quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Pessoas que ficam pelo caminho...

Na segunda-feira da semana passada fui à igreja com meu marido assistir a um show de musica evangélica. No inicio do evento o músico fez uma oração pelas pessoas que estavam presentes no templo da Igreja Renascer quando o teto da mesma desabou e disse qualquer coisa sobre você sair de casa para orar e viver uma catástrofe destas. Imediatamente lembrei-me do Alexandre, porteiro do primeiro prédio em que moramos aqui em São Paulo e que foi assaltado na saída do culto, perdendo sua aliança de casamento. E atrás dele lembrei de um sem número de pessoas com as quais cruzei na vida e que nunca mais vi. Até aquelas que vi uma única vez, mas que de alguma maneira me afetaram com sua presença. E as que habitaram lugar de destaque em minha vida por um tempo, mas que ficaram pelo caminho. Dei-me conta de quanta gente a gente deixa pelo caminho e a vida segue. Lembrei-me da Telma, minha primeira terapeuta, e dela me dizendo que é dificil manter o contato depois que os alunos se formam (ela é psicóloga da UNESP, onde estudei) e da minha indignação com este comentário. Sempre fui aquele tipo de pessoa que faz de um tudo pra manter o contato. Ligo, mando e-mail, cartão de natal. Quem me conhece sabe disso. Mas mesmo eu, pessoa preocupada em conservar os afetos conquistados ao longo da vida, também sou atropelada pelos fatos da vida. Nos últimos anos foi tão difícil ver os amigos, de fazer esse "meio de campo". Teve gente que sumiu tão bem sumido que achei que tinha morrido, mas depois voltou. O lado muito legal de tudo isso é que muitas pessoas que encontrei pelo caminho, ainda que de longe, eu continuo carregando comigo, nas minhas lembranças e participando da minha vida, ainda que apenas por e-mail, ou pelo orkut, ou ainda pelo blog. Penso que até o presente momento valeu muito a pena viver apenas pela quantidade de amigos de qualidade que conquistei.
Lembrei também hoje dos médicos, enfermeiras, pessoas que por um tempo foram da família, presentes num momento tão delicado, mas que também ficaram pelo caminho. Deu vontade de saber como estão, se realizaram seus sonhos e vontade de dizer que às vezes dá saudade daquele carinho, daquela dedicação. Mais ou menos um mês depois do falecimento do meu pai eu estive lá para levar os doces de leite que ele tanto falou em dar de presente para a enfermeira Lúcia, que era "como uma mãe" pra ele. Foi tão difícil entrar lá e rememorar tudo aquilo que penso que não terei mais coragem. Nem quis esperar pelos médicos, aliás, fui numa hora em que sabia que seria dificil encontrá-los lá. Depois de três meses de internação você fica craque na rotina do lugar, nem sei se eles gostaram dos doces. Também levei o queijo que o rapaz do estacionamento me pediu, pra ele sim entreguei pessoalmente, parecia uma criança no natal de tão feliz. Valeu a pena. Toda essa gente, assim como tantas outras pessoas são quadros vivos na parede da memória. Não sei se lembram-se de mim e de minha família, se pensam nisso, mas sempre terão um lugar de destaque nas minhas historias e sempre habitarão meus sinceros desejos de vida longa, saudável e prospera, que Deus os abençõe sempre. Cada uma destas pessoas foram como balsamo que alivia a dor da ferida na nossa vida. Pensava eu que quando meu pai se curasse voltaríamos muitas vezes lá levando doces e este momento difícil se transformaria numa amizade sincera. Mas sincero é o sentimento que ficou e sempre vai estar por aqui.
Agora que a Luiza já está quase nascendo tudo isso tem voltado com muita força, como se dentro de mim um balanço estivesse sendo feito. Aquela coisa de ano novo vida nova, a gente faz um exame de consciência, resgata algumas promessas não cumpridas, refaz e faz outras e promete que a vida será diferente. No meu caso, mesmo que eu não cumpra promessa alguma, a vida será diferente. Não tem como não ser. Tem uma coisinha fofinha crescendo dentro de mim que logo chega cheia de personalidade e vontades. Aliás, desde que ela chegou aqui dentro a vida já não é mais a mesma.
Penso que todas as lembranças estão mais vivas agora para que possam ser arquivadas enfim no lugar certo, abrindo espaço pras novas experiências que em breve virão aos montes. Que venha então Luiza, estamos quase prontos, só faltam alguns detalhezinhos para receber essa delicia de presente que Deus nos mandou quando resolveu que era hora de chamar de volta meu paizinho lindo.
Novas pessoas virão e partirão, e a vida segue, como tem que ser...

sábado, 24 de janeiro de 2009

Saudade é o amor que fica...

Recebi este texto por e-mail do meu amigo Domingos e achei lindo e tocante, tudo a ver com meu sentimento, com minha saudade...


UM ANJO QUE PASSOU POR MIM

Médico cancerologista, já calejado com longos 29 anos de atuação profissional, com toda vivência e experiência que o exercício da medicina nos traz, posso afirmar que cresci e me modifiquei com os dramas vivenciados pelos meus pacientes. Dizem que a dor é quem ensina a gemer. Não conhecemos nossa verdadeira dimensão, até que, pegos pela adversidade, descobrimos que somos capazes de ir muito mais além. Descobrimos uma força mágica que nos ergue, nos anima, e não raro, nos descobrimos confortando aqueles que vieram para nos confortar.
No início da minha vida profissional, senti-me atraído em tratar crianças, me entusiasmei com a oncologia infantil. Tinha, e tenho ainda hoje, um carinho muito grande por crianças. Elas nos enternecem e nos surpreendem como suas maneiras simples e diretas de ver o mundo, sem meias verdades. Nós médicos somos treinados para nos sentirmos "deuses". Só que não o somos! Não acho o sentimento de onipotência de todo ruim, se bem dosado. É este sentimento que nos impulsiona, que nos ajuda a vencer desafios, a se rebelar contra a morte e a tentar ir sempre mais além. Se mal dosado, porém, este sentimento será de arrogância e prepotência, o que não é bom. Quando perdemos um paciente, voltamos à planície, experimentamos o fracasso e os limites que a ciência nos impõe e entendemos que não somos deuses. Somos forçados a reconhecer nossos limites!
Recordo-me com emoção do Hospital do Câncer de Pernambuco, onde dei meus primeiros passos como profissional. Nesse hospital, comecei a frequentar a enfermaria infantil, e a me apaixonar pela oncopediatria. Mas também comecei a vivenciar os dramas dos meus pacientes, particularmente os das crianças, que via como vítimas inocentes desta terrível doença que é o câncer.
Com o nascimento da minha primeira filha, comecei a me acovardar ao ver o sofrimento destas crianças. Até o dia em que um anjo passou por mim. Meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada porém, por 2 longos anos de tratamentos os mais diversos, hospitais, exames, manipulações, injeções, e todos os desconfortos trazidos pelos programas de quimioterapias e radioterapia. Mas nunca vi meu anjo fraquejar. Já a vi chorar sim, muitas vezes, mas não via fraqueza em seu choro. Via medo em seus olhinhos algumas vezes, e isto é humano! Mas via confiança e determinação. Ela entregava o bracinho à enfermeira, e com uma lágrima nos olhos dizia: faça tia, é preciso para eu ficar boa. Um dia, cheguei ao hospital de manhã cedinho e encontrei meu anjo sozinho no quarto. Perguntei pela mãe. E comecei a ouvir uma resposta que ainda hoje não consigo contar sem vivenciar profunda emoção.
Meu anjo respondeu:
- Tio, disse-me ela, às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondido nos corredores. Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade de mim. Mas eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para esta vida! Pensando no que a morte representava para crianças, que assistem seus heróis morrerem e ressuscitarem nos seriados e filmes, indaguei:
- E o que a morte representa para você, minha querida?
- Olha tio, quando agente é pequena, às vezes, vamos dormir na cama do nosso pai e no outro dia acordamos no nosso quarto, em nossa própria cama não é?
(Lembrei minhas filhas, na época crianças de 6 e 2 anos, costumavam dormir no meu quarto e após dormirem eu procedia exatamente assim.)
- É isso mesmo, e então?
- Vou explicar o que acontece, continuou ela: Quando nós dormimos, nosso pai vem e nos leva nos braços para o nosso quarto, para nossa cama, não é?
- É isso mesmo querida, você é muito esperta!
- Olha tio, eu não nasci para esta vida! Um dia eu vou dormir e o meu Pai vem me buscar. Vou acordar na casa Dele, na minha vida verdadeira!
Fiquei "entupigaitado". Boquiaberto, não sabia o que dizer. Chocado com o pensamento deste anjinho, com a maturidade que o sofrimento acelerou, com a visão e grande espiritualidade desta criança, fiquei parado, sem ação.
- E minha mãe vai ficar com muitas saudades minha, emendou ela.
Emocionado, travado na garganta, contendo uma lágrima e um soluço, perguntei ao meu anjo:
- E o que a saudade significa para você, minha querida?
- Não sabe não tio? Saudade é o amor que fica!
Hoje, aos 53 anos de idade, desafio qualquer um dar uma definição melhor, mais direta e mais simples para a palavra saudade: é o amor que fica!
Um anjo passou por mim...
Foi enviado para me dizer que existe muito mais entre o céu e a terra, do que nos permitimos enxergar. Que geralmente, absolutilizamos tudo que é relativo (carros novos, casas, roupas de grife, jóias) enquanto relativizamos a única coisa absoluta que temos, nossa transcendência.
Meu anjinho já se foi, há longos anos. Mas me deixou uma grande lição, vindo de alguém que jamais pensei, por ser criança e portadora de grave doença, e a quem nunca mais esqueci. Deixou uma lição que ajudou a melhorar a minha vida, a tentar ser mais humano e carinhoso com meus
doentes, a repensar meus valores.
Hoje, quando a noite chega e o céu está limpo, vejo uma linda estrela a quem chamo "meu anjo", que brilha e resplandece no céu. Imagino ser ela, fulgurante em sua nova e eterna casa.
Obrigado anjinho, pela vida bonita que teve, pelas lições que ensinastes, pela ajuda que me destes. Que bom que existe saudades! O amor que ficou é eterno.

Rogério Brandão
Médico oncologista clínico
RC Recife Boa Vista D4500
Cremepe 5758

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Rio de Janeiro

E o Rio de Janeiro continua lindo... Será?
Quando me casei, durante os preparativos chegamos a pensar em ir pro Rio em lua de mel, como as pessoas faziam nas décadas de 50 e 60. Era chique. Mas em seguida ao pensamento vieram as noticias de uma quase guerra civil entre facções criminosas rivais, aí... desistimos. Fomos à Penedo, que fica no estado do Rio, mas não é o Rio. Achei que nunca na vida eu iria lá, haja coragem pra enfrentar o que dizem as noticias, mas o fato é que no ultimo ano, por uma destas viradas do destino, estive lá por quatro vezes. E neste ano que mal começou, fui de novo. De fato, a cidade é linda, tanto em belezas naturais quanto em patrimônio histórico, mas... como é abandonada! Tudo sujo, depredado, mal cheiroso. Sem contar que a densidade demográfica é enorme, e quando chove fica ainda pior. O mais curioso é a geografia da cidade: praias e morros. Praias lindas, ricas e morros recheados de desigualdade social. Penso que Juscelino Kubitschek cometeu um grande pecado transferindo a capital do Brasil para o Planalto Central.
Nesta ultima visita ao Rio fui fazer o passeio de bonde pelo bairro de Santa Teresa. Que lugar curioso! O trajeto passa por trechos tão estreitos que o bonde quase toca os muros, e como é alto! Ele sobe, sobe, sobe. Vira e desce, desce, desce. Subir é bem mais confortável. Não fosse o peso da barriga que já está muito grande, eu teria me aventurado mais por lá. No ponto mais alto que o bonde te leva, de um lado fica o corcovado, lindo, de outro, uma favela. Fico pensando: em que mundo vivemos que nem todos tem as mesmas oportunidades, aliás, bem poucas pessoas neste mundão tem grandes oportunidades. E nesta cidade linda e curiosa essa disparidade fica estampada em sua paisagem.
O que mais me chamou a atenção é que, eu, como boa moradora de cidade pequena, cresci assistindo as novelas daquele canal famoso. Então passear pelo Rio é um tanto familiar, como se tivesse feito isso a vida toda, é uma sensação muito louca. Catete, Leblon, Copacabana, Avenida Brasil, Ipanema, Lagoa, são nomes tão comuns na minha memória, que penso já ter estado lá em outros tempos. E meu sentimento de enfim conhecê-los é um misto de encantamento e horror, que pena ser este paraíso tão maltratado que em certos pontos mais parece o inferno (meio pesado, ).
Algumas constatações que o vovô da Luiza teria gostado de ouvir: como tem viaduto nesta cidade! Nunca vi tantos em tão pouco espaço. O mais curioso é a linha vermelha: passa por cima de um complexo de favelas, como quem diz assim: não me misturo com vocês! Passa pelo porto, mas só dá pra ver os grandes e belos navios. Passa pelo aeroporto internacional. Um misto de riqueza, progresso e casas feitas de qualquer coisa. Ao longe se avista a Igreja da Penha, bem ao alto, linda, cercada de toda sorte de coisas ao seus pés. Que cidade curiosa! E a linha vermelha segue, imponente e distante, acima de tudo isso. Basta não olhar para baixo.
E tantos outros lugares lindos e curiosos, dignos de habitar constantemente lugar de destaque no horário nobre: tanto no noticiário, quanto na novela. Você pode até escolher para que lado vai olhar: se o para o glamour, se para a cruel realidade.
E tem o Cristo. Só estive lá uma vez. Tamanho foi o meu encantamento que de lá mesmo liguei pro meu paizinho e pra minha mãezinha fazendo-lhes uma promessa que só poderei cumprir metade: levá-los lá.
Cristo, enviado por Deus para nos salvar de todo mal, mantém-se vigilante, de braços abertos, abençoando e acolhendo aquela terra linda e feia. E perdoando. Não há como não se emocionar. Acima dele só o céu, só Deus Pai. E abaixo, todos nós que nada somos sem seu amor e misericórdia.
Tenho certeza de que seu Anivio teria odiado o Rio, mas teria amado viajar até lá apenas para se encontrar com Ele. Que pena não ter dado tempo...

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Ai, ai.

Não sei se é a proximidade do nascimento da Luiza, mas minha saudade anda atingindo picos altíssimos. As pessoas sempre dizem que o tempo cura tudo e eu continuo achando que só cura queijo mesmo. A cada dia essa falta, esse buraco só aumenta. As vezes me dá medo, as vezes me dá raiva, as vezes me lembro de tudo e penso que foi melhor assim, mas a saudade... Minha barriga está enorme, a Luiza está enorme, um bebezão de fazer orgulho em qualquer avô. Fico pensando o quanto ele se realizaria ouvindo as novidades sobre ela. Fecho os olhos e o vejo contando aos seus amigos que no sétimo mês de gravidez da filhinha querida a neta já tinha 39cm e pesava 1,5KG, Imagino ele contando com orgulho do nascimento de cada filho,todos grandes e saudáveis também, como a neta que em breve chega. Dói demais não ter mais isso.
Tenho vivido muitas coisas nos últimos dias. A viagem ao Rio, depois pra Petropolis, a possibilidade da mudança. Mas tudo isso perde um pouco o brilho por não poder mais contar a ele. Nunca conheci ninguém que fosse tão apaixonado quanto Seu Anivio. Ele ouviria, criticaria, elogiaria como ninguém que eu conheça é capaz de fazer. Olho o sol e penso que seu brilho anda ofuscado desde que ele partiu. Penso que nada mais vai ter a mesma graça. Com Luiza a graça é outra. Faz muita falta falar com ele, ainda que só por telefone, se fosse possível...

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

E a vida segue...

Alguém já teve a impressão de que algumas coisas não combinam entre si? Amo verde e passarinhos, mas tenho horror a certos bichos, principalmente aqueles que se parecem com jacaré. Hoje pela manhã fui pegar o carro pra dar uma volta com meu avô torto (avô do meu marido, biso da Luiza) e lá estava ele, bem na minha frente, um lagarto imenso, devia ter uns 30 cm, uns 20 vai, mas para mim mais parecia uma lagartixa de um metro. Nada no mundo me mete mais medo do que lagartixa, então dá pra imaginar minha aflição com aquele bicho na minha frente. Primeiro ele fugiu, subiu pela parede e se escondeu num buraco que ficava mais ou menos na altura do capô do carro. Depois voltou e ficou me olhando, ameaçando sair de lá. Parece que atrapalhei o passeio do bichinho. Manobrei o carro, vaguinha triste de sair, e ele, sem cerimônia, saltou do buraco e seguiu caminho tão logo saí da sua frente. Quase morri. Ah, só pra constar, estou em Petropolis, cidade imperial, mas a esta altura penso que se trate de algo próximo de uma floresta ou zoológico.
Passeamos pela cidade, almoçamos, voltamos. Guardei o carro e no trajeto de volta ao apartamento lá estava ele, quer dizer, acho que era outro, um pouco menor, grudado na parede do prédio no meio das trepadeiras, o que aumentou meu horror: deve ser uma colônia inteira. Como eu adoro São Paulo. É tanto asfalto e concreto, tanta poluição que uma cena destas é inimaginável. Descobri porque sou tão feliz lá.
Se meu paizinho estivesse aqui ele diria: "coitado do bichinho, ele não faz nada pra gente", mas sua simples existência para mim é demasiada afronta, é o que me basta. Nossa casa lá em Minas fica numa várzea, bem perto do rio. Quando eu era pequena ainda tinha muito mato por lá e sapos, pererecas, lagartixas eram vizinhos constantes. Penso que nunca me senti segura de verdade. Como meus pais nasceram e cresceram na roça, pra eles aquilo era muito normal. Não sei dizer de onde vem tanto medo, até faço uma ideia, mas o fato é que esses bichinhos, principalmente os jacarezinhos, são a parte terrível de minha história. Passei minha vida toda nadando em rio e cachoeira e andando pelo mato como já contei aqui mesmo, por isso penso que não combina muito esse medo, só sei que o tenho.
Estou num lugar que Seu Anivio adoraria conhecer, é uma serra tão linda! Claro que a parte histórica da cidade ele nem se interessaria, mas paisagem...
Sábado, quando vim pra cá, experimentei longas horas de profunda tristeza. Que graça tem descer a serra das araras (que dá acesso ao Rio de Janeiro) se não vou poder contar ele? Este ano começou assim, com uma dura tarefa a ser aprendida: ver o mundo e guardar no coração como seria se ele estivesse aqui.
Os dias estão passando, mas custa entrar na cabeça o que de fato aconteceu. E nem sei se vai entrar. Tenho vontade de ficar ainda muito mais perto das pessoas que amo, fico com medo de não tê-las mais por aqui, e tenho vontade de proibir Deus de levar quem quer que seja de volta ao seu convívio, ah, se eu pudesse...
Minha princesa está grande e forte, mais um pouco e ela estará nos braços. Penso que quando ela chegar não terei muito tempo de ficar pensando estas coisas, mas penso também que aos poucos fui dando conta deste luto. Já não sinto raiva nem indignação. Não posso dizer que estou resignada, mas ao longo deste cinco meses e dezesseis dias fui deixando de conversar com ele e passei a falar com ela. Ainda tenho rompantes, acessos de não querer aceitar, uma teimosia. Mas passa. É difícil quando vou à nossa casa, ainda fico procurando por ele e pensando que tenho de chamá-lo pra almoçar, tenho de ir até ele pra contar algumas aventuras, como esta com o lagartinho, tenho de avisá-lo que já estou de partida. Continuo achando tudo muito estranho: como pode num momento a pessoa está ali, do seu lado, no momento seguinte, não mais. Será que isso passa?
Estou prestes a vivenciar a maior mudança de minha vida e acho que dói mesmo é não poder compartilhar com ele, meu amor mais puro, toda essa riqueza. É uma falta, um buraco imenso, o lugar vazio na foto, na mesa, no sofá. Eu costumava compartilhar tudo com ele e hoje me dói pensar que não vou poder contar a ele como o carioca é mal educado (isso é outra historia), ou como a serra de Petrópolis é linda. Esse lugar é só dele e ninguém vai poder substituir, nem mesmo Luiza. Aliás, ela já tem o dela e é exclusivo. Sei que ele se apaixonaria por ela se estivesse aqui e lhe contaria um sem fim de histórias, mostraria um bocado de coisas e a ensinaria a amar os bichinhos até os jacarezinhos que comem baratas. Posso contar as histórias, mostrar um tantão de coisas, mas amar esses monstrinhos... vou ficar devendo...

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Resoluções de ano novo

Enfim ele chegou! Foi difícil atravessar o portal. Lembrar, pensar, sentir... e aquele pensamento teimoso que insiste em voltar sempre: será que é verdade mesmo? Enfim encontrei a bicicleta que havia desaparecido. Pensei: não quero que nada mais dele seja doado. É como se ele fosse voltar. Vai que ele volta e não a encontra mais aqui? Doce sonho. Preciso me desfazer de algumas coisas que deveriam ter ficado no ano velho, mas que por uma distração acabaram por vir comigo pro ano novo: algumas mensagens no celular, alguns pensamentos, algumas lembranças doloridas... coisas que precisam ficar na memória apenas. Alguém uma vez me disse que coisas velhas precisam sair para novas entrarem. Pois bem, minha primeira resolução de ano novo é essa: tornar quadros da memoria estas coisas que teimam em ficar por aqui me assombrando. Afinal, tudo nessa vida perece, menos o que vivi e o que senti. Isso não acaba nunca e é o que importa!
SEJA BEM VINDO ANO NOVO!!!!!!