terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Saudade é aquilo que fica de alguém que não pode mais ficar...

E o mato está crescendo lá no quintal, que falta ele faz... e tem cocô de cachorro vencido, coitada da minha mãe, não dá conta de tudo. Você anda pela casa e vai notando em cada canto sua ausência. Na cesta de frutas, no mato que cresce, o quintal sujo, a calçada com folhas... se ele não fazia, chamava uma outra pessoa pra fazer. E se faltava alguma coisa, imediatamente era providenciada, com uma rapidez que delivery nenhum é capaz de ter. Senti muito a falta do meu pai neste final de ano. Há muito tempo é assim lá em casa: Natal com a sogra, Ano Novo lá, com todo mundo reunido e quem mais quiser aparecer. A primeira vez foi quando eu tinha 14 anos. Meu irmão tinha montado um bar que deu errado, faliu e foi fechado uns 15 dias antes do Natal, mas ainda estava lá montado. Natal na minha casa sempre foi assim meio triste, é que papai noel nunca apareceu por lá, meus presentes era a minha mãe mesmo que comprava às custas de muitas noites de poucas horas de sono para terminar as costuras das clientes exigentes, ávidas por se apresentarem lindas diante de todos os seus nestas datas especiais. Não tinha ceia, até porque minha mãe, coitada, costurava até tarde. Meu pai ficava dias sem trabalhar, é que nesta época concertar o carro fica em segundo plano. Até pra quem viaja às vezes a revisão é deixada de lado. Assim, sempre no feriado, na noite de Natal mesmo muitas vezes, aparecia um carro quebrado de um dono descuidado que viajou sem se precaver, bom pra nós, garantia nosso almoço especial de Natal e de Ano Novo. Sempre tinha porquinho, leitoa, pernil, e é assim até hoje, porque mineiro que é mineiro come porco pra comemorar. Peru é coisa de televisão.
Um dia apareceu lá em casa uma galera, amigos do meu irmão, para fazer churrasco e foi assim dia 30, 31 e 01. O ano era 1990/91. E veio o Ivan, um cara tudo de bom que Deus mandou pra minha casa pra nos mostrar o quanto é bom festejar. Acho que até aquela data nós não sabíamos. E foi aquela festa apesar do momento critico que vivíamos, credores batendo na porta tentando receber o que estava perdido, afinal falência vem junto com moratória, não tem jeito. E foi uma festança e ficou instituído que seria assim todos os anos e tem sido. Ao contrário das outras casas, minha família se reúne no Ano Novo, renovando o amor, a esperança, apertando mais os laços que nos unem, às vezes pondo em ordem algumas diferenças também, mas assim, todos juntos, sempre.
E ele já não está lá e sua ausência, às vezes penso, é até maior que sua presença. Porque enquanto ele limpava o mato, nem notávamos que ele crescia. E nem parecia que tinha cachorro, salvo pelo fato dele ser um cãozinho carente e esfomeado. E as frutas, sempre frescas, maduras e doces, huuuummmm. E os doces, de abóbora, de figo... esse ano minha mãe não fez doce de figo não sei porque. E as coisas de milho, pamonha, bolo, cural. Ele nunca deixou que faltasse nada, afinal, estaríamos todos lá. E hoje quem falta é ele. Trocaria tudo por sua presença mais uma vez, mais um final de ano, mais um inicio de ano, por uns momentos apenas, só mais um abraço e um último adeus.

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