segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ele voltou!

Como de costume fui passar o reveilhon na casa da minha mãe. Chateada, contrariada, cansada. Desde que meu irmão descobriu o câncer todo mundo lá ficou virado, louco da cabeça. Eu também. Por isso não queria ir, estava apenas cumprindo o protocolo e até por isso, tudo, absolutamente tudo estava me irritando. Chegamos, descarregamos. O de sempre e eu me segurando pra não ter um ataque, sei lá de quê. Aí fui na oficina, a nova oficina mecânica do meu irmão, falar com meu primo que agora trabalha lá. E, ao entrar, levei um choque: ele estava lá. Sorridente e soberano, reinando na parte de cima: meu pai voltou! A foto ficou pronta e foi pendurada na parede, homenagem mais que justa e sublime. E tudo o que eu consegui pensar foi: "ele está aqui de novo". Porque sempre foi assim, se alguém o queria achar era só procurar lá, na oficina, o canto dele. E me veio a sensação de que se eu quiser vê-lo ou falar com ele é só ir lá que vou encontrá-lo. E a saudade que já ia grande ficou enorme, escapou de mim e dominou todos os meus pensamentos e sentimentos e passei o fim de semana lembrando e desejando que tudo de novo fosse igual, fosse como antes. E choveu, choveu, isso foi igual. E o ano novo chegou de novo sem festa, sem jeito como no tempo dele. A novidade é que dentro de mim não tinha nada, nem desejo nem prece. Meus olhos puderam ver o sorriso da Luiza oscilando entre medo e emoção na queima de fogos, mas em mim nada de sentimento.
No dia seguinte o almoço, familia reunida, minha irmã tentando encrencar comigo ou com qualquer pessoa, isso nunca muda. E me deu saudade do tempo em que nao se bebia tanto na mesa em respeito ao chefe da família. E da hora em que cada casal ia se apertar nas camas de solteiro e as crianças dormiam na cama do casal. E o casal? Bem, meu pai ia se refugiar lá no banco de carro que morava na oficina. Anda tudo repaginado, certas coisas nem reconheço mais e eu ando revoltada tentando entender o que virou tudo isso. Ninguém me ensinou como seria a vida depois que me tornasse uma mulher madura. Por uns instantes desejei ser de novo uma menina cheia de sonhos e desejos, com um pai e uma mãe e uma vida inteira pra planejar. Essa maturidade me roubou o chão, andava me equilibrando num pedacinho que sobrou e que servia de principio para a recosntrução, mas que ruiu nos ultimos minutos do ano que acabou.

Não sei o que pensar, o que desejar. Fiquei no completo silêncio. Meu coração silenciou. E quando voltou a pensar, pensou em tristeza.

Quero emagrecer 10kg. Quero voltar a ter uma pele bonita e cabelos brilhantes. Tinha planejado mudar de emprego e engravidar, embora essas duas coisas me pareçam excludentes. Agora já não sei mais. A única coisa que tem dentro de mim agora é medo. E eu nem sei de quê.