segunda-feira, 25 de junho de 2012

Perguntas. Respostas? (?)

A pérola de hoje: "papai, porque seu papai não morreu e o papai da mamãe morreu?"
Perguntas sem respostas, muitos 'por quês' e parece-me que a morte anda tomando forma para minha pequena. O que fazer com isso? Bem, não sei, não me ensinaram a falar de morte. Não me ensinaram a pensar na morte. Não me explicaram o que é, quem é essa tal de morte. E assim eu fui crescendo.
Um dia eu me encontrei com ela, a morte. Não no sentido real, nunca morri, mas no sentido figurado. Um dia eu fui estudar uma tal de Psicologia da Morte e desde então não parei mais de pensar nela. Não posso dizer quando foi que passei a ter medo da morte do meu pai. Não sei se foi por conta da disciplina da faculdade ou só pela distância que nos separou quando eu ainda era bem jovem. Na semana passada me lembrei de um ex-namorado e da morte de uma tia dele e dele falando que não ia no velório, que deixaria isso para quando não fosse possível adiar. Aí ele comentou que o pai dele era velho. Não sei porque me lembrei disso, mas acho que foi aqui que tudo começou. Curiosamente, meu pai morreu primeiro que o dele. Curiosamente o meu pai era mais jovem e tinha boa saúde, o dele não. Só sei que ter a percepção da finitude desse homem incrível que tanto amei, dono do meu amor mais puro e sincero, fez com que eu me dedicasse a agradá-lo, fez com que eu buscasse estar inteira perto dele, mesmo seguindo com a minha vida.

Eu tenho vivido dias complicados. Tudo começou... Bem, não sei ao certo quando exatamente tudo começou, mas tenho andado deprimida e andei sem vontade de escrever, mas de repente senti minha cabeça se abrir e uma compreensão de certos fatos veio acalmar meu coração, acho que estou amadurecendo. A chegada da minha menininha trouxe consigo inúmeras transformações em minha vida e hoje me vejo num labirinto, perdida, por vezes no escuro, certas horas se acendem umas luzinhas, vamos ver onde isso vai dar. Estou buscando o que fazer da minha vida e tudo anda muito confuso, é um momento delicado e dificil. Mas de uns dias pra cá eu me dei conta de que perdi uma grande oportunidade de relatar os fatos da vidinha da minha riqueza, o tempo passou, e eu, ocupada que estava tentando me achar de volta neste mundo, não aproveitei. E nem sei se vou conseguir fazer isso agora.

Meus dias tem sido cinza. De repente me dou conta de que minha mãe também anda escapando de mim, de um jeito, mas tudo está diferente agora. Eu passei um longo tempo questionando o por quê disso e daquilo e enxergando milhões, milhões mesmo, de defeitos nesta mulher que é a minha mãe, ela me decepcionou quando eu me tornei mãe e foi difícil pra mim conseguir processar e elaborar tudo isso até enfim compreender que, não é que ela se tornou uma pessoa ruim ou eu enxerguei uma mãe com . defeitos que antes eu não enxergava, mas ela está envelhecendo e isso dá a ela a liberdade de ser de qualquer jeito. E agora ela está doente e eu começo a temer perdê-la também, embora já a tenha perdido. A mãe que de um jeito todo errado, sempre me ajudava, agora precisa de ajuda e eu estou tentando ser melhor pra ela também.

Por que é que eles, os velhos, esqueceram de passar adiante a sabedoria das mudanças da vida? Ah, é, nós jovens é que faltamos à aulas.

Só sei que está tudo diferente. E eu ando tão ocupada sofrendo por nem sei o quê, mas sem encontrar a saída de nem sei de onde, que o tempo está passando. Hoje olhei o calendário enquanto agendava um exame e tomei um susto, susto mesmo, quando li "junho". Devo estar ficando maluca, como se eu não soubesse que era junho. O que será tudo isso?

E enquanto me indigno com a passagem do tempo, vou tentando encontrar um jeito de falar de morte com a minha pequena. Sabe uma coisa muito legal? Minha fofa tem adoração pela vovó Tetê, minha mãe. Tomara que ela viva muito ainda. Sei que minha pequena também seria apaixonada pelo vovô Anizio se o conhecesse, então esse lugar especial da minha mãe no coraçãozinho dela é como um presente pra mim. Como eu sei dessa adoração? Minha pequena vai pra escola e a professora faz o papel de nos contar o que nós mesmos não conseguimos saber.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

"Mamãe, por que seu papai morreu?"

"Mamãe, por que seu papai morreu?", me perguntou a Luiza ontem enquanto enrolava para não dormir. Toda noite é assim, uma coisa atrás da outra, até ficarmos bravos ou até ela ser vencida pelo sono. Mas esta pergunta... eu respondi "porque ele estava velho, ficou dodói...". "Mas por quê?" "Porque chegou a hora dele voltar a morar com o Papai do Céu, junto com as estrelinhas" "mas por quê?" E por aí foi... Eu nem lembro o que mais respondi, mas meu coração sorriu ao constatar que ela já entendeu que ele existiu e foi importante. E é importante. Acho que ainda teremos essa conversa muitas vezes. E aos poucos as histórias do serão contadas. Até que ela aprenda a ler e possa vir aqui olhar tudo o que já escrevi pra ela e o que mais eu escrever. 

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Vai passar! Sempre passa.

Acho que enfim cheguei no fundo do poço. Espero... então já deve ser hora de fazer o caminho de volta até a superfície. Ao menos hoje acordei sem me sentir tão sozinha, mesmo tão desanimada como antes. 

Esta semana fiz coisas por mim. Cadastrei meu currículo no site de dois hospitais e assinei um site de empregos. Não consegui estudar. Mas falei o que estava me matando por dentro e isso só já mobiliza pra mudança, eu acho. 

Já chegou o meio do ano. Ano passado o ano começou maravilhoso e terminou tenso. Esse ano começou tenso, se já é meio do ano e se eu for seguir a lógica do ano passado, acho que agora vai melhorar. Se bem que o meio do ano anuncia a proximidade do meu aniversário e despertam-se fantasmas. Prova de fogo: será que o ciclo dos maus aniversários realmente foi quebrado? Acho que sim. Não sinto cheiro de tragédia no ar, se bem que ainda é cedo. Mas eu acho que a cota de coisas ruins deste ano já foi atingida. A pior delas é esse meu estado de espírito. Vai passar! Sempre passa.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Se você lê, por quê não comenta?

Estou tendo crises de ansiedade. Todo dia vou dormir e penso: "de novo não fiz nada por mim hoje". Acho que nunca em toda a minha vida, estive tão paralisada. É que já faz tempo que ando nadando para sempre morrer na praia. Anda sendo mais forte que eu, apenas não consigo fazer! E no fim do dia a angústia aumenta. Eu temia que isso acontecesse porque conheço bem meus limites. E como todo mundo, com os anos a coisa vai ficando mais complicada, sim, a idade pesa, sim! Semana passada minha inspiração voltou com força total, até criei uma personagem divertidíssima, achei que seria o mote pra sair dessa e encontrar novo sentido pra minha vida, mas bastou um olhar de desaprovação para minha querida heroína ser "engavetada" nos arquivos do meu micro. 

Fui buscar uma encomenda com uma amiga e ela me falou em buscar ajuda. Eu já voltei a fazer terapia. Aí ela sugeriu outro tipo de ajuda e desde então tenho pensado nisso. Ela me disse pra buscar um plano B e eu falei do meu desejo de fazer aulas de dança, mas estou achando que preciso de um antidepressivo pra conseguir sair de casa atrás do plano B. 

Ontem tivemos um dia agradável, recebemos visitas e por uns momentos pude sair de mim. Mas no final do dia... aquela sensação de ter faltado na aula em dia de prova me assombrou. Estou sempre achando que fiz uma coisa errada. Mas o quê? E é por isso que ando tão paralisada, para não errar mais. Se não arrisco, dificilmente vou cair. Eu sei, isso não se parece comigo, a Nivia que sempre fui, pró ativa, determinada, que se lança aos desafios sem medo de que abismos terá que se safar. Ando vivendo de passado, de lembranças e saudades, sufocada com a passagem do tempo: "nossa, hoje já é quinta-feira" "que bom, já é quinta-feira". "Junho? Como o ano está passando rápido..." "Rápido? Não fiz nada hoje. Não fiz nada essa semana, não faço nada há meses..." 

E eu sei que estou afastando as pessoas de mim. Até quem está muito perto, anda muito distante. Também, quem fica feliz ao lado de alguém assim, como eu?

Este espaço deveria ser uma herança para minha pequena e não um espaço para desabafos e lamentações. O que pensará ela de mim se ler isto um dia? 

Eu estava trabalhando e, por mais que odiasse um tanto de coisas daquela situação, sentia que meus pés ainda podiam habitar este mundo e eu amava ver o dinheiro, ainda que pouco, cair na minha conta todo fim de mês. Era um motivador. Eu temia largar meu emprego e ficar exatamente assim como estou. Não que eu não procure, que não me esforce, mas como já disse, a praia se tornou meu lar. Ninguém suporta fracassar tanto. Ouvindo o Adriano falar do trabalho, dos cursos que pediu e tem chance de conseguir fazer pela empresa, eu pensei: "mas eu queria isso pra mim também". O que foi que eu fiz da minha vida? Sinto orgulho de todos que chegaram lá e sinto orgulho da minha filha, da minha casa, da minha família, mas quando foi que comecei a viver essa vida medíocre? Quando foi que me perdi de mim, dos meus propósitos e sonhos, quando foi que perdi a coragem? Alguém pode me jogar uma corda e me puxar pra fora do buraco, porque não estou conseguindo subir sozinha e estou ficando muito, muito cansada e sem forças? 

Quando pedi demissão parece que cortei o fio de esperança que ainda me conectava no mundo. Eu estou tentando, mas estou apavorada. Tenho medo de que tudo continue dando errado, mas tenho medo de que dê certo também. Parece que desaprendi como se faz. Não estou conseguindo encontrar dentro de mim as ferramentas, o impulso vital para sair disso. Estou sufocada! 

Talvez escrever a respeito me dê clareza maior do que a Psicoterapia. Minha Psicóloga é ótima, ela sempre me põe pra cima, sempre aponta caminhos positivos e me mostra os recursos bons que ainda devo ter, mas eu continuo parada, paralisada, apavorada, congelada. 

Então peço licença pra minha pequena para usar este espaço nessa busca pela "corda". Se eu sair do buraco que me enfiei, ela terá uma mãe melhor também. Deve valer o risco.


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Chuva, fusca, farol aceso

Hoje fui almoçar com uma amiga. Acontece que chovia MUITO. No caminho me bateu a dúvida se deveria deixar só as lanternas do carro acesas, ou se deveria ligar os faróis mesmo. Foi aí que me lembrei do fusca e do dia que meu pai foi me buscar no posto de saúde e caiu uma tempestade. Eu falava pra ele "liga o farol", ele respondia "não precisa". Eu teimava "não pro senhor enxergar a rua, é para os outros te enxergarem", ele teimava mais ainda "eu tô vendo". Mentira, não dava pra ver nada, e o fusca não devia nem ter limpador de pára-brisas direito. Meu pai, como todo homem, não aceitava palpites quando estava dirigindo. E no final ele estava dirigindo muito mal. Coisas da idade. Andava muito mais "corajoso", por isso mesmo, mais inconsequente. Isso me traz uma meia dúzia de histórias, daquelas que, de (quase) tão trágicas, viram cômicas. Como no dia que ele levou eu e o Adriano para a Pedra de São Domingos (o Adriano nunca tinha ido lá e acho que nunca mais foi depois disso...) e o fusca (sempre fusca) atolou e ele engatou a ré no lugar da primeira marcha e quase nos joga no precipício. Num impulso puxei o freio de mão, salvei nossas vidas. Ai ai, seu Anizio, teimoso que ele só. Que saudade...
Dia desses a Luiza falou um NÃO!! e fez um gesto com a mão exatamente como ele fazia.
Andei um tempo sem vir aqui. É que andei insatisfeita com a minha vida, insatisfeita com o rumo que certas coisas tomaram e, como a ideia do blog é construir uma herança para a Luiza, não achei justo vir aqui me lamentar, lamentar pelas escolhas que tive de fazer e que devolveram pro lugar comum do qual fiquei tão feliz de sair. Minha riqueza merece mais que isso, uma mãe chorosa, sem forças, sem coragem, num estado depressivo que teima em não passar. Mas a inspiração voltou!  Talvez seja o começa da cura, vamos ver onde isso vai dar.
Meu pai adorava fusca. O engraçado é que ele só foi ter um no fim da vida. Ele não tinha nenhum, mas tinha vários. Como ele era mecânico, sempre tinha um fusca lá disponível pra dar aquela volta no fim de semana com a família. Fusca e Jeep. Vou me lembrando disso e as histórias vão voltando. Teve um dia que a gente foi em algum lugar que não vou me lembrar agora, num jeep sem a capota. Na volta choveu, muito, muito, chuva de pedra. AS pedrinhas caíam machucando todo mundo e ele, ao invés de procurar abrigo e esperar a chuva passar, continuou. Eu era pequena. A lembrança que eu tenho é que eu chorava desesperada. Minha mãe conta melhor essa história, com raiva claro, da teimosia dele. E com razão. Veja se isso é coisa que se faça, com quatro crianças no carro. Eita bicho teimoso. Tudo bem, eu o amava assim mesmo. Minha mãe também é muito teimosa, nisso a disputa entre os dois sempre foi muito acirrada. Mas acho que ela cedia mais, ou só ela cedia, sei lá. 
E foram muitas chuvas, muitos fuscas, muitos jeeps. Eu aprendi a dirigir já perto de fazer 30 anos. Quando fiz 18 pedi dinheiro para tirar carteira de motorista e ele disse que eu era muito nova pra isso. E repetiu isso uma "par de veiz" (muitas vezes como se diz por lá). E um dia, com meu dinheiro, entrei na auto-escola. Quando fui contar, sabe o que ele disse? "Mas você ainda não sabe dirigir?" "C@$*#¨o, mas você por acaso me ensinou?" Só pensei, não falei. Aí eu virei um peixinho. Ele adoeceu e veio pra São Paulo se tratar. E eu virei sua motorista. E o levava para todos os lados, ele dizia que eu parecia "um peixinho" dirigindo por São Paulo. Explicando: imaginem um peixinho pequenininho que consegue nadar sem dificuldades por todos os lugares. Uau, que elogio, quanto reconhecimento. Acho que essa foi a melhor parte dessa história que tento escrever. Ele foi dando "corda" pro peixinho mesmo sem entender para que oceanos o peixinho queria nadar e por quê nadar nesses oceanos. E reclamou, reclamou, reclamou,porque além de teimoso, ele era reclamão. Mas Deus não permitiu que ele partisse desta vida no escuro. Ele entendeu! E reconheceu! E enfim o caminho se tornou completo. 

E hoje termino citando Fernando Pessoa: 

Valeu a Pena?
Tudo vale a pena se a alma não é pequena.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Preciso te pedir perdão

Hoje fui ao mercado abastecer nossa despensa e vi na prateleira uma caixinha de Leite Moça - Edição especial de dia das mães "Histórias de Mães". Fiquei curiosa e comecei a ler. Gostei da primeira história e peguei outra caixa pra ver se tinha uma história diferente. A segunda caixa era a história de uma mãe que pedia a receita para a sua mãe de brigadeirão, para fazer pros seus filhos. Ela falava da lembrança da infância e queria que seus filhos também vivessem o que ela viveu. Não consegui terminar de ler a história, comecei a chorar. Andei pelos corredores com lágrimas escorrendo à mercê da minha vontade, tentando terminar minhas compras. Essa coisa da mãe fazer coisa gostosa pra filha era tão coisa da minha mãe... uma amargura tomou conta de mim, estou perdendo a minha mãe. E do jeito pior que existe, ela já não é mais a mesma. Saudade... Ela nunca foi um exemplo de boa mãe, sempre ríspida, mandona, incapaz de ser carinhosa, incapaz de elogiar sem colocar milhões de defeitos junto. Mas ainda assim eu a admirava! Sua força, sua luta, sua resiliência diante da vida muito difícil que teve, eu desejava ser assim. E isso se perdeu, ficou preso no passado.

E eu segui com minha faxina. E fui olhando e jogando fora todas as coisas dele. Só guardei o que realmente precisava ser guardado. Com dor no coração, sentindo que eu o estava traindo Ainda que muitas coisas já devessem ter sido jogadas fora há muito tempo porque já estava desintegrando, eu sei que ele tinha amor em tudo aquilo que representava sua história. E não adiantava mais guardar porque ela, que deveria ser a guardiã de algumas coisas agora, não vai mesmo fazer isso. Então, antes que tudo virasse pó, tratei de lembrar e me despedir, fechei os olhos e coloquei na pilha da reciclagem. Preciso pedir perdão. Preciso pedir perdão pra ele, pro meu pai, por ter me desfeito das coisas dele. “Perdoe-me. O senhor mesmo deveria ter jogado tudo fora. Eu guardei umas coisas, mas não dava pra guardar tudo. Perdão”.Será que ele me olha, me vê. Será que ele entendo o que aconteceu? E porque ela nunca me olhou, não me conhece direito e nem vai conhecer. Por que ninguém nos ensina, nos prepara para quando essa hora chega. Por que ninguém nos prepara pra morte concreta e pra morte em vida? Estou sofrendo, vou ter que aprender a lidar com mais isso na minha vida. Pelo sim, pelo não, vou ficar longe das caixas de Leite Moça enquanto pego o jeito.Será que ele me olha, me vê. Será que ele entendo o que aconteceu? E porque ela nunca me olhou, não me conhece direito e nem vai conhecer. Por que ninguém nos ensina, nos prepara para quando essa hora chega. Por que ninguém nos prepara pra morte concreta e pra morte em vida? Estou sofrendo, vou ter que aprender a lidar com mais isso na minha vida. Pelo sim, pelo não, vou ficar longe das caixas de Leite Moça enquanto pego o jeito.

Passei a ultima semana na casa dela. Fui fazer uma faxina nas minhas coisas antigas, porque ela invocou de querer dar um fim a tudo o que está lá que não é dela. Bom, a história começa um pouco antes. Meu pai morreu. Pela primeira vez na vida ela pôde pensar no espaço do jeito que sempre sonhou sem ter que se sujeitar à tirania dele, ou ainda ter que aguentar suas queixas e críticas pra tudo o que ela se metia a fazer. Tudo bem, é um direito dela. Eu guardo muita coisa, mas na verdade guardo lembranças, nada que tenha utilidade, mas coisas que fazem sorrir o coração cada vez que se olha. E um belo dia minha mãe resolveu usar minha sapateira, onde guardava minhas coisas, para por sapatos. E todas as minhas coisas lá guardadas foram deixadas no chão da casinha lá fora. As agendas, junto com as roupas, junto com as cartas e cartões, junto com os textos, junto com os discos, junto com as fitas. E semana após semana ela me cobrando pra olhar tudo aquilo e jogar fora. Aqui começa a parte do perdão.Ela não queria que eu olhasse só as minhas coisas, mas as do meu pai também. Então marquei o dia e fui lá olhar. Minhas coisas estavam embolorando. As do meu pai já passaram dessa fase há muito tempo. Tinha muita coisa que eu sei que ele guardava com carinho e eu fui olhando cada coisa, me lembrando das suas histórias, me lembrando do apreço que ele tinha por cada coisa e do cuidado com que ele sempre guardou tudo aquilo. E ele guardava minhas coisas também. Guardava e protegia. Protegia dela. Ela sempre foi assim, de não dar valor a certas coisas, mas ele compensava isso dela. Aí ele morreu. E o que eu não curtia ficou muito pior. Ela perdeu o rumo, sei lá. Penso que deva ser muito difícil mesmo perder o companheiro de 43 anos, mesmo que o casamento não seja dos melhores. Ela ficou sem apoio, sem chão, e teve que reaprender a ser. Mas está envelhecendo, rápido demais. Anda difícil falar com ela, contar com ela, pedir coisas pra ela. Eu fiquei órfã de pai e de mãe. Porque ela tá mais pra filha agora. Mesmo desorientada, quando cheguei na casa dela, tinha uma das minhas comidas favoritas para o almoço. Não, ela não está tão senil assim, ela ainda dá conta de si mesma, consegue viver sozinha, mas anda inconsequente, distraída. Ela nunca soube ouvir, mas agora a coisa ficou muito, muito pior. Antes ela ouvia e criticava. Agora ela não ouve mesmo, nada. Me deu vontade hoje de pegar essa figura e gritar com ela, perguntando o que ela fez com minha mãe. Passei aí uns 3 anos em crise com ela, desde que a Luiza nasceu. De repente eu a enxerguei de uma maneira tão crua que me apavorou. Onde estava aquela mulher que eu admirava? De repente tudo aquilo que ela tanto me cobrou a vida toda percebi que ela fazia igual. Poxa, se ela não é assim, porque exigia tanto de mim? Eu sempre me sentindo incapaz, incompetente, eu sempre fazendo o máximo para atrair seu olhar, sua admiração e sempre morrendo na praia. E tudo isso para quê? Para no final descobrir que toda a sua cobrança era para o espelho de si mesma? Tudo bem, posso pensar que ela fazia tudo isso para que eu fosse melhor que ela, e deveria ser isso mesmo, mas do jeito errado. Porque tanta cobrança, tanta exigência, tantas críticas negativas só serviram para me tornar uma pessoa insegura e com a auto estima oscilante. Enquanto meu pai vibrava com cada bobagenzinha que eu fazia, aprendia, minha mãe fazia as coisas mais grandiosas virarem nada. Mas em alguns momentos ela virava leoa e me defendia. Quando na vez que o filho da orientadora da escola tomou o meu dinheiro e me bateu e ela foi na escola brigar. E na festa de 15 anos que meu pai não quis dar dinheiro porque achava bobagem e ela fez ele dar sim, porque eu não podia ficar sem a festa que eu tanto tinha sonhado. E ela estava presente na plateia e fazia pra mim os vestidos mais lindos. Aí eu virei moça e isso mudou. Ela começou a competir comigo em tudo. Até arrumou emprego antes de mim quando me formei. Ai eu me casei, meu pai adoeceu e eu pude testemunhar o quanto eles dois se amavam daquela maneira torta, mas autêntica. O quanto eles eram importantes um pro outro e pude compreender que, ainda que brigassem tanto um com o outro, se não houvesse amor eles não brigariam. E ficaram juntos até o fim. A Luiza nasceu, minha mãe se refez da viuvisse, desabrochou. E eu perdi minha mãe. O pouco de maternidade que ela tinha parece ter sido enterrado com meu pai. E ela ficou mocinha de novo. E agora está ficando velha. Eu fico me convencendo disso, que é velhice, para que eu tenha paciência, para que eu cuide dela do mesmo jeito que cuidei dele. Ele foi embora bem rápido, ela eu sei que vai durar muito, por isso preciso de muita paciência. Um dia serei eu a mãe que envelhece, preciso compreender e aceitar que as coisas são assim, mas estou enlutada. E com saudade. Quem espera nunca alcança! Eu acho que sempre esperei que minha mãe se tornasse um pouco minha amiga, um pouco mais carinhosa e parceira e, ao perceber que ela está envelhecendo, acho que isso não vai acontecer mesmo!