quarta-feira, 21 de julho de 2010

Dois anos.

Está faltando dia pro tanto de lágrimas que ainda preciso chorar. Desde segunda-feira que me dedico a ler o que escrevi neste blog. É como se pudesse resgatar o caminho para enfim chegar aqui. Estou à flor da pele.

Minha pequena está tão linda! Tão grandona, tão esperta, tão inteligente. Anda se divertindo com sua primeiras palavras e começa a formar frases. Semana passada levou um tombinho e se arriscou a me contar: mamãe, uchfeahtbnmorcdeaomnuha, qualquer coisa assim, que queria dizer que ela caiu e bateu a perninha e doeu, uma coisa linda ela falando, me surpreende todos os dias e eu fico cada dia mais encantada, não sabia que isso era possível. A minha linda!

Semana passada eu apresentei a ela o vovô. Peguei meu álbum de casamento e a convidei para ver comigo e em cada foto eu o mostrava e falava, esse é o vovô Anisio, mas ainda é cedo, ela não curtiu muito. Ontem me veio a idéia de ler para ela estes textos, mas confesso, ainda não achei o caminho para que ela conheça esse vovô aqui. Ah, no fim de semana eu mostrei a estrelinha, mas ela ainda é muito pequena. Meu maior medo: que ele acabe esquecido. É, porque a gente já não fica falando muito, mas eu penso nele todos os dias e cada vez que a Luiza vem com uma novidade um pedacinho do meu coração dói uma dor sem fim, porque ele não vai ver, nem me ouvir contar que ela aprendeu isso, falou aquilo, que já está pesando 13 quilos, por isso que já não estou mais conseguindo carregá-la como antes. Eu tenho tanta coisa pra contar pra ele, ai que vazio que ficou com sua partida.

Estou agora tentando arrumar a casa, é uma estratégia, enquanto se arruma a casa organiza-se o pensamento, mas não estou conseguindo. Fiz um tanto de coisa e quando olho, parece que ao invés de organizar, baguncei mais um pouco. Meu coração está assim, um forfé (para quem não sabe forfé é bagunça, desorganização, confusão).

Tenho vontade de ver meu irmão, muita saudade dele. Parece que se eu estiver ao lado dele consigo resgatar um pouco do meu pai. Eles são tão parecidos e meu irmão sempre foi um pouco meu pai também. Eu tento, mas não dá muito certo. É que fiquei moça, casei, tive filho e hoje conversamos de igual pra igual, a porção irmã é maior do que a porção filha. Será que sou só eu no mundo que me sinto assim?

Lendo os posts antigos vi que minha amiga Lu comentou quase todos. Já não escrevo tanto como antes, mas fico ansiosa aguardando seus comentários. Ela me ajudou a atravessar meu luto e a dar sentido às histórias que desejo contar pra minha bonequinha. Ela sempre esteve presente em minha vida desde que a conheci, mas nunca como agora. Lu querida, acho que mais ninguém neste mundo me ajudou tanto a enfrentar esta tristeza em minha vida como você. Obrigada amiga, muito obrigada!

com vontade de chorar, mais nada. Fico no maior stress pensando que meu marido vai chegar em casa e ficar bravo comigo porque não fiz nada de muito útil hoje, mas acho que ele me perdoa, estou tão triste.

Sexta-feira completam-se dois anos de sua morte. É engraçado como a gente se dedica a contar os anos. Primeiro os de vida, ele viveu 75. E agora os de morte. Quando nascemos e apenas neste momento, contamos meses, porque uma criança cresce e se desenvolve num mês o equivalente a anos luz. Depois fica um pouco mais lento o desenvolvimento. E pára. Com 18 anos já somos grandes o suficiente e já aprendemos quase tudo o que precisamos saber para enfrentar este mundo, vamos apenas aperfeiçoando nossos conhecimentos e nos tornando melhores, isso até os 30. Aí os anos se tornam meses. A vida começa a andar numa velocidade absurda, num piscar de olhos já se foram 2, 3 anos, 10, 15, 20 anos. Fico assustada quando me dou conta de que minhas histórias aqui relatadas tem mais de 20 anos. E em dois dias já serão dois anos sem meu amor mais puro e sincero. Parece que foi ontem. Parece que foi há 20 anos.

Queria fechar os olhos e viajar até te encontrar, estou com muita, muita, muita saudade! Mesmo!

Já me acostumei, mas por que será que essa dor não pássa?

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Mais uma do vovô

Sexta-feira, dia 16, foi dia de Nossa Senhora do Carmo, padroeira da minha cidade, Cambuí. Então é feriado lá. Estava no metrô indo às compras com uma amiga quando ela me perguntou se era dia 17. Não, eu respondi, hoje é 16, dia de N.Sra do Carmo. E contei minha minha história. Como é a padroeira da cidade, tem quermesse. Quando pequena a renda era pra reformar a igreja, hoje já não sei mais como funciona. Meus pais eram "festeiros" todo ano. Festeiro é a pessoa que trabalha pra quermesse acontecer. Então meses antes pede-se e recolhem-se as prendas, que podem ser desde sacos de farinha de trigo até bezerros e vacas inteiras que serão leiloadas no bingo. E na quermesse do meu tempo de criança vendia pastel, chocolate quente, quentão, vinho quente, canudo de doces. Hoje a coisa está mais sofisticada e dá ate´pra comprar o jantar, porque também tem vaca atolada (sopa de mandioca com costela de vaca), canjiquinha (sopa de quirera de milho com costelinha de porco), e tem a sobremesa, canjica com amendoim. Mas de criança eu gostava mesmo era de pastel de queijo e chocolate. E nos dias de quermesse os festeiros também trabalham nas barracas, minha mãe fritava pastel e eu sempre comia pastel quentinho e tomava chocolate, vou falar baixinho pro padre não ouvir, de graça. Então eu tomava muito chocolate, era bem docinho e tinha gostinho de canela, nunca consegui fazer igual. Depois que cresci mais um pouco também me encantei pelo pastel de carne, que é feito com carne moída, bata amassada e muito cheiro verde, nunca vi pastel assim em lugar nenhum, muiiiiiito bom. E tinha as barraquinhas, hoje sei que são camelôs itinerantes que ficam viajando de cidade em cidade nos dias de festa para garantir seu ganha pão, mas na época pra mim aquilo só existia em Cambuí e no Córrego, cidades vizinhas que são quase grudadas uma na outra.
E tínhamos um ritual. Todo dia 16, o dia da festa, meu pai me levava pra ver as barracas e comer doces. Ele ficava anunciando um mês antes que no dia da festa ia me levar. Maçã do amor, churros, morango do amor, uva do amor, doce de leite, cocada, doce de abóbora, eu me fartava e ainda levava um tanto pra casa. Era o prazer dele me "estragar" me enchendo de doces. E eu adorava. Passava o ano inteiro esperando chegar o dia da festa, não sei dizer por quanto tempo foi assim. Depois que fiquei moça ele já não me levava mais, mas aí eu pedia dinheiro e ia sozinha, com as amigas e ele ia também e trazia doces pra casa. Eu ainda amo aqueles doces. Este ano estive lá nos primeiros dias de quermesse, mas não comi os doces. A Luiza ainda é pequena pra mergulhar nesse universo que qualquer dentista abominaria, então vamos guardando nossa energia pra quando ela estiver maiorzinha e também puder se fartar. Uma vez por ano só? Acho que tudo bem.

E os brinquedos? Tinham aos montes nas barracas, mas eu não pedia. É porque minha mãe falava que ele não ia comprar, que não adiantava pedir, e eu obedecia. Se queria brinquedo pedia pra ela. Até que um ano eu vi uma boneca vestida de noiva e fiquei doida, apaixonada. (Acho que naquela época eu já sonhava em casar, sei lá). Não sei quantos anos eu tinha, mas eu não podia voltar pra casa sem aquela noivinha. Andamos a tarde toda e eu fascinada, até que me enchi de coragem e pedi, e ele me comprou e eu voltei pra casa ainda mais feliz do que jamais havia sido até então. Ah, ele não era tão mal assim como minha mãe pintava, afinal ele me comprou o brinquedo e ficou repetindo que ela era mesmo muito bonita.
Ele contou essa história pro meu marido pouco antes de morrer, seus olhos brilhavam de lembrar minha felicidade carregando a noivinha pra casa, nem eu me lembrava com tanto amor desse dia, mas ele, pessoa rica e especial que era não se esqueceu do seu feito heróico, ele, meu herói, me salvou da tristeza de não ter um brinquedo, uma bobagem, mas de uma importância enorme naquele momento da minha vida. Era uma belezinha a noivinha, ele dizia. E eu brinquei até gastar, até ficar velha, ate´não servir mais. Não sei que triste destino teve minha noivinha, mas de uma coisa eu sei, eu fui muito feliz com ela. Acho que foi meu brinquedo mais especial, porque foi o único que ele me deu. Acho que bem no fundo era o meu pai que adorava os doces e que era um pouco criança. Acho que ele me levava porque levava a si mesmo também, como se estivesse sendo criança de novo, da mesma forma como me sinto hoje quando estou brincando com a Luiza, sendo uma criança que nunca fui no passado, com brinquedos e brincadeiras que não existiam na minha época. Acho que àquela festa e àqueles doces também eram novidades para ele.

Sei muito pouco da infância do meu pai, ele não era de falar do passado nem de si mesmo. E quando falava só contava os grandes feitos, as coisas boas, sua tristeza ele deixava bem guardada. Ele viveu a vida tratando de ser feliz e é assim que tento viver a minha vida. Mas sei que ele nunca teve um brinquedo, nunca sentou num banco de escola e teve pai por pouco tempo na vida (seu pai morreu quando ele tinha 12 anos e me contou isso já no fim de sua vida). Então penso que ele tratou de aproveitar sua segunda chance, viveu uma vida de filho sendo um excelente pai pra mim e meus irmãos, nisso todo mundo concorda.

Em 2008, exatamente uma semana depois do dia da festa, meu pai faleceu. Comeu doces pela ultima vez, comeu pastel, assistiu à missa e se despediu de N. Sra do Carmo e de toda a nossa história. Nesta sexta-feira, dia 23, completam-se dois anos. E eu ainda não consegui me entender com essa novidade.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Para a amiga Anna.

Estava dividida entre ir à academia, ir à feira e sentar aqui para escrever. Acabei por me dar conta de que alimentar minha alma, exercitar minha mente e ouvir meu coração são de maior importância do que comer ou fazer exercícios. Claro que se passasse fome seria diferente, mas eliminar aquelas dobrinhas intrusas pode esperar, a urgência do meu coração é muito maior do que essas exigências deste mundo comtemporâneo.
Ontem fui visitar minha amiga Anna (a Paulinha pros íntimos, mas para mim, sei lá, sempre foi a Anna). Fui conhecer seu novo lar doce lar e mais uma vez tomar parte de sua loucas aventuras de sucesso. Bem poucas pessoas no mundo são tão ousadas e corajosas como minha amiga Anna. Eu a admiro demais!
Mas precisava também desabafar. Porque me tornar mãe fez acordar dentro de mim uns cem milhões de lembranças, algumas boas, outras nem tanto, que andavam me perturbando e me impedindo de tocar a vida pra frente. Eu precisava falar. E falei. E ela ouviu. E falou também, mas eu falei mais, como sempre. E ela, boa amiga que é, ouviu pacientemente e me ajudou a compreender esses cem milhões de lembranças pipoqueiras que andavam me roubando a paz. E voltei pra casa com vontade falar mais ainda, mas com a cabeça repleta de respostas e com o coração tranquilo. E me dei conta que grande parte das coisas que sonhava fazer quando tivesse uma filha (sim, sempre quis uma filha) são coisas que desejava ter feito com minha mãe, mas que nunca aconteceram. Não porque minha mãe tenha sido uma mãe má, ruim, mas porque ela também não fez com a sua mãe. Coisas das quais nunca havia me dado conta e que de repente passaram a me incomodar demais e eu não estava conseguindo lidar com essas "novidades", aí a minha amiga querida Anna me concedeu uma tarde de sua vida e fizemos uma longa sessão de "terapia", embora prefira achar que foi uma troca de confidências. Obrigada, amiga querida!

Conheci a Anna nos tempos da faculdade. Estava triste e desolada, sozinha na pensão em que moramos juntas quando de repente ela chegou, com seu cabelo rebelde, seu jeito de adolescente de 15 anos e acompanhada de sua mãe carinhosa e zelosa. Chegou falante e aquele jeito não combinava muito com os óculos de lentes grossas que usava, mas logo ficamos amigas. Nem sei como, porque ela sempre foi uma alegria só, embora compartilhássemos o desejo de não estar ali naquela cidade do fim do mundo. Eu triste, ela alegre, como pôde dar certo? O encontro de almas não precisa razão. E a Anna não parava muito por lá, a gente mal se via naquela época, ela era cheia de amigos e compromissos e ainda tinha um namorado, não dava muito tempo mesmo da gente ficar conversando, mas ficamos amigas ainda assim. E a Anna foi embora, voltou pra sua terra garoenta e para o conforto do ninho de sua doce mãe e ficamos anos sem nos ver ou nos falar, apenas trocando cartões de Natal e talvez uma carta ou outra. E enfim nos vimos de novo e o milagre aconteceu, o milagre do encontro de almas, era como se estivéssemos sempre juntas, o tempo não passou. E o que mais admiro nessa pessoa única que é a Anna é que ela é amiga assim de uma porção de gente, coisa rara, . Mas pra mim ela é mais. Lembrando de sua mãe arrumando suas coisas no armário da pensão pude compreender enfim de onde vem tanta dedicação, porque a Anna não é só minha amiga, ela cuida de mim e vive me ajudando, seja me encaminhando meu primeiro paciente na clínica, seja ouvindo minhas lamentações, seja me carregando para levar um currículo na Cato, seja me convidando pra montar um curso. Sempre me ajudando. Penso que ela é destas amigas meio mães, passe o tempo que passar, aconteça o que acontecer, essa amiga é daquelas com quem sempre vou poder contar. O que posso dizer a esse respeito?

Amo muito você, amiga querida, conte comigo também e muito obrigada por tudo!

Cabe aqui uma destas frases prontas: quem tem amigos nunca está sozinho. Que bom que conto com você, amiga querida.