quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Dia dos pais


E por falar em celebrar, esta mania que meu pai tinha de não gostar de festa, dia dos pais, Natal, dia das crianças para ele sempre foram datas comerciais, sendo assim, algumas passavam em branco. Quando criança a gente fazia lembrancinhas na escola no dia dos pais e eu sempre trazia pra ele, mas ele nunca dava muita importância não. Acho que na época eu não me dava conta disso porque não trago nenhuma lembrança triste desta época, mas me lembro de ter encontrado no ano seguinte o presente do ano passado sem abrir. Coisas de Anivio, vai entender. Hoje penso que não ensinaram a ele como proceder diante destas homenagens. Morei seis anos em Bauru enquanto estudava, então dia dos pais eu sempre estava longe, se ele não fazia questão, passei a não fazer também. Percebi que isto tinha mudado há uns dois anos. Eu fazia um curso em que as aulas aconteciam um final de semana por mês, sempre no segundo de cada mês. No dia dos pais tive aula e depois devo ter ido comer e, enfim, lembrei de ligar lá pelas 10 da noite. Meu pai dormia cedo, nesse horário ele já deveria estar recolhido, mas liguei assim mesmo e, para meu espanto, ele estava ao lado do telefone. Acho que ficou lá me esperando. Neste dia percebi que de repente ele passou a se importar. Ano passado o dia dos pais aconteceu quatro dias antes da sua primeira cirurgia e quatro dias antes do meu aniversário. Mesmo muito cansada pedi ao meu marido que fôssemos almoçar com ele, acho que não fazia isso há anos. Na véspera ficamos horas num shopping procurando o presente perfeito ate´encontrá-lo, e eu fiz um bolo pra celebrar meu aniversário.
No dia, família reunida, ninguém deu atenção pro bolo nem pra mim porque tinha chegado a Maria Clara, a mais nova integrante da família, filha do meu irmão, e ela era a grande atração, mas foi um dia maravilhoso, um pouco com cara de despedida, mas maravilhoso.
Quando cheguei fui logo dando o presente. Como sempre ele não queria abrir, então o ajudei e, surpresa, era um aviãozinho, desta miniaturas que vendem em aeroportos. Um boing de dois andares que cabe na palma da mão, meu pai adorava aviões e quando estava aqui ficava na janela observando os aviões que pousam e decolam do Aeroporto de Congonhas, do qual sou quase vizinha.
Ele parecia uma criança ganhando brinquedo no Natal. Tenho a impressão de que esse foi o primeiro brinquedo que ele ganhou em toda a sua vida, nunca vou esquecer aquele sorriso, quanta riqueza. E nunca vou esquecer aquele abraço, acho que foi o melhor abraço que ganhei dele. Isso era outra coisa que ele também não aprendeu direito. Mas acho que tudo isso faz parte da época em que ele nasceu e foi criado.
Fiz questão de estar lá com ele porque temia ser aquele o ultimo dia dos pais dele vivo, eu estava certa.
Este ano minha mãe, irmã e sobrinhos vieram pra cá para passear e durante o dia todo nem me dei conta de que o dia dos pais já havia chegado, embora tenha sofrido com toda sorte de publicidade anunciando o tal dia.
Pai e mãe são as duas coisas mais importantes que temos na vida por muito tempo, depois vem companheiro, filhos, mas eles, pai e mãe, são o princípio de tudo. E quantos de nós não aproveita.
às vezes me esqueço que estou escrevendo este blog pra minha filhinha Luiza, penso que estou escrevendo pra uma multidão conectada na rede e penso mesmo que minha experiência possa servir a outras pessoas, possa ensiná-las a viver melhor, com autenticidade, propagando o amor, se reconciliando com as pessoas, deixando as bobagens de lado.
Mas o que desejo mesmo é conseguir ensinar à Luiza. Poder dizer a ela que só se vive uma vez, por isso precisamos viver bem. Meus pais, com todas as manias deles conseguiram nos ensinar o valor da família, deu pra ver em tudo o que passamos o quanto somos unidos, mesmo com todas as rusgas e diferenças. Espero conseguir dar à minha Lu uma família assim, que ser reúne e produz uma imagem linda como esta, que fizemos no dia dos pais do ano passado. Acho que desta forma foi o único, e se não foi, estou certa de que foi o melhor.
A proximidade da morte faz isso com a gente: aprendemos a dar valor na vida, que é o que realmente importa.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Poema para Luiza

Nasceu, numa das noites insones tão comuns na gravidez, este Poema para Luiza, meu primeiro "bebê".

Luiza

E vem chegando Luiza
"a nossa Luiza"
Uma menina!
Luiza era apenas uma ideia, um desejo...
e virou projeto...
E já era Luiza desde então
E o projeto deixou de sê-lo
Virou um pontinho, tomou forma
e virou Luiza...
Luiza cresce...
Luiza brinca...
Luiza pula...
"Luiza é atleta", disse o médico!
Luiza se movimenta e movimenta a nossa vida
brinca e brinca com nossos sonhos
faz nosso coração pular de alegria
e nosso amor que já era grande,
anda escapando
de dentro de nós...
Luiza...
"ja vai chegar causando"
Luiza...
"geniosa como a mamãe"
Luiza...
"xodó do papai"
Luiza...
Nossa Luiza..
Nossa Lu...
Nossa vida... Luiza.

(Da mamãe para Luiza, numa noite insone).

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Três meses...




Hoje é dia 23, faz 3 meses que meu pai partiu. Acho que ainda não consegui acreditar. Fui almoçar com minha "chefe" esta semana e ela me perguntou quando minha bebê nasce. Quando respondi ela disse que na mesma semana sua mãe fará 89 ou 90 anos, não lembro ao certo e que ela pretende fazer uma grande festa, mas que a mãe não está querendo muito. Eu respondi que ela deve fazer sim porque esse ano meu pai fez 75 anos e estava aqui em casa no dia porque tinha saído recentemente de uma das inúmeras internações. Ele nunca gostou de festa nem de fotos, dizia que era bobagem, mas mesmo contrariando o que ele disse a vida toda eu comprei um bolo de frutas e as velas, 75, em azul. Cheguei do trabalho com o bolo, acendi as velas e eu e minha mãe cantamos parabéns. Ele se emocionou, fez um pedido, rezou, soprou as velas, comeu dois pedaços do bolo e nem quis jantar. De presente eu comprei uma caneta elegante e uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, de quem ele era devoto, dessas imagens desenhadas em cristal que acende uma luz. Foi lindo e até o dia de sua partida minha mãe contou que ele rezava todas as noites segurando a santinha. Depois da festinha ele passou mal, disse que foi o bolo, na verdade era a infecção que o levou tantas vezes ao hospital dando ares de que estava ganhando mais uma batalha. Ele voltou pro hospital três dias depois. Foi um período difícil. Meu pai passou por uma grande cirurgia, foi retirada a bexiga e todas as estruturas adjacentes e com uma porção do intestino uma nova bexiga foi feita e tudo correu da melhor maneira, mas ele contraiu uma infecção hospitalar. Foram 5 internações ao todo. Em todas ele entrava com febre e saía bom, mas a bendita voltava depois de alguns dias. A bactéria causadora do estrago se tornava mais forte a cada tentativa de destruí-la. Era muito frustrante porque sempre se tentava um antibiótico mais forte, mas nada garantia que daria certo.
Mas o fato é que ele estava aqui comigo no seu ultimo aniversário e neste dia ele ganhou sua primeira festa de aniversário, sinceramente não acredito que ele tenha tido outra antes desta.
Quando ele partiu, eu estava arrumando as coisas dele, separando roupas, documentos, são tantas providências a serem tomadas... de repente encontro no meio das coisas, embrulhadas no papel de presente da santinha, as velas, 75. Ele fal0u tanto mal do bolo dizendo que não tinha feito bem, uma das doideiras dele, que nunca pude imaginar que ele as guardaria. Ele ficou feliz e foi importante pra mim e hoje sei que foi pra ele também aquele momento, tanto que ele guardou.
A vida passa e a gente esquece de homenagear quem a gente ama. No ano que me casei, 2003, meu pai fez 70 anos. Acreditando que esta seria uma idade bonita de se comemorar pensei em fazer uma festa, mas minha mãe me contou que o vizinho, na mesma idade, ganhou uma grande festa, mas partiu alguns meses depois. Pensando nisso, fiquei apavorada e desisti da minha ideia. Eu me casaria em quatro meses e fiquei desesperada com a possibilidade dele não entrar comigo na Igreja, como se uma festa tivesse mesmo o poder de traçar um destino. Desta vez não quis correr o risco, mas do contrário: não fazer e perder minha ultima chance. Valeu a pena.
Celebrar os anos que se completam é celebrar a vida passada e brindar o futuro, ainda que ele seja curto. O mais importante é que ele seja intenso e deixe marcas para celebrar depois, ainda que apenas na nossa memória. A lembrança de um amor ocupa lugar de destaque na nossa memória e é a única coisa que levamos desta vida. Hoje completam-se três meses de sua partida e tenho certeza, ele levou consigo a lembrança do bolo, da vela, do presente e de todo o meu amor colocado naquela homenagem...
Três meses... parece que foi ontem... parece que não o vejo há 10 anos de tanta saudade que sinto...





quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Ainda encantada por Luiza

Hoje enquanto falava com meu maridinho lindo consegui enfim encontrar a a situação certa para descrever meu sentimento quando Luiza começa a se mexer dentro de mim. Lá vai. Hoje enquanto atendia uma pessoa no trabalho, mais ou menos no horário de costume começa Luiza: mexe pra cá, mexe pra lá e eu tendo que fazer cara de paisagem fingindo que nada estava acontecendo, ai que sufoco. Imaginem: você está em um restaurante numa mesa com várias pessoas e alguém, que pode ser seu namorado, marido ou alguém que está afim de você começa a acariciar você com o pé e você fica fazendo aquela cara, fingindo que está tudo normal, o que não é verdade, temendo muito ser descoberto. Imaginou? Pois foi assim que me senti quando Luiza começou a se mexer. É muito doido, só quem sentiu isso pra saber. É como se ela dissesse: "estou aqui". É como se alguém olhasse por debaixo da sua saia, só que bem mais profundo. Estou encantada!
O lado chato é que fico com vontade de parar tudo pra conversar com ela, brincar e curtir esse momento ao invés de fazer aquela cara, mas naquela hora não dá. Pois bem, agora mesmo estou aqui em casa super tranquila, não tem ninguém comigo pra atrapalhar e, adivinhe, Luiza está quietinha, acho que está dormindo. Parece brincadeira .
Amo muito você meu bebê, até quando você quer conversar nas horas que mamãe não pode...

Encantada por Luiza

Luiza, meu amor, estou encantada por você. Tenho olhado no espelho e me sentido linda, formosa, feminina e devo isso a você. Você ainda nem nasceu, falta algum tempo ainda e já sinto saudades de você dentro de mim. É estranho e ao mesmo tempo mágico, não estou mais sozinha. Ontem à tarde na reunião, quando você começou a se mexer, parecia que alguém havia me descoberto, que havia sido flagrada de alguma maneira. As outras pessoas nem perceberam, mas quase não consigo conter minha emoção de sentir você "dançando" dentro de mim. Minha bonequinha sapeca, minha princesa. Estamos juntas de um jeito que nunca estive com ninguém, é como se você ouvisse meus pensamentos e conhecesse intimamente todos os meus sentimentos. Você me mantém viva de um jeito que nunca estive, me sinto especial e às vezes fico triste porque gostaria de passar esse tempo apenas me dedicando a você. Tento descrever para seu papai a emoção que é ter você aqui dentro, mas não existem palavras que consigam transmitir essa emoção. Estou maravilhada. Sua vinda é a prova mais forte de que Deus existe, só posso pensar que gerar você é um grande milagre, o maior milagre, meu maior presente que Deus me deu.
Filha, minha filhinha, já amo muito você, amamos muito você, o mundo aqui fora te espera e nós, mamãe e papai, estamos ansiosos para conhecê-la pessoalmente. Seja bem vinda minha princesa, mas enquanto não chega a hora, estou adorando me divertir com você. Te amo!

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Para minha amiga Lu

Você não existe, não é desse mundo. Começo a achar que o maridão aí tem razão, é na verdade uma fada, no meu caso, "madrinha", com sua varinha de condão que tem uma estrela de um lado e uma caneta de outro, que faz plim e consegue fazer com que a gente se sinta realmente muito especial. Obrigada, madrinha fada, por ler e tornar importante o que eu escrevo. Pra você meu carinho mais sincero.

domingo, 19 de outubro de 2008

Hoje, 19/10, 23:41 - horário de verão

Domingo é o dia mais difícil da semana porque é quando a saudade mais aperta. Domingo tem essa cara de não tem o que fazer, amanhã é segunda, mas é o dia do almoço de família também. É o dia do encontro, mas chega a hora da despedida.
Hoje é o primeiro dia do horário de verão e eu estava ávida para que começasse, porque não aguento acordar às 5 da manhã com a luz do dia já no meu quarto. Por anos a fio vi meu pai marcar no chão até onde o sol chegava até o dia de São João, marca que permanecia até São Pedro (acho que os santos são esses mesmos) e começar a voltar. Todo ano ele fazia isso, como aqueles relógios de sol, só que para as estações do ano. Ele marcava os dias de chegada e partida do inverno. Meu pai não gostava de frio, só vestia agasalho quando geava e ficava trancado em casa, sentado no sofá com minha mantinha de nenê cobrindo suas pernas. Acredito que ele ficava contando os dias pra ficar livre da tortura. Quando fui para Bauru fazer faculdade fiquei com vontade de levar a manta porque eu ainda dormia com ela, mas não tive coragem. Ainda bem. Até morrer, sempre que estava frio ele jantava e sentava no sofá no inicio da noite e cochilava até a hora do jornal nacional, sempre com a manta esquentando suas pernas. Era assim todo dia menos no sábado, dia da missa. Aos domingos ligava a tv para assistir globo rural. Eu odiava, tinha chegado tarde da balada e acabava acordando muito cedo com a TV alta. Depois ele desligava a TV e sumia, ia andar em algum lugar, aparecia na hora do almoço. Quando criança ele às vezes fazia churrasco no domingo. Tínhamos uma churrasqueira improvisada numa peça de carro que parece uma panela. Meu pai gostava de carne bem passada. Sempre tinha carne de porco que dava uma torradinha nas pontinhas, huuummmm, nunca mais comi nada igual. Em 2003 construímos uma churrasqueira de alvenaria mas, sinto muito, ela não dá um churrasco tão saboroso como aquele. Depois do almoço todo mundo ia dormir. Churrasco e maionese. Soneca. Quer domingo mais gostoso que este?
Durante a semana sempre tem alguma coisa a se fazer que preenche a vida. Quando saí de casa pra estudar domingo era dia de ligar e falar com todo mundo na hora do almoço, antes da soneca. Mesmo depois de casada eu continuava ligando aos domingos. Às vezes saía e acaba esquecendo, ligava à noite, ligava na segunda, mas domingo é o dia de pensar na família, de estar em família, de sentir falta da família.
Os domingos ficaram vazios. E eu sei que não são só os meus. Nem tenho ligado aos domingos, tenho ligado aos sábados porque dói muito não pedir mais para falar com ele. Acho que ninguém mais assiste ao globo rural. Hoje estou com muita saudade e vontade de ligar para ele onde estiver para contar que a Luiza está mexendo, dando pulos no meu ventre e até responde quando peço. Vontade de contar que sua neta é mesmo uma bonequinha sapeca, esperta e inteligente como ele adoraria conhecer.
Acho que os domingos nunca mais serão apenas domingos, mas domingos da saudade... paizinho, que saudade, que vontade de pedir pro senhor voltar...


Ps: esse blog é maluco, sempre publica um horário que não é o que eu postei. Vou começar a colocar o horário das mensagens.

sábado, 18 de outubro de 2008

É engraçado como às vezes é mais fácil não tocar no assunto do que admitir que temos fraquezas e não damos conta de tudo. Parece que, ao não falar a respeito, o problema desaparece. Penso que quando Adão e Eva comeram do fruto proibido no Paraíso desejando assemelhar-se à Deus todos nós fomos condenados a acreditar mesmo que podíamos ser como Ele. Pobres de nós. Passamos a vida nos deparando com nossa real capacidade de poder: poder algum. Dizem que somos livres para escolher nosso caminho e vivemos num mundo repleto de possibilidades. Acho até que acredito nisso, mas somos meio bobos porque não aprendemos o limite de nossas possibilidades e sempre nos lançamos além do que nosso alcance nos permite, o que faz com que a gente sempre se choque com o muro que separa o querer e o poder.
Quando adolescente eu sonhava em estudar na USP e busquei isso obstinadamente, mas não deu, não passei no vestibular. Passei anos da minha vida me culpando por não ter sido boa o suficiente e me sentindo castigada por isso até que entendi que fui para onde era possível realizar meu grande sonho: me formar em Psicologia. Pois bem, deu certo. entendi que toda obstinação nos deixa burros e cegos, "apaixonados" eu acho que resume bem, só enxergamos o objeto do nosso desejo e isso nos impede de ver a beleza do caminho que estamos trilhando, nos impede de perceber a magia dos encontros e o quanto podemos ser melhores ao final de nossa jornada.
Acho que foi Marx que escreveu que um marceneiro quando contrói um banco, ao final do processo a madeira usada já não é mais a mesma madeira e o marceneiro já é mais o mesmo também.
Hoje acredito que sabedoria é isso. Não importa quanto conhecimento você adquira ao longo de sua vida se o mesmo não te afeta e transforma. Ser sábio é transformar-se a cada dia em algo melhor diante do menor estímulo. Uma gota de orvalho pode nos transformar se nos deixarmos afetar por ela. Só precisamos aprender a estar atentos ao que a vida nos oferece e aproveitar cada oportunidade e extrair o que há de melhor em cada uma delas. Situação alguma é 100% boa ou ruim, sempre há os dois lados e, agora sim, somos livres para escolher por qual ângulo vamos olhar.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A Jaca

Acabo de voltar do passeio diário com o Manchinha, nosso cachorro e, para desviar de um sujeito em atitude suspeita, mudei meu caminho. Passando em frente ao local onde usualmente tem uma banca de frutas, pensei que seria bom se as frutas vendidas nesta banca fossem sempre frescas. Foi quando me lembrei do dia em que consegui convencer meu pai a fazer uma caminhada pela pracinha aqui próxima. Ele tinha tido alta de uma de suas inúmeras internações. Sempre que saía do hospital ele se recusava a sair de casa, ficava enfurnado no meu minúsculo apartamento, parecia que ele se envergonhava de estar doente. Mas nesse dia depois de muito insistir ele topou dar uma volta. Saímos em direção à pracinha aqui próxima e na volta ele parou na banca para olhar as frutas e viu jaca, ficou cheio de vontade. Descemos mais uma vez até a praça para mais uma volta e ele parou na banca enquanto eu subia para buscar o dinheiro da jaca. Quando voltei ele já até tinha comido a tal, meu pai adorava jaca, ele e minha irmã do meio. Ele ficou lá um tempão conversando com os donos da banca e comendo jaca, dava gosto de ver. Parecia que por um momento ele se esqueceu de sua condição.
Minha vida com o meu pai é feita de frutas. Quando criança ele me comprava maçãs. Era como dar um presente. Ele fechava a oficina na hora do almoço e ia tomar o aperitivo do dia e voltava com o braço cheio de guloseimas, entre elas maçãs. Tão vermelhas e brilhantes que pareciam as da Branca de Neve. Ele dizia que maçãs eram de lugar frio e por isso eram importadas da Argentina. Dizia que aqui não se conseguia plantar e colher maçãs tão lindas e doces como as que vinham de lá. De fato eu nunca vi um pé de maçã. Mas elas, as maçãs, sempre foram uma parte muito importante da minha vida. Ainda hoje eu prefiro as argentinas.
Já de jaca eu não consegui gostar, mas todas as outras frutas, morangos, mangas, laranjas, bananas, goiabas e tantas outras são minhas companheiras de toda a vida. Um dia sem uma frutinha é como uma vida sem sabor.
Compramos a jaca, acho que depois ele levou o que sobrou pra Cambuí, mas o bom mesmo foi vê-lo feliz, porque era assim que ele era feliz, comendo jaca e aproveitando as pequenas coisas da vida. Foi assim que ele me ensinou a ser feliz e é assim que eu espero conseguir ensinar à Luiza o que é de fato felicidade.
E foi assim que ele viveu os últimos meses de sua vida. Sendo feliz. Acredito que fomos abençoados com um milagre. Por ocasião de uma visita cultural que precisei planejar fui conhecer o Museu de Arte Sacra de São Paulo. Lá descobri se tratar do Mosteiro da Luz construído por Frei Galvão. Algumas coincidências: estive com minha mãe na missa de canonização de Frei Galvão, celebrada pelo papa ano passado no Campo de Marte. Fui parar no Mosteiro por acaso, aliás fiz de tudo para não ir lá, por isso acredito que fui levada. Voltei lá dias depois com minha mãe para pegar as pílulas de Frei Galvão e fiz a novena junto com meu pai ainda no hospital. Terminamos a novena no dia de sua última alta. Minha mãe conta que ele rezava e pedia para que Deus permitisse que ele ficasse ao menos 90 dias em casa descansando, pois estava muito cansado de tudo aquilo e, acreditem, Deus foi ainda mais generoso. Foram 138 dias longe do hospital, levando a vida como sempre foi, como ele gostava. O povo encontrava ele na rua e perguntava se ele tinha mesmo passado por tudo aquilo, pois parecia que nada tinha acontecido, era o Anisio (é assim que o povo chamava ele) de sempre, salvo pela cicatriz na barriga. Andou no mato, colheu verdura, chupou laranja, passeou de bicicleta e até tomou a cachacinha, foi feliz, desta maneira simples e plena, como só ele sabia fazer tão bem. No dia em que passou mal ele ainda passeou por aí e teve tempo de se despedir dos amigos, até de mim ele se despediu, veio morrer aqui em São Paulo.
Quando descobri minha gravidez fiz questão de ir contar pessoalmente para ele e minha mãe, não abri mão de olhar a carinha deles quando ouvissem a notícia. Dias antes passou-me um pensamento pela cabeça: e se não desse tempo e eu negasse a meu pai a alegria de partir sabendo que estava à caminho mais um neto? Rezei, pedi a Deus que não o levasse ainda, que me permitisse compartilhar mais esta alegria, meu coração já sabia que sua partida estava próxima. Ele sorriu e se levantou da cadeira, seu rosto se iluminou: "então vem vindo um Adrianinho", disse. Onze dias depois ele partiu... teria vibrado com a noticia de que eu espero uma bonequinha sapeca...

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A mangueira está triste este ano.

Acho que a maior virtude do meu pai era a generosidade. Ele sabia compartilhar e compartilhava tudo, até o que não devia. Se aparecia alguém pedindo, ele dava. Se pediam contribuições em dinheiro, ele dava. Se tinha queijo, ele chamava o vizinho pra comer um pedaço, se fazia churrasco, chamava pra participar. Se visitava alguém, levava maçãs, queijos, jabuticabas, mangas... e compartilhava suas vivências. Fazia questão de contar tudo o que via e ouvia, o que ele mesmo viveu ou que ouviu de experiência de outras pessoas. Tinha uma memoria formidável. No dia do meu casamento, algumas horas antes da cerimonia ele me disse que não iria na recepção, ele não era muito de festa. Fiquei doida, meu pai tinha dessas, disse a mesma coisa na minha formatura, mas acabou se rendendo após uma pequena chantagem. Eu disse a ele que "iria sim!", estava brava, "que seria o primeiro a chegar, o ultimo a sair e que daria atenção a todos os meus convidados durante toda a festa", ordem que ele obedeceu impecavelmente. Foi a todas as mesas, cumprimentou e conversou com todos os convidados, bebeu vinho, comeu, ficou alegre e depois nos contou em detalhe tudo o que tinha acontecido naquele dia. Fiquei boba! Não é que ele fez direitinho o que eu mandei? E fez até melhor. Ele nos contava em detalhes o que fazia cada amigo nosso, onde morou o tio do Adriano enquanto trabalhava para a Petrobrás, o que fez, onde fez. Eu não teria sido anfitriã melhor. E no final ele ainda nos ajudou a lavar o vidro do carro que nossos amigos pintaram de nugget branco (aquela tinta para sapatos), estava um frio e lá estava o Seu Anivio jogando canequinhas de água junto com o Dri pra gente conseguir ir pra noite de núpcias. Ele não era o máximo? Eu estava em casa, protegida do frio junto com minha mãe, ainda contaminada pela emoção do melhor dia de minha vida.
Hoje olho o álbum e em quase todas as fotos ele está sorrindo. Ele não era de sorrir em fotos, aliás, não saía nas fotos, achava bobagem. Ele estava feliz. Feliz de um jeito que poucas vezes vi. Ele era meio "serião", vivia preocupado com futuro do mundo e tinha péssima mania de sempre puxar suas conclusões pro lado negativo, tipo "esse mundo não vai pra frente, o povo tá lascado", tipo torcer contra o Brasil na copa do mundo, embora tenha vivido sempre de maneira autentica e plena, o que contradizia suas conclusões pessimistas. Era um amante da ditadura militar, como todos da idade dele que não fizeram parte do movimento estudantil. Isso o impedia de ver como hoje vivemos com muito mais conforto conseguido de uma maneira menos sofrida do que antes. E eu consegui convencê-lo disso? Com o tempo passei a compreender certas coisas que ele dizia e não mais questionar como fazia quando adolescente, de alguma forma ele tinha razão. Seu argumento é que naquela época ele conseguiu construir nossa casa. Hoje as pessoas tem cada vez mais tv de plasma e menos casa, quais destas duas coisas realmente importam na vida das pessoas. Meu pai era um grande homem, teria ido longe se tivesse estudado, daria um bom físico, um engenheiro talvez, ou um inventor, mas ele foi só o meu pai, meu Prêmio Nobel de pai, o melhor dos melhores.
Era dono de uma engenhosidade, sempre apresentava soluções mirabolantes para os probleminhas que surgiam no dia-a-dia. Consertava as coisas, nunca se via uma torneira pingando ou uma porta batendo por muito tempo, ele sempre achava um jeito de consertar o que não tinha conserto, era dono de uma criatividade incrível. Para ele não tinha "não sei, não tem jeito, não dá", sempre dava pra fazer alguma coisa. Neste quesito ficamos realmente muito órfãos, até o presente momento ninguém na família nasceu com este dom, quem sabe Luiza...
Como amante da natureza ele sempre sabia onde encontrar as frutas mais docinhas que nasciam no mato e sabia o dia certo de colhê-las. Todo ano ele trazia jabuticabas, escolhia os melhores morangos, as laranjas mais doces como minha mãezinha adora, pêssegos, goiabas, cidra e por aí vai. Quando criança ele encontrava tudo isso no mato, andando. Com o tempo os donos das terras foram resolvendo desmatar e povoar tudo e alguns artigos já não e podia mais simplesmente ir buscar, então ele começou a comprar, mas na minha casa nunca se comeu morango em janeiro, que não é o tempo dele, nem se fazia pamonha em junho. E sempre os produtos que vinham para a nossa mesa passavam por um rígido controle de qualidade, seu Anivio fazia questão de que tudo fosse orgânico e se não tivesse jeito, ninguém podia comer a casca.
Em nosso quintal tem uma mangueira que nasceu de um caroço que meu irmão plantou quando adolescente. Todo ano ela produzia mangas suficientes para abastecer a vizinhança e a "parentada", mais o povo que passava na rua. Uma manga tão docinha, tão saborosa, não existe outra igual, quem comeu pode confirmar. Da última vez que estive lá, meu pai levou a mim e ao meu marido pro quintal para nos mostrar a florada, que esse ano não aconteceu como sempre. Ele disse assim: 'olha só, não deu flor quase esse ano, não vai dar nada de manga". Logo entendi, a mangueira já sabia, não vai dar frutos desta vez porque ele não está mais lá para colher...

As loucuras do Vovô - parte II

Como eu ia dizendo, meu pai, vovô da Luiza, amava a natureza e um dos seus passatempos preferidos era andar no mato. É isso mesmo. Sempre que podia ele terminava seus afazeres e ia andar no mato. É que em Cambuí ainda tem muita mata nativa que ainda não foi destruída, claro que hoje tem bem menos do que há 20 anos, mas tem. Ele colocava uma roupa velha e uma bota feita sob medida para ele e seguia caminho. Saía em busca de novas nascentes, árvores frutíferas, passarinhos diferentes. Ele sempre levava umas garrafinhas e trazia pra casa as águas cristalinas que encontrava pra gente experimentar, ele dizia que aquilo sim é que era água de verdade. E nós tomávamos. Confesso que umas tinham gosto de água simplesmente e outras tinham gosto de barro, mas todas tinham gosto de amor e dedicação, primeiro à natureza e depois por nós. Ele sempre compartilhava o que via.
Teve uma vez que ele viu um tucano e se apaixonou. Ficou tão fascinado que armou uma arapuca para caçar o bicho. E caçou. (Acho que sei de quem herdei tanta petulância). Sabe o que ele fez? Trouxe o bicho pra casa, chamou todos os vizinhos pra ver aquele bico todo colorido e depois voltou pro mato e o soltou. Teve um vizinho que sugeriu que ele o vendesse e eu me lembro como se fosse hoje ele respondendo bravo que só queria que todos vissem àquela beleza, mas que ele era livre, pertencia à natureza e era pra lá que ele deveria voltar. E voltou. Meu pai era uma pessoa fascinante, ímpar. Eu teria medo de caçar um tucano. Ah, vocês vão dizer: no zoológico tem tucano, mas Cambuí não tem zoológico. Gente, que vontade de contar pra ele que eu me lembro disso...
Eram raras as vezes que ele me levava com ele, ele dizia ser perigoso, mas teve uma vez que fomos eu e minha mãe, eu era bem pequena, andar com ele lá pelos lados de onde fica hoje o Solar Clube de Campo. Andamos, andamos e depois de passar por umas árvores chegamos em um gramado e um laguinho, ambos estavam escondido de todo olhar humano e isso tornava o lugar ainda mais mágico. O lago tinha uma água meio cor de mel, mas tão limpa que dava pra ver os peixinhos nadando, as algas balançando, a brisa acariciando aquelas águas. Era até meio brilhante, fiquei encantada e anos depois eu ainda perguntava daquele lugar e desejava voltar lá, mas acho que aquele lago lindo não deve ter sobrevivido à construção do clube.
Passei minha infância olhando os passarinhos, correndo atrás de galinhas nos sítios dos meus tios que ainda viviam na zona rural e alimentando os pombos que moravam no telhado de casa, isso até o meu pai perceber que pombos são pragas e transmitem doenças, além da sujeira que fazem, mas até aí eles eram meus bichos de estimação e eram muitos, e cada um mais lindo que o outro, muito legal.
Hoje quando bebo a água tratada pela SABESP e filtrada por aqueles filtros de parede penso que não é agua de verdade, o sabor é bem diferente das águas cristalinas dos tempos de criança, aquilo sim é que é agua, já dizia meu paizinho, nos seus surtos de amor à natureza e amor por nós. E quando vejo pombos pelas praças eles ainda chamam a minha atenção e eu ainda fico procurando aquele que é o mais bonito... e nunca um tucano pra mim será apenas um tucano, mas um exemplar daquele bicho fascinante que meu pai caçou só pra que eu visse o quanto a natureza pode ser colorida e bela...

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

As loucuras do Vovô.

Em 1986 aconteceu a passagem do Cometa Halley. Eu até conhecia um Halley da escola que chamava isso porque tinha o nome do avô que ganhou o nome do Cometa. Diziam os cientistas que o tal cometa só podia ser visto a cada 76 anos, de forma que aquela era uma oportunidade única. Se o ano é esse mesmo eu tinha 10 anos.
No referido dia da tal passagem do cometa, meu pai acordou todo mundo de madrugada e levou a familia inteira pra ver o cometa lá pelos pelos altos de Senador Amaral (uma cidadezinha proxima de casa que nem era cidade na época). E "vamo nóis". Eu estava ansiosíssima, acho que nem dormi. Lembro que estava um frio de doer, como hoje aqui em São Paulo. Alias, devia estar pior, porque lá é frio. Eu estava extasiada e não tirava os olhos do céu. Lá pelas tantas uma fumacinha com cara de cometa apareceu. Não estávamos equipados como se deve, então nossos olhos nus podem ter nos enganado, mas não tenho dúvida de que vi o Cometa, meu pai tambem não. Ele era apaixonado pela natureza e estas loucuras eram praticas comuns em sua vida e na nossa. Nunca esqueci aquele dia e tentei repetir o feito quando um outro Cometa nos visitou anos mais tarde, o Halley Bop (acho que é esse mesmo). Primeiro fui ao IPMET, em Bauru e depois na Pedra de Sâo Domingos, no Córrego e nos dois momentos foi emocionante. Pena Seu Anivio não ter ido. Na Pedra alguem tinha um binóculo e foi a imagem mais facinante que já vi e, mesmo tendo abandonado o hábito de olhar as estrelas já que aqui em São Paulo o céu é sempre cinza, estas imagens continuam vivas e fortes na minha memória. A mais forte delas no entanto é àquela, de 1986. Não sei era o Cometa, mas meu facínio mais a alegria e empenho do meu pai tornaram aquele dia especial.
Meu pai sempre contava emocionado do dia em que o homem chegou à Lua. Contava e repetia as palavras ditas pelos astronautas. Detalhe: ele ouviu pelo rádio porque televisão era algo que ainda não tinha chegado à nossa casa. Nem eu, que ainda não tinha nascido. Teve um tempo da minha infancia que eu sonhava em ir à Lua e brincar com as estrelas, acho até que cheguei a ir algumas vezes enquanto dormia e hoje, quando acontece de eu olhar o céu e encontrar estrelas por lá, procuro a mais brilhante e penso que é o meu paizinho que virou aquela estrelinha, como as pessoas dizem às crianças. A criança que ainda vive em mim gosta de olhar o céu e crer que meu paizinho agora brilha lá, ajudando a lua a nos iluminar todas as noites.
Quando criança eu era capaz de passar horas olhando as estrelas no céu. Acho que estava me acostumando a ver meu pai lá, olhando para mim. Acho que preciso voltar a viver em um lugar onde haja estrelas no céu, senão ficarei devendo isso à Luiza.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Porque o tempo não pára...

Quando alguém muito querido por nós morre, o mundo deveria parar à nossa volta por uns tempos. É um vazio tão grande não ter mais as pessoas que amamos debaixo de nossos olhos e ao alcance de nossas mãos. Só quem já viveu isso sabe do que estou falando.
Estive visitando minha família neste fim de semana e foi muito ruim. Boa parte das coisas do meu pai já não estão mais lá como ele deixou e me doeu muito essa novidade. Como eu já disse antes, a vida continua, quer a gente queira, quer não. Minha mãe ainda está num ritual doido de "arrumar a casa", esta é a maneira que ela encontrou para preencher a ausência deixada por seu companheiro de 43 anos. A casa está toda diferente, minha irmã mais velha está de volta e tudo saiu do lugar, principalmente o canto dele, que já foi meu por um tempo e agora vai ser dela. Algumas coisas ainda estão do mesmo jeito que ele deixou, como a bicicleta encostada na parede e o banco no qual ele tirava a soneca de depois do almoço, mas o resto está saindo do lugar para dar espaço a vida que segue. Sentei no banco dele e fiquei olhando a oficina (meu pai tem/tinha uma oficina mecânica) e me lembrando da minha infância. Eu vivia enfurnada lá, brincando dentro dos carros, balançando no cavalete que levanta os motores... pensei: "como eu era pequena para conseguir me pendurar e balançar num trem tão baixo!" Lembrei-me do balanço de corda com o banquinho de madeira que ele fez pra mim e o quão alto eu subia me balançando, só tomando impulso com o meu próprio corpo. "Meu pai era louco", pensei. Não sei se teria coragem de deixar a Luiza fazer aquilo, mas o fato é que a loucura dele ou a falta de noção de perigo me fez a criança mais feliz do mundo. Meu pai era daqueles pais que fazia todos os gostos, até passava da medida, coitada da minha mãe, eu era mimada e mal criada, dava um trabalho... ele me mimava, comprava doces, levava pra passear, isso até bem tarde, acho que ele fez isso até adoecer, com a diferença que com o tempo o pai da Luiza, meu marido lindo e amado, passou a integrar o grupo. Meu pai também comprava doces para ele e o mimava, aliás, depois que o conheceu, fazia mais por ele do que por mim, o que me deixava e ainda deixa muito feliz: meus dois homens tão em sintonia, se gostando. Ter a aprovação do meu pai nas minhas escolhas sempre foi importante pra mim e ele ter aprovado o homem com quem pretendo passar minha vida inteira e que hoje é o meu porto seguro, meu sustento nesta hora de dor é o melhor presente que meu pai poderia ter me dado. Ele não só aprovou meu marido como o acolheu como filho predileto, cuidava e mimava meu marido como fez comigo a vida inteira e sei que faria pela Luiza também se pudesse. Não que ele não gostasse dos outros filhos, genros, nora e netos, aliás, com sua doença descobri que meus irmãos sentiam por ele a mesma adoração que eu, mas o xodó sempre fui eu por ser a caçulinha, a pequena da casa e acredito que a Luiza tem um sabor especial por ser minha filhinha, a filhinha da filhinha, para todos eles. Fico triste de saber que meu paizinho querido não vai levá-la para jogar pedrinhas no rio como fazia comigo e depois fez com meus sobrinhos. Que ele não vai trazer uma galinha para ser o bicho de estimação dela, até porque hoje o Manchinha e o Johnny, os dogs, comeriam as galinhas. Que ele não levar ela pra ver o patinho que nasceu, nem vai pegar ela no colo pra atravessar a pinguela porque ela tem medo de cair no rio.
Eu pensava que quando tivesse filhos, um pouco desta infância voltaria pra mim. Não que não vá voltar, mas Luiza vai ter tudo isso apenas pelas histórias que eu contar e pelos lugares que eu a levar, mas nunca vai sentir o calor do colo do vovô, nem vai ouvir aquelas musiquinhas inventadas que fazem dormir sem dar medo. Isso eu não vou poder dar a ela. Será que vai sobrar alguma coisa daquilo que ele construiu e deixou pra eu mostrar à Luiza? Será que o cavalete vai estar lá quando ela puder se pendurar?
Hoje de manhã eu fui a uma palestra e na volta peguei um ônibus que passou ao lado do hospital em que ele se tratou. Tive um pensamento muito egoísta: enquanto ele estava aqui eu ainda o tinha próximo aos meus olhos e podia toca-lo quando quisesse. Egoísta porque ele não era feliz ali. Mas enquanto ele esteve internado ele era meu como quando eu era criança, só que trocado, eu é que o mimava e cuidava dele. Agradeço a Deus por tê-lo levado antes que ficasse pior, agradeço por não permitir que ele ficasse preso a tratamentos, vegetando, ele morreria de depressão, mas às vezes dá uma saudade tão grande e a gente não pode fazer nada pra passar... me sinto egoísta pensando estas coisas, mas... o mundo à nossa volta deveria parar por uns tempos quando alguém que a gente ama muito morre...

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Noite insone.

Esta noite acordei por volta de umas 2:30h e não conseguia mais dormir. Odeio quando isso acontece porque fico imprestável depois. Mas já viu né, o sono vai e os pensamentos vêm. Coordeno um trabalho de prevenção à dependência química e estou lendo um livro interessante: Pare de Fumar Para Sempre, de Martin Raw. Para vencer a insônia recorri à leitura e depois fiquei pensando mais um pouco: como pode uma pessoa fumar? O livro é interessante porque aponta vários problemas e caminhos na trajetória de parar de fumar, mas sempre respeitando o desejo do fumante, respeitando sua escolha. A esta altura você deve estar se perguntando se eu fumo. Não, nunca fumei. Aliás, sempre tive verdadeira ojeriza por cigarros. Venho de uma família de fumantes e vem daí meu asco. O livro é por conta do trabalho.
Meu pai fumou por mais de 60 anos (ele viveu até os 75). Não o condeno, pois ele começou a fumar numa época em que nem a ciência sabia ao certo os efeitos nocivos do cigarro. Lembro-me que quando criança ele fumava na mesa depois de jantar e isso era absolutamente normal, eu até brincava de fumar cigarrinhos feitos de papel. Acho que nunca experimentei porque sempre fui muito medrosa, sempre tive medo de ser pega fazendo coisas erradas, por isso não as fazia. Meus pais fumavam, mas diziam que nós, filhos, não podíamos fumar. Eu obedeci. Com o tempo fui "garrando" um nojo de cigarro, não sei bem porque, nem quando isso aconteceu, só sei que foi muito bom.
Quando meu pai descobriu o câncer e o médico disse que ele deveria parar de fumar porque o cigarro era um dos seus inimigos, ele também obedeceu, fumou o último cigarro na véspera da primeira cirurgia, mas... que pena, era tarde, ao menos para ele. Ainda assim estou certa de que seus últimos meses de vida foram melhores porque pôde respirar ar puro. Fumar é como tomar estriquinina todos os dias, só que em doses homeopáticas. Muitas pessoas conseguem encontrar o mote certo para parar, e outras continuam encontrando muitos motes para continuar. Uma amiga muito querida me contou à anos atrás que parou de fumar porque um dia acordou e não acendeu o dito cujo de imediato, o que fez com que ela percebesse que sua roupa cheirava mal, seu cabelo cheirava mal, ou seja, ela andava "fedendo" por aí, não fumou mais. E é isso mesmo, quem fuma não cheira perfume e mais ainda, quem fuma pratica um suicídio lento. Meu pai falava que não sei quem morreu de velho, fumando, bebendo pinga (outro prazer dele) e comendo gordura de porco. Penso que esse povo antigo, por não saberem ao certo o mal que faziam a si mesmos, contavam com uma ajudinha extra dos céus, mas nós, seres viventes nos dias de hoje só podemos contar com nós mesmos. Já nos basta respirar este ar poluído, para que mandar mais veneno para dentro do corpo.
Com toda a minha tristeza, só consigo pensar em vida, só consigo pensar em viver e viver bem. Estou preocupada com o mundo que minha pequena vai encontrar e espero conseguir transmitir a ela todo o mal que é a ingestão de tabaco e outras drogas sem que ela mesma tenha que experimentar.
Eu gosto de tomar uma cerveja de vez em quando, mas ao tomar contato com dependentes químicos, isso mudou minha forma de beber. A droga escraviza de tal maneira que a pessoa acorda e vai dormir pensando em como vai usar, quando vai usar, como vai conseguir e a cada dia me convenço mais de que o cigarro está no topo dos vilões, porque você encontra na banca de jornal, o jornaleiro é o traficante. Não o condeno, pois, segundo uma amiga que tem banca, se não tem cigarro, não se vende jornal também. Não é triste isso? As pessoas enfrentam um furacão pra comprar cigarro se preciso for, mas não arredam o pé para simplesmente se informar, ou comprar pãozinho fresco (huuummm). É muito triste.
Cada droga tem um efeito peculiar, mas todas carregam algo em comum: aos poucos vai degradando o usuario. A dependencia quimica não é algo que escolhi para minha vida, ela aconteceu e eu abracei. A toda hora dou de cara com minha impotencia diante do desejo do outro e vejo pessoas queridas, com potencial, perdendo a noção de dignidade, de responsabilidade, perdendo o amor à vida em prol do amor à droga e eu, com toda a minha vontade, tenho que ficar assistindo porque não posso mudar o desejo do outro se ele proprio não quer. Mas aí voces vão dizer: mas o cigarro não funciona bem desse jeito. Para mim é pior, nunca ouvi dizer que um dependente quimico de nicotina tenha destruído todo o seu entorno por causa da nicotina. Fumantes não chegam ao fundo do poço da mesma forma que um alcoolista, então sua segunda chance custa a chegar e às vezes nem chega. Eu adoraria que meu pai tivesse partido quentinho na sua cama, saudavel, só porque todos nós temos prazo de validade e o dele expirou. Fica na memória os momentos de dor e sofrimento e nossa impotencia diante de algo que não podemos mudar. Por isso a minha indignação: se eu posso escolher viver bem, por que escolho me maltratar? Por que escolho o suicidio lento, por que mando para dentro de mim coisas ruins se posso ficar com as boas. Se nos fosse dada a chance de interferir na escolha das pessoas eu colocaria minha colher torta nisso: ninguém mais escolheria fumar ou usar qualquer tipo de droga. Já temos garantido a dose diaria de veneno pelo imediatismo do homem, para que mais?

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Quase não acredito ainda que isto aconteceu. É engraçado, ninguém mais fala nada a respeito. Todas as pessoas que encontro me perguntam pelo bebê, mas ninguém mais diz que sente pela minha perda. O mundo prefere negar que o fim existe, que a morte existe, que todos nós vamos passar por isso cedo ou tarde. Aliás, passamos pela morte todos os dias, estamos sempre perdendo coisas, nos despedindo, ainda que estas mortes diárias sejam apenas simbólicas. Então por que negamos tanto?
Em julho do ano passado meu pai soube que havia desenvolvido um câncer muito comum em fumantes, uma neoplasia maligna de bexiga. O primeiro diagnóstico apresentava boas perspectivas, mas na primeira cirurgia já soubemos que a coisa não era assim tão boa. Era um câncer de tipo raro, um tipo histológico que não favorecia muito a cura, sem contar que já havia atingido o músculo do órgão, mostrando estar em estágio bem avançado. Essa não é uma experiência pela qual se passa impunemente. Ainda na faculdade eu aprendi que o câncer é uma doença que traz muita mudança, para quem o desenvolve e para todo o seu entorno, não há quem não se modifique. Minha supervisora, a Pilé, dizia que o câncer faz com a pessoa o que ela mesma não fez com sua vida, toma conta. Se pensar bem, olha que verdade, todos em volta passam a viver em função da doença. Isto é muito triste, porque deveríamos viver em função de sermos felizes hoje e até o dia da nossa morte.
Meu pai acreditou na cura e amou a vida até o ultimo instante, nunca duvidou de que seria possível se livrar deste calvário. Não sabemos ao certo o que o matou, mas também o que importa saber. Eu e minha família acreditamos que Deus está no controle de tudo e que a hora chega para todos, porque a dele não viria, não é? Mas foi tão rápido. Fico vendo por aí pessoas com muito mais idade do que eu tenho e com pais vivos, que bênção Meu Deus, que bênção ter pais vivos por muito tempo... e tem gente que não aproveita. O que mais me valeu em viver tudo isso foi aprender a ser feliz hoje. Se tenho vontade de comer, como. Se tenho vontade de dormir, durmo. Se tenho saudades, choro. E assim vou levando. Também vejo quantas pessoas com menos idade do que eu já sem os pais, acreditem, isso me deixa feliz, não pelos outros, mas por ter tido a alegria de realizar todas as coisas heróicas que pode fazer uma menina dar orgulho a seu pai: me formei, consegui sucesso profissional, conheci o mundo, fiz um bom casamento e vou ter uma filha. Meu pai esteve em todos estes momentos vibrando, se realizando junto comigo, orgulhoso da filha que teve, isso não é maravilhoso? É sim e é o meu presente que me dou todos os dias quando começo a me lamentar pelas poucas coisas que não fiz. Olho para as que fiz e o quanto trouxe alegria e penso: tenho direito de ser triste? Pois é, somos insaciáveis. Continuo sem acreditar muito no que aconteceu e fico torcendo às vezes para que nada disso seja verdade, que seja só um sonho ruim que acaba quando a gente acorda. Que sonho longo...