas e dos santos. Hoje Luiza faz 4 meses e eu acordei com a seguinte lembrança: os dias vão ficando mais longos daqui em diante. Meu pai fazia todo ano um relógio de sol para acompanhar as estações do ano. No fundo da oficina dele tem um cantinho que não é coberto, onde as peças dos carros são lavadas. Neste lugar ele costumava acompanhar o movimento do sol e fazia marquinhas no chão, acompanhando a chegada e a despedida do inverno. Todo ano era assim. (Meu pai detestava o frio). Ele contava que os dias iam diminuindo de tamanho até São João (dia 24 de junho), permaneciam iguais até São Pedro e iam esticando novamente de tamanho até chegar a primavera. Meu pai era um gênio, não? Que saudade...
Luiza hoje faz 4 meses, está linda, grandona, fofa. Cada dia mais esperta, com um repertório de coisas fofinhas que ela faz e que aumenta a cada dia. Fiquei pensando: não vou saber ensinar à Luiza fazer o relógio de sol, não vou saber explicar pra ela e ela vai ficar sem saber acompanhar este movimento do espaço chamado tempo. Todo ano é igual, embora diferente e Luiza vai ficar sem a magia deste olhar porque eu não vou saber fazer igual, meu pai era único. Vovô era único e dói dentro de mim ela não ter.
Semana passada sonhei com ele duas vezes. Na primeira eu o encontrei e segurei sua mão, tão quente como me lembro que era, e senti sua presença. Na segunda eu estava contando a ele as peripécias de Luiza e ele sorria. Não me conformo, não vou me conformar, o tempo só faz aumentar minha saudade e minha indignação: então quer dizer que ele não vai voltar mesmo! Ai, ai... já vai fazer um ano. Parece que foi ontem... parece que já faz décadas... que saudade!