segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Viveu intensamente

Neste fim de semana pintamos o quarto da Luiza. Meia parede em lilás, ficou lindo! Nossa princesa vai morar num castelo colorido, preparado com muito amor. Ontem, enquanto buscávamos o que faltava para finalizar a pintura, fiquei lembrando dos tempos de criança e disse ao Dri que gostaria que ele fosse um pai como o meu. Não lembro bem que idade eu tinha, mas era pequena. Ele fez um balanço para mim, com uma corda e um banquinho de madeira. Lembro que durante a confecção do mesmo eu estava ansiosíssima e quando ficou pronto eu balançava tão alto que meus pés quase tocavam o céu. Acho que este foi o melhor brinquedo que tive. Já estava na escola e uma vez a professora levou uma casinha destas que você monta pra criança brincar dentro dela, era tão bonitinha! Fiquei encantada. Quando cheguei em casa peguei umas varinhas e uns pedaços de retalho e fui pro quintal tentar montar uma casinha pra mim, claro que nunca dava certo. Lá pelas tantas meu pai ficou curioso e perguntou o que eu estava tentado fazer. Quando contei ele disse que faria uma casinha para mim assim que pudesse. E fez. Era na verdade bem diferente daquela da escola, mas era só minha. Ele aproveitou a parede e fez um teto, cobrindo com plástico e tecido, lembro que tinha alguma coisa branca no meio. Era tão pequenininha que só cabia a mim e mais ninguém. Passava mais tempo lá do que em qualquer lugar. Não consigo lembrar em que momento estes brinquedos foram sendo desmontados, acho que fui crescendo e perdendo o interesse, mas eles foram brincados ao máximo com certeza. Eu não pedia nada, era sempre ele que tinha as ideias, como quando ele me deu as galinhas de estimação. Acho que ele foi um pai que curtiu muito ser pai. Ele tinha as ideias e as executava e eu me apaixonava por tudo o que ele fazia.
Meu pai era mecânico e sua oficina fica do lado da nossa casa, então ele estava lá, disponível o dia todo, ainda que nem sempre livre para me dar atenção. Sempre que podia ele me mostrava os motores dos carros em funcionamento, falava de velas e pistões, de como funcionava um motor a explosão, por onde passava o combustível, que precisava de uma faisca acionada pela partida elétrica do carro... enfim, minhas melhores lembranças de infância estão dentro daquela oficina. Lembro que eu pedia dinheiro para ele o dia inteiro pra comprar doce. E ele dava. Uma vez ele me deu 50 centavos de alguma moeda que não lembro qual é, mas era muito dinheiro. Era tanto dinheiro que eu nem sabia o que fazer com ele. Acho que comprei aquele chiclete que é bem fininho e compridinho e tem sabor azedinho. E devo ter comprado outras coisas também.
Como meu pai trabalhava em casa, eu estava sempre em volta dele. Toda vez que ele saía para experimentar um carro e saber se ficou bom do defeito, ele me levava. Eu adorava. Largava o que fosse pra sair com ele. Uma vez ele foi testar o freio de um caminhão no morro do Solar Club, que é um senhor morro, eu diria que está mais para montanha. Ele levava o caminhão lá pra cima e descia com toda a velocidade, pisando no freio só no final. Fez isso várias vezes comigo junto. Hoje quando lembro disso penso que ele não tinha juízo algum e morro de medo. Ele só me pedia para me segurar, e eu obedecia. Não aconteceu nada demais, afinal cá estou contando esta historia. Meu pai era doido, não tinha medo de nada, por isso viveu intensamente. Falei pro Dri que é uma pena ele ter se despedido da gente. Tenho certeza de que se estivesse aqui a Luiza e a Maria Clara, minha sobrinha de um ano, também ganhariam um balanço de corda com banquinho de madeira dentro da oficina do vovô.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Tempo tempo tempo

Tempo, tempo, tempo. Tempo de amar, tempo de sonhar, tempo de viver. Tempo de sorrir, tempo de chorar, tempo de se magoar. Tempo de perdoar. Tempo de repetir, tempo de inovar, tempo de dar um tempo. Tempo pra tudo, tempo pra nada, sempre o tempo. O tempo.
Minha professora de antropologia dizia em suas aulas que o tempo não existe. Dizia ela que o tempo é o movimento do espaço. Na época, há mais de dez anos, fez algum sentido, mas hoje acordei achando a coisa mais doida que já ouvi: "o tempo não existe!" Ilusão medida no relógio, não vai dar tempo. Ilusão. E o tempo passa, o tempo não volta, perdeu o tempo, perdeu-se no tempo. E continua a ilusão.
Nossas certezas continuam no ano que vem. E nossos sonhos. De fazer um tempo diferente deste tempo, não é assim? "O tempo cura tudo!"
É engraçado, Natal é um tempo triste. Mas deveria ser um tempo feliz pois Cristo nasceu para nos salvar. Tempo de reflexão, de fazer exame de consciência, de lembrar e pensar no que já foi, fazer um balanço. Tempo de renovar a esperança. Esperança. Nosso sopro de vida que faz tudo ter sentido e valer a pena. Tempo de ter fé. Nosso sopro de vida que nos impulsiona a caminhar sem ver para onde nem como, mas certos da chegada.
Tempo de reunir tudo o que foi com tudo o que se deseja que seja. E contamos com o tempo, fazemos o nosso tempo. Ele não existe sozinho, nós o construimos dentro do nosso tempo. E é só.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Homenagem ao meu marido

Homem bom, honesto. Meu único namorado que caiu nas graças de meu pai, ele sabia das coisas. Toda menina de Minas sonha em viver um grande amor. Toda menina sonha em viver um grande amor. Eu sonhava com um amor de filme, daqueles que a gente conhece, se apaixona, se separa e se reencontra no final, para o Happy End. "Cuidado com o que deseja".
Adriano. Adrianinho. Meninão, moleque, brinca como criança. Inteligente, adorável, sensível, estressadinho, mau humorado de um jeito delicioso. Capaz de lutar, capaz de buscar. Ansioso. Sofre do mau do bicho carpinteiro. Aventureiro. Fiel. Companheiro. Leal. Capaz de buscar a felicidade. Capaz de abrir mão de seus sonhos para nos amparar. Marido cuidadoso. Pai apaixonado. Minha força, minha segurança, meu chão, meu sol. Meu tudo. Minha alegria. Meu anjinho. Meu grande amor. Meu amparo nas horas duras, minha leveza. Ao seu lado tudo é melhor, tudo é mais fácil, tudo é colorido. Longe de você o dia fica nublado. Ao seu lado nunca falta luz. Ao seu lado tudo vale a pena. Ao seu lado somos uma família. A família perfeita e feliz. Amo muito você! Obrigada por existir. Obrigada por me escolher. Também te escolho todos os dias, quero ficar com você para sempre, para todo o sempre. Deus abençõe nossa familia.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Estou cansada de tanto luto! É tanto caixão e cemitério pra carregar que anda faltando espaço pra alegria. Aja resiliência!

Segunda chance

Existem coisas que a gente não entende. Existem coisas que a gente não aceita. Existem coisas que, sinto muito, não vejo muita validade. Minha amiga Lu colocou um video no blog dela que mostra mulheres em várias situações dando um passo atrás antes de se lançar adiante. A gente faz tanta besteira na vida e às vezes o desafio é tão maior do que parece que a gente dá conta, que optamos por sentar e chorar. Ou desespero, ou revolta. Mas dentro de mim brota uma força. Hoje lembrei-me do dia em que não passei no vestibular da FUVEST. Perdi o chão, meu mundo caiu, tudo ficou preto. De repente, já cansada de chorar, ela brotou: a força. Estava na praia, já devia ser quase madrugada. Levantei-me, lavei o rosto e comecei a arrumar a mala, como se fosse sair dali e começar a estudar naquela hora mesmo pro próximo vestibular, no fim do mesmo ano. No dia seguinte eu passei na VUNESP. De repente todo àquele sentimento me voltou com tanta nitidez. Não consegui ficar feliz por ter enfim passado no vestibular, ainda estava convivendo com a dor do que não foi. Só me dei conta quando meus amigos vieram me cumprimentar. Ainda assim levei uns cinco anos da minha vida pra perceber a validade daquilo tudo e hoje vejo que foi melhor assim, senão não teria conseguido. Dizem que se Deus fecha uma porta, logo abre uma janela. É duro de ficar contente com a janela quando a porta que se fechou era o seu sonho, mas acredito que sempre se tem um proposito. Meu pai, perto de morrer conseguiu enxergar o retorno de todo o investimento que ele fez na minha formação, já escrevi sobre isso. E quando me lembro destas passagens da minha vida sempre enxergo que para tudo se tem uma segunda chance. Questiono: por que não podemos ficar com a primeira? Por que não podemos ter a primeira opção? Como Psicologa eu diria que é porque escolhemos errado, direcionamos d eamneira inadequada o nosso olhar. Quando estava na faculdade eu tinha mania de me interessar sempre pelo homem errado. Minha terapeuta dizia que essa era uma forma que eu mesma inventava de impossibilitar o sucesso. De fato, ao me dar conta disso casei-me com um homem bem diferente daqueles pelos quais costumava me interessar. E foi a escolha certa. E eu a refaço todos os dias.
Segunda chance é oportunidade de fazer diferente. E acertar. Às vezes a janela é ainda maior e deixa entrar muito mais luz e alegria que qualquer portão gigante.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Amanhã? Quem sabe...

Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;

o que só agora vejo que deveria ter feito,

o que só agora claramente vejo que deveria ter sido

isto é que é morto para além de todos os Deuses...

Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.

Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci

de sonhar?

Esses, sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.

Enterro-os no meu coração para sempre, para todo o tempo,

Para todos os universos...(Álvares de Campos, Poesias, “Na noite

terrível...”)

Os sonhos por haver... Hoje ao voltar de uma palestra passei ao lado da árvore do Natal do Parque do Ibirapuera e pensei que gostaria de levar novamente meu pai pra ver aquela beleza de árvore e para curtir a fonte das águas que dançam. Ano passado, quando viemos de Cambuí para a cirurgia, passamos ao lado da árvore antes de chegar em casa, para que ele e minha mãe contemplassem aquela imensa árvore de Natal, ainda que só de dentro do carro. Árvore que lá pros lados de Minas não é comum. Lembrei-me deste poema e voltou-me à consciência tudo o que não fiz com meu pai. Não o levei para ver a fonte, não o levei para conhecer o prédio do Banespa e ver a cidade de cima. Não o levei ao relógio do Conjunto Nacional, não fomos à Fortaleza, não andamos de avião juntos. Nem ao Rio conhecer o Cristo Redentor deu tempo. Algumas destas coisas estavam ao alcance das mãos, mas ele já sem tanta energia, não quis ir. Sua auto-estima ficava abalada por estar doente. Como ele sempre acreditou que estava acima do bem e do mal no quesito boa saúde, estar doente para ele era meio que motivo de vergonha. Esse era o grande defeito do Sr. Anivio: o orgulho. Penso que ele deixou de viver algumas emoções no fim de sua vida por sentir-se envergonhado com sua situação e eu, Psicóloga, filha zelosa e apaixonada, nada pude fazer para mudar sua percepção daquele momento. Se bem que não sei se pra ele fez falta como fez pra mim. Acho que não. Eu é que não vivi estas alegrias.
Na minha profissão todos os dias sou confrontada com minha grande impotência: a vontade do outro. E é assim na vida de maneira geral. Meu pai sentia dor, mas só contava quando a mesma já tinha passado, o que dificultava muito o tratamento. Ele falava que os médicos fariam exames e estes revelariam qualquer coisa. O que ele se recusava a entender é que os exames eram pedidos baseados em suas queixas e só ele era capaz de saber exatamente o que sentia, mais ninguém, nem tecnologia alguma. Aprendi com minha amiga médica que quanto maior for o detalhamento de um incômodo, mais condições damos ao médico de nos ajudar. Desconfio que meu pai já andava se sentindo mal e nada disse até que passou mal. Ele ficava repetindo o tempo todo que "agora acabou tudo mesmo", referindo-se à seus incômodos, parecia que estava querendo convencer a si mesmo. E esse jeito teimoso dele de ser nos privou de uma centena de coisas prazerosas que faríamos juntos. Às vezes penso que talvez pudesse ter feito mais, que pudesse arrancar dele mais informações que me fizessem correr, mas logo me consolo em pensar que seus últimos dias ele passou despedindo-se dos amigos e fazendo o que gostava e considero isso um milagre. Ele poderia ter ficado dias a fio num hospital que ele odiava. Poderia ter feito outra cirurgia que não o salvaria. Mas não. Ele viveu. Apenas sinto pena dele ter partido porque ele amava tanto a vida, amava tanto viver.
Nenhum destes lugares que citei lá em cima serão para mim os mesmos lugares. Antes eles eram aqueles que eu queria levá-lo. Agora são aqueles que não o levei. E o não ter feito é que sempre vai pesar. A vida passa num sopro, não dá tempo de refazer, de reviver. Ou é agora ou pode não ser mais. Aí só resta a lembrança do que não foi. Tinham umas frases que a gente escrevia no caderno das amigas quando adolescentes: "prefiro a dor da derrota do que vergonha de não ter lutado" e "prefiro me arrepender do que fiz do que daquilo que não fiz". Hoje é que é a hora. Amanhã? Quem sabe...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Instantes

Sonhei com meu pai esta noite. Não consigo lembrar direito, mas ele estava partindo. Era uma cena bem diferente da que vivi de fato, mas no sonho estava me despedindo. Acho que tenho me despedido todos os dias, nos textos escritos, nas histórias contadas, nas lembranças. Pela manhã falei com minha mãe e ela disse que eles descobriram que meu pai tinha um valor de pis para receber ainda da década de 50, pode? Não sei se isso é bem verdade, a parte da década, mas que o dinheiro existem aí isso sim, só não está muito fácil receber. Meu pai era trabalhador autônomo, não contribuía com previdência alguma até porque acreditava que nunca se aposentaria, o que de fato aconteceu, trabalhou quase que até o dia de sua morte. Parou por uns tempos para se tratar, mas retomou tão logo teve disposição para isso. Engraçado é que eu imagino um futuro igual pra mim: nunca me aposentar. Ele viveu como se nunca fosse morrer, como se fosse eterno, mas se esqueceu de observar como a vida evolui de fato. Não se preveniu, não tomou precauções e agora aparecem estas surpresas. Da maneira maluca dele de ser ele deixou várias heranças, inclusive as que amparam a minha mãe, o mais impressionante é que ele não planejou nada disso. Doces surpresas, até nisso ele foi formidável sem saber.
Estava relendo um dos posts e fiquei me lembrando o quanto ele era expressivo. De olhar você já sabia se ele estava feliz ou triste, preocupado, nervoso. A expressão de seu rosto era de uma autenticidade única, ele não disfarçava. Até fazia a gente passar vergonha às vezes. Algumas imagens ficam voltando à minha consciência, como o último olhar que ele me lançou antes de morrer. Ele estava deitado numa maca no corredor do pronto socorro e eu ao lado tentando ouvir o que diziam os médicos. Contei a ele algumas coisas que ouvi e seu rosto se iluminou de esperança. Não sei porque hoje fiquei com a impressão de que aquele olhar perdido, distante já era um olhar de despedida, não de mim, mas despedida da vida. De repente me pareceu que ele sabia que seu fim estava próximo, era uma questão de horas. Então quando eu contei o que eles fariam com ele e parece que o fio de vida se fortaleceu e ele sorriu, levou as mãos uma de encontro à outra, como quem faz uma prece ou agradece por uma graça. Meus últimos momentos com ele. Aí a médica veio me dizer o que fariam de fato e eu me distraí, por um segundo tirei os olhos dele e quando retornei meu olhar eles o estavam levando para dentro da sala de emergência. Tive um impulso de sair correndo para abraçá-lo, mas me contive, a médica falava comigo nesta hora. Só tive tempo de dizer a ele que o estavam levando, mas que eu estaria ali esperando por ele. E ele me olhava, com a cabeça levantada, como quem não quer se despedir. Sabe aquela cena da gente ou de alguém no ônibus torcendo o pescoço até perder de vista a quem se ama? Foi mais ou menos assim. Toda vez que essa imagem me volta, tento afastá-la. Foi a última vez que o vi e que ele me olhou e nem a dor de tê-lo perdido dói tanto quanto a lembrança daquele olhar. Fico me perguntando porque não saí correndo pra abraçá-lo, o que será que ele pensou naquela hora, com eu ia saber que seria a última vez? Depois disso só o vi entubado e ele já não reagiu mais à minha presença. Fico pensando que se ele pudesse prever seu fim, teria estado mais atento à sua saúde e fico brava por observar à minha volta o quanto as pessoas vivem de maneira distraída, como se fossem imortais e inatingíveis. Meu maior aprendizado nisso tudo é que só se vive uma vez, o que dizem à respeito, até que se prove, são apenas especulações, então não dá pra viver uma vida de rascunhos, não sei se tem outra para passar a limpo. Ainda perco muito tempo com bobagens, mas estou aprendendo a dar valor ao que realmente importa nesta vida. Não tenho certeza de que vou conseguir, mas tenho me esforçado para viver o mais intensamente possível, para que não sobre rascunhos nem arrependimentos. Vou deixar aqui um poema, Instantes, que diziam ser do Jorge Luís Borges, mas que depois descobriram que não é. Seja de quem for, quem escreveu isso se deu conta de que certeza mesmo só temos desta vida aqui.


"Se eu pudesse novamente viver a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.

Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério. Seria menos higiênico. Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios. Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto de sua vida; claro que tive momentos de alegria. Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente de ter bons momentos.
Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos; não percam o agora. Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas. Se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono. Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente. Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo"

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

E a vida segue...

Quanta coisa boa a gente tem na vida, ! Dias de sol, barulho de crianças brincando, cachorro abanando o rabo, pedindo carinho...
O que mais me deixa indignada na historia da doença do meu pai é que eu sempre soube que seria assim, me dizia minha intuição. Meu pai tinha um jeitão arrogante, vivia se gabando de que gozava de boa saúde e não precisava de médico. Eu sempre desconfiei de que em algum momento alguma coisa o derrubaria e seria assim, algo grave, porque como ele achava que não ficava doente, também não conhecia exames preventivos. Apenas na minha imaginação seria mais sofrido e duraria mais tempo. Então sofri tempo demais por desconfiar disso. Por outro lado, parece que só aproveitamos de fato a vida quando nos damos conta de nossa finitude, não é?
Estou com muitas saudades, parece que já são 10 anos sem ele, mas o tempo tem dado conta de resignificar esta saudade.
Estamos preparando o cantinho da Luiza. É engraçado porque há um ano eu preparei o mesmo quarto pra chegada e conforto dele. Tiramos umas tranqueiras de lá, compramos uma bicama, colchões, lençóis novos, tudo para que ele ficasse bem acomodado se recuperando da cirurgia. E agora cá estamos de novo numa faxina bem mais enérgica, tentando realmente dar fim no maior número de tranqueiras pra que Luiza chegue num castelo e ocupe seu lugar de princesa. O mesmo espaço. Eu não gosto de ficar relacionando uma coisa com a outra, porque é peso demais pra quem chega, mas as coincidências são muitas. Deus chamou de volta meu pai e me mandou Luiza. E ela cresce, e ela mexe, tá muito sapeca, é o dia inteiro fazendo algazarra na minha barriga. Às vezes interage, às vezes faz doce, é uma pessoinha que já tem vontade própria. Quanta riqueza, meu Deus, tem essa vida.
E meu marido, lindo, que eu amo e que me ama também. Tem coisa melhor nesta vida que família? Meu marido é quem me dá apoio, me sustenta, me segura quando quero cair, me puxa quando quero parar, me devolve a esperança quando perco minha fé. Acho que tudo isso foi o que mais desejei ter na vida: um amor, um marido apaixonado, uma filhinha sapeca e um cachorro espevitado. Para dizer a verdade o cachorro veio de troco, mas já não consigo pensar na vida sem ele, apesar de muitas vezes querer eliminá-lo de minhas vistas.

Obrigada paizinho, boa parte de toda essa riqueza foi o senhor que me ensinou a valorizar. Nas inúmeras vezes que fomos visitar suas irmãs e sua madrinha, nas inúmeras vezes que o senhor me levou à força pra visitar a minha madrinha e brigou comigo quando eu, adolescente, lutava para me livrar de tudo isso. Obrigada paizinho por me receber nesta vida e me dar uma família grande e unida, que é o exemplo que hoje sigo pra construir a minha família. Obrigada por acolher o meu marido como a um filho e por abençoar meu casamento. Obrigada por sorrir pra minha filhinha antes de partir. Obrigada por me contar o quanto, à sua maneira meio esquisita, o senhor amou a minha mãe. Tudo isso hoje faz de mim o que sou e o que desejo me tornar, uma pessoa todo dia melhor. Que Deus o receba de volta e quem sabe, se isso for possível, dia destes a gente se encontra, quem sabe... por enquanto olho o céu e vejo a estrelinha lá brilhando, aquela que faço de contas que é o senhor fazendo diferença aí em cima e que vou ensinar a Luiza a admirar também. Gostaria de poder te pedir assim: volta logo! se puder, venha me ver nos meus sonhos, estou com muitas saudades, mas estou bem, vivendo feliz cada minuto da espera de nossa pequenininha que Deus enviou para que o senhor pudesse partir...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Hoje meu pai virou nome de rua.

Hoje, 04 de dezembro, fez um ano que meu pai fez a cirurgia de retirada do tumor. Lembrei-me ontem, lembrei-me hoje de madrugadinha quando acordei, no horário de sempre, para ir ao banheiro, como boa gestante que sou. Lembrei que um ano atrás devo ter acordado no mesmo horário para ir ao hospital esperar com ele pelo inicio da cirurgia. Meu pai, com 75 anos, tinha direito a ter acompanhante, garantido pelo estatuto do idoso. Ele foi atendido no Hospital São Paulo, que pertence à UNIFESP, pelo SUS. A enfermeira nos orientou a guardar energia para quando ele precisasse de ajuda, então ele ficou sozinho nos dois dias de pré-operatório. Acordei, acordamos, eu e minha mãe, e antes das seis da manhã já estávamos chegando lá. Ele subiu pro centro cirúrgico perto das oito. Minha irmã chegou de Cambuí, não lembro se ela o viu. Depois de um tempinho trouxe minha mãe pra casa, ela estava com uma gripe, e retornei ao hospital para esperar lá. A enfermeira disse que não adiantava muito a gente ficar lá porque as noticias só vem quando o procedimento termina, como se a gente conseguisse arredar o pé de lá, . E assim foi. Hoje pela manhã rememorei cada um destes momentos ate adormecer de novo, ainda era muito cedo. Acordei de novo e pensei o quanto meu comemoraria este dia se tivesse chegado até aqui. O tempo era expressão de vitoria e ele desejou tanto comemorar este dia: um ano sem câncer. Passei o dia mexida. Há uma ano atrás tive muito medo de perdê-lo, tivemos muito medo, mas também tínhamos muita esperança. E hoje ele não está mais aqui, nem bom, nem doente. Passei o dia mexida. Mais para o fim da tarde conversei sobre isso com meu amigo Nicolino e ele me disse que em novembro fez 34 anos que seu pai faleceu e neste tempo todo não teve um único dia que ele não se lembrasse do pai. Sinto que será assim todos os dias até que de alguma forma essa dor fique assim meio desbotada, mas passar...
Lá pela hora do almoço eu estava atendendo e ligaram da casa da minha mãe. Não pude retornar e acabei esquecendo depois. Quando cheguei em casa tinham ligado aqui também, aí liguei pra saber e fui presenteada com noticia mais bela: meu pai vai virar nome de rua. Não é lindo isso. E hoje, justo hoje. É o nosso presente. Agora além dos nossos corações ele vai estar vivo as olhos de todos que passaram por ali, nossa casa vai ficar na esquina da Rua Lino Lopes da Conceição com Rua Anívio Rodrigues Gonçalves. Daqui há muitos anos, quando as crianças estiverem estudando a historia da cidade vão saber que o nome daquela rua é de um cidadão honrado que viveu para fazer amigos e que muito bem fez com seu sorriso, seu amor e sua dedicação a todos. Quando Luiza puder entender eu poderei mostrar a ela a plaquinha na esquina e dizer assim:"tá vendo aquela placa ali? Tem o nome do vovô." aí quando ela me perguntar porque eu vou poder dizer:" porque ele era um homem muito importante!" Acho que ela vai gostar e vai achar i]legal ter tido um avô que virou nome de rua.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Nós e os bichos.

Continuando. Meu pai promoveu meu namorado a noivo e assim ficou sendo até que me casei dois anos depois. Quando voltamos ao Brasil, fomos morar juntos, quer dizer, mais ou menos, o Dri alugou um apê e eu deixei umas coisas lá. Meu pai nunca tocou no assunto. Nos casamos e começaram as perguntas sobre como era nossa casa. Depois de uns meses de casamento nos mudamos pra um lugar maior e logo meu pai veio nos visitar, veio dar um passeio por esta terra de gigantes.. Passeio escolhido por ele: o zoológico. Essa era uma das coisas adoradas por ele, bichos. Eu nunca tinha ido ao zoológico daqui, só tinha ido ao de Bauru que tem pinguim e fui várias vezes. Acho que tinha uma criança dentro dele que nunca cresceu, porque ele adorava zoológico e circo. Chegamos no zoo e eu estava ansiosíssima pra ver a girafa, eu nunca tinha visto uma pessoalmente! Logo na entrada, eu muito aflita, de repente paro bem em frente a ela: a Dona Girafa, linda, imensa, era muito melhor do que eu imaginava, fiquei fascinada, me senti criança de novo sendo levada pela primeira vez no zoológico pelo meu pai.
Quando criança ele sempre me levava pra passear. Costumávamos frequentar as casas dos parentes dele que em grande parte ainda moravam na zona rural. Eu adorava. Corria atrás das galinhas, tentava pegar os pintinhos e patinhos, mas as donas mamães dos bichinhos eram bem bravas. Andava pelo meio do pasto entre vacas e cavalos e quando eu ficava com medo,meu pai me carregava no colo. Quando eu tinha uns 7, 8 anos, meu pai me deu meus primeiros bichinhos de estimação: um casal de galinhas garninzé, que é uma galinha que não cresce muito, tipo uma galinha anã. Elas não tinham nome, mas viveram um bom tempo no meu colo como se fossem gato ou cachorro. Elas eram bem ariscas quando chegaram, mas com o tempo foram ficando mansinhas, eu chamava e elas vinham. Não lembro quando tempo durou. Meu pai trouxe outro galo mais bonito que aquele e teve que levar aquele embora, é porque não existem dois galos no mesmo terreiro. E elas foram ficando até o dia em que o galo foi atropelado. Ficamos desesperados, tinha que sacrificar o bichinho, mas ninguém conseguiu. Virei enfermeira, cuidei dele até ficar bom e acabei concordando que o melhor mesmo era ele voltar pra roça, que não tinha tanto perigo. Tempos depois fui visitar meus bichinhos e minha galinha já não se lembrava de mim, mas estava bem, parecia mais feliz lá no terreiro da Tia Iracema, então mesmo triste, fiquei tranquila. Eu costumava adotar todos os gatos que apareciam por lá, mas meu pai nunca permitiu que eles ficassem. De cachorro eu tinha medo. Depois de adulta fui descobrir que meu pai teve um cachorro quando casou-se com minha mãe que era seu companheiro. Era um vira-latas de rua que o acompanhava de manhã quando saía pra trabalhar e o esperava de volta à noite, quando voltava. O bichinho teve um tumor e precisou ser sacrificado. É que naquele tempo Cambuí nem tinha veterinário. Penso que seu sofrimento foi tão intenso por ter de fazer esta escolha que nunca mais quis esse tipo de bicho, o que explicou muita coisa. Até que chegou o Johnny. O Johnny é um Yorkshire que minha irmã comprou pra minha mãe, mas que ela não quis, porque cachorro de raça é muito melindroso. Aí minha irmã resolveu devolver e o bichinho ficou por uma manhã na casa dos meus pais, aguardando ser buscado. Não saiu mais de lá. No começo chorava a noite inteira e escolhia os lugares mais inusitados pra fazer suas necessidades, mas encantava a todos com seu carinho. Aí foi adestrado e os problemas terminaram. De noite ele ia chamar meu pai pra sentar no sofá pra ele deitar ao lado e colocar a cabeça no colo do meu pai, era lindo de se ver. Depois que meu pai partiu ele não deitou no colo de ninguém. Agora eu também tenho um cachorro, o Manchinha, que é um vira-latas de raça, branquinho, lindo, mas uma pimenta. Nem sei o que vou fazer quando a Luiza nascer, falta espaço pra tanta gente aqui em casa, mas na hora a gente vê.
Quando ia circo pra Cambuí, lá íamos nós ver os leões e os macacos, mas variedade mesmo só fui ver no zoo em Bauru. Queria ter levado meu pai lá, mas não deu. Embora ele tenha ido algumas vezes me buscar, me levar, ele tinha uma pressa de voltar pra casa. No dia da girafa aqui em São Paulo também não foi diferente. Fomos ao zoo, depois pro shopping, coitadinho, quase matei meu pai de fome, é porque a gente tá acostumado a ficar o dia inteiro sem comer, mas pessoa da idade dele não pode passar muito do horário. Depois fomos ver os aviões pousando e decolando do estacionamento do shopping, mas a vista de lá não era privilegiada como a daqui de casa. Aí ele quis voltar pra casa.
A girafinha da foto foi o primeiro presente que nós, papai e mamãe, compramos pra Luiza, foi uma semana antes de sabermos que ela é ela. Vimos numa loja e nos encantamos, meu pai já tinha partido, mas estou certa de que ele também se encantaria por bicho tão simpático. Esse encantamento por estas pequenas coisas que meu pai me ensinou a ter é que preenchem de um sentido especial toda a minha existência e torna tudo à minha volta tão belo. Já falei em outro post que nenhum passarinho me passa despercebido e nem bicho algum. Meu pai se encantava até pelas lagartixas que, diga-se de passagem, tenho pavor, não acho nada encantador, mas ele achava, todas criaturas de Deus que merecem ser respeitadas acima de tudo. Fala a verdade, meu era ou não era um homem muito especial? E girafa de estimação só assim mesmo, de pelúcia.