Depois de sei lá quanto tempo tivemos férias. Quer dizer, o marido tirou férias e nós fomos no vácuo. Programamos uma viagem à Natal, viagem esta que sempre quis fazer, mas que faltou "filé". E fomos. Nossa, que insegurança, foi nossa primeira viagem, da Luiza e nossa com a Luiza. Ela ainda é tão pequena... mas vamo que vamo, afinal existe vida após o nascimento de um filho. Depila, faz as unhas, arruma as malas, faz papinha pra viagem... Dorme tarde, acorda muito, muito cedo. Depois de um estressezinho básico, chega ao aeroporto e... o tempo todo ele não me saiu da cabeça. Quem? Meu pai. Quem lê meu blog sabe que ele adorava avião e adorava viajar, embora já não o fizesse a algum tempo. Penso que depois que eu cresci e comecei a viajar, ele passou a viajar nas minhas histórias. Fui morar em Bauru, viajei um tanto pelas cidades do interior de São Paulo, fui à Belo Horizonte, fui à Europa (quase que ele não me deixa ir) e com tantas andanças me acostumei a estar atenta a cada detalhe, do momento da saída até o retorno. Como estava a estrada, se tinha movimento, se as condições estavam boas. Se ia de avião, como era a aeronave, se o aeroporto era grande, se o tempo estava bom, se deu pra ver a terra de cima. Tudo, tudinho só pra contar pra ele. Quando conheci o Adriano a coisa ficou ainda melhor, porque ele, com seu olhar de engenheiro, conseguia relatar os detalhes com uma minúcia impressionante, tornando nossas aventuras ainda mais interessantes para os ouvidos atentos de meu pai. E assim meu querido pai continuava a conhecer o mundo viajando nas nossas aventuras. Passa um desenho no canal à cabo Discovery Kids que se chama Toot e Puddle. Toot adora viajar e nem sempre Puddle vai junto, mas Toot passa o tempo todo da viagem pensando no que vai contar para seu melhor amigo quando voltar. Sou o Toot e meu pai era o Puddle. E ainda hoje é assim, fico atenta a tudo, mas já não o tenho me aguardando pra ouvir meus relatos. Viajar agora perdeu um pouco do seu brilho. Que graça tem embarcar em Guarulhos depois de 9 anos se não vou poder contar a ele? E a imagem de cima do avião, para que ver a terra e guardar pra mim minha emoção. Eu podia contar pra minha mãe ou qualquer outra pessoa, mas não existe nesse mundo alguem que valorize tanto esses detalhes e que torne tudo tão especial quanto fazia meu pai. Nem Poddle. E foi assim os dias todos de viagem. Uma paisagem linda, Natal é uma cidade bonita, bem estruturada, tem uns prédios muito altos que me fizeram lembrar Paris, não pela arquitetura, porque não tem nada a ver, mas pela imponência. É um lugar amplo, bem cuidado, com belezas tanto naturais quanto criadas pelo homem. Tem uma ponte que é uma obra prima, mas tudo isso já não tem muita graça de ser olhado. Eu tinha dois prazeres, o de viajar e conhecer novos lugarez (adoro) e o de refazer o trajeto relatando tudo pro meu pai e vendo seus olhos brilharem como se ele mesmo tivesse ido àqueles lugares. E acho mesmo que ele ia.
Preciso criar uma história na qual eu de fato acredite. Cada um tem sua versão da morte. No inicio pensava que meu pai estaria vivo dentro de mim e que assim continuaria vendo o mundo através dos meus olhos e que para estar com ele bastaria por a mão no coração e conversar com ele, e assim eu fazia. Aí a Luiza nasceu e um dia eu vi uma estrela muito brilhante no céu e pensei: "é meu paizinho olhando pra gente", pensei ser esta uma historia bonitinha pra contar pra minha riqueza e sempre que vejo a estrelinha penso que podia mesmo ser ele. Mas historinhas inventadas são verdades pra criança, já passei do ponto. Como foi duro fazer essa viagem e à toda hora ter que conviver com a constatação de que ele não vai mesmo ouvir nossos relatos. Viagem alguma terá a mesma graça de antes. Claro que nos divertimos, bom, nem tanto, muito calor, muito sol, esconde o nenê do sol, escolhe os lugares menos selvagens pra visitar, teremos que voltar à Natal pra fazer os passeios impróprios pra fofuras de um aninho. E até nisso uma certa tristeza rondou meu coração. Luiza se divertiu demais. Sofreu um pouco com o calor, nos primeiros dias não quis comer nada, só queria dormir, mas ela adorou brincar na água, parecia um peixinho, ai que delícia! Valeu a pena só para ver seu sorriso lindo e o tempo todo eu ficava me lembrando de quando era pequena e meu pai nos levava pra nadar, o prazer que ele sentia em nos ver, eu e meus irmãos, brincando na água. E mais tarde com meus sobrinhos. Pena ele não ver minha filha se divertindo, feliz.
No voo de volta, que por do sol! O tempo estava ótimo e dava pra ver as cidades pequenininhas lá embaixo, e eu pensando que não iria ligar pra ele pra contar. E de repente ela estava lá, a estrelinha, a primeira estrela que surgiu no céu. Ainda era dia, o sol se punha num espetáculo único, tingindo o horizonte de um laranja sem igual. E ela apareceu e ficou a nos olhar por muito , muito tempo. Pensei: é ele, nos vendo viajar de avião como tanto gostava, olhando sua neta linda e sapeca aprontando mil e umas, fazendo caras e bocas, repetindo seu repertório de palavras fofinhas ainda em nenenês, arrancando sorrisos das comissárias e dos outros passageiros. E ela nos seguiu durante boa parte da viagem até que nos aproximamos desta região chuvosa e uma nuvem pretona a encobriu, mas eu e meu coração sabíamos que ele/ela, a estrelinha, continuava lá...
Preciso criar uma história na qual eu de fato acredite. Cada um tem sua versão da morte. No inicio pensava que meu pai estaria vivo dentro de mim e que assim continuaria vendo o mundo através dos meus olhos e que para estar com ele bastaria por a mão no coração e conversar com ele, e assim eu fazia. Aí a Luiza nasceu e um dia eu vi uma estrela muito brilhante no céu e pensei: "é meu paizinho olhando pra gente", pensei ser esta uma historia bonitinha pra contar pra minha riqueza e sempre que vejo a estrelinha penso que podia mesmo ser ele. Mas historinhas inventadas são verdades pra criança, já passei do ponto. Como foi duro fazer essa viagem e à toda hora ter que conviver com a constatação de que ele não vai mesmo ouvir nossos relatos. Viagem alguma terá a mesma graça de antes. Claro que nos divertimos, bom, nem tanto, muito calor, muito sol, esconde o nenê do sol, escolhe os lugares menos selvagens pra visitar, teremos que voltar à Natal pra fazer os passeios impróprios pra fofuras de um aninho. E até nisso uma certa tristeza rondou meu coração. Luiza se divertiu demais. Sofreu um pouco com o calor, nos primeiros dias não quis comer nada, só queria dormir, mas ela adorou brincar na água, parecia um peixinho, ai que delícia! Valeu a pena só para ver seu sorriso lindo e o tempo todo eu ficava me lembrando de quando era pequena e meu pai nos levava pra nadar, o prazer que ele sentia em nos ver, eu e meus irmãos, brincando na água. E mais tarde com meus sobrinhos. Pena ele não ver minha filha se divertindo, feliz.
No voo de volta, que por do sol! O tempo estava ótimo e dava pra ver as cidades pequenininhas lá embaixo, e eu pensando que não iria ligar pra ele pra contar. E de repente ela estava lá, a estrelinha, a primeira estrela que surgiu no céu. Ainda era dia, o sol se punha num espetáculo único, tingindo o horizonte de um laranja sem igual. E ela apareceu e ficou a nos olhar por muito , muito tempo. Pensei: é ele, nos vendo viajar de avião como tanto gostava, olhando sua neta linda e sapeca aprontando mil e umas, fazendo caras e bocas, repetindo seu repertório de palavras fofinhas ainda em nenenês, arrancando sorrisos das comissárias e dos outros passageiros. E ela nos seguiu durante boa parte da viagem até que nos aproximamos desta região chuvosa e uma nuvem pretona a encobriu, mas eu e meu coração sabíamos que ele/ela, a estrelinha, continuava lá...

Um comentário:
ai gente quero ver as fotos! e Luiza sarou mesmo?? saudadeeeee
:)
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