sexta-feira, 23 de abril de 2010

Que presente de Deus!

Depois que fiquei grávida entendi que as pessoas pra quem Deus envia um filho são munidas de uma missão muito especial e se tornam também especiais por terem sido escolhidas. Não que as que não tem filho não sejam especiais, cada um é único e dotado de uma missão aqui neste mundo, cabe a cada um descobrir qual é a sua. Mas quem tem filho tem a missão de ajudar a vida a seguir seu curso, assim como na natureza, cada espécie cumpre seu destino, fazendo os sacrifícios que lhe são impostos, para dar continuidade à vida. Só que nós somos agraciados com muito mais do que apenas isso, somos presenteados com a alegria de ver uma vida se formando e crescendo minuto a minuto, dia a dia, por toda uma vida inteira. Estou encantada. Minha riqueza agora está andando. Começou com passos tímidos, temerosos, procurando uma mão pra se apoiar, e a cada dia cada passo foi ganhando confiança, segurança e cedendo à sedução da curiosidade. Ainda estou me acostumando com esse tiquinho de gente aparecendo atrás de mim sem que eu esteja esperando. Deixo-a num lugar e vou cumprir minhas tarefas e, de repente, lá está minha fofura junto de mim. Aí fico perdida, mas não tinha deixado ela lá? Agora ela anda, e segue adiante aonde sua curiosidade a manda ir. E eu perplexa, ainda sem entender muito bem como é que isso se deu, como ontem eu era apenas eu, depois eu e uma barriga, depois eu e uma coisinha pequenina e frágil, tão próximas, tão grudadas, que quase parecíamos uma coisa só. E agora? Enfim duas, eu e minha filha. Filha, que palavra mais doce! Corre pra mim e pula nos meus braços, me chama de "mamã", faz manha quando quer carinho, mas um ser separado e independente de mim. Crescendo, me mostrando o quanto o milagre da vida é belo. Penso que renasci. Deus me deu outra chance de ser feliz, porque com ela acabo de completar meu primeiro ano de nova vida e estou dando meus primeiros passos neste mundão. Minha curiosidade cresce a cada dia e fico explorando tudo à minha volta, eu e ela, ela descobrindo o mundo e eu descobrindo o seu mundinho e a sensação de ser novamente um bebê, uma criança. Renasci, é o que sinto e seus passos inseguros são meus passos inseguros nesta nova aventura que é ser mãe, e aos poucos aprendendo, caindo às vezes, pedindo uma ajudinha pra chegar lá do outro lado, ganhando a sonhada confiança de enfim andar sozinha, eu e ela. Meu Deus, como fui abençoada com este milagre em minha vida!
Fico boba, a cada dia uma novidade, como fiquei tão rica de um hora pra outra? Só por milagre, milagre de Deus, milagre da vida.
E a graça que é observar esses passos cambaleantes, parece que está de porre, é um barato. Cambalea pra lá, cambalea pra cá, pára, põe a mão no chão, levanta e segue adiante. É tão lindo! O que diria o vovô se estivesse aqui pra ver? E como é linda a minha princesa! E grandona, e forte, e fofa, e inteligente, sapeca... isso sim é que é presente de Deus! O meu presente, meu milagre, minha missão!

terça-feira, 20 de abril de 2010

Por que dependemos dos outros?

Mais uma diarista que me abandona, ai ai. Pelo menos desta vez é por um bom motivo, ela está doente e precisa se cuidar. Acabo de limpar os banheiros e, triste constatação: como estavam sujos! Então hoje peço licença para quem lê meus post, para meu pai, motivo deste blog, para minha filha, que é de fato para quem escrevo, para dizer:

Sooooooocooooooooorroooooooooo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


Quero uma fada madrinha, uma lâmpada mágica,qualquer coisa que me conceda três pedidos:

1. Uma casa maior;
2. uma empregada perfeita; e
3. Uma noite inteira de sono.



É pedir muito?

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Já não se fazem ovos de páscoa como antigamente.

No meu tempo (que frase mais envelhecedora) os ovos de pascoa vinham recheados de bombons deliciosos, não importava o quão baratinho e pequenininho fosse o ovo. Aí eu cresci e passei a comprar ovos caseiros, com bombons ainda melhores e e em maior quantidade que os do supermercado. Aí a Luiza nasceu e tive que pular uma Páscoa, nada de leite de vaca, então nada de chocolate. Só depois descobrimos ovos de soja, mas isso é outra historia. Esse ano, "cruz credo", não ia ter ovo de novo porque Luiza ainda não pode com chocolate, mas entrei em crise. Essa é a única época do ano que fico doida por chocolate. Papai se solidarizou e comprou um pra mim e um pra ele. E Luiza ganhou um bem pequeno da dindinha e outro da Tia Nelma. E pasmem: os pequenos não tinham nada dentro, e os maiores, os bombons estavam embalados em tanto plástico que quase não cabia bombom. Aonde vamos parar com essa "misereza" de chocolate?

Fomos pra casa da vovó e foi um estrago só. É porque nem bem chegamos de viagem, já saímos de novo, Luiza não gostou e protestou até não poder mais. Fiquei triste, não gosto de ver minha fofura incomodada, foram três noites sem dormir. Eu queria ver minha amiga Thaísa, que mora em BH e com quem nunca consigo me encontrar, nunca estamos lá nos mesmos fins de semana. Ela também tem uma gatinha, dois meses mais velha que a minha. Somos amigas de velha data, eu, ela e mais uma meia dúzia de meninas, hoje todas balzaquianas já passadas, mas não menos belas, bem humoradas e cheias de vida. Minha vida foi assim, cresci numa cidade bem pequena, onde todo mundo era amigo de todo mundo, só tinha escola pública e igualdade social era algo real, graças a Deus. Penso que por ter sido assim no meu tempo sou o que sou hoje. Estas amigas sempre foram boas influencias. São filhas de famílias diferentes da minha, mas com valores fortes como os meus. A diferença é que elas traziam em sua herança cultural a importância do estudo e acho que parte de minha petulância em querer fazer faculdade vem do que elas e suas famílias me mostraram ainda enquanto éramos crianças. (Na minha família inteira posso contar nos dedos quantas pessoas cursaram faculdade). O gostoso é que mesmo eu sendo filha de outra "casta", elas sempre me receberam como iguais e se tornaram minhas irmãs de coração, sem elas não vivo, foram e sempre serão minhas amigas queridas e sinceras, por quem sinto um amor enorme. Por isso valeu muito a pena o sacrifício de ter ido viajar pra encontrar a Thaísa. É que as outras moram lá, bem mais fácil de fazer uma visita. E nossas vidas estão tão ligadas que seguimos o mesmo caminho: estudamos, nos formamos, casamos e agora estamos dando nossa contribuição pra continuação do mundo: estamos tendo filhos. Só a Emilene foi mais adiante, seus filhos são livros, muito chique . Porque livros fazem a diferença para a humanidade...
Eu nunca disse pra Thaísa o quanto foi importante pra mim vê-la na porta da Igreja, no funeral do meu pai. Todas elas se fizeram presentes de uma maneira muito especial. A Emilene e a Jamile ficaram em casa me esperando chegar com o meu pai. Ele faleceu em São Paulo e tivemos que levá-lo de volta até Cambuí. A Maria estava de plantão então intimou as outras para me esperarem e depois do enterro elas ainda ficaram cuidando de mim por umas horas, o que fez com que o vazio demorasse um pouco mais a chegar. Eu estava grávida e elas cuidaram de mim com tanto carinho num momento tão difícil da minha vida. E no enterro estava todo mundo lá de novo, um sol que Deus dava, o cemitério parece em cima do calvário, e todo mundo do meu lado até o ultimo minuto. Não preciso de mais nada, sou cheia de amigas!!!

Penso que ovos de pascoa deveriam ser recheados de amizade, isso sim é que bombom do bom!!!!! Depois eu volto, ainda tenho muito o que contar.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Preciso de fato acreditar nas histórias que invento...

Depois de sei lá quanto tempo tivemos férias. Quer dizer, o marido tirou férias e nós fomos no vácuo. Programamos uma viagem à Natal, viagem esta que sempre quis fazer, mas que faltou "filé". E fomos. Nossa, que insegurança, foi nossa primeira viagem, da Luiza e nossa com a Luiza. Ela ainda é tão pequena... mas vamo que vamo, afinal existe vida após o nascimento de um filho. Depila, faz as unhas, arruma as malas, faz papinha pra viagem... Dorme tarde, acorda muito, muito cedo. Depois de um estressezinho básico, chega ao aeroporto e... o tempo todo ele não me saiu da cabeça. Quem? Meu pai. Quem lê meu blog sabe que ele adorava avião e adorava viajar, embora já não o fizesse a algum tempo. Penso que depois que eu cresci e comecei a viajar, ele passou a viajar nas minhas histórias. Fui morar em Bauru, viajei um tanto pelas cidades do interior de São Paulo, fui à Belo Horizonte, fui à Europa (quase que ele não me deixa ir) e com tantas andanças me acostumei a estar atenta a cada detalhe, do momento da saída até o retorno. Como estava a estrada, se tinha movimento, se as condições estavam boas. Se ia de avião, como era a aeronave, se o aeroporto era grande, se o tempo estava bom, se deu pra ver a terra de cima. Tudo, tudinho só pra contar pra ele. Quando conheci o Adriano a coisa ficou ainda melhor, porque ele, com seu olhar de engenheiro, conseguia relatar os detalhes com uma minúcia impressionante, tornando nossas aventuras ainda mais interessantes para os ouvidos atentos de meu pai. E assim meu querido pai continuava a conhecer o mundo viajando nas nossas aventuras. Passa um desenho no canal à cabo Discovery Kids que se chama Toot e Puddle. Toot adora viajar e nem sempre Puddle vai junto, mas Toot passa o tempo todo da viagem pensando no que vai contar para seu melhor amigo quando voltar. Sou o Toot e meu pai era o Puddle. E ainda hoje é assim, fico atenta a tudo, mas já não o tenho me aguardando pra ouvir meus relatos. Viajar agora perdeu um pouco do seu brilho. Que graça tem embarcar em Guarulhos depois de 9 anos se não vou poder contar a ele? E a imagem de cima do avião, para que ver a terra e guardar pra mim minha emoção. Eu podia contar pra minha mãe ou qualquer outra pessoa, mas não existe nesse mundo alguem que valorize tanto esses detalhes e que torne tudo tão especial quanto fazia meu pai. Nem Poddle. E foi assim os dias todos de viagem. Uma paisagem linda, Natal é uma cidade bonita, bem estruturada, tem uns prédios muito altos que me fizeram lembrar Paris, não pela arquitetura, porque não tem nada a ver, mas pela imponência. É um lugar amplo, bem cuidado, com belezas tanto naturais quanto criadas pelo homem. Tem uma ponte que é uma obra prima, mas tudo isso já não tem muita graça de ser olhado. Eu tinha dois prazeres, o de viajar e conhecer novos lugarez (adoro) e o de refazer o trajeto relatando tudo pro meu pai e vendo seus olhos brilharem como se ele mesmo tivesse ido àqueles lugares. E acho mesmo que ele ia.

Preciso criar uma história na qual eu de fato acredite. Cada um tem sua versão da morte. No inicio pensava que meu pai estaria vivo dentro de mim e que assim continuaria vendo o mundo através dos meus olhos e que para estar com ele bastaria por a mão no coração e conversar com ele, e assim eu fazia. Aí a Luiza nasceu e um dia eu vi uma estrela muito brilhante no céu e pensei: "é meu paizinho olhando pra gente", pensei ser esta uma historia bonitinha pra contar pra minha riqueza e sempre que vejo a estrelinha penso que podia mesmo ser ele. Mas historinhas inventadas são verdades pra criança, já passei do ponto. Como foi duro fazer essa viagem e à toda hora ter que conviver com a constatação de que ele não vai mesmo ouvir nossos relatos. Viagem alguma terá a mesma graça de antes. Claro que nos divertimos, bom, nem tanto, muito calor, muito sol, esconde o nenê do sol, escolhe os lugares menos selvagens pra visitar, teremos que voltar à Natal pra fazer os passeios impróprios pra fofuras de um aninho. E até nisso uma certa tristeza rondou meu coração. Luiza se divertiu demais. Sofreu um pouco com o calor, nos primeiros dias não quis comer nada, só queria dormir, mas ela adorou brincar na água, parecia um peixinho, ai que delícia! Valeu a pena só para ver seu sorriso lindo e o tempo todo eu ficava me lembrando de quando era pequena e meu pai nos levava pra nadar, o prazer que ele sentia em nos ver, eu e meus irmãos, brincando na água. E mais tarde com meus sobrinhos. Pena ele não ver minha filha se divertindo, feliz.

No voo de volta, que por do sol! O tempo estava ótimo e dava pra ver as cidades pequenininhas lá embaixo, e eu pensando que não iria ligar pra ele pra contar. E de repente ela estava lá, a estrelinha, a primeira estrela que surgiu no céu. Ainda era dia, o sol se punha num espetáculo único, tingindo o horizonte de um laranja sem igual. E ela apareceu e ficou a nos olhar por muito , muito tempo. Pensei: é ele, nos vendo viajar de avião como tanto gostava, olhando sua neta linda e sapeca aprontando mil e umas, fazendo caras e bocas, repetindo seu repertório de palavras fofinhas ainda em nenenês, arrancando sorrisos das comissárias e dos outros passageiros. E ela nos seguiu durante boa parte da viagem até que nos aproximamos desta região chuvosa e uma nuvem pretona a encobriu, mas eu e meu coração sabíamos que ele/ela, a estrelinha, continuava lá...