Era quarta feira. O dia começou o sol ainda nem tinha nascido. Aliás, era continuação do dia anterior que não tinha acabado. Tinha chegado em casa por volta das duas da manhã, minha mãe, de tão exausta, deitou como estava e dormiu. Meu cachorro, num acesso de saudade de nós, rasgou um saco de carvão e ficou todo pretinho. Limpei a bagunça, talvez tenha comido alguma coisa, não lembro, e fui deitar. Já na cama pensei: meu Deus, será que vai começar tudo de novo? Será que eu vou passar minha gravidez no hospital? Adormeci. Acordei. Já estava saindo quando minha mãe acordou e pediu que eu a esperasse, mas que estava com muita dor de cabeça. Falei pra ela ficar e descansar mais um pouco, pois nosso dia seria longo. E foi. Só terminou no outro dia, depois que voltamos do cemitério. Hoje faz um ano que meu pai partiu. Passei o dia sendo assombrada por estas lembranças e tentando espantar todas elas, pra que lembrar dos momentos de dor? Cada vez que olhava no relógio pensava: há um ano acontecia isso. Parece que foi ontem, que foi hoje, quase não acredito que já faz um ano.
Meu pai era uma pessoa muito generosa, foi generoso até na sua morte. Nos poupou de passar anos a fio frequentando hospitais, salas de quimioterapia. Não entra na nossa cabeça essa morte repentina, ele saiu curado do hospital, do câncer e da infecção hospitalar. Passeou quatro meses e meio de bicicleta como sempre fazia, tomou sua pinguinha antes do almoço, foi feliz e de repente: bum, morreu. Difícil de aceitar, acho que nunca vou conseguir.
A vida segue, dói demais, mas ela segue. Muito outros aniversários ainda virão, se Deus quiser, pretendo viver muito pra ver minha riqueza crescer, mas vou continuar sem entender direito, sem aceitar que ele não vai mais entrar pela porta da cozinha, nem vai mais descansar no seu cantinho do sofá, nem vai levar Luiza pra jogar pedrinhas no rio...
Meu pai era uma pessoa muito generosa, foi generoso até na sua morte. Nos poupou de passar anos a fio frequentando hospitais, salas de quimioterapia. Não entra na nossa cabeça essa morte repentina, ele saiu curado do hospital, do câncer e da infecção hospitalar. Passeou quatro meses e meio de bicicleta como sempre fazia, tomou sua pinguinha antes do almoço, foi feliz e de repente: bum, morreu. Difícil de aceitar, acho que nunca vou conseguir.
A vida segue, dói demais, mas ela segue. Muito outros aniversários ainda virão, se Deus quiser, pretendo viver muito pra ver minha riqueza crescer, mas vou continuar sem entender direito, sem aceitar que ele não vai mais entrar pela porta da cozinha, nem vai mais descansar no seu cantinho do sofá, nem vai levar Luiza pra jogar pedrinhas no rio...
