quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Em memória de...

Na rua da minha casa, bem no meu caminho, tem uma linda e frondosa árvore de flores amarelas. E está linda! Hoje, ao passar por ela, me pego admirando sua beleza como faço todos os dias e me vem aquele pensamento de quanta sujeira não teria embaixo daquela beleza. E me lembrei da nossa mangueira.
No feriado de setembro fizemos um churrasco na casa da minha mãe. Há muito tempo não usávamos a churrasqueira e há muito não nos reuníamos num clima tão bom. Ao longo do dia, conforme o sol ia ficando cada vez mais forte, meu irmão falava: "a mangueira tinha que estar aqui agora, que falta ela faz". Minha mãe mandou cortar a mangueira. Ela já quase não produzia mangas mais, mas a sujeira era grande mesmo sem os frutos. Meu pai era o responsável pelas folhas e ela sofreu muito para se acostumar a não tê-lo mais por perto. E sua ajuda, sua companhia. Quem somos nós para julgar sua atitudes pós viuvez?
O tempo vai passando e tudo vai sumindo. Eu ainda guardo a passagem de avião pra Salvador que meu pai guardou por tanto tempo como lembrança da única viagem de avião que ele fez na vida. Tesouro precioso. Guardo em sua memória, pela importância que isso tinha pra ele e ainda tem pra mim. 

Mas os tesouros maiores ficam guardados no coração. Todo dia sinto saudades e, quando o tempo permite, olho o céu e procuro a estrela mais brilhante. Será ele lá? 

...

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Para guardar para sempre.

No sábado saímos para jantar e, no caminho, falando de eleições e tal, eis que falo do meu pai, e Luiza solta um: "mamãe, seu papai morreu, vc esqueceu?"
Não lembro ao certo o que respondi, mas ela perguntou porque ele morreu e eu respondi que ele era velho, que ficou dodói, que ficou melhor, mas aí ele estava muito cansado e o Papai do Céu chamou ele pra ir morar lá no céu com Ele, e ele virou uma estrelinha. Aí ela disse que não queria ir morar lá no céu e eu expliquei que isso ia demorar muito ainda, que ela não precisava se preocupar com isso. E de repente ela disse: "eu fiquei triste que o príncipe da vovó Tetê (minha mãe) morreu e ela ficou sozinha". Meus olhos marejaram, que mais eu posso falar?

Meus dias estão corridos, muita luta, muita coisa pra estudar, muita casa pra limpar, uma rotina desgastante, confesso, não tenho tido tempo de nada, mas porque ainda não consegui aprender como administrar o tempo. Algumas ideias, ainda nenhuma novidade que pode mudar o rumo da vida. De vez em quando me bate um vazio, uma angústia, um questionamento. Ainda sem respostas. Continuo perdida, perdida... ao menos tenho nadado com menos força, desisti de algumas ações sem resultados e aquela sensação de nunca encontrar a praia, ainda que seja pra morrer nela, diminuiu.

Mas esses momentos fofos com a Luiza se tornaram pequenos oásis no meu deserto. Fico boba, babando. Como ela é encantadora e formidável. Que vida maluca essa, que coisa maluca ser mãe, olhar pra moça (porque ela já é quase uma moça) e pensar que ela é minha.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Meu dia especial.


Ontem foi meu aniversário de 36 anos. Confesso, me apavora pensar no número, porque não me vejo com essa idade, não me sinto com essa idade, mas já vivi tudo isso. Enfim, tanto faz.

Foi um dia especial. Tenho sentido falta de celebrar, comemorar. Comecei a me sentir em paz depois de muito tempo triste, chateada, ansiosa, sem esperanças. E boas novas tem surgido, ainda que de maneira tímida, mas é sinal de bons ventos sim.

Fui passar meu dia numa feira de gestão de pessoas. Na volta fiquei pensando que não tem como dar errado essa fórmula. Mesmo que demore um pouco, não tem como não dar certo. Comecei uma pós-graduação, esse foi o presente que me dei de aniversário. Se vou conseguir concluir é outra história, mas estou feliz de ter vencido o desafio de sair de casa depois de tanto tempo reclusa nos moldes passados. Claro que ainda tenho alguns muitos questionamentos, mas nada parece mais abalar a serenidade que estou sentindo.

E meu dia foi assim: marido madrugou e preparou uma linda mesa de café da manhã, com flores e delícias! Mas a surpresa mesmo foi a imagem acima: minha pequena assinou seu primeiro cartão pra mim. Quanto orgulho!!!!!!! E meus olhos marejaram e eu só pude pensar: "como eu posso reclamar da vida!" Minha fofa só tem 3 anos e já escreve seu nome. E claro, eu me lembrei dele, meu pai. Seu jeito peculiar de lembrar dos aniversários, e o orgulho que sentiria da neta pequenina que já escreve o nome. E me lembrei de mim mesma, pequena, escrevendo meu nome! Foi como se um filminho passasse na minha frente, eu pequena, minhas irmãs me ensinando a escrever minhas primeiras letras. Claro, eu já era mais velha, uns 5 anos talvez.  E eu treinando, escrevendo incansavelmente meu nome e mostrando: "olha pai, eu já sei escrever meu nome". E ele elogiando, achando lindo! E quando os mais velhos me ensinaram a contar até 10 em inglês e ele ficava pedindo pra eu contar para todos os clientes e amigos que apareciam na oficina dele, ai ai, não ouve no mundo pai mais orgulhoso do que ele! E Luiza, menor que eu, já sabe estas coisas. E também me lembrei de pouco tempo atrás, ter achado uns cadernos antigos com a minha letrinha, meu nome, uns nomes escritos certos, a maioria errado, NVA, NIA, NIVIA. E me lembrei do dia em que pedi dinheiro pra comprar livros, com 7 para 8 anos, tão logo aprendi a ler. Lembrei de seus olhos brilhando muito, sempre, olhos orgulhosos e apaixonados, me olhando e admirando tudo o que eu fazia e dizia, em qualquer tempo, a qualquer hora. Acho que quando a Luiza diz que sou sua princesa e diz que me ama, seus olhinhos inocentes   também carregam amor parecido com o dele, mas ainda assim estou certa de que ninguém nesse mundo me olhou como ele me olhava, me amou como ele me amava! Ele sabia amar sem nada pedir em troca. Toda vez que um de nós, ou eu ou meus irmãos, reclamávamos de qualquer coisa, ele só falava: "mas eu não mandei fazer isso!" Ele nos deixava livres, mas mantinha seus braços abertos para nos receber de volta! Que amor especial ele era capaz de sentir... claro, ele não era perfeito, tinha suas críticas para nós também, mas estava lá, nos amando, nos colocando no pedestal especial dos filhos. E quantas coisas importantes ele ensinou com seus exemplos e seus conselhos. Hoje, com 36 anos, seus ensinamentos estão mais claros que nunca! 

Tenho pensado nele todos os dias, o dia todo. Tenho sentido uma falta imensa! Eu já tinha me habituado à sua ausência, mas, sei lá, de repente a coisa andou pra trás, e eu voltei a sofrer de saudade. Sua imagem anda ficando distante, minha saudade começou a berrar! Talvez a tentativa de manter mais forte essa imagem. Saudade, saudade, saudade...

E a vida segue! Minha crise me ensinou várias coisas sobre mim. Ainda não enxergo a próxima estação, mas já embarquei no trem. Não consigo crer que meu pai morto possa me ver, pra mim essa ideia é um tanto absurda, porque nem tudo que faço, faria na frente dele. Mas se pudesse acreditar em algo do tipo, então pediria que seu amor me acolha e me guarde como quando ele estava aqui, para que minha viagem nessa nova fase de vida seja tranquila e que o destino seja de fato o sucesso. E que ele possa sentir orgulho de mim. Ou que eu possa sentir orgulho de mim junto com o pai que ainda está vivo e mora em mim! E que assim seja!

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Saudade é algo que fica...

Estou especialmente com saudades do meu pai. Dei-me conta de que nosso último dia dos pais juntos foi há cinco anos e, coincidentemente, foi no dia 12 de agosto, como neste ano. E tenho pensado nele todos os dias, todas as horas. Que seria dele se estivesse vivo? O que pensaria, como estaria? Será que estaria bem, lúcido. Será que teria energia pra curtir as netas lindas e arteiras? De uma coisa eu não tenho dúvida: Luiza seria seu xodó, porque filha de xodó, xodó é. 

E por isso a saudade fica... fica... fica...

E foi final de Olimpíadas no domingo. E assistir final de Olimpíada era bem coisa dele. Nós assistimos! E pude imaginar ele falando bem das coisas de Londres e mal das coisas do Brasil (risos), ah, meu pai era cheio de manias! Mas gostava de Olimpíadas e falava bem das atletas russas, romenas e por aí vai. Tanta saudade...

Amanhã é meu aniversário. então serão cinco anos também da primeira cirurgia dele. E cinco anos do dia em que senti que sua morte podia chegar de verdade. Então tenho que agradecer a Deus, porque ele se foi sim, mas não neste dia, e por algum tempo pude curtir e me despedir. Pude cuidar. Meu coração está cheio de doces lembranças e as mais doces deste momento são: o abraço mais carinhoso que recebi dele em toda a minha vida, na nossa despedida, no dia dos pais. E ele contando pra todo mundo no hospital que há 31 anos eu havia nascido naquele mesmo hospital, cheio de orgulho da filha que o acompanhava. E ele saiu vivo e forte, cheio de esperanças, do centro cirúrgico. E eu pude compreender uma centena de coisas naquele dia. Queria hoje, que ele estivesse aqui...

Estou um pouco triste hoje porque amanhã é meu aniversário. Mais um! Em um ano pouca coisa mudou e posso dizer que não foi pra melhor não. Ainda que novos ventos estejam soprando, ainda está tudo igual e nem sei quanto tempo ficará assim. EU queria fazer uma festa, mas não vai dar. E fico pensando que será sempre assim agora, sem festa! E vou traindo minha essência festeira. E de novo só farei anos, 36, e não aniversário.

A boa notícia é que hoje começam as aulas da pós. Estou ansiosa e com medo. Vamos ver como vai ser, um dia de cada vez. 

Fico sonhando, sonhando. O que será amanhã?

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

E Luiza gosta de maçãs

Não tem prazer maior para uma mãe do que ver seu filho, ou filha, comer! É, creio que para as mães mais encanadas com o corpo e gordurinhas a mais, talvez isso possa tornar-se um conflito, mas quem já viveu a dor de ouvir do pediatra que seu bebê ganhou pouco peso sabe do que eu estou falando. E determinada a fazer minha fofura comer e com prazer, passei seus dois primeiros anos insistindo em apresentar tudo quanto fosse possível em termos de alimentos saudáveis. E deu certo! Mas aqui não é espaço para discussões nutricionais, não. Aqui é pra falar de saudade, de amor, de momentos de conflito (por que não?), e de coincidências: a Luiza gosta de maçãs. Meu pai adorava maçãs. Esses detalhes pequenos fazem com que minha riqueza se aproxime dele, o vovô Anizio. E eu sinto meu coração se aquecer cada vez que isso acontece.

Ser mãe é tarefa um tanto complicada. Mas eu tirei de letra! Orgulho-me da mãe que me tornei e meu termômetro é a alegria e tranquilidade da minha filha, meu pai se orgulharia. 

Dificil mesmo é ser multitarefa! Agosto começou e eu ainda estou entendendo como se dá essa passagem de tempo. 

Ontem li uma coisa que fez tudo ficar claro pra mim de todo o meu processo de crise e cura: "e a receita é uma só: fazer as pazes com você mesmo, diminuir a expectativa e entender que felicidade não é ter. É ser." (Fernanda Melo). Fazer as pazes comigo! Foi isso que ficou diferente! De repente parei de me culpar pelos males da minha vida e pelos meu insucessos, parei de me culpar por não ser o que esperam de mim, as pessoas esperam demais, e passei a acreditar que ninguém é mesmo 100%, então por que eu tenho que ser? E isso me deu espaço para pensar em mudanças e projetos. 

Mas hoje fiquei muito frustrada: meu dia tem muito poucas horas para tantas tarefas as quais quero e preciso dar conta. Estou tentando me organizar e sei que não é de um minuto para o outro que toda a atitude de uma vida inteira vai virar outra coisa. Estou tentando!  Embora tenha me sentido frustrada hoje, amanhã é outro dia. Não sei o que vou fazer, como vou fazer, nem onde vou chegar, mas já saí do lugar e é isto que importa. 

Conheço duas formas de lidar com minhas angústias e frustrações: falar e escrever! Tentei falar, mas meu ouvinte não conseguiu ser sensível ao que eu dizia e nesse momento preciso de incentivos e não de críticas. Aí uma imagem me fez morrer de rir e o dia voltou a ficar leve. Então vou encerrar meu dia, vou acabar as tarefas que me propus fazer todos os dias para que a vida fique mais organizada, e vou dormir. O futuro está só começando e preciso estar descansada pra quando ele chegar de fato.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Pedrinhas na água

Fiquei pensando na minha última postagem e tentando  como achar uma forma de começar mesmo a contar as histórias minhas com meu pai para a Luiza. Como essas histórias poderiam virar parte de nossa interação de todo dia e me veio a idéia de levá-la para fazer coisas que eu fazia com meu pai quando era criança, como foi na festa de Nossa Senhora do Carmo. E me lembrei que ele me levava para jogar pedrinhas no rio. Morávamos ao lado de um rio, minha mãe ainda mora lá. E ele me levava, e depois levou meus sobrinhos. Lembro-me que adorava ouvir o barulhinho do tchibum das pedrinhas caindo na água. E pensei: já fizemos isso com a Luiza, mas preciso levá-la agora, e dizer que eu também fazia isso quando pequena, agora que ela compreende e guarda na memória. Acho que será assim que meu pai enfim se tornará seu avô. Hoje é dia do avós. Não me lembo de saber desse dia existir. Nem tive avós para comemorar com eles, talvez por isso minha dor maior pelo time dos avós da minha filha já começar desfalcado. Mas acho que encontrei uma forma de resolver isso. Vamos ver.

Estou melhor, bem melhor. Eu sou assim, preciso sofrer até a última gota pra conseguir ir adiante. tenho a impressão de que se não for assim, não vou conseguir continuar, algo vai ficar me travando, me segurando, enfim. Mas confesso que desta vez achei não ia sair do poço em que me meti. Mas passou. Não que esteja tudo resolvido, aliás, não tem nada resolvido, mas eu estou quase 100% resolvida. Não sei o que será amanhã, mas já estou pronta para chegar lá enfrentar o que vier. Claro que estou com medo, até porque enxerguei a luz, mas ainda não consigo ver o que tem nela, mas recuperei minhas forças para abraçar oque vier. Então venha!

Já tracei planos e já comecei a colocá-los em prática. E o maior e mais dificil deles foi me livrar do que me incomoda e principalmente de quem me incomoda. e daqui pra frente será assim, nada nem ninguém vai mais conseguir me puxar pro buraco de novo. Decidi não ocupar mais o lugar da pessoa ruim, da "bruxa má". Ninguém é 100%, eu também não sou e se eu posso conviver e perdoar quem está à minha volta, que aprendam a me perdoar também, do contrário, saberei que tal pessoa não vale mais a pena. Percebei que a opinião de 2 ou 3 vinha me destruindo, mas tem mais uns 20 ou 30 que não pensam assim. E vi que boba era eu por sofrer por isso. Conseguir enxergar e decidir tudo isso me fez ressuscitar. Então, que venha a vida nova! Já me sinto outra.

No mais, vou jogar pedrinhas e me deliciar ao som que vem desse movimento. Estou certa de que a vida daqui pra frente será leve como uma criança!

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Quatro anos...

Ontem a Luiza perguntou assim: "porque a vovó Silvia mora com o vovô Leo e a vovó Tetê mora sozinha?".  Eu ri e respondi: "porque a vovó Tetê morava com vovô Anizio e ele morreu, foi morar lá com o papai do céu." Aí ela concluiu: "Aí ela ficou sozinha. E o vovô Anizio é o marido da vovô Tetê.".

O que eu mais temia quando ele morreu era que aquele neném que eu carregava em meu ventre e que eu nem sabia ainda se seria menina ou menino, nunca conhecesse meu pai, de forma alguma. Que aquele que foi o meu maior incentivador e fã, que aquele que era dono do meu amor mais puro e sincero, sem diferenças, caísse no esquecimento. E me apavorava, como eu viveria sem ele? E já são quatro anos. De lá pra cá a vida ficou confusa, eu ainda estou tentando achar o caminho de volta depois do atalho que peguei para ser uma filha mais leal e cuidadosa com meu querido e amado e adorado pai. Hoje o sentimento ficou brando. Já não me desespero pela sua partida e já acredito nela, não tenho mais aqueles rompantes de "será que foi sonho?", não, já sei que não foi. Depois de sua partida tudo ficou diferente e para meu espanto a vida continuou. Mesmo que às vezes a compreensão disso me escape. O presente maior disso tudo é enxergar a obra de Deus em minha vida, que me tirou meu pai, mas trouxe no lugar a minha filha. E todo dia me sinto honrada, presenteada, agraciada, privilegiada e nem sei mais quantos elogios posso ter para a alegria que é ver a Luiza crescer. O presente que é acordar todos os dias e ouvir uma vozinha doce me chamando: "mamãe, aqui". É tanta ternura, tanta doçura, tanta delicadeza... Meus dias são recheados de tanto amor e alegria que mesmo nos momentos mais difíceis e tristes eu sou feliz. Sou feliz para sempre. Claro que eu posso colocar um tanto de 'e se...', 'porém...', 'mas como...'. Hoje, apesar da saudade que sinto, meu coração está tranquilo. Claro que a foto nunca mais estará completa, mas o meu presente tem dado conta de preencher todo o vazio e nos momentos em que ela pensa nele, fala dele, tenta compreender sua existência, meu coração sorri: meu pai está vivo!!! Então não posso me queixar. A vida que ele me ensinou continua, continua, continua... Deus seja louvado pela vida e pela nossa vida também! Amém!

segunda-feira, 16 de julho de 2012

E a Luiza quis uma noivinha.

Fomos para Cambuí neste final de semana. Eu estava ansiosíssima pra que chegasse logo o dia, era a festa de Nossa Senhora do Carmo, padroeira da cidade. Por vários dias voltei a sentir uma ansiedade antiga, dos tempos de criança, e só conseguia pensar no sabor do pastel, da canjiquinha, dos doces da festa, da alegria das barracas. Sabores da infância. E era uma empolgação muito minha, quase egoísta. Não queria ir pra levar a Luiza, mas para me levar. e por uns dias meu coração foi criança de novo!
E chegou o dia. Um frio, quase que desisto. A casa da minha mãe, do meu pai, a casa da minha infância é tão gelada. E eu, velha que estou rsrsrs, ando invocada com o frio. Bem, meu desejo era maior que o frio. E já no caminho certas coisas foram voltando. Hoje temos um carro que marca a temperatura externa, chegou a marcar 6° graus no caminho e fiquei imaginando meu pai perguntando: "Adriano, quantos graus marcou em tal lugar?" Seria divertido. Ele, que se interessava por tudo, ficaria maravilhado com essa novidade. Bem capaz dele querer sair de carro só pra ficar olhando o termômetro. Essa viagem foi mais do que o desejo de sentir sabores da infância, foi um encontro com ele. Um encontro com tudo o que ele foi, com tudo o que vivemos juntos.
Daqui há uma semana serão 4 anos sem ele. No inicio eu ficava me perguntando como seria, não podia imaginar minha vida sem ele. E estou aqui, ainda, e me habituei à sua ausência. Como foi que isso aconteceu? Como pude me acostumar? Isso é assim, de fato?
Bem, tem coisa que é assim. 

Mas a aventura não para por aqui. Planejei um monte de coisas, pretendia visitar todo mundo, estava feliz como há muito não me sentia. Mas para falar bem a verdade, só queria festar!!! E lá fomos nós. De cara comi pastel. O sábado estava lindo, um sol maravilhoso como nos anos de minha infância. Aliás, o dia estava tão lindo e o sol tão gostoso que fomos acordar a Luiza de sua soneca da tarde para não perder aquela luz. E fomos andar nas barracas. Para quem possa ler isso, vou explicar: imagine uma rua cheia de camelôs vendendo toda sorte de quinquilharias, ou bugigangas, e no meio disso umas barracas de comida - sanduíches de pernil, maçãs do amor, doces vendidos a quilo. E pipoqueiros, vendedores de balões de gás. E a quermesse: uma grande barraca atrás da Igreja onde se vende pastel, canjica, chocolate quente, cartuchos de doces e mais um tanto de coisas.
Luiza ficou baratinada com tanta coisa pra ver e desejar. Ela se interessava por tudo e pedia tudo, ai que delícia! Por uns instantes era como se eu fosse criança de novo! Além de conhecer a festa, estávamos atrás de um 'rapaz', um boneco tipo Ken (o namorado da Barbie), mas genérico, baratinho, para casar com as bonecas da Luiza, um lance de dias antes. E nas barraquinhas da festa de Nossa Senhora do Carmo é o lugar perfeito para encontrar esse tipo de artigo. Fomos andando e Luiza enxergou de longe o objeto de seu desejo: o noivo e... a noiva!!!!! Eu também quis uma noivinha quando criança! Meu coração se emocionou! E se emocionou também quando ela pediu um tal balão de Branca de Neve e dissemos não e ela devolveu sem reclamar, tão educada e compreensiva! Mas o delicioso mesmo foi quando ela viu o balão de gás hélio da Dora Aventureira e pediu e, como ela abriu mão do outro, esse ela podia ganhar, e ela ficou feliz e saltitante com aquele balão que voava e brincava com o vento. Ela sorria para o vento!!!! E eu me vi no rosto alegre da minha filha. Vi nela uma alegria que já foi minha, uma felicidade extrema da criança mais feliz do mundo, doce e inocente, sorrindo porque ganhou o tão sonhado brinquedo. Existe no mundo coisa mais linda? E eu fui feliz assim, de novo, do mesmo jeito de antes. Foi um reencontro. Comigo mesma, com a tradição criada por meu pai, um reencontro com ele, com nós dois dos tempos de antes. Fazia tempo que não me sentia tão feliz!!!!!! 

E voltamos pra casa trazendo maçã do amor e doces, como antigamente. E passado e presente se fundiram num tempo só. E voltei pra casa querendo mais. E já começo a contar o tempo para que a próxima festa chegue e tudo isso se repita, como quando eu era criança e meu pai passava o ano todo dizendo: "dia 16, o dia da Festa, duas horas da tarde, nós vamos nas barracas comer doces!" Pode esperar pai, ano que vem estarei lá, nós dois juntos, você no meu coração, mais a Luiza, mais o Adriano, como sempre...

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Perguntas. Respostas? (?)

A pérola de hoje: "papai, porque seu papai não morreu e o papai da mamãe morreu?"
Perguntas sem respostas, muitos 'por quês' e parece-me que a morte anda tomando forma para minha pequena. O que fazer com isso? Bem, não sei, não me ensinaram a falar de morte. Não me ensinaram a pensar na morte. Não me explicaram o que é, quem é essa tal de morte. E assim eu fui crescendo.
Um dia eu me encontrei com ela, a morte. Não no sentido real, nunca morri, mas no sentido figurado. Um dia eu fui estudar uma tal de Psicologia da Morte e desde então não parei mais de pensar nela. Não posso dizer quando foi que passei a ter medo da morte do meu pai. Não sei se foi por conta da disciplina da faculdade ou só pela distância que nos separou quando eu ainda era bem jovem. Na semana passada me lembrei de um ex-namorado e da morte de uma tia dele e dele falando que não ia no velório, que deixaria isso para quando não fosse possível adiar. Aí ele comentou que o pai dele era velho. Não sei porque me lembrei disso, mas acho que foi aqui que tudo começou. Curiosamente, meu pai morreu primeiro que o dele. Curiosamente o meu pai era mais jovem e tinha boa saúde, o dele não. Só sei que ter a percepção da finitude desse homem incrível que tanto amei, dono do meu amor mais puro e sincero, fez com que eu me dedicasse a agradá-lo, fez com que eu buscasse estar inteira perto dele, mesmo seguindo com a minha vida.

Eu tenho vivido dias complicados. Tudo começou... Bem, não sei ao certo quando exatamente tudo começou, mas tenho andado deprimida e andei sem vontade de escrever, mas de repente senti minha cabeça se abrir e uma compreensão de certos fatos veio acalmar meu coração, acho que estou amadurecendo. A chegada da minha menininha trouxe consigo inúmeras transformações em minha vida e hoje me vejo num labirinto, perdida, por vezes no escuro, certas horas se acendem umas luzinhas, vamos ver onde isso vai dar. Estou buscando o que fazer da minha vida e tudo anda muito confuso, é um momento delicado e dificil. Mas de uns dias pra cá eu me dei conta de que perdi uma grande oportunidade de relatar os fatos da vidinha da minha riqueza, o tempo passou, e eu, ocupada que estava tentando me achar de volta neste mundo, não aproveitei. E nem sei se vou conseguir fazer isso agora.

Meus dias tem sido cinza. De repente me dou conta de que minha mãe também anda escapando de mim, de um jeito, mas tudo está diferente agora. Eu passei um longo tempo questionando o por quê disso e daquilo e enxergando milhões, milhões mesmo, de defeitos nesta mulher que é a minha mãe, ela me decepcionou quando eu me tornei mãe e foi difícil pra mim conseguir processar e elaborar tudo isso até enfim compreender que, não é que ela se tornou uma pessoa ruim ou eu enxerguei uma mãe com . defeitos que antes eu não enxergava, mas ela está envelhecendo e isso dá a ela a liberdade de ser de qualquer jeito. E agora ela está doente e eu começo a temer perdê-la também, embora já a tenha perdido. A mãe que de um jeito todo errado, sempre me ajudava, agora precisa de ajuda e eu estou tentando ser melhor pra ela também.

Por que é que eles, os velhos, esqueceram de passar adiante a sabedoria das mudanças da vida? Ah, é, nós jovens é que faltamos à aulas.

Só sei que está tudo diferente. E eu ando tão ocupada sofrendo por nem sei o quê, mas sem encontrar a saída de nem sei de onde, que o tempo está passando. Hoje olhei o calendário enquanto agendava um exame e tomei um susto, susto mesmo, quando li "junho". Devo estar ficando maluca, como se eu não soubesse que era junho. O que será tudo isso?

E enquanto me indigno com a passagem do tempo, vou tentando encontrar um jeito de falar de morte com a minha pequena. Sabe uma coisa muito legal? Minha fofa tem adoração pela vovó Tetê, minha mãe. Tomara que ela viva muito ainda. Sei que minha pequena também seria apaixonada pelo vovô Anizio se o conhecesse, então esse lugar especial da minha mãe no coraçãozinho dela é como um presente pra mim. Como eu sei dessa adoração? Minha pequena vai pra escola e a professora faz o papel de nos contar o que nós mesmos não conseguimos saber.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

"Mamãe, por que seu papai morreu?"

"Mamãe, por que seu papai morreu?", me perguntou a Luiza ontem enquanto enrolava para não dormir. Toda noite é assim, uma coisa atrás da outra, até ficarmos bravos ou até ela ser vencida pelo sono. Mas esta pergunta... eu respondi "porque ele estava velho, ficou dodói...". "Mas por quê?" "Porque chegou a hora dele voltar a morar com o Papai do Céu, junto com as estrelinhas" "mas por quê?" E por aí foi... Eu nem lembro o que mais respondi, mas meu coração sorriu ao constatar que ela já entendeu que ele existiu e foi importante. E é importante. Acho que ainda teremos essa conversa muitas vezes. E aos poucos as histórias do serão contadas. Até que ela aprenda a ler e possa vir aqui olhar tudo o que já escrevi pra ela e o que mais eu escrever. 

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Vai passar! Sempre passa.

Acho que enfim cheguei no fundo do poço. Espero... então já deve ser hora de fazer o caminho de volta até a superfície. Ao menos hoje acordei sem me sentir tão sozinha, mesmo tão desanimada como antes. 

Esta semana fiz coisas por mim. Cadastrei meu currículo no site de dois hospitais e assinei um site de empregos. Não consegui estudar. Mas falei o que estava me matando por dentro e isso só já mobiliza pra mudança, eu acho. 

Já chegou o meio do ano. Ano passado o ano começou maravilhoso e terminou tenso. Esse ano começou tenso, se já é meio do ano e se eu for seguir a lógica do ano passado, acho que agora vai melhorar. Se bem que o meio do ano anuncia a proximidade do meu aniversário e despertam-se fantasmas. Prova de fogo: será que o ciclo dos maus aniversários realmente foi quebrado? Acho que sim. Não sinto cheiro de tragédia no ar, se bem que ainda é cedo. Mas eu acho que a cota de coisas ruins deste ano já foi atingida. A pior delas é esse meu estado de espírito. Vai passar! Sempre passa.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Se você lê, por quê não comenta?

Estou tendo crises de ansiedade. Todo dia vou dormir e penso: "de novo não fiz nada por mim hoje". Acho que nunca em toda a minha vida, estive tão paralisada. É que já faz tempo que ando nadando para sempre morrer na praia. Anda sendo mais forte que eu, apenas não consigo fazer! E no fim do dia a angústia aumenta. Eu temia que isso acontecesse porque conheço bem meus limites. E como todo mundo, com os anos a coisa vai ficando mais complicada, sim, a idade pesa, sim! Semana passada minha inspiração voltou com força total, até criei uma personagem divertidíssima, achei que seria o mote pra sair dessa e encontrar novo sentido pra minha vida, mas bastou um olhar de desaprovação para minha querida heroína ser "engavetada" nos arquivos do meu micro. 

Fui buscar uma encomenda com uma amiga e ela me falou em buscar ajuda. Eu já voltei a fazer terapia. Aí ela sugeriu outro tipo de ajuda e desde então tenho pensado nisso. Ela me disse pra buscar um plano B e eu falei do meu desejo de fazer aulas de dança, mas estou achando que preciso de um antidepressivo pra conseguir sair de casa atrás do plano B. 

Ontem tivemos um dia agradável, recebemos visitas e por uns momentos pude sair de mim. Mas no final do dia... aquela sensação de ter faltado na aula em dia de prova me assombrou. Estou sempre achando que fiz uma coisa errada. Mas o quê? E é por isso que ando tão paralisada, para não errar mais. Se não arrisco, dificilmente vou cair. Eu sei, isso não se parece comigo, a Nivia que sempre fui, pró ativa, determinada, que se lança aos desafios sem medo de que abismos terá que se safar. Ando vivendo de passado, de lembranças e saudades, sufocada com a passagem do tempo: "nossa, hoje já é quinta-feira" "que bom, já é quinta-feira". "Junho? Como o ano está passando rápido..." "Rápido? Não fiz nada hoje. Não fiz nada essa semana, não faço nada há meses..." 

E eu sei que estou afastando as pessoas de mim. Até quem está muito perto, anda muito distante. Também, quem fica feliz ao lado de alguém assim, como eu?

Este espaço deveria ser uma herança para minha pequena e não um espaço para desabafos e lamentações. O que pensará ela de mim se ler isto um dia? 

Eu estava trabalhando e, por mais que odiasse um tanto de coisas daquela situação, sentia que meus pés ainda podiam habitar este mundo e eu amava ver o dinheiro, ainda que pouco, cair na minha conta todo fim de mês. Era um motivador. Eu temia largar meu emprego e ficar exatamente assim como estou. Não que eu não procure, que não me esforce, mas como já disse, a praia se tornou meu lar. Ninguém suporta fracassar tanto. Ouvindo o Adriano falar do trabalho, dos cursos que pediu e tem chance de conseguir fazer pela empresa, eu pensei: "mas eu queria isso pra mim também". O que foi que eu fiz da minha vida? Sinto orgulho de todos que chegaram lá e sinto orgulho da minha filha, da minha casa, da minha família, mas quando foi que comecei a viver essa vida medíocre? Quando foi que me perdi de mim, dos meus propósitos e sonhos, quando foi que perdi a coragem? Alguém pode me jogar uma corda e me puxar pra fora do buraco, porque não estou conseguindo subir sozinha e estou ficando muito, muito cansada e sem forças? 

Quando pedi demissão parece que cortei o fio de esperança que ainda me conectava no mundo. Eu estou tentando, mas estou apavorada. Tenho medo de que tudo continue dando errado, mas tenho medo de que dê certo também. Parece que desaprendi como se faz. Não estou conseguindo encontrar dentro de mim as ferramentas, o impulso vital para sair disso. Estou sufocada! 

Talvez escrever a respeito me dê clareza maior do que a Psicoterapia. Minha Psicóloga é ótima, ela sempre me põe pra cima, sempre aponta caminhos positivos e me mostra os recursos bons que ainda devo ter, mas eu continuo parada, paralisada, apavorada, congelada. 

Então peço licença pra minha pequena para usar este espaço nessa busca pela "corda". Se eu sair do buraco que me enfiei, ela terá uma mãe melhor também. Deve valer o risco.


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Chuva, fusca, farol aceso

Hoje fui almoçar com uma amiga. Acontece que chovia MUITO. No caminho me bateu a dúvida se deveria deixar só as lanternas do carro acesas, ou se deveria ligar os faróis mesmo. Foi aí que me lembrei do fusca e do dia que meu pai foi me buscar no posto de saúde e caiu uma tempestade. Eu falava pra ele "liga o farol", ele respondia "não precisa". Eu teimava "não pro senhor enxergar a rua, é para os outros te enxergarem", ele teimava mais ainda "eu tô vendo". Mentira, não dava pra ver nada, e o fusca não devia nem ter limpador de pára-brisas direito. Meu pai, como todo homem, não aceitava palpites quando estava dirigindo. E no final ele estava dirigindo muito mal. Coisas da idade. Andava muito mais "corajoso", por isso mesmo, mais inconsequente. Isso me traz uma meia dúzia de histórias, daquelas que, de (quase) tão trágicas, viram cômicas. Como no dia que ele levou eu e o Adriano para a Pedra de São Domingos (o Adriano nunca tinha ido lá e acho que nunca mais foi depois disso...) e o fusca (sempre fusca) atolou e ele engatou a ré no lugar da primeira marcha e quase nos joga no precipício. Num impulso puxei o freio de mão, salvei nossas vidas. Ai ai, seu Anizio, teimoso que ele só. Que saudade...
Dia desses a Luiza falou um NÃO!! e fez um gesto com a mão exatamente como ele fazia.
Andei um tempo sem vir aqui. É que andei insatisfeita com a minha vida, insatisfeita com o rumo que certas coisas tomaram e, como a ideia do blog é construir uma herança para a Luiza, não achei justo vir aqui me lamentar, lamentar pelas escolhas que tive de fazer e que devolveram pro lugar comum do qual fiquei tão feliz de sair. Minha riqueza merece mais que isso, uma mãe chorosa, sem forças, sem coragem, num estado depressivo que teima em não passar. Mas a inspiração voltou!  Talvez seja o começa da cura, vamos ver onde isso vai dar.
Meu pai adorava fusca. O engraçado é que ele só foi ter um no fim da vida. Ele não tinha nenhum, mas tinha vários. Como ele era mecânico, sempre tinha um fusca lá disponível pra dar aquela volta no fim de semana com a família. Fusca e Jeep. Vou me lembrando disso e as histórias vão voltando. Teve um dia que a gente foi em algum lugar que não vou me lembrar agora, num jeep sem a capota. Na volta choveu, muito, muito, chuva de pedra. AS pedrinhas caíam machucando todo mundo e ele, ao invés de procurar abrigo e esperar a chuva passar, continuou. Eu era pequena. A lembrança que eu tenho é que eu chorava desesperada. Minha mãe conta melhor essa história, com raiva claro, da teimosia dele. E com razão. Veja se isso é coisa que se faça, com quatro crianças no carro. Eita bicho teimoso. Tudo bem, eu o amava assim mesmo. Minha mãe também é muito teimosa, nisso a disputa entre os dois sempre foi muito acirrada. Mas acho que ela cedia mais, ou só ela cedia, sei lá. 
E foram muitas chuvas, muitos fuscas, muitos jeeps. Eu aprendi a dirigir já perto de fazer 30 anos. Quando fiz 18 pedi dinheiro para tirar carteira de motorista e ele disse que eu era muito nova pra isso. E repetiu isso uma "par de veiz" (muitas vezes como se diz por lá). E um dia, com meu dinheiro, entrei na auto-escola. Quando fui contar, sabe o que ele disse? "Mas você ainda não sabe dirigir?" "C@$*#¨o, mas você por acaso me ensinou?" Só pensei, não falei. Aí eu virei um peixinho. Ele adoeceu e veio pra São Paulo se tratar. E eu virei sua motorista. E o levava para todos os lados, ele dizia que eu parecia "um peixinho" dirigindo por São Paulo. Explicando: imaginem um peixinho pequenininho que consegue nadar sem dificuldades por todos os lugares. Uau, que elogio, quanto reconhecimento. Acho que essa foi a melhor parte dessa história que tento escrever. Ele foi dando "corda" pro peixinho mesmo sem entender para que oceanos o peixinho queria nadar e por quê nadar nesses oceanos. E reclamou, reclamou, reclamou,porque além de teimoso, ele era reclamão. Mas Deus não permitiu que ele partisse desta vida no escuro. Ele entendeu! E reconheceu! E enfim o caminho se tornou completo. 

E hoje termino citando Fernando Pessoa: 

Valeu a Pena?
Tudo vale a pena se a alma não é pequena.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Preciso te pedir perdão

Hoje fui ao mercado abastecer nossa despensa e vi na prateleira uma caixinha de Leite Moça - Edição especial de dia das mães "Histórias de Mães". Fiquei curiosa e comecei a ler. Gostei da primeira história e peguei outra caixa pra ver se tinha uma história diferente. A segunda caixa era a história de uma mãe que pedia a receita para a sua mãe de brigadeirão, para fazer pros seus filhos. Ela falava da lembrança da infância e queria que seus filhos também vivessem o que ela viveu. Não consegui terminar de ler a história, comecei a chorar. Andei pelos corredores com lágrimas escorrendo à mercê da minha vontade, tentando terminar minhas compras. Essa coisa da mãe fazer coisa gostosa pra filha era tão coisa da minha mãe... uma amargura tomou conta de mim, estou perdendo a minha mãe. E do jeito pior que existe, ela já não é mais a mesma. Saudade... Ela nunca foi um exemplo de boa mãe, sempre ríspida, mandona, incapaz de ser carinhosa, incapaz de elogiar sem colocar milhões de defeitos junto. Mas ainda assim eu a admirava! Sua força, sua luta, sua resiliência diante da vida muito difícil que teve, eu desejava ser assim. E isso se perdeu, ficou preso no passado.

E eu segui com minha faxina. E fui olhando e jogando fora todas as coisas dele. Só guardei o que realmente precisava ser guardado. Com dor no coração, sentindo que eu o estava traindo Ainda que muitas coisas já devessem ter sido jogadas fora há muito tempo porque já estava desintegrando, eu sei que ele tinha amor em tudo aquilo que representava sua história. E não adiantava mais guardar porque ela, que deveria ser a guardiã de algumas coisas agora, não vai mesmo fazer isso. Então, antes que tudo virasse pó, tratei de lembrar e me despedir, fechei os olhos e coloquei na pilha da reciclagem. Preciso pedir perdão. Preciso pedir perdão pra ele, pro meu pai, por ter me desfeito das coisas dele. “Perdoe-me. O senhor mesmo deveria ter jogado tudo fora. Eu guardei umas coisas, mas não dava pra guardar tudo. Perdão”.Será que ele me olha, me vê. Será que ele entendo o que aconteceu? E porque ela nunca me olhou, não me conhece direito e nem vai conhecer. Por que ninguém nos ensina, nos prepara para quando essa hora chega. Por que ninguém nos prepara pra morte concreta e pra morte em vida? Estou sofrendo, vou ter que aprender a lidar com mais isso na minha vida. Pelo sim, pelo não, vou ficar longe das caixas de Leite Moça enquanto pego o jeito.Será que ele me olha, me vê. Será que ele entendo o que aconteceu? E porque ela nunca me olhou, não me conhece direito e nem vai conhecer. Por que ninguém nos ensina, nos prepara para quando essa hora chega. Por que ninguém nos prepara pra morte concreta e pra morte em vida? Estou sofrendo, vou ter que aprender a lidar com mais isso na minha vida. Pelo sim, pelo não, vou ficar longe das caixas de Leite Moça enquanto pego o jeito.

Passei a ultima semana na casa dela. Fui fazer uma faxina nas minhas coisas antigas, porque ela invocou de querer dar um fim a tudo o que está lá que não é dela. Bom, a história começa um pouco antes. Meu pai morreu. Pela primeira vez na vida ela pôde pensar no espaço do jeito que sempre sonhou sem ter que se sujeitar à tirania dele, ou ainda ter que aguentar suas queixas e críticas pra tudo o que ela se metia a fazer. Tudo bem, é um direito dela. Eu guardo muita coisa, mas na verdade guardo lembranças, nada que tenha utilidade, mas coisas que fazem sorrir o coração cada vez que se olha. E um belo dia minha mãe resolveu usar minha sapateira, onde guardava minhas coisas, para por sapatos. E todas as minhas coisas lá guardadas foram deixadas no chão da casinha lá fora. As agendas, junto com as roupas, junto com as cartas e cartões, junto com os textos, junto com os discos, junto com as fitas. E semana após semana ela me cobrando pra olhar tudo aquilo e jogar fora. Aqui começa a parte do perdão.Ela não queria que eu olhasse só as minhas coisas, mas as do meu pai também. Então marquei o dia e fui lá olhar. Minhas coisas estavam embolorando. As do meu pai já passaram dessa fase há muito tempo. Tinha muita coisa que eu sei que ele guardava com carinho e eu fui olhando cada coisa, me lembrando das suas histórias, me lembrando do apreço que ele tinha por cada coisa e do cuidado com que ele sempre guardou tudo aquilo. E ele guardava minhas coisas também. Guardava e protegia. Protegia dela. Ela sempre foi assim, de não dar valor a certas coisas, mas ele compensava isso dela. Aí ele morreu. E o que eu não curtia ficou muito pior. Ela perdeu o rumo, sei lá. Penso que deva ser muito difícil mesmo perder o companheiro de 43 anos, mesmo que o casamento não seja dos melhores. Ela ficou sem apoio, sem chão, e teve que reaprender a ser. Mas está envelhecendo, rápido demais. Anda difícil falar com ela, contar com ela, pedir coisas pra ela. Eu fiquei órfã de pai e de mãe. Porque ela tá mais pra filha agora. Mesmo desorientada, quando cheguei na casa dela, tinha uma das minhas comidas favoritas para o almoço. Não, ela não está tão senil assim, ela ainda dá conta de si mesma, consegue viver sozinha, mas anda inconsequente, distraída. Ela nunca soube ouvir, mas agora a coisa ficou muito, muito pior. Antes ela ouvia e criticava. Agora ela não ouve mesmo, nada. Me deu vontade hoje de pegar essa figura e gritar com ela, perguntando o que ela fez com minha mãe. Passei aí uns 3 anos em crise com ela, desde que a Luiza nasceu. De repente eu a enxerguei de uma maneira tão crua que me apavorou. Onde estava aquela mulher que eu admirava? De repente tudo aquilo que ela tanto me cobrou a vida toda percebi que ela fazia igual. Poxa, se ela não é assim, porque exigia tanto de mim? Eu sempre me sentindo incapaz, incompetente, eu sempre fazendo o máximo para atrair seu olhar, sua admiração e sempre morrendo na praia. E tudo isso para quê? Para no final descobrir que toda a sua cobrança era para o espelho de si mesma? Tudo bem, posso pensar que ela fazia tudo isso para que eu fosse melhor que ela, e deveria ser isso mesmo, mas do jeito errado. Porque tanta cobrança, tanta exigência, tantas críticas negativas só serviram para me tornar uma pessoa insegura e com a auto estima oscilante. Enquanto meu pai vibrava com cada bobagenzinha que eu fazia, aprendia, minha mãe fazia as coisas mais grandiosas virarem nada. Mas em alguns momentos ela virava leoa e me defendia. Quando na vez que o filho da orientadora da escola tomou o meu dinheiro e me bateu e ela foi na escola brigar. E na festa de 15 anos que meu pai não quis dar dinheiro porque achava bobagem e ela fez ele dar sim, porque eu não podia ficar sem a festa que eu tanto tinha sonhado. E ela estava presente na plateia e fazia pra mim os vestidos mais lindos. Aí eu virei moça e isso mudou. Ela começou a competir comigo em tudo. Até arrumou emprego antes de mim quando me formei. Ai eu me casei, meu pai adoeceu e eu pude testemunhar o quanto eles dois se amavam daquela maneira torta, mas autêntica. O quanto eles eram importantes um pro outro e pude compreender que, ainda que brigassem tanto um com o outro, se não houvesse amor eles não brigariam. E ficaram juntos até o fim. A Luiza nasceu, minha mãe se refez da viuvisse, desabrochou. E eu perdi minha mãe. O pouco de maternidade que ela tinha parece ter sido enterrado com meu pai. E ela ficou mocinha de novo. E agora está ficando velha. Eu fico me convencendo disso, que é velhice, para que eu tenha paciência, para que eu cuide dela do mesmo jeito que cuidei dele. Ele foi embora bem rápido, ela eu sei que vai durar muito, por isso preciso de muita paciência. Um dia serei eu a mãe que envelhece, preciso compreender e aceitar que as coisas são assim, mas estou enlutada. E com saudade. Quem espera nunca alcança! Eu acho que sempre esperei que minha mãe se tornasse um pouco minha amiga, um pouco mais carinhosa e parceira e, ao perceber que ela está envelhecendo, acho que isso não vai acontecer mesmo!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ele voltou!

Como de costume fui passar o reveilhon na casa da minha mãe. Chateada, contrariada, cansada. Desde que meu irmão descobriu o câncer todo mundo lá ficou virado, louco da cabeça. Eu também. Por isso não queria ir, estava apenas cumprindo o protocolo e até por isso, tudo, absolutamente tudo estava me irritando. Chegamos, descarregamos. O de sempre e eu me segurando pra não ter um ataque, sei lá de quê. Aí fui na oficina, a nova oficina mecânica do meu irmão, falar com meu primo que agora trabalha lá. E, ao entrar, levei um choque: ele estava lá. Sorridente e soberano, reinando na parte de cima: meu pai voltou! A foto ficou pronta e foi pendurada na parede, homenagem mais que justa e sublime. E tudo o que eu consegui pensar foi: "ele está aqui de novo". Porque sempre foi assim, se alguém o queria achar era só procurar lá, na oficina, o canto dele. E me veio a sensação de que se eu quiser vê-lo ou falar com ele é só ir lá que vou encontrá-lo. E a saudade que já ia grande ficou enorme, escapou de mim e dominou todos os meus pensamentos e sentimentos e passei o fim de semana lembrando e desejando que tudo de novo fosse igual, fosse como antes. E choveu, choveu, isso foi igual. E o ano novo chegou de novo sem festa, sem jeito como no tempo dele. A novidade é que dentro de mim não tinha nada, nem desejo nem prece. Meus olhos puderam ver o sorriso da Luiza oscilando entre medo e emoção na queima de fogos, mas em mim nada de sentimento.
No dia seguinte o almoço, familia reunida, minha irmã tentando encrencar comigo ou com qualquer pessoa, isso nunca muda. E me deu saudade do tempo em que nao se bebia tanto na mesa em respeito ao chefe da família. E da hora em que cada casal ia se apertar nas camas de solteiro e as crianças dormiam na cama do casal. E o casal? Bem, meu pai ia se refugiar lá no banco de carro que morava na oficina. Anda tudo repaginado, certas coisas nem reconheço mais e eu ando revoltada tentando entender o que virou tudo isso. Ninguém me ensinou como seria a vida depois que me tornasse uma mulher madura. Por uns instantes desejei ser de novo uma menina cheia de sonhos e desejos, com um pai e uma mãe e uma vida inteira pra planejar. Essa maturidade me roubou o chão, andava me equilibrando num pedacinho que sobrou e que servia de principio para a recosntrução, mas que ruiu nos ultimos minutos do ano que acabou.

Não sei o que pensar, o que desejar. Fiquei no completo silêncio. Meu coração silenciou. E quando voltou a pensar, pensou em tristeza.

Quero emagrecer 10kg. Quero voltar a ter uma pele bonita e cabelos brilhantes. Tinha planejado mudar de emprego e engravidar, embora essas duas coisas me pareçam excludentes. Agora já não sei mais. A única coisa que tem dentro de mim agora é medo. E eu nem sei de quê.