segunda-feira, 24 de maio de 2010

A morte anunciada.

Sabemos todos que vamos morrer um dia, ela é certa e quando chega, é implacável.
Fui visitar uma pessoa querida que está internada no mesmo hospital em que meu pai ficou quando adoeceu. Fui em horário improprio para visitas e usei meus conhecimentos para adentrar o hospital sem ser barrada pelos seguranças. Logo na porta meu coração já disparou. Quando entrei minha perna amoleceu, achei que não seguiria adiante. Mas tomei fôlego e segui em frente, era importante. Onze andares de elevador e uma surpresa: estava diante da UTI onde meu pai faleceu, uma irônica coincidência, custei a acreditar nela, mas estava sim diante da salinha em que recebi a noticia mais triste da minha vida: meu pai enfim partira para junto de Deus , nos deixando aqui com essa saudade...
Foi tanta emoção que nem reconheci a pessoa que fui visitar, achei que não estava mais lá, precisei de uns minutos pra me centrar e enfim concluir a minha tarefa. E foi muito bom, eu gostei muito. Na saída não resisti, parei no segundo andar e fui chegando de mansinho na porta do setor onde meu pai praticamente morou por três meses de sua vida e de sua luta pela vida, o lugar que por um tempo me pareceu ser parte da minha casa. Eu só ia olhar, mas o atendente me viu e me chamou, aí entrei e conversei com aquelas pessoas tão importantes que viraram parentes durante àquele tempo. A melhor parte é que se lembraram de mim e de minha família, afinal num hospital passa tanta gente que seria compreensível que não se lembrassem, mas lembraram e isso foi muito importante pra mim. Já do lado de fora, na rua, pensei: eu sinto saudades daqui. É como se estando ali de novo naquele lugar eu pudesse resgatar um pouco do meu pai, como se pudesse novamente tocá-lo e senti-lo, ainda que para isso o preço seja relembrar um momento duro de nossas vidas, uma historia triste de contar. Porque é assim, a morte anunciada. Já sabemos dela e de nossa impotência diante de sua fúria, mas vamos vivendo e vivendo e acreditando que podemos enganá-la, que seremos eternos se acreditarmos nisso. Aí vem a noticia, a triste noticia de nossa fragilidade, porque desejamos a eternidade, mas somos apenas um corpo frágil, que adoece e que morre. Lembro-me quando a médica me disse que a Luiza poderia nascer por aqueles dias e eu ouvi aquela noticia como se ouvisse pela primeira vez que seria mãe, uma novidade, uma feliz novidade. Fiquei me achando uma doida pois estava grávida de nove meses, mas sentir estar ouvindo aquilo pela primeira vez, era tão real! Assim foi também que eu ouvi pelo médico o diagnóstico de câncer do meu pai, ele estava me dizendo pela primeira vez que ele poderia morrer, como se fosse uma grande e triste novidade, como se eu não soubesse disso, como se nunca tivesse sequer ouvido falar dessa tal de morte, uma fulana muito metida a engraçadinha, que pula na nossa frente e nos assusta levando para longe quem amamos e nos dizendo que logo seremos nós.
E depois da noticia passamos a fazer nossas preces pedindo ao bom Deus que não seja hoje,que não seja agora, que não doa muito, que não traga tanto sofrimento, que diminua o sofrimento,que alivie a dor de quem amamos. Passamos a negociar só mais um dia, mais um minutinho, como se fosse possível negociar com a morte. E passa a ser um constante esperar e um constante negociar. Dia desses tive medo de morrer e pedi a Deus que me deixasse por aqui mais uns tempos porque quero ver minha filhinha crescer e Ele me atendeu. Assim tento viver da maneira mais autêntica e intensa que consigo e sem jamais esquecer que uma hora ela vem me buscar, então não quero deixar nada para trás além de boas lembranças e histórias divertidas e bonitas para serem contadas...

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Se houver amanhã

Uma amiga dividiu comigo a sua dor e de repente passou também a ser a minha dor. Passei um dia inteiro com lágrimas nos olhos e elas ainda voltam quando me lembro. É engraçado porque já ao nascer sabemos de nossa finitude e ainda assim recebemos a noticia da iminência da morte como se fosse grande novidade; ha,ha.

Quando minha filha nasceu passei a ter medo de morrer. Não que eu não tivesse antes, mas de repente passei a ter muito a perder, muito mais do que tinha antes, e ter vivido a despedida do meu paizinho ao mesmo tempo em que celebrava a chegada da minha princesa foi um tanto confuso e complexo demais para mim, eu chegava a pensar que não daria conta de tantas emoções diferentes borbulhando dentro de mim. E ficou um trauma. Até que meu pai falecesse eu ainda acreditava que o câncer poderia ser curado, mas depois passei a duvidar. E passei a duvidar de que podemos viver muitos anos bem e felizes, de repente a vida se tornou para mim tão frágil e aquela urgência de ser feliz que sempre senti em meu coração ficou ainda mais e mais urgente, afinal, será que haverá amanhã?

Mas o tempo, santo tempo, ele passa e dá conta de levar consigo um tanto de coisas ruins de sentir e ficamos apenas com as boas lembranças, os bons sentimentos e uma certeza: a de que podemos sim ser felizes apesar de. E quem tem amigos nunca está sozinho (cliché? cabe bem no meu sentimento de agora).

Se o amanhã não chegar, tratarei de ser feliz hoje, mas sempre acreditando que serei também para sempre!

E pras coisas duras desta vida eu indico o tempo, ele é sábio e abranda as tempestades, no mais é tratar de viver um dia por vez e intensamente, assim não sobrarão arrependimentos, só a saudade daquilo que não volta mais...