Sexta-feira, dia 16, foi dia de Nossa Senhora do Carmo, padroeira da minha cidade, Cambuí. Então é feriado lá. Estava no metrô indo às compras com uma amiga quando ela me perguntou se era dia 17. Não, eu respondi, hoje é 16, dia de N.Sra do Carmo. E contei minha minha história. Como é a padroeira da cidade, tem quermesse. Quando pequena a renda era pra reformar a igreja, hoje já não sei mais como funciona. Meus pais eram "festeiros" todo ano. Festeiro é a pessoa que trabalha pra quermesse acontecer. Então meses antes pede-se e recolhem-se as prendas, que podem ser desde sacos de farinha de trigo até bezerros e vacas inteiras que serão leiloadas no bingo. E na quermesse do meu tempo de criança vendia pastel, chocolate quente, quentão, vinho quente, canudo de doces. Hoje a coisa está mais sofisticada e dá ate´pra comprar o jantar, porque também tem vaca atolada (sopa de mandioca com costela de vaca), canjiquinha (sopa de quirera de milho com costelinha de porco), e tem a sobremesa, canjica com amendoim. Mas de criança eu gostava mesmo era de pastel de queijo e chocolate. E nos dias de quermesse os festeiros também trabalham nas barracas, minha mãe fritava pastel e eu sempre comia pastel quentinho e tomava chocolate, vou falar baixinho pro padre não ouvir, de graça. Então eu tomava muito chocolate, era bem docinho e tinha gostinho de canela, nunca consegui fazer igual. Depois que cresci mais um pouco também me encantei pelo pastel de carne, que é feito com carne moída, bata amassada e muito cheiro verde, nunca vi pastel assim em lugar nenhum, muiiiiiito bom. E tinha as barraquinhas, hoje sei que são camelôs itinerantes que ficam viajando de cidade em cidade nos dias de festa para garantir seu ganha pão, mas na época pra mim aquilo só existia em Cambuí e no Córrego, cidades vizinhas que são quase grudadas uma na outra.
E tínhamos um ritual. Todo dia 16, o dia da festa, meu pai me levava pra ver as barracas e comer doces. Ele ficava anunciando um mês antes que no dia da festa ia me levar. Maçã do amor, churros, morango do amor, uva do amor, doce de leite, cocada, doce de abóbora, eu me fartava e ainda levava um tanto pra casa. Era o prazer dele me "estragar" me enchendo de doces. E eu adorava. Passava o ano inteiro esperando chegar o dia da festa, não sei dizer por quanto tempo foi assim. Depois que fiquei moça ele já não me levava mais, mas aí eu pedia dinheiro e ia sozinha, com as amigas e ele ia também e trazia doces pra casa. Eu ainda amo aqueles doces. Este ano estive lá nos primeiros dias de quermesse, mas não comi os doces. A Luiza ainda é pequena pra mergulhar nesse universo que qualquer dentista abominaria, então vamos guardando nossa energia pra quando ela estiver maiorzinha e também puder se fartar. Uma vez por ano só? Acho que tudo bem.
E os brinquedos? Tinham aos montes nas barracas, mas eu não pedia. É porque minha mãe falava que ele não ia comprar, que não adiantava pedir, e eu obedecia. Se queria brinquedo pedia pra ela. Até que um ano eu vi uma boneca vestida de noiva e fiquei doida, apaixonada. (Acho que naquela época eu já sonhava em casar, sei lá). Não sei quantos anos eu tinha, mas eu não podia voltar pra casa sem aquela noivinha. Andamos a tarde toda e eu fascinada, até que me enchi de coragem e pedi, e ele me comprou e eu voltei pra casa ainda mais feliz do que jamais havia sido até então. Ah, ele não era tão mal assim como minha mãe pintava, afinal ele me comprou o brinquedo e ficou repetindo que ela era mesmo muito bonita.
Ele contou essa história pro meu marido pouco antes de morrer, seus olhos brilhavam de lembrar minha felicidade carregando a noivinha pra casa, nem eu me lembrava com tanto amor desse dia, mas ele, pessoa rica e especial que era não se esqueceu do seu feito heróico, ele, meu herói, me salvou da tristeza de não ter um brinquedo, uma bobagem, mas de uma importância enorme naquele momento da minha vida. Era uma belezinha a noivinha, ele dizia. E eu brinquei até gastar, até ficar velha, ate´não servir mais. Não sei que triste destino teve minha noivinha, mas de uma coisa eu sei, eu fui muito feliz com ela. Acho que foi meu brinquedo mais especial, porque foi o único que ele me deu. Acho que bem no fundo era o meu pai que adorava os doces e que era um pouco criança. Acho que ele me levava porque levava a si mesmo também, como se estivesse sendo criança de novo, da mesma forma como me sinto hoje quando estou brincando com a Luiza, sendo uma criança que nunca fui no passado, com brinquedos e brincadeiras que não existiam na minha época. Acho que àquela festa e àqueles doces também eram novidades para ele.
Sei muito pouco da infância do meu pai, ele não era de falar do passado nem de si mesmo. E quando falava só contava os grandes feitos, as coisas boas, sua tristeza ele deixava bem guardada. Ele viveu a vida tratando de ser feliz e é assim que tento viver a minha vida. Mas sei que ele nunca teve um brinquedo, nunca sentou num banco de escola e teve pai por pouco tempo na vida (seu pai morreu quando ele tinha 12 anos e me contou isso já no fim de sua vida). Então penso que ele tratou de aproveitar sua segunda chance, viveu uma vida de filho sendo um excelente pai pra mim e meus irmãos, nisso todo mundo concorda.
Em 2008, exatamente uma semana depois do dia da festa, meu pai faleceu. Comeu doces pela ultima vez, comeu pastel, assistiu à missa e se despediu de N. Sra do Carmo e de toda a nossa história. Nesta sexta-feira, dia 23, completam-se dois anos. E eu ainda não consegui me entender com essa novidade.
E tínhamos um ritual. Todo dia 16, o dia da festa, meu pai me levava pra ver as barracas e comer doces. Ele ficava anunciando um mês antes que no dia da festa ia me levar. Maçã do amor, churros, morango do amor, uva do amor, doce de leite, cocada, doce de abóbora, eu me fartava e ainda levava um tanto pra casa. Era o prazer dele me "estragar" me enchendo de doces. E eu adorava. Passava o ano inteiro esperando chegar o dia da festa, não sei dizer por quanto tempo foi assim. Depois que fiquei moça ele já não me levava mais, mas aí eu pedia dinheiro e ia sozinha, com as amigas e ele ia também e trazia doces pra casa. Eu ainda amo aqueles doces. Este ano estive lá nos primeiros dias de quermesse, mas não comi os doces. A Luiza ainda é pequena pra mergulhar nesse universo que qualquer dentista abominaria, então vamos guardando nossa energia pra quando ela estiver maiorzinha e também puder se fartar. Uma vez por ano só? Acho que tudo bem.
E os brinquedos? Tinham aos montes nas barracas, mas eu não pedia. É porque minha mãe falava que ele não ia comprar, que não adiantava pedir, e eu obedecia. Se queria brinquedo pedia pra ela. Até que um ano eu vi uma boneca vestida de noiva e fiquei doida, apaixonada. (Acho que naquela época eu já sonhava em casar, sei lá). Não sei quantos anos eu tinha, mas eu não podia voltar pra casa sem aquela noivinha. Andamos a tarde toda e eu fascinada, até que me enchi de coragem e pedi, e ele me comprou e eu voltei pra casa ainda mais feliz do que jamais havia sido até então. Ah, ele não era tão mal assim como minha mãe pintava, afinal ele me comprou o brinquedo e ficou repetindo que ela era mesmo muito bonita.
Ele contou essa história pro meu marido pouco antes de morrer, seus olhos brilhavam de lembrar minha felicidade carregando a noivinha pra casa, nem eu me lembrava com tanto amor desse dia, mas ele, pessoa rica e especial que era não se esqueceu do seu feito heróico, ele, meu herói, me salvou da tristeza de não ter um brinquedo, uma bobagem, mas de uma importância enorme naquele momento da minha vida. Era uma belezinha a noivinha, ele dizia. E eu brinquei até gastar, até ficar velha, ate´não servir mais. Não sei que triste destino teve minha noivinha, mas de uma coisa eu sei, eu fui muito feliz com ela. Acho que foi meu brinquedo mais especial, porque foi o único que ele me deu. Acho que bem no fundo era o meu pai que adorava os doces e que era um pouco criança. Acho que ele me levava porque levava a si mesmo também, como se estivesse sendo criança de novo, da mesma forma como me sinto hoje quando estou brincando com a Luiza, sendo uma criança que nunca fui no passado, com brinquedos e brincadeiras que não existiam na minha época. Acho que àquela festa e àqueles doces também eram novidades para ele.
Sei muito pouco da infância do meu pai, ele não era de falar do passado nem de si mesmo. E quando falava só contava os grandes feitos, as coisas boas, sua tristeza ele deixava bem guardada. Ele viveu a vida tratando de ser feliz e é assim que tento viver a minha vida. Mas sei que ele nunca teve um brinquedo, nunca sentou num banco de escola e teve pai por pouco tempo na vida (seu pai morreu quando ele tinha 12 anos e me contou isso já no fim de sua vida). Então penso que ele tratou de aproveitar sua segunda chance, viveu uma vida de filho sendo um excelente pai pra mim e meus irmãos, nisso todo mundo concorda.
Em 2008, exatamente uma semana depois do dia da festa, meu pai faleceu. Comeu doces pela ultima vez, comeu pastel, assistiu à missa e se despediu de N. Sra do Carmo e de toda a nossa história. Nesta sexta-feira, dia 23, completam-se dois anos. E eu ainda não consegui me entender com essa novidade.

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