terça-feira, 28 de dezembro de 2010

E o Natal? Foi bem, obrigada!

Toda familia tem suas tradições, também inventamos a nossa. Desde que me casei passo o Natal na casa da sogra, mas antes de viajarmos fazemos nossas trocas de presente aqui em casa e comemoramos uma especie de Natal antecipado. Isso porque gosto de manter a intimidade do casal apenas com o casal, se é que me entende. Ano passado já tinha a Luiza pequenina, mas já nem tanto, ganhando seu primeiro veículo, uma scooter. E esse ano, bom, precisava ser diferente, porque ela precisa entender o que é esse tal de Natal. Logo vi que se montássemos a árvore com muita antecedência, ela não chegaria até o dia D, então fizemos assim: montamos no dia, como a gente vê nos filmes americanos, e foi demais. Durante o dia fomos eu e ela comprar a árvore, já que nem isso tínhamos conseguido fazer, esse ano foi um tanto sofrido. Claro que já não tinha coisa muito bonita, mas saiu uma pechincha, então tá valendo. E chega a noite, monta a árvore, coloca as bolas, o pisca pisca, Luiza cuidou de tudo junto com papai, enquanto mamãe registrava o momento. E montamos o presépio, mamãe contou toda a história enquanto surgia cada personagem, foi muito legal. E ela já assimilou alguns nomes, como o do Menino Jesus, nosso protagonista, e assim, a cada ano, ela vai entendendo o que é Natal de verdade. Ela ganhou uma boneca que ela mesma escolheu e disse que ia pedir pro Papai Noel. Ao ser questionada sobre quem deu a boneca, ela respondeu que foi o papai, acho que porque foi ele quem pegou o pacote no quarto e trouxe para a sala, para suas mãos.

Dia seguinte, bora acordar cedo para ir pra casa da vovó. Dia inteiro de espera, os primos ansiosíssimos para abrir os presentes que aumentavam a cada hora do dia, com a chegada de mais um familiar. E resolveram contar, no fim concluíram que tinha mais de 100 presentes embaixo da árvore. Primeiro come, canta parabéns pro Tio Léo que faz aniversário e enfim, vamos ao que interessa. E foi a bagunça de sempre, todo mundo presenteando todo mundo, montinhos de presentes sendo feitos por cada integrante desta grande familia, de membros e herdeiros a agregados, todos sempre sendo muito presenteados. Uma boa oportunidade de renovar o guarda-roupa, a adega, a biblioteca. Minha cunhada disse que inovei este ano, demos batom liquido pras meninas. É que tendo todo ano, é fatal repetir os tipos de presentes. Tudo bem, o que vale é a grande festa que se forma e este é o único dia do ano em que eu realmente me sinto muito feliz e satisfeita de estar no meio desta bagunça, junto de minha sogra, embora longe de minha mãe (na casa dela não tem nada disso, tradição é tradição e lá a coisa é outra). Mas hoje, ao acordar, dei-me conta de uma coisa: não fiquei triste. Não tive vontade de chorar nem senti aquela terrivel dor que se instalou em mim depois que meu pai se foi. Talvez mais um milagre de Natal? Quem sabe...

E o Papai Noel? Ah, desta vez ele veio como se deve, depois que todos foram dormir e, ao acordar na manhã seguinte tinha um lindo e grande e pesado presente ao lado de nossa "cama" para a Luiza, um pula pula. E eu fiquei pensando o quanto meu pai se divertiria em vê-la pular e brincar e gargalhar. Isso o faria muito feliz. Isso o fazia muito feliz. E fiquei me lembrando dos brinquedos que ele fazia pra mim, dos passeios no rio para nadar, da casinha que ele me fez no quintal. Ela ganhou uma destas barracas de personagens, da princesa Mônica, toda rosinha e lilás. Ela chamou de guarda-chuva, mas quem foi presenteada mesmo fui eu, foi uma destas que vi na escola quando tinha 6 anos. Era uma destas que eu queria ter tido e que meu pai, sem entender direito tentou fazer parecido, muito melhor na verdade. De repente fui criança de novo, pena ele não estar aqui para ver.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Feliz Natal! E por que não?


E é com essa imagem magnífica que desejo Feliz Natal a quem costuma passar por aqui. Meu pai era louco por aviões, já contei essa história aqui. Passou a vida maravilhado com essa invenção fantástica e Santos Dumond era por ele considerado um dos mais inteligentes homens já vistos por aqui. E quando vi as cortinas do teatro se abrirem no domingo, na festa de fim de ano da escolinha da Luiza pirei. Olha que aeromoça mais linda! É ou não é de parar o quarteirão aéreo? E pensei o seguinte: se vovô estivesse dando sopa por aí pegaria esse avião na hora só para babar nesta comissária lindíssima de pernas grossas e ficaria tumultuando o vôo só para contar a todos os passageiros a borda que essa riqueza é sua neta! Ainda passo mal de pensar como encontro nela coisas que eram tão dele. Acho que ela já ama os aviões também!

Pai, essa é para o senhor. Te amo, você continua vivo na minha saudade e mora no meu coração. Ainda bem que te levei comigo no domingo, como sempre te levo aonde vou, assim pelos meus olhos o senhor também pôde admirar e babar na nossa Luiza!


Alguns recadinhos: Flávia e Kécia, vocês são uns amores e eu amei os selinhos, prometo postá-los assim que conseguir, mesmo quando a gente não tem porque correr, a vida nessa época do ano vira uma correria, aff.

Minha querida Lu, depois vou fazer um post só para contar a emoção que senti em saber de sua gravidez, acho que fiquei um pouco grávida também, te amo amiga linda, te amo muito!

A todos e todas que passearem por aqui eu desejo um ótimo Natal, com muita festa e solidariedade, com muita comilança e presentes, com muita gente querida em volta. E só para dar noticias, o Papai Noel virá nos visitar este ano pela primeira vez, vai trazer uma boneca, entre outras coisas, e juntos vamos celebrar e cantar parabéns para o menino Jesus e agradecer a Ele e ao Papai do Céu por cada descoberta nesse pequeno pedaço de vida, mas já com tanta história pra contar.

Muitos beijos no coração.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Apenas o de sempre.

É, mas nem sempre o de sempre acontece como sempre. Estou especialmente triste neste final de ano. Não há dor maior do que a perda da ilusão. Quem não sonha não consegue seguir adiante, apenas se deixa levar.

Acabo de receber a ligação de um tio, irmão do meu pai, uma pessoa que nunca significou muita coisa em minha vida, que nunca fez muita questão de fazer parte da minha família e que tinha tudo para desaparecer de nossas vidas agora que meu pai já não está mais por aqui, mas não, ele ligou. Passei o ano meio preocupada com sua saúde achando que deveria ligar, mas como já disse, nunca houve uma intimidade, sempre esquecia. E hoje quando ele ligou eu quis mesmo falar com ele. É o terceiro Natal sem meu pai e falar com o seu irmão que ele adorava é meio que falar um pouquinho com ele também.

Semana agitada, tudo ficou pra última hora e não é como sempre, começo a pensar no Natal lá no inicio de novembro, mas este ano a vida ficou suspensa aguardando que minha sogra fizesse uma angioplastia que aconteceu só na semana passada e que correu tudo bem. Então, corre, corre, corre, para não ficar para a ultima das ultimas horas. A partir de amanhã sou mãe em tempo integral e aí não dá pra me estapear comas pessoas por aí atrás daquela lembrancinha que faltou. Montei a sacolinha de Natal da criança que adotamos na Igreja e foi a coisa mais doce que já fiz na vida. Não sei quem é a pessoa que vai receber a sacola, não sei que carinha tem essa menina, mas uma vez na vida achei realmente especial essa coisa de brincar de Papai Noel. Acho que eu fui mais um dos duendes dele, saí por aí procurando o melhor presente, não podia ser qualquer coisa. E consegui comprar a calça super fashion, com umas flores bordadas e pespontos em cor rosa. Uma blusinha pink combinando, tom sobre tom. Tênis preto de bolinhas pink, meias da mesma cor do sapato, brilho do Boticário, caixinha com três, necessaire também rosa para guardar o brilho e um ursinho de pelúcia, amarelo, mas com orelhas listradas de rosa. Tudo combina. Ia fotografar, mas estava tão empolgada pra embrulhar tudo que só me lembrei quando quase metade já tinha virado pacote, aí desisti, porque o que conta mesmo é o amor depositado por mim em cada detalhe, em cada peça. No cartão escrevi assim: "Neste Natal nosso coração ficou mais aquecido e desejamos que o seu coração sinta-se assim também". E foi o tempo gasto cuidando deste gesto que fez meu coração bater forte este ano. Não foi bem essa a minha ideia, não era essa caridade que eu desejei fazer neste fim de ano, mas como não costumo duvidar de que Deus nos coloca no lugar certo, quem eu quis ajudar também pôde receber o amor de mãos caridosas e carinhosas. A esta hora o anjo que aqueceu meu coração talvez já tenha recebido o presente e talvez esteja neste momento se aventurando a abrir cada um dos pacotes que coloquei dentro de um pacote maior para que ela tenha a emoção de ter uma surpresa de cada vez. Talvez ela ame tudo o que comprei, talvez nem seja a cara dela todas essas fofuras em tom rosa, mas enquanto cuidava de tudo com muito, muito carinho, eu ficava pensando o quanto teria feito diferença na minha vida ter recebido um carinho vindo sei lá de onde. E tomara, ela consiga sentir todo o afeto que mora em meu coração.

Esse ano foi difícil. Eu ando cansada demais já faz tempo, porque eu sempre tive que lutar muito, pedir muito, buscar muito, brigar muito, fazer muito tudo, tudo, para conseguir alguma coisa. E escolhi dedicar a minha vida a ajudar as pessoas a serem um pouco mais felizes, talvez porque buscasse minha própria felicidade. Mas lidar com o desejo do outro é uma frustração sem fim, então cansei pra valer e decidi dar um tempo, descansar um pouco, só que estou mais cansada como nunca estive antes. Dei-me conta de que meu dia este ano começou no primeiro minuto do primeiro dia de janeiro e não vai acabar no ultimo minuto do ultimo dia de dezembro. Sem sair de casa para trabalhar, trabalhei horrores, trabalhei como nunca, sem direitos de ordem alguma, uma completa escravidão, porque meu único compensador pra tudo isso se perdeu pelo tempo. Enquanto escrevo tem um senhorio na minha cabeça me lembrando de que tenho que fazer o almoço e passar as roupas senão a coisa vai ficar ainda mais feia pro meu lado. Eis que vejo surgir no horizonte algumas oportunidades de trabalho fora de casa, mas o que será de mim se tudo aqui dentro continuará me esperando pacientemente, como aconteceu essa semana que saí às compras? Perdi a ilusão, estou sendo arrastada pela avalanche desta vida.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

"O TEMPO PASSOU E ME FORMEI EM SOLIDÃO"

Cheguei em casa à pouco e como de costume vim checar meus e-mails e afins. Alguns cartões de Natal de empresa. O que dizer de um ano em que o que posso esperar é isso, malas diretas? Aí abri o e-mail enviado por um amigo, um dos poucos amigos que ainda me enviam coisas, cujo título é este aí em cima. E não resisti, resolvi postar aqui, pois com toda a correria deste fim de ano nada convencional em minha vida, eu também não consegui enviar nada a ninguém. Ainda, espero.


De: José Antônio Oliveira de Resende Professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João del-Rei.

Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.
Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.
– Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.
E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.
– Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!
A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro... casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.
Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:
– Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.
Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite... tudo sobre a mesa.
Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança... Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam.... era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade...
Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa.. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, t ambém ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos... até que sumissem no horizonte da noite.
O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail... Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa.
Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:
– Vamos marcar uma saída!... – ninguém quer entrar mais.
Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.
Casas trancadas... Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite...
Que saudade do compadre e da comadre!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A criança que mora em mim quer acreditar em Papai Noel. A criança que mora em mim é a criança que já fui outrora e que não cresceu. Continua esperando presente no sapatinho, continua esperando a boneca a pilha que nunca veio, continua esperando uma confraternização como aquelas de filmes, não sei o que fazer pra essa criança crescer. Alguém já sentiu saudades do que nunca viveu?

Sábado fomos ver passar o comboio de Natal da Coca-Cola, aqueles caminhões iluminados: lindo! Foi tão rapidinho, mas a Luiza curtiu ao máximo, ficou dando tchau e jogando beijos pro Papai Noel que vinha puxando o comboio a bordo do seu trenó e que por sua vez jogava balas pras crianças. Eu chorei como criança pequena. Aí fiquei na dúvida: chorei emocionada por ver minha florzinha encantada, ou foi a criança em mim que chorou por nunca ter tido nada disso. Todo mundo tem suas crises, suas faltas, mas a gente se adapta e sempre segue adiante. Eu não tenho conseguido. Uma palavra mal dita desencadeou em mim um sentimento ruim que teima em não ir embora, há semanas ando querendo sumir, fazia tempo que não tinha destas coisas. Às vezes me dá uma ansiedade, parece que vou explodir, estou atolada neste sentimento e por mais que eu tente, não consigo sair do lugar. Tem certas coisas que ficam tão enraizadas dentro da gente que, não importa o esforço, os anos de terapia, não sai, não morre, pode até adormecer, mas está lá, quietinho esperando pra pular pra fora na hora certa, pra nos fazer sofrer de novo. Deveria existir uma modalidade de terapia que permitisse passar uma borracha.

Comecei esse ano tendo que digerir um fracasso e sinceramente, estou com medo de fazer planos pro ano novo. Um dia meu marido me disse que o que deu errado pra mim na verdade tinha dado é muito certo. Foi bom dar um tempo e durante este tempo cuidar da casa e da familia me preencheu, me satisfez, me fez feliz. Aguentei um tanto de gente me enchendo pra eu voltar logo a trabalhar, mas era intriga da oposição, eu sentia assim e sentia que no tempo certo as coisas aconteceriam. Perdi a conta do número de vezes que agradeci a Deus por não ter que sair pra trabalhar este ano, depois de uma noite muito mal dormida por conta de uma dor de ouvido, um dentinho novo que está querendo nascer, um pesadelo. Sou mãe e me folgava saber que tinha tempo para ser mãe. Tempo para dormir quando todos já estão trabalhando e repor minhas energias para ser mãe, para ter paciência de ser mãe, para ajudar a minha filha a crescer e dar seus primeiros passinhos, os primeiros que a levarão a ganhar o mundo. Ajuda esta que me faltou, que me foi dada pela metade, que fez de mim uma pessoa insegura, me completava saber e sentir que abrir mão de parte da minha vida me tornava eficiente naquele pedaço que é hoje o mais importante da minha vida: a maternidade. Num dia, num instante tudo desabou na minha cabeça. Sei que cometi alguns erros, dei passos em falso e no tempo certo trataria de cuidar de cada um deles, mas não agora, não nesta hora, não desta forma. Fiquei mal comigo. Tudo o que andei escondendo de mim mesma enquanto descansava e tomava fôlego para enfrentar, puf, pulou na minha frente, pra me machucar, pra me fazer sofrer. Só ando conseguindo enxergar a falta. E anda me faltando muita coisa.

Estou com medo de recomeçar, de fracassar de novo, de novamente fazer escolhas efêmeras, de chegar no fim da próxima metade da minha vida e de novo ver que não consegui, que não foi da forma que planejei e sonhei. Quando criança eu logo aprendi a não desejar o que não poderia ter, apenas sonhava, bem poucas coisas pedia e apenas uma vez pedi uma coisa que de fato não poderia ter e não ganhei e doeu uma dor sem fim, doeu uma vida inteira até que cresci e pude enfim realizar o tal desejo por meus meios. Fechei uma gestalt (como dizem os gestalterapeutas). A partir daí não desejei mais nada, essa coisa de querer um objeto ou outro, uma bolsa nova, um móvel novo, uma viagem. De repente não precisava mais desejar ou sonhar com estas coisas, eu poderia tê-las se quisesse. As revistinhas, discos, livros e mais tarde cds e dvds que não podia comprar até uns anos atrás poderiam ser meus se quisesse, não me faltava nada, enfim eu tinha chegado em algum lugar e ganhado algum poder. E nem por isso me tornei uma pessoa consumista e perdulária. Talvez por nunca ter tido dinheiro pras melhores roupas, sapatos e brinquedos, sempre corri atrás do conhecimento, sempre amei uma biblioteca e logo que aprendi a ler, com 7 anos, pedi dinheiro pro meu pai para comprar livros (afinal eu já sabia ler). Comprei Chapeuzinho Vermelho e Os Três Porquinhos. Esses foram os meus primeiros livros e eu mesma fui lá papelaria da minha cidade comprá-los. Escolhi estes não porque os desejasse, mas porque eram os disponíveis, e eram meus. De resto, qualquer coisa me bastava. Minha inquietude no entanto não me deixou ficar com qualquer coisa e eu quis mais, quis ser melhor e não só ter mais coisas. Mas parece que eu rodo, rodo, rodo e caio no mesmo buraco. Como se eu tivesse errado feio quando desejei ser melhor. Eu poderia apenas ter ficado com o desejo de querer comprar isso ou aquilo, mas eu quis ir além. Só que eu não consegui ir tão além assim. E me perdi pelo caminho e não sei como me achar desta vez. Estou com medo de fazer planos e quebrar a cara de novo. Assim como quando criança, se eu não desejar não vou sofrer se der errado. Dá pra entender? Só que esse sentimento é muito ruim. Ando me sentindo não merecedora das coisas. Falta, falta, falta. Olho o armário e me faltam roupas e sapatos e bolsas. Olho o resto da casa e falta espaço, falta organização, falta coragem. Olho dentro de mim... falta. Meu marido me perguntou o que eu queria de Natal e eu, quase dormindo, respondi: muito dinheiro. Muito dinheiro pra contratar uma lista de personais: um pra me ajudar a me vestir, um pra me ajudar a me comportar. Outro pra me ensinar a procurar emprego. Um pra organizar a minha casa e minha bagunça. Outro pra me ajudar a emagrecer. Uma secretária do lar pra que eu não tenha tanta coisa pra fazer o dia inteiro e enfim possa ter tempo para usufruir de todos os serviços descritos acima. Não quero ser outra pessoa, mas quero ser diferente do que tenho conseguido ser até hoje. Quero mudar o que me faz infeliz, quero aperfeiçoar o que tenho de bom, quero aprender o que ainda não sei quero conseguir chegar lá e ter orgulho do que fui e vivi. Tentei ser melhor, tentei ser diferente, tentei ir além, tentei fazer tudo sozinha, só que eu não consegui.

Ao invés de adotar uma carta no correio meu marido optou por adotar uma criança na Igreja e isso tem me tirado o sono. Não a conheço, nunca nem vi foto, mas gostaria que ela ganhasse coisas que realmente não pode ter por seus recursos. Temo gastar demais nessa hora de pouca grana (é que tem uma lista grandinha com roupa, sapato, lembrancinha...). Penso que não é porque uma pessoa depende da bondade de outras que qualquer coisa serve. Adoraria ser um bom Papai Noel, um de verdade, igual no filmes e nas histórias que a gente ouve contar. Assim esta menina que nem conheço, ao menos uma vez na vida, poderá sair na rua e exibir os lindos presentes que o "bom velhinho" lhe trouxe. Era assim que acontecia quando eu era criança...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Sabe aquela sensação de ter faltado à aula em dia de prova? Pois é, hoje acordei com ela, só não sei o que fiz de errado. Acabo de chegar da rua e, apesar de ainda ser dia 6, tudo já está com aquele ar de 23, quase véspera, quase Natal. Uma música no rádio, uma centena de lembranças e uma esperança. Planos para o Ano Novo? Talvez eu faça algum, talvez não. Minha experiência me diz que promessas de Ano Novo são feitas para não serem cumpridas, então, pelo sim, pelo não, acho que apenas vou desejar o de praxe: muito dinheiro no bolso (amém) e saúde pra dar e vender (amém, amém). De resto... bem, me parece que o Papai Noel virá este ano.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Mulheres e carros.

Nada me causa mais admiração do que ver uma mulher da terceira idade dirigindo. Na verdade, da quarta idade, estou falando de mulheres já passadas dos 70, 75. Fico impressionada sempre, porque não é cena comum. Agora mesmo, parei na padaria para cometer alguns abusos e ao entrar no carro para vir embora notei que o carro ao lado do meu era conduzido por uma senhorinha de, digamos, uns 80 anos. Fico admirada porque esta geração de mulheres ainda é àquela submissa ao poder dos homens, a que ficava em casa cuidando do marido e dos filhos e sempre sujeita ao que era por ele, o marido, determinado. E dirigir é coisa de homem, ao menos era. Já as mulheres de 60 são coisa mais comum de se ver ao volante. Estas fazem parte da geração Paz e Amor, irmãs e primas daquelas que queimaram sutiã na década de 60 pedindo igualdade de direitos. Como minha mãe e minha sogra, ambas com idade na casa dos 60. Minha sogra sabe dirigir, minha mãe não. Minha sogra parou de dirigir, só o fazendo em caso de necessidade. Como pode alguém parar de exercer sua liberdade e independência? Agora que sobreviveu a um infarto pensa em retomar esta prática, porque não há experiência de maior liberdade do que o encontro com a morte. Será por isso que dirigir é tão libertador? Não entrarei nesta questão.

As rodas de um carro são a extensão de suas pernas, mais ágeis e fortes, capazes de te levar aonde for possível chegar assim. E a direção. Bem, o nome já diz. E eu posso decidir ir para lá, para ali, meu desejo decide, minhas mãos comandam e o carro obedece. A cada dia percebo que dirigir é um ato muito mais intuitivo que técnico. No inicio é difícil porque precisamos incorporar o carro, fazê-lo parte de nosso corpo para que bem possamos conduzi-lo. Não posso tomar decisões por quem vai ao lado, apenas decido pelo que está dentro de mim. E este complexo brinquedo para a ser parte de mim, parte do meu corpo e obediente aos meus desejos, compensa o que a natureza não me deu, mas que posso conquistar, graças a um certo número de malucos sonhadores que ousou ir além. Que bom que cheguei neste mundo depois deles.

Neste mês completo 5 anos de motorista, uma vitória. Sempre fui destas pessoas que nunca se deixou intimidar diante de nenhum obstáculo. Prestei vestibular contra a vontade do meu pai, fui morar longe, muito longe de casa e completamente sozinha, eu e Deus, nenhum amigo, parente. Viajei para fora do país sem falar nenhuma palavra de outro idioma que não o meu, enfrentei e venci muitos desafios, mas nenhum foi tão difícil quanto este. Aprender a dirigir até que não foi tão complicado. Logo na primeira aula já saí me aventurando por aí e enfrentei uma tempestade. Eu pensava: esse professor é louco. E evolução nas aulas, balizas perfeitas e: reprovei no teste. que desânimo, foi tudo tão rápido, nem deu tempo de repensar a resposta antes de passar para o gabarito. Puf, acabou. Fiquei deprimida, passei quase um ano sem sequer passar de novo na porta da auto-escola, quem dirá entrar. Aí me deu um medão de ter que fazer tudo de novo se não tomasse coragem logo, afinal já estava na última etapa para conseguir o meu "porte de arma" como gosta de brincar uma amiga, ou minha "carta de alforria", minha passagem para a liberdade. No dia do exame quase não consigo ir por conta de uma diarreia. Chegando na auto escola, meu Deus, era um pesadelo, as mesmas pessoas que haviam reprovado comigo anteriormente também estavam lá. Quantos exames não teriam feito até então. Tive um amigo que reprovou 7 vezes antes de passar. Já tinha até perguntado sobre o "quebra", o suborno, me recusava a ficar reprovando uma centena de vezes. E não é que de fato eu tinha escolhido uma auto escola honesta? Nada de quebra, vamos ter que ir na raça. Chego no local do exame, quem estava lá? Meu algoz. O delegado que me reprovou, era uma pesadelo, só podia ser. Ah, a luz no fim do túnel surgiu, não era ele e sim uma delegada que estava comandando os exames. E o meu foi o primeiro, que bom, não iria suportar a pressão de ver a galera reprovando antes de mim, precisava me livrar logo daquilo. E entra no carro, coloca o cinto, liga, engata a primeira, sai, põe segunda, liga a seta, pára, vira a esquina, primeira, segunda, seta, vira, pára no meio do quarteirão e faz a baliza, uma, duas... sua última chance. Puts, e agora? Ao menos desta vez tive chance de rever a resposta. Espera um pouquinho. Respira. Fale consigo mesma, converse com Deus, tudo em voz alta. Organiza o pensamento, os sentimentos, as emoções e vamos lá. Perfeita. Pode seguir. Um errinho bobo, mais duas esquinas e, "cabô". Nem tive coragem de olhar pra delegada, tentava de canto de olho olhar a nota no papel, mas tive de perguntar. PASSEI!!!!!!!! Ela me deu os parabéns e até hoje frequenta minhas boas lembranças e recebe minhas boas vibrações. Eu dizia que Deus mandou um anjo para me ajudar. Minha terapeuta na época brincou que talvez ela tenha ficado com medo do meu Deus caso me reprovasse, afinal conversamos na frente dela no meio da prova. E eu considero esta a minha maior vitória.

Mas a coisa não acaba por aqui. Porque entre ter a permissão e dirigir de fato tem uma enooooorrrrrrrme distância. E foi num destes momentos de exame de consciência, de estar insatisfeita com minhas escolhas que percebi que precisava sair do lugar, figurado e literalmente. De repente me vi com uma criança doente nos braços e outra sendo puxada pela mão, mais sacolas, dentro do metrô, ou um ônibus, não lembro agora, com um carro parado na garagem e uma permissão vencida sem nunca ter sido usada na carteira. Tremi por dentro e daqui saiu a minha coragem de enfim enfrentar este que foi o meu maior desafio até hoje. E consegui. E o resto de medo que ainda morava em mim dissipou-se quando meu pai ficou doente. Na necessidade não dá tempo de ficar pensando muito. E de repente me via fazendo coisas que achei que nunca seria capaz (dirigir tarde da noite e sozinha; fazer baliza com uma fila de carros buzinando e esperando pra passar, e outros).

Cresci numa oficina mecânica e sempre amei os carros. Dirigir pra mim sempre pareceu coisa natural, mas na hora do vamos ver vi que a coisa não era assim, mas consegui. Estou fazendo fisioterapia e por isso tenho saído todos os dias de carro, ando me sentindo. É como se o mundo se rendesse aos meus pés, posso conquistar tudo o que quiser, sou livre e independente para isso. É um prazer inexplicável.


Flávia, quando vi a senhorinha dirigindo logo pensei em você e continuo pensando. Se você quizer, eu te ajudo, a gente acha uma forma.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Brincadeira da Tag, ou... Falando de mim



Outra vez a Flavia, do Baú de Tesouros e Conexão Flavia me escolheu para essa brincadeira intitulada “Brincadeira da Tag”. É muito gostoso ser escolhida e esta me lembrou aqueles questionários que a gente fazia e passava pra galera responder, nos tempos da escola. Eis as regras:

1- Você coloca a foto de tagged no post.

2- Falar 10 ou mais coisas sobre você (qualquer coisa), 5 ou mais manias (esquisitices) suas, 5 ou mais coisas que te irritam, 5 ou mais coisas que você adora, 5 hobbies seus; 5 coisas que ninguém sabe sobre você; seu maior sonho; seu maior medo; as coisas mais importantes na vida pra você.

3- Você ‘taggeia’ mais 5 pessoas para participarem da brincadeira!

Bora responder ao desafio

10 coisas sobre mim
1. Sou baixinha;
2. Sou mineira;
3. Amo frequentar uma cozinha e esquentar a barriga no fogão;
4. Adoro ficar sem fazer nada;
5. Sou bagunceira ao extremo, mas com uma porção obssessiva;
6. Sou casada com um principe;
7. Sou mãe de uma linda princesa, claro;
8. Pra mim familia sempre vem antes de tudo;
9. Odeio ser contrariada;
10. Adoro uma cerveja com os amigos nos dias quentes e um vinho nos dias frios.


5 manias minhas/esquisitices
1. Gosto de arrumar tudo por ordem de tamanho para que tudo se encaixe e fique na mais perfeita ordem (paradoxo - aqui mora minha porção obssessiva);
2. Tenho mania de combinar tudo: a blusa com o sapato com a bolsa, com o batom, com a presilha do cabelo, e por aí vai;
3. Apertar cravos e espinhas e cutucar qualquer saliência que meus dedos encontrarem;
4. Ler 399 vezes a mesma coisa, por exemplo, os avisos no elevador;
5. Entrar em loja de quinquilharia para ver se encontro algum "achado", pegar um monte de coisas e na hora de pagar, sair devolvendo tudo que é "demais". Na maioria das vezes acabo não levando nada.


5 coisas que me irritam
1. A surdez (a temporária e a definitiva) do meu marido;
2. Coisas que não funcionam direito;
3. Palpites alheios, todo mundo sempre sabe mais de mim e da solução dos meus problemas do que eu mesma. Como assim?
4. Essa minha mania de ficar explicando tudo pra todo mundo, o que abre espaço para o item acima. Não aprendo.
5. Minha mãe colocando defeito em tudo que eu faço.


5 coisas que eu adoro
1. Dormir;
2. Comer;
3. Ler: leio tudo que cai na minha frente, de livros a avisos, de placas a tratados escritos em portas de banheiro;
4. Escrever;
5. Falar, falar, contar histórias, conversar, jogar papo fora.


5 hobbies
1. Orkut, e-mail, navegar no ciberspace;
2. Cantar;
3. Ouvir rádio enquanto dirijo;
4. Assistir TV - séries, novelas, desenhos, noticiários, qualquer coisa que esteja passando, amo!
5. Deitar no sofá e ficar olhando o teto enquanto penso na vida.

5 coisas que ninguém sabe sobre mim
1. Já tive delírios tomando muito café, mas já devo ter contado isso pra alguem.
2. Adoro cenas "calientes" de novelas e filmes.
3. Tenho fascínio pelo tema "morte".
4. Já fiz amor no sofá da minha s... ups, contei.
5. Fico horas olhando as capas de revistas nas bancas só para saber o que vai acontecer nas novelas e o que andam fazendo os artistas.
6. Ah, essa nunca contei pra ninguém: já quis ser atriz de novelas. E paquita da Xuxa, apesar de nunca ter sido sua "baixinha".


Meu maior sonho
Hoje: colocar ordem na bagunça da minha casa e na bagunça do meu coração;

Meu maior medo
Não ver minha filha crescer. Nada me apavora mais do que isso.

As coisas mais importantes pra mim
Minha filhinha.
Meu marido, mãe, irmãos e sobrinhos. A memória do meu pai.
Minha casa, minhas fotos e minhas histórias.

Agora eu deveria indicar cinco blogueiras para "taggear" também. Mas farei assim: as que me seguem ou visitam meu espaço e quiserem brincar, deixe um comentário e eu terei o maior prazer em indicar.

Valeu Flávia, ando me divertindo com estes desafios.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

São Paulo.

Viver em São Paulo às vezes é como entrar num filme, numa novela. Aquele barulho de carros passando, sirenes, muito barulho, "balalhão", como fala minha pequena. Ontem vi uma cena curiosa, ao menos para mim. Saía do metrô de volta pra casa quando primeiro ouvi o som de um helicóptero e depois vi pessoas torcendo o pescoço para olhar para cima e ver aquela "maquina" enquanto pousava em cima de um prédio. Cresci numa cidade muito pequena no interior de Minas. Nem tão pequena, nem tão interior, mas nem de longe se parece com isso aqui, nem de muito longe. Lá, quando passava pelo céu um helicóptero ou avião era evento importante, todo mundo parava onde estava, o que estava fazendo para olhar para o céu. As pessoas saíam de dentro dos comércios, iam para as janelas das casas, mas ninguém podia perder. E ai de quem estivesse no banheiro no momento. É que estas "super máquinas" passam muito rápido por uma cidade pequena desaparecendo logo no horizonte. Quem não viu, perdeu. Mas aqui? Confesso, foi quase um dèjá vu àquela cena. E de repente meus neurônios se ligaram num momento tão comum hoje na minha vida e pude ouvir o barulho dos carros, dos ônibus, misturado com a conversa das pessoas e mais uma tanto de sons diferentes e misturados, me senti no cinema, mas desta vez estava dentro da tela. Vim morar ao lado da sede de um grande banco e bem próximo ao Aeroporto de Congonhas e todos esses sons fantásticos e cinematográficos passaram a fazer parte do meu dia a dia, quase como o barulho do isqueiro acendendo o fogo e a água caindo da torneira na caneca de alumínio, que depois era colocado sobre o fogo para se tornar um delicioso cheiro de café feito por meu pai, vindo da cozinha direto para meu quarto e para integrar meus sonhos. Huuuuummmmm, se fechar os olhos posso de novo sentir àquele cheiro de coisa boa, de infância, de amor. E claro, o som dos passos firmes do 752. Hoje, às 5 da manhã, mesma hora do café de outrora, não sinto cheiro algum, mas ouço os primeiros ônibus que começam a circular pela avenida e lá pelas 6 passa por minha cabeça o primeiro avião. Os helicópteros, tem dias que são muitos o dia todo, num ir e vir ritmado, posso vê-los de minha janela, penso que deva estar acontecendo algum evento com gente importante demais para enfrentar o tráfego rodoviário. Às vezes ainda abro a cortina da sala para observá-los. Mas tudo isso foi aos poucos se tornando a minha rotina. Lembro-me da minha primeira vez na Avenida Paulista e a a sensação de ser "uma caipira na cidade grande", que dor no pescoço, os altos prédios são muito mais altos ao vivo. Ainda criança construíram o primeiro prédio na minha cidade, tinha 7 andares e eu acho que nunca tinha visto um tão de perto em minha vida. Certa vez, andando com minha mãe e minha irmã na rua, enquanto minha pequena mãe se contorcia para olhar no mais alto ponto daquele prédio recém construído, vi que ela se chocaria com o poste à sua frente. Ah, eu era criança, não me contive e antes mesmo dela trombar com o mal educado poste que não lhe deu passagem,eu já me acabava de tanto rir. E ri por anos a fio contando esse fato, até que perdeu a graça. Pois é, acabo de rir de novo.
Ontem, por uns poucos segundos, voltei a sentir o encantamento de chegar aqui, de ver e ouvir o gigante de pedra e asfalto. Desembarquei em São Paulo, terra onde ousei levar meus sonhos ainda criança e que, com persistência e fantasia, tratei de conquistar. Estou onde sempre quis estar e, apesar do que dizem por aí, eu amo e sou muito feliz aqui, entre carros, helicópteros, aviões e sonhos. E muito torcicolo para admirar toda esta beleza.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Será que Papai Noel virá este ano?

Nunca acreditei em Papai Noel. Porque estas lendas são contadas aos filhos pelos pais e os meus, tão simples. E coelhinho da Páscoa e fada do dente e outros e outros, nem sei. Fui criada por alguém que foi tão privada de tudo, desde o mais essencial, quem dirá o fantástico. Minha mãe perdeu a sua mãe aos 2 anos de idade. Foi criada um pouco na mão de madrasta, um pouco na mão de e de tia, um pouco na mão de ninguém. Desde muito pequena aprendeu a não desejar sequer um colo quentinho e acolhedor pras noites de medo, o que mais ela poderia ensinar? E foi assim comigo, minha infância foi um eterno "não pode ter". Nem sei se as coisas eram tão caras assim, mas o fato é que nem ousava pedir, então era melhor mesmo que Papai Noel fosse coisa de televisão. Mas não faltava nada de essencial em casa. Ninguém passou fome ou frio e para mim tinha presente de Natal, de aniversário às vezes, e ovo de Páscoa. Mas era assim: quando muito pequena minha mãe escolhia o que eu ia ganhar. Teve até um Natal que eu ganhei panelinhas. Eram grandes e serviam para guardar o que sobrava do almoço, tinha dupla utilidade. Quando penso que minha mãe escolheu o presente de acordo com sua própria conveniência acho meio cruel. Não eram as panelas que tinha imaginado, mas eram lindas, amarelinhas. Enfim, ao menos tinha presente e eu, criança doce e obediente, treinada para não desejar o que jamais poderia ter, ficava feliz de qualquer jeito. Meus Natais foram ficando tristes à medida que crescia, ficava moça, quando criança não. Achava natural minha vizinha ganhar boneca a pilha, o pai dela tinha mais dinheiro. Ou o pai dela achava isso importante e o meu não, e nem era maldade dele, coitado. Nunca tive um brinquedo a pilha e hoje até aqueles brinquedinhos muito vagabundos que a gente compra em camelô tem pilha, mundo moderno. E eu fui crescendo sempre acreditando que qualquer coisa era melhor que coisa alguma, ainda que só uma bobagem, ao menos eu não era esquecida como foi a minha mãe. E minha vida sempre foi uma realidade muito real. Sem lendas, sem crendices, apenas as de que o Papai do Céu está vendo, então melhor andar na linha. E aquelas besteiras de que não se pode comer manga e tomar leite. Mas não sem sonhos, eu acreditava em princesas e em contos de fadas. E no príncipe salvador que vinha no seu maravilhoso cavalo branco e me livrava da maldição da bruxa malvada (uma vida cheira de privações) e me levava para viver no seu castelo (uma vida mais fácil, mais confortável), junto com toda a minha família, mas não sem antes receber a bênção de Deus. Acho que já nasci com alma rebelde, por que tinha que conformar de que seria sempre assim? E de fato não foi. Fui além, muito além. Graças aos meus irmãos que me "batizaram" com a promessa de que minha vida seria diferente. Graças a meus amigos e amigas de infância,que tinham exemplos diferentes em suas vidas que me influenciaram também, graças a meus pais, que mesmo com tanta falta e mesmo sem entender que caminho era esse que resolvi trilhar, me me apoiaram, e graças a Deus, que permitiu que fosse assim. Certa vez fui fazer as unhas em Bauru, onde estudava, e conversa vai, conversa vem, a manicure me disse que um dia ela iria estudar Psicologia também. Um dia. Claro que esse "um dia" nunca seria o dia, a oportunidade e folgo em saber que não me conformei e meu dia chegou. Busquei com ansiedade e vigor e persistência, e o encontrei.

Mas e agora? Papai Noel virá visitar nossa casa neste Natal? Não sei. Pode parecer um dilema bobo, contar ou não uma lenda. Não sei se quero que minha filhinha cresça enxergando um mundo tão nu quanto o meu, não sei o que fazer. Isso na verdade já estava decidido, Papai Noel não existe e pronto. Na casa do meu marido tinha o Papai Léo (seu pai se chama Leonardo) então concordamos. Mas ano passado, na casa da minha sogra, onde passo o Natal, o Papai Noel veio fazer uma visita e trouxe um milhão de presentes e foi lindo ver nossos sobrinhos, Angelo de 5 anos, e Vicente de 3 anos, encantados com aquele milagre de Natal. Aqueles olhinhos brilhando, meu Deus, eu não sabia que isso existia, que podia ser tão belo e mágico, tão lindo! E foi um quiprocó danado, nem todos os presentes eram deles e ficou difícil controlar a ansiedade de abrir todos os presentes ao mesmo tempo, quase atrapalhando a tradicional troca de presentes que acontece por lá todo ano. Acho que pra esse ano a coisa precisa ser melhor combinada, Papai Noel precisa ser mais claro nas suas regras.

É difícil porque eu não tenho histórias assim pra contar e qualquer coisa que eu conte não virá recheado de encantamento e amor, mas da falta disso.

Vivemos a era do politicamente correto, mas o lobo mal comia a vovózinha na minha época e era sim pra atirar i pau no gato e nem por isso eu e meus amigos nos tornamos bandidos. Problemas de auto-estima? Quem não tem? E o Papai Noel, o que eu faço com ele?

Quem sabe se eu escrever uma cartinha com aqueles desejos secretos escondidos no meu coração desta vez ele não me atende?

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Histórias de Natal - de onde vêm?

Meu pai não era de festas, não era de Natais nem de presentes. Minha mãe até contava que antes ele até que curtia tomar uns garrafões de vinho e comer macarronada com bastante molho vermelho, mas o pai que eu conheci dizia que era tudo superfluo ou fazia mal. Criticava as comilanças de fim de ano, dizia que era bobagem. Mas mesmo assim ele comprava o pernil e dexava que minha mãe fizesse a maionese para acompanhar e o almoço de Natal sempre foi um senhor almoço, com doce de figo de sobremesa. Acredito que, à maneira dele e apesar do falatório, ele também gostava de celebrar. Eu sempre ficava chateada, queria que na minha casa também tivesse ceia e troca de presentes, meus Natais eram sempre tristes por isso. Só no ultimo dia dos pais que passei com o meu pude compreender de onde vinha tudo isso. Ele não aprendeu a vivenciar estas datas como todo mundo por aí e eu só enxerguei isso diante do seu encantamento ao abrir o aviãozinho (miniatura) que lhe dei no seu ultimo dia dos pais: ele não disse, mas pude ver que aquele era o primeiro brinquedo que ganhara na vida. E o bolo dos seus 75 anos também foi o primeiro bolo. Bom, seu ultimo Natal foi no hospital, levamos presentes, mas ele não quis celebrar, sabemos bem o por quê. Como ele era durao e só sabia ver defeitos nas coisas, ninguém se animava a afrontá-lo e mostrar que a percepção podia ser outra. Apenas quando foi chegando perto de sua partida é que ousei realizar as coisas que eu tinha vontade. Que bom, ele também ficou muito feliz.

Mais um Natal está aí, dando as caras e já estou ansiosa. É porque agora tenho minha menininha e a importante tarefa de contar a história do Natal e ajudar a constuir dentro dela um sentimento bom. Eu ainda fico triste. Meus Natais se transformaram depois que me casei, mas certas coisas ficam muito enraizadas. Como será este? Como serão os próximos Natais da minha vida?

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Histórias de Natal.

Tenho várias, mas quem não tem. Esta noite, quando fui me deitar e o sono demorou um pouco a vir descobri enfim o que me causou essa crise toda de idade. Alguns sonhos e desejos de criança e adolescente já não são possíveis mais, já passou. E quem me disser que não liga de ver o tempo passar, sinto muito, mas para mim está mentindo. Talvez eu ainda consiga dançar ballet ou andar de patins, mas daqui pra frente será a "coroa" ou "idosa" que se superou, sem contar na dificuldade. Minhas costas doem de segurar minha filha e semana passada sucumbi, tive de ir ao médico. E não vai adiantar tomar o remédio porque a dor vai passar e vai voltar, preciso mudar de postura, de vida, de rotina, como se fosse coisa fácil. Prometo nunca permitir que a Luiza abandone a prática da atividade física, assim nunca passará por isso.

Estivemos em Águas de São Pedro no fim de semana com a galera, nossa galera, sim, ainda a temos apesar do tempo. E a mesma galera ficou impressionada com as aberturas de pernas da Luiza, já nasceu bailarina. Será que um dia fui assim? Tenho minha dúvidas. E ela corria, corria, pulava, brincava, dançava, uma delicia de ver e eu exausta e com dor. Agora é assim. Sempre tive dificuldade de passar pra próxima fase, tenho mania de elaborar o luto, preciso disso pra continuar. É uma necessidade infinita de não deixar nada para trás, nada por fazer, nada de arrependimentos. De viver intensamente cada momento, cada fase de vida, mas confesso: estou confusa. Quando criança, a gente quer ser grande. Aí crescemos e queremos ter 18. Aí fazemos 18 e queremos morar sozinhos. E estudar, formar, casar, ter sucesso profissional, ter filhos. E depois de tudo isso, o que a gente deve querer? Ver os filhos criados e felizes? Ah, mas isso é a realização do outro, claro que um outro demasiado importante capaz de nos fazer abdicar de nós mesmos, mas, temos que abdicar de tudo?
Uma velhice tranquila? Ah, me poupe, apesar de em crise e entrevada, isso ainda está longe de acontecer, já tenho 34, mas só tenho 34. Se vou viver até os 70, ainda tenho metade mais um ano. E aí?

Bom, tenho alguns planos: estou ensaiando voltar a trabalhar de verdade, ter um emprego mesmo, quem sabe. E ter outro filho depois do emprego (conquistado e estabilizado). Uma casa maior. Talvez conhecer alguns lugares. Tá, tudo bem, mas e aquele fervor de ser criança, ser adolescente, aquela comichão que a gente sente desejando que logo o aniversário chegue porque num passe de mágica seremos donos do nosso nariz? Não consigo me lembrar onde foi que isso se perdeu. Quando fiz 30 anos comemorei horrores e escrevi um e-mail pros amigos contando do quanto me sentia realizada e este clima de felicidade perdura até hoje, por isso minha indignação de repente sentir meus pés cravados no chão desta maneira. Eu precisava mesmo passar por isso? Não podia continuar iludida acreditando que logo conseguiria me equilibrar nos patins roller que ganhei há alguns Natais atrás, ainda que sem nunca tentar?

Mas o titulo diz: Historias de Natal. Como já disse, tenho várias, mas quero contar só uma: a do único Natal que teve árvore cheia de presentes embaixo, fizemos amigo secreto e eu ganhei a minha sonhada boneca Suzi (uma similar da Barbie). Tinha papais noéis de chocolate pendurados na árvore e todo dia eu ia lá roubar um. Como toda criança eu ficava ávida pela chegada deste dia apesar do Papai Noel só existir na casa das outras pessoas. Mas minha mãe dava um jeitinho, sempre tinha um presente, ainda que baratinho. Mas esse Natal minha irmã mais velha que sonhava com um Natal diferente, igual ao das outras famílias, preparou a árvore, inventou o amigo secreto, ajeitou os presentes debaixo dela. Não me lembro quantos anos eu tinha nem como foi a troca dos presentes, mas esta foi a primeira vez que meus olhos brilharam diante das luzinhas de Natal. E que chegue logo o próximo. Amém.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

"Vovô Izio"

Ontem a Luiza me viu no computador e ficou pedindo para ver o "neném" (os vídeos que fazemos dela e que ela adora ficar assistindo). Para variar um pouco, coloquei a retrospectiva que apresentamos no seu primeiro aniversário. Enquanto assistíamos, sei lá, pela terceira vez, quando apareceu a foto que está no perfil do blog, eu e meu pai prestes a entrar na igreja no dia do meu casamento, ela falou: "Mamãe Vovô Izio". O Adriano perguntou quem era para confirmar e ela repetiu: "Mamãe Vovô Izio". Dá pra imaginar o tamanho da emoção que senti? Semana passada eu peguei o álbum do casamento e fiquei mostrando a ela as fotos e ensinando o nome das pessoas. Já tinha tentado isso há alguns meses atrás, mas sem sucesso. E ela foi aprendendo quem era cada pessoa daquele álbum. E acabou, não mostrei mais. Mas ela não esqueceu, já conhece a imagem e sabe o nome do Vovô que só existe na foto. Acho que ela já está começando a conhecê-lo e, quem sabe, a amá-lo. Fico curiosa para saber o que está no pensamento dela, o que passa por sua cabecinha quando olha uma foto de alguém que ela nunca viu. Espero que em breve ela me conte.
Acho que estou conseguindo. Ele também já começa existir na memória dela. Que bom.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

752

A inspiração às vezes vem de coisas improváveis. Hoje acordei cedo, vamos receber visitas e a casa precisa estar em ordem. Enquanto fazia café ouvi barulho de sapatos/passos. Pensei que minha vizinha de frente usa sapatos barulhentos, mas não deveria ser ela, talvez o vizinho de cima. Logo me lembrei, meu pai usava sapatos 752 da Vulcabrás, tinha até o comercial na TV. Ele dizia que aquilo sim é que era sapato e costumava ter dois pares, um mais velho pra trabalhar, e outro mais em ordem para ir à missa. E para acompanhar usava chapéu Panamá. Elegante não? Trabalhava assim o dia todo e depois saía para passear. Detalhe: meu pai era mecânico de carros, vivia sujo de graxa. Era uma marca o chapéu, ele era careca e o usava para se proteger do sol, mas vinha dos sapatos o som cadenciado dos seus passos, tão característico, peculiar e único que a quilômetros de distância quem o conhecia já sabia: lá vem o Anizio, como ele era conhecido. Cada pessoa tem uma maneira de ser, de se portar, algumas são mais expressivas, outras mais apagadas, mas cada pessoa guarda características que o definem e pelas quais você a reconhece. E ele era dono de um jeito muito marcante. Eu gostava de ouvir seus passos quando criança e ele me levava no colo. Ele andava devagar, mas com passos largos e firmes, o que tornava quase impossível acompanhá-lo. Minha mãe, com seu 1,43 de altura e pernas muito curtas logo desistiu. Depois de um tempo era coisa rara vê-los juntos na rua. Iam para a mesma missa, mas cada um no seu tempo e com os seus passos. Não, meu pai não era alto, deveria medir 1,66/67, não mais que isso. Era o mais baixinho dos seus irmãos e parentes e acredito que por isso mesmo tinha verdadeira fascinação por gente alta e até se achava alto e ao lado de minha mãe era mesmo muito alto, mas alta mesmo era a sua alma. E grande. E grandiosa. Dono de uma autenticidade rara, não se intimidava com nada e falava o que lhe vinha à mente sem se preocupar se quem ouvia iria gostar ou não. Ele era destas pessoas sem "papas" na língua e chegava mesmo a ser inconveniente em determinados momentos, o que poderia ter lhe rendido alguns inimigos, mas não. Era também dono de uma ingenuidade e suas palavras eram dotadas de tanta verdade que o que ele arrebatava era respeito. Todos o respeitavam. E o amavam. Ele era uma pessoa apaixonante mesmo. De olhar sincero e apaixonado, expressões fortes e contador de histórias emocionado, quem o odiou é porque não sente amor nem dor, é porque não sente. Ele era puro sentimento e isso ficava marcado em cada um dos seus gestos, era exalado pela sua pele e podia ser percebido na cadência dos seus passos calçados de sapato 752. Com o tempo o sapato foi substituído por botas feita sob medida e por sapatões, desses de trabalhar em roça, e o chapéu por boné. Eram outros tempos e o boné lhe concedia um ar mais jovial, como já disse, meu pai tinha medo de morrer e esforçava-se por manter-se muito jovem. Mas seus passos fortes e confiantes mantinham-se os mesmos, até o barulho dos sapatos, não sei como. Acho que o som gostoso dos passos dados no seu 752 passaram a fazer parte dos seus pés e não mais dos sapatos. Apenas no fim de sua vida seus passos fortes tornaram-se inseguros causando-me espanto e dor. Ele já se despedia da vida mesmo sem saber e o esforço para lutar pela vida roubaram-lhe parte da vivacidade, seus passos também se ressentiram. Oscilavam entre forte e fraco, refletindo sua condição interna conflituosa dividida entre lutar e se deixar ir. Não sei, são minhas estas impressões, talvez tenha sido mesmo assim, eu acho. E ele,que não era de se abater por pouco nem era de desistir fácil das coisas (era teimoso que ele só), fez um acordo com Deus por intermédio do Frei Galvão (já contei isso aqui). E por quatro meses e meio ele recuperou a força dos seus passos e passeou por aí como se nada nunca tivesse mudado. Mas o acordo chegou ao fim e enfim chegou o dia e ele deixou-se partir para sempre, magoando meu coração e me deixando desesperada de saudades. Sua herança? Fecho os olhos e ouço seus passos aproximando-se e me flagrando na esquina, sou flagrada sempre pela minha lembrança. Meu amor não me deixa nunca esquecer.

Domingo estivemos na casa do meu pai, da minha mãe. No fim do dia, quando me preparava para vir embora, num impulso virei-me na direção de um dos quartos para me despedir dele. Um segundo de ilusão. Talvez ele estivesse por lá.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Fui Desafiada

Recebi este desafio da Flavia, do blog Baú de Tesouros e Conexão Flávia e depois tenho que desafiar outras blogueiras e foi uma deliciosa surpresa. Eu nem sabia que era possível conhecer pessoas e tê-las em alta conta, assim, virtualmente. Estou gostando. Obrigada Flávia, adorei ter sido uma de suas escolhidas, também estou me sentindo VIP.

1 - O que te levou a criar um blog?

Perdi meu pai quando estava grávida de 8 semanas. Era muito confuso conviver com a vida e a morte tão de perto e precisava elaborar o meu luto para que conseguisse estar pronta para receber em meus braços a riqueza que Deus me deu, minha bonequinha sapeca. No inicio eu queria conversar com meu bebê, mas só conseguia falar com ele. Consolava-me ele ter sabido que teria um neto antes de partir, parece que ele estava só esperando a noticia, mas me doía e ainda dói saber que ele nunca será o vovô querido dela. E foi assim que nasceu o Histórias de vovô para Luiza. Minha grande e querida amiga Lu me sugeriu e eu embarquei como forma de conseguir lidar com tudo isso e também para construir um vovô que pudesse ser amado pela minha filhinha, a memória do pai por quem sempre fui doida e que sempre foi doido por mim.

2 - O que tira você do sério?
Falsidade. Sou ingênua, semrpe confio nas pessoas e me decepciono e sofro quando percebo que nem sempre são verdadeiras.

3 - Você tem alguma mania ou vício?
Combinar o laço com o sapato, com a calça, com a roupa. E outras coisinhas chatinhas por aí.

4 - Qual a sua melhor lembrança?
Um "Baú" de lembranças. Destaco algumas: ver meu pai chorar de saudade quando fui pra faculdade e vê-lo chorar na formatura. Entrar na Igreja pra me casar e a mais facinante de todas, única: ouvir o choro da Luiza no seu nascimento (pela primeira vez na vida percebi que o mundo pode parar).

5 - Qual o seu maior sonho?
Já os realizei: ser mãe, casar e ser Psicóloga. Daqui pra frente é ser feliz, só isso.

6 - Se fosse um dinossauro, como sechamaria?
Que pergunta é essa? Se é para ser velha, preferia ser anciã e de preferência não ser extinta rsrsrsrsrsrs.

7 - Qual personagem da sua infância gostaria de ser?

Cinderela. (Nem me lembrava mais do fascínio que essa estória exercia em mim)

8 - Cite uma peça que não pode faltar no seu guarda-roupas e outra que jamais usaria?
O bom e velho jeans, sempre. Não usaria aquelas calças que tem o cavalo muito baixo, que parece que você está de fralda vencida, acho feio.

9 - Um lugar que ama!
A casa da minha mãe, onde eu cresci. A mesa da sua cozinha, acompanhada de bolo de fubá e pão de queijo e uma garrafa de café fresquinho, cercada de gente boa e boa conversa. Tem lugar melhor? E claro, a minha mesa, que não fica na cozinha, mas que também é muito boa de papo e garfo.

10 - Que filme você amou e recomenda?

O Pássaro Azul (velho, muito velho). Recomendo por que ensina o que é felicidade. História de Nós Dois. Minha amiga Lu me deu de presente de casamento e sempre que as coisas não vão bem me lembro da cena em que percebem que o que incomoda hoje foi o que apaixonou lá no inicio. Acho que este ensina sobre a tolerância. Ah, tem o Dança Comigo, que fala de sentido de vida, lindo esse filme, sem contar que dá vontade de sair dançando com o delicioso Richard Gere (não leia isso marido rsrsrs)

11 - Qual ultimo livro que você leu?
Segredos de uma Encantadora de bebês(Tracy Hogg e Melinda Blau). Interessante, mas li meio tarde. Comer, Rezar, Amar (Elizabeth Gilbert), estou doida para ver o filme. A Garota das Laranjas (Jostein Gaarder), com certeza o livro mais lindo que já li, também fala de sentido de vida. E o melhor de todos, Os 10 Pecados de Paulo Coelho, do Eloésio Paulo, meu amigo e professor, divertido, interessante e uma boa forma de se conhecer a obra do referido autor.

12 - Qual palavra te define?
Intensidade.


Agora o desafio vai para:

Lu, do blog da Luciana Arruda e do site www.abailarina.com.
Kecia, do blog Mamãe Motherna -Uma viagem à Motherland.
Dani, do blog Mamãe Coragem e Seu Trio.
Ariela, do Blog PS-Baby.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Nos tempos da escola.

Confesso: não ando me dando bem com a passagem do tempo. Não consigo superar essa crise, meus 34 anos andam pesando demais sobre meus ombros e minhas costas andam gritando com esse peso. Não sei o que fazer. Nunca liguei muito pra esse lance de idade. Quando tinha 12 anos me davam 15, 16. O máximo não? E quando tinha 15 me lembrava das coisas que fazia e falava aos 12 e passava mal. Pensava: como eu era criança. E foi sendo assim até ontem. Não consigo entender o que foi que mudou. Sempre tive alma anciã. Colecionava coisas e registrava histórias em minha memória pensando que um dia estaria sentada em minha cadeira de balanço dividindo toda uma vida com meus netos, mostrando cartas, fotos, quinquilharias, todos guardados com muito amor apenas aguardando para servir a um único propósito: mostrar o quanto vivi intensamente e fui feliz. A coisa ficou meio complicada quando fui obrigada a aprender a usar o computador, me encantei com a agilidade da rede e parei de escrever cartas, acho que minha "herança" ficou comprometida depois disso. Siiiiimmm, herança. No primeiro ano de faculdade tive uma disciplina de nome 'Psicologia da Morte'. O objetivo era estudar as várias teorias sobre o luto, a morte e o morrer, mas para mim foi muito mais que isso. Nunca tinha pensado nela, dado espaço para entender o que era isso e minhas únicas experiências com a "dita cuja" haviam sido o velório do pai de uma vizinha, cujo choro e discurso emocionado soaram muito confusos para mim (eu era bem pequena e acompanhava minha mãe), e a morte de um tio, a primeira vez que vi meu pai chorar. No fim do ano a professora nos pediu como trabalho pra nota que fizéssemos uma caixinha de vida. Uma caixa com o que quiséssemos dentro que pudesse simbolizar tudo que estudamos durante as aulas. Nossa, me realizei. Coloquei lá tudo que havia colecionado até então, cadernos de poemas, aqueles cadernos de recordação que a gente dava pros amigos escreverem, terços, relíquias, fotos, tudo o que tinha importância na minha vida. A professora interrompeu minha apresentação no meio porque estava longa demais e eu não era a única a apresentar. Fiquei mortificada, mas tive de aceitar, era o ultimo dia de aula. Eu estava tão envolvida e apaixonada pela minha caixa de vida... Horas mais tarde, no churrasco de fim de ano da turma ela veio e se desculpar por me interromper e me disse que de todas as caixas apresentadas naquela noite a minha era a que tinha mais vida. Dez para mim! De lá pra cá passei a dialogar diariamente com ela, a morte, e fui tratando de viver bem e bem viver todos os dias de minha vida. E passei a ter pavor da não despedida. Pelo sim pelo não, passei a me despedir das pessoas que amo como se nunca mais fosse vê-las e tratei de não ter mais arrependimentos, não, eles não fazem parte dos meus sentimentos. Mas tudo mudou quando me tornei mãe. Tive que conviver com a emoção de ter uma nova vida crescendo em meu ventre enquanto digeria aquele triste fato de que a morte não é só uma amiga conselheira que andava me ensinando a viver intensamente cada momento. Ela é a dona do destino que até pode ser generosa e enviar avisos de que anda rondando como forma de nos dar uma última chance de fazer as coisas direito, como devem ser feitas, mas sua missão é uma só: nos levar daqui. E ela levou meu pai. A gente tenta racionalizar, ele estava doente, mas não, não abranda a intensidade da dor de não mais poder tocar quem se ama. Acho que neste momento me rebelei. Posso abraçar meu marido todas as manhãs como se fosse a ultima vez, mas não posso me despedir dessa maneira da minha filhinha quando a deixo na escola. Não posso entregá-la à dona do destino, nem posso permitir que ela me leve causando tamanha dor a pessoinha que mais amo nessa vida, que saiu de dentro de mim, não, não! Aí eu cansei de brincar de viver intensamente, não quero mais um dia de cada vez, quero todos os dias, quero ser jovem de novo, quero ter vinte anos no máximo. Abandonei o adeus. Agora é até breve.

Talvez seja isso. Como fui velha até hoje, agora que o tempo do declínio anda chegando, desejo minha juventude de volta. De repente olho em volta e vejo uma mocinha linda, simpática, fofa, fazendo gracinhas e me chamando de mamãe e tenho que coçar o olho para ver que é sim verdade, ela existe e é minha. Ah, eu quero uma vida inteira de novo, quero que seja verdade, que estou tendo uma segunda chance, por que o espelho teima em me contrariar?

E assim vou seguindo, pensando nos tempos da escola, tentando rememorar cada detalhe de uma vida enquanto me divirto sendo de novo criança. Novamente um paradoxo. Preciso dele para viver. E nada da minha memória me dar uma colher de chá e sempre sendo atropelada pelo tempo. Quando criança o Natal demora pra chegar. Mas já é quase Natal de novo? Nem vi o ano passar. Isso me dá mais medo do que a própria morte.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Pelas mãos.


Porque quando somos adolescentes acreditamos muito nos homens. Ouvindo uma música que adoro, Caminando por la Calle - Gipsy Kings, me lembrei de uma das vezes em que fiz papel de idiota na vida, apesar da boca bonita. Fazer o que, faz parte.

Você sabe que está envelhecendo quando começa a lembrar destas histórias e percebe que elas aconteceram há... anos, fazem anos. Mas o efeito desses anos se mostram mesmo, não nos cabelos brancos, não nas marcas no rosto, mas no dorso das mãos. Dá pra colocar botox, cortar aqui, esticar ali, mas nas mãos... A flacidez da pele, as manchas. Muitos cremes e algumas técnicas amenizam, retardam, mas não são capazes de apagar por completo toda a vida impressa naquele pedaço do nosso corpo tão essencial. Não são capazes de devolver o que só nascendo de novo tornaria possível ter. Pelas mãos apreendemos o mundo, pelas mãos entramos em contato com tudo à nossa volta, pelas mãos realizamos coisas, pelas mãos encontramos o outro. Com as mãos controlo o volume da música que ouço neste momento, com elas preparo o jantar da minha família. Acaricio o os cabelos de minha filha, acolho meu marido, deixo que meus amigos se aproximem, cumprimento estranhos.
No inicio da semana tomei um susto: minha mãos pareciam conter rugas. Mas no dia seguinte voltaram ao normal, embora não consiga me lembrar de como eram 10 anos atrás. Nos meus anos de estágio, sempre no fim do dia minhas mãos e meus pés doíam demais, minha terapeuta me dizia que era porque com estas extremidades que eu me relacionava com o mundo. Como pode, me dedico a muitas atividades hoje que exigem demais das minhas mãos, mas elas não doem como doíam quando eu trabalhava quase que exclusivamente com a cabeça (intelecto). Já não sinto a necessidade de estalar os dedos o tempo todo depois das 4 da tarde, nem sinto falta daquela massagem, na maioria das vezes nem lembro dela, só quando vou à manicure, porque massagem é coisa boa de se receber em qualquer situação, sempre, ao menos eu acho.

Fiquei cabreira estes dias todos, pensando nas minhas mãos e me lembrei das muitas mãos que já vi se expressarem na minha frente e claro, as mãos do meu pai falavam muito. E me dei conta de que ele tinha um jeito bem arrogante de apontar o dedo para dizer não ou repreender por qualquer coisa que minha Luiza faz igual. Enfim alguma coisa dele nela. E fico pasma por perceber que as heranças não estão apenas nas feições, mas em tudo. Enquanto ela cresce vamos percebendo uma coisinha aqui e outra ali da tia, da avó, do avô. E por aí vai, duas famílias inteiras que se juntam numa única pessoinha. Engraçado como coisas bem irritantes nas outras pessoas, nela ficam lindas. Como esse gesto do meu pai, nele era insuportável, nela é fofo e engraçado, ao menos por enquanto. E não é só o que faz a mão, mas a expressão e o tom de voz também, igualzinho.
Certa vez estava eu aos beijos com meu primeiro namorado na esquina de casa quando fui flagrada pelo meu pai. Eu tinha 14 anos. Ele ficou doido, ficava repetindo que não podia, que eu era muito nova pra namorar e foi neste quiprocó que eu recebi minha primeira declaração de amor: meu namorado olhou fundo nos olhos do meu pai e disse mas eu gosto dela. Eu não sabia o que se seguiria depois disso, aliás na minha cabeça adolescente eu só conseguia vislumbrar um futuro negro, com o pior castigo de todos, mas naquela hora tudo valeu a pena, tudo bem, ele gostava de mim. E não é isso que a gente quer desta vida? Pensando naquela cena depois, percebi que meu pai não tinha me visto e não me veria se eu continuasse abraçada, teria me escondido dele sem problemas, meu pai era meio lunático e andava na rua pensando nas suas coisas, duvido que ele ficasse reparando em casais apaixonados a ponto de tentar descobrir quem era, mas eu, filha obediente, ouvi o som dos seus passos e reconhecendo, me afastei do jovem mancebo que gostava de mim. "Fui flagrada, meu pai está chegando". Olhei para ele e só depois de alguns segundos ele viu que era eu ali. Fui traída pela minha lealdade. Eu saberia a quilômetros de distância que era ele se aproximando não por sua imagem, mas por reconhecer o seu jeito de andar e o som dos seus passos, jeito tão peculiar que hoje vejo impresso em certos gestos da minha pequena. Devo carregar um tanto deles em meu jeito também e talvez minhas mãos carreguem muito das suas mãos, assim como pude enxergar nas mãos pequenas da Luiza. Não a estética, mas a expressão.

Então, por que querer apagar a marca do tempo? Não quero. Mas confesso, ainda não me habituei a essa nova fase em que posso enfim enxergar o tempo que se passou e tudo o que vivi em cada pedaço do meu corpo. Sempre foi assim, mas em geral só percebemos quando vemos fotos antigas, ou nem tão antigas. Ver no espelho para mim também é novidade.

Meu pai era um contador de histórias, mas tinha horror à passagem do tempo. Cuidava de sua saúde com obsessão. Se diziam que alface era bom pra saúde, comamos alface. Não, couve é melhor, então troca. Coma os dois. E cenouras, muitas cenouras, que é bom pra pele. Ele não queria envelhecer, não queria morrer, embora essas duas coisas possam ou não estar ligadas, mas esse é o curso natural da vida.

É incrivel como vivemos sempre um paradoxo. Quando jovens somos o pique total pra tudo até pra quebrar a cara uns cem milhões de vezes. Aí nos tornamos mais maduros e já não cometemos os erros bobos de antes, mas o pique declina. Não deveria ser o contrário? Quando muito jovens deveríamos ser freados por qualquer coisa para não exagerar e mais tarde, já maduros, enfim o pique total para mergulharmos nas mais deliciosas aventuras de toda natureza, com responsabilidade.

Acho que, como meu pai, também não quero morrer.

Ontem, depois de mais de 2 anos eu descobri do que ele morreu: a super bactéria. Klebisiella Pneumoniae. Nunca vou me esquecer deste nome. Estou certa de que não foram os antibióticos, mas sua fé que o tirou do hospital para que ele pudesse bem viver mais alguns meses e pudesse enfim despedir-se dos seus e da vida. Pelas mãos de Deus, apenas isso. Perdi o medo de falar da morte, não acho mais que só por falar ou pensar nela ela vai me pegar feito bicho papão. Mas passei a ter medo dela, muito medo. E ponto final.

sábado, 16 de outubro de 2010

Dessas coisas que tocam o coração.

Tem uns dias já que quero escrever, mas a coisa não funciona assim, as palavras precisam surgir, não basta parar pra pensar.
Nas ultimas duas semanas vivi momentos muito gostosos, desses que realmente tocam o coração. Primeiro fui ver minha amiga querida e amada Lu dançar. Nossa, que honra ser plateia dessa "deusa". Tem gente que nasce para brilhar e ela nasceu. Não entendo da técnica, mas entendo do que nos emociona e ela me emocionou. Seu olhar era a o mais puro e sedutor (se é que isso é possível). Seus passos leves como quem caminha no céu. Já tinha visto nos vídeos, mas ao vivo tive certeza, ela dança como quem brinca, uma criança feliz que ama o que está fazendo e não tem com o que se preocupar, apenas o prazer do momento importa, mais nada. Meus olhos se encheram de lágrimas quando ela entrou na sala, achei que não ia conseguir ver o show. Pena, ela ficou tão pouquinho na minha sala, mas me sentei num lugar estratégico e pude ver toda a sua beleza e talento circulando por aquele espaço tão bem preparado para receber tanta maravilha. E sua roupa? Não era a mais brilhante, mas com certeza era a mais original, e única, porque minha amiga é única. Tenho muita sorte de ter uma amiga assim.
E outras belas dançarinas se apresentaram e me lembrei das aulas de dança do ventre que fiz, junto dessa minha amiga linda no início de sua carreira de muito sucesso, e do meu desejo de aprender aqueles passos, aquele balanço, aqueles truques. O movimento das mãos, o jeito certo de mexer os quadris sem parecer vulgar, a mágica de fazer vibrar o ventre. O Adriano ficou pasmo vendo uma dançarina "batucando" (como ele disse) com a barriga no ritmo da música. É, não é pra qualquer uma não, não é pra mim, mas posso me gabar em dizer que estava lá quando tudo começou. Estou ainda mais orgulhosa.

No dia seguinte recebi aqui em casa meus amigos Sean, Anna, Patricia e Fernanda, do curso de formação em Fenomenologia, pessoas queridas que não via há um tempão já, meus terapeutas, responsáveis pelos ouvidos atentos e pelas colocações apropriadas que fizeram tomar decisões importantes e seguir adiante num momento de minha vida em que a encruzilhada se jogou na minha frente e ficava me pressionando a escolher que caminho seguir. Não fosse o carinho deles, sei não. Foi muito gostoso. Muito, muito. E eu fico pensando o quanto sou abençoada por ter tantos amigos queridos assim.

E no feriado fui pra Bauru. Terra quente, de horizonte distante e céu muito azul. Aquela que foi o meu segundo lar.
Antes demos uma paradinha pro churrasco de 10 anos de formados da turma do Adriano, que também foi uma delícia e me deu uma "p" inveja, queria me reunir com a minha turma também, mas isso é outra história.

Chegamos à noite em Bauru, sujos e cansados, mas meu coração estava eufórico, meus olhos vivíssimos e muito atentos a tudo, ai que vontade de ver e ver e ver de novo aqueles lugares antes tão frequentados por mim. Foram seis longos anos vividos com muita intensidade, onde vivi sabores, amores, angústias. Muito do que eu sou hoje é resultado deste tempo em Bauru. Fomos pro hotel, tomamos banho e tentamos dormir. Luiza estranhou tanta emoção e chorou, e dormiu, e chorou de novo. Seis da manhã toca o despertador. Mas já, eu ainda nem dormi!Levanta, toma banho, todo mundo se arruma, quem casa às nove da manhã? Ah, a festa é tipo brunch, tá explicado. Foi lindo, original, doce, uma delicia tudo, das músicas aos doces, valeu o sacrifício para ver tão belo casal se unir numa cerimonia tão peculiar. Volta pro hotel, Luiza dorme no carro. Luiza acorda. Vamos passear! E percorremos a cidade, passando todos os lugares que costumávamos frequentar, nossas casas, os botecos, as padocas, as ruas, as lojas, o suco e um salgado a um real. O bar do Lauro fechou, mas o Bar da Rosa continua lá, pena, estava fechado, senão teria que tomar uma cerveja em nome dos velhos tempos. Ai que delícia. Nossa, uma vida de lembranças. E de repente me senti em casa de novo. Era como se o tempo não tivesse passado, como se eu tivesse saído dali ontem mesmo e não há 10 anos. Senti vontade de voltar pra lá, de morar lá de novo, como pode? Eu que sempre odiei o calor e sofri tanto com a distância? Percebi que fui muito feliz lá e posso ser de novo, como sou aqui. Quando me formei e tive que voltar sofri muito, chorei muito, mas acreditei que não conseguiria ficar por lá porque meus amigos também seguiram caminho. Nada. Minha velhas lembranças só me aproximam daquele lugar e é bom perceber o quanto cresci, amadureci e me tornei sábia, capaz de dar às coisas o valor que elas tem.
Enquanto escrevo passa um filminho na minha cabeça. À noite, depois das forças recuperadas, pizza com a velha amiga Ângela, minha primeira amiga em Bauru, com quem pude contar desde o primeiro momento, quem me carregou pra lá e pra cá por bons anos. Que delícia de encontro. E o neném precisa dormir, senão eu acho que tomaríamos muito mais vinho. Dia seguinte, conhecer sua loja, a Bem Brincando, um lugar cheio de coisas fofinhas, a Luiza amou e trouxe uns presentinhos pra casa, claro. E mais papo, e mais lembranças e uma vontade enorme de voltar logo. Acho que vou. E vamos enfim combinar um encontro? Era ela,sempre foi,quem organizou os churrascos e sua casa era um pouco nossa casa também.E Seu Lúcio e D. Maria Helena, quanta paciência para nos aturar sempre. E ela fazia saladas pros churras e ele assava a carne, ai, ai.
Pra fechar com chave de ouro, almoço na Churrascaria Guaíba, huuuummm. Peraí, não tá faltando nada? Ah, não posso sair daqui antes de passar pela padaria Copacabana pra comprar o melhor biscoito de polvilho que já provei, e outras gostosuras. Podemos partir.

Na estrada um milhão de histórias pra lembrar e contar e de repente a placa: NÃO CORRA, NÃO MATE, NÃO MORRA. Alguém já viu uma dessas? E os Treminhões, o que são mesmo? Mudaram o informe, ao invés de Cuidado, travessia de treminhões, agora Travessia de veículos grandes/longos (já esqueci, preferia os treminhões). Gauianás, Pederneiras, tardes fazendo trabalho na casa da Karina. Vontade de visitar todo mundo. A ponte sobre o Rio Tietê que caiu, a travessia de balsa. A duplicação da estrada Bauru/Jaú. E o horizonte distante, nunca tinha visto antes de ir pra lá, venho de uma terra de montes. E o sol, o céu azul, nuvens branquinhas querendo brincar, muitos poemas escritos a bordo do Expresso de Prata. Meu coração ficou mexido, muito. Acho que foi por isso que não consegui escrever, um nó na garganta da criação, fiquei sem "voz" com tanta coisa para relembrar. Como está todo mundo, o que andam fazendo? Ai, eu quero saber.

Pausa. Preciso respirar.

Muitas fotos do por do sol. Que bom que hoje tenho uma câmera que me permite isso.

Conheço alguém que se deliciaria ouvindo essa história: o vovô da Luiza. "Bauru é um cidadão", ele diria. E eu completaria que cresceu muito de lá pra cá, está ainda mais linda e bem cuidada. Talvez ele desejasse voltar lá para ver com seus próprios olhos. Ainda bem que o levo sempre em meu coração.