Sou muito diferente do meu pai. Ele dormia cedo e acordava cedo, eu sempre gostei de dormir tarde e acordar tarde. Ele adorava bananas, eu também, mas ele gostava delas bem maduras e docinhas, eu já gosto um estágio antes, mais firmes, quando muito molinhas já não consigo comer mais, só pra doces e bolos. Ele me ensinou a observar e amar a natureza, ele observava o movimento do sol, eu olhava a lua e as estrelas. Se é verdade que os opostos se atraem, esse é um bom exemplo. Com o tempo fui aprendendo a respeitar essa diferença, a não entrar em conflito só porque fui ganhando convicções diferentes das dele, já conheci um pai velho, bem pouco disposto a conhecer certas novidades, então concordava com ele que as melhores bananas eram aquelas mesmo, embora evitasse comê-las. Mas cometi muito erros tentando agradá-lo, minha ansiedade em ver meu pai feliz como ele sempre se esforçava para me ver feliz fazia com que eu cometesse alguns excessos, como no dia em que o levamos no zoológico e passou muito da hora do almoço. Já velho, a hora do almoço era sagrada e ele não aproveitou mais o passeio até enfim comer o maior prato que eu já vi na vida.
Ele sempre acordou antes de todo mundo e o cheirinho de café com pão quente de padaria que acabou de abrir era obra dele, eu só saio da cama no ultimo segundo se realmente tiver que levantar. Mas ele cuidava de tudo que era da gente, que era meu e eu tento fazer igual, tento, mas acho que até nisso somos diferentes. Ele cuidou do passarinho do Nelson (meu irmão), das minhas galinhas, do Johnny, que acabou por ser o seu companheiro dos últimos dias. Ah, o Johnny é um cachorro. E ele tentou cuidar do Manchinha, nosso cãozinho, mas aí é outra historia. Preciso fazer um parênteses aqui: "Papai da Luiza, seu pai cuida dos seus bichinhos de estimação até hoje, você pode fazer o mesmo com doação. É só o começo..."
Retomando: esta noite sonhei com um pai ao meu lado numa fuga alucinante. Não, não era o meu pai, embora no sonho fosse. Era uma figura forte, desses pais heróis de filme. Hoje quando me lembrei do sonho me veio a imagem do pai enorme e forte que eu via no inicio de minha vida e essa imagem contrastou drasticamente com a figura frágil do fim da vida dele. Ando sentindo muita melancolia quando penso no meu pai e hoje em especial pensei que pais deveriam sempre ser heróis e, mesmo que nós filhos fôssemos enganados a vida toda, penso que essa inversão de papéis não deveria ocorrer. Porque para a minha filha quero ser sempre o porto seguro, a figura forte, a casa de pedra para onde ela sempre poderá voltar para se sentir protegida e recarregar sua energias antes continuar seguindo a sua vida. Não lido bem com o fato de que isso pode mudar um dia, embora meu coração se alegre ao pensar que pude dar ao meu pai dias mais tranquilos nos momentos mais dificeis de sua vida, os dias em que teve que pensar em se despedir da vida que tanto amava. Folgo em saber que me tornei esta mulher forte capaz de ser mãe, antes fui mãe do meu pai, sua heroína talvez, a pessoa que teve "peitos" para buscar o que havia de melhor no momento pior. É um paradoxo. A vida é um grande paradoxo. Mais um mês e serão três anos completos sem ele aqui. Sua imagem anda ficando borrada na minha memória, embaçada, a imagem de quem e o que a gente não vê faz tempo, a imagem que vai sumindo. Tenho pensado nele muito mais nestes dias do que de costume. Talvez ainda tenha faltado ficha pra cair e isto parece acontecer agora. Não sei.
Minha princesa está crescendo, sua compreensão das coisas agora é muito maior e talvez seja a hora de apresentar a ela com mais propriedade o vovô Anizio. Todo dia ela reza e pede ao Papai do Céu que abençõe as vovós e o vovô Leo. Todo dia sinto meu coração doer porque não se reza para quem já morreu. Estou vendo minha fofura crescer envolta por muito amor e irradiando amor, só ele não está aqui, só dele ela não pode sentir saudades, sentir vontade de ver e brincar, quem é esse avô que ela não conheceu nem nunca saberá ao certo quem foi. Que avô ele seria para ela, já velho, já doente, frágil. Penso que ele seria para ela como foi para mim. Será? Sei que as coisas são como têm que ser ainda que eu nunca me conforme com isso. Talvez ele tenha partido porque, sendo eu mãe dela não conseguiria ser tão eficiente como mãe dele. Talvez ele tenha sentido isso quando ouviu a noticia da chegada dela. De que era a hora de eu seguir adiante com a minha vida e construir a minha familia. Minha mãe contou que uns meses antes de morrer ele disse a ela que estava tudo bem, que ela tinha uma casa, meu irmão e irmã mais velhos estavam levantando uma bela construção e minha irmã do meio e eu já tínhamos nossas familias e nossas casas. Cada um dos seus já tinha tomado o rumo certo do seu destino, era hora dele seguir adiante também. É, essa ultima parte ficou subentendido, ele não disse, ele não falava sobre ela, a morte, não eram muito amigos. Nisso também somos diferentes.
Mas herdei um sentimento que é idêntico ao dele: o amor à vida, o viver intensamente! Acho sim que foi com ele que aprendi desde muito cedo que só se vive uma vida (é o que sabemos concretamente), melhor não deixar escapar nenhuma emoção. Não, ele nunca disse isso. Ele viveu isso todos os dias de sua vida. E eu também!
Os dias continuam nascendo, o tempo anda voando, me apavora. Porque eu queria uma vida interia pela frente, mas já náo a tenho mais desta forma. Podíamos ter o direito de ensaiar antes de entrar no palco, quem sabe assim estaríamos juntos de novo...
Ele sempre acordou antes de todo mundo e o cheirinho de café com pão quente de padaria que acabou de abrir era obra dele, eu só saio da cama no ultimo segundo se realmente tiver que levantar. Mas ele cuidava de tudo que era da gente, que era meu e eu tento fazer igual, tento, mas acho que até nisso somos diferentes. Ele cuidou do passarinho do Nelson (meu irmão), das minhas galinhas, do Johnny, que acabou por ser o seu companheiro dos últimos dias. Ah, o Johnny é um cachorro. E ele tentou cuidar do Manchinha, nosso cãozinho, mas aí é outra historia. Preciso fazer um parênteses aqui: "Papai da Luiza, seu pai cuida dos seus bichinhos de estimação até hoje, você pode fazer o mesmo com doação. É só o começo..."
Retomando: esta noite sonhei com um pai ao meu lado numa fuga alucinante. Não, não era o meu pai, embora no sonho fosse. Era uma figura forte, desses pais heróis de filme. Hoje quando me lembrei do sonho me veio a imagem do pai enorme e forte que eu via no inicio de minha vida e essa imagem contrastou drasticamente com a figura frágil do fim da vida dele. Ando sentindo muita melancolia quando penso no meu pai e hoje em especial pensei que pais deveriam sempre ser heróis e, mesmo que nós filhos fôssemos enganados a vida toda, penso que essa inversão de papéis não deveria ocorrer. Porque para a minha filha quero ser sempre o porto seguro, a figura forte, a casa de pedra para onde ela sempre poderá voltar para se sentir protegida e recarregar sua energias antes continuar seguindo a sua vida. Não lido bem com o fato de que isso pode mudar um dia, embora meu coração se alegre ao pensar que pude dar ao meu pai dias mais tranquilos nos momentos mais dificeis de sua vida, os dias em que teve que pensar em se despedir da vida que tanto amava. Folgo em saber que me tornei esta mulher forte capaz de ser mãe, antes fui mãe do meu pai, sua heroína talvez, a pessoa que teve "peitos" para buscar o que havia de melhor no momento pior. É um paradoxo. A vida é um grande paradoxo. Mais um mês e serão três anos completos sem ele aqui. Sua imagem anda ficando borrada na minha memória, embaçada, a imagem de quem e o que a gente não vê faz tempo, a imagem que vai sumindo. Tenho pensado nele muito mais nestes dias do que de costume. Talvez ainda tenha faltado ficha pra cair e isto parece acontecer agora. Não sei.
Minha princesa está crescendo, sua compreensão das coisas agora é muito maior e talvez seja a hora de apresentar a ela com mais propriedade o vovô Anizio. Todo dia ela reza e pede ao Papai do Céu que abençõe as vovós e o vovô Leo. Todo dia sinto meu coração doer porque não se reza para quem já morreu. Estou vendo minha fofura crescer envolta por muito amor e irradiando amor, só ele não está aqui, só dele ela não pode sentir saudades, sentir vontade de ver e brincar, quem é esse avô que ela não conheceu nem nunca saberá ao certo quem foi. Que avô ele seria para ela, já velho, já doente, frágil. Penso que ele seria para ela como foi para mim. Será? Sei que as coisas são como têm que ser ainda que eu nunca me conforme com isso. Talvez ele tenha partido porque, sendo eu mãe dela não conseguiria ser tão eficiente como mãe dele. Talvez ele tenha sentido isso quando ouviu a noticia da chegada dela. De que era a hora de eu seguir adiante com a minha vida e construir a minha familia. Minha mãe contou que uns meses antes de morrer ele disse a ela que estava tudo bem, que ela tinha uma casa, meu irmão e irmã mais velhos estavam levantando uma bela construção e minha irmã do meio e eu já tínhamos nossas familias e nossas casas. Cada um dos seus já tinha tomado o rumo certo do seu destino, era hora dele seguir adiante também. É, essa ultima parte ficou subentendido, ele não disse, ele não falava sobre ela, a morte, não eram muito amigos. Nisso também somos diferentes.
Mas herdei um sentimento que é idêntico ao dele: o amor à vida, o viver intensamente! Acho sim que foi com ele que aprendi desde muito cedo que só se vive uma vida (é o que sabemos concretamente), melhor não deixar escapar nenhuma emoção. Não, ele nunca disse isso. Ele viveu isso todos os dias de sua vida. E eu também!
Os dias continuam nascendo, o tempo anda voando, me apavora. Porque eu queria uma vida interia pela frente, mas já náo a tenho mais desta forma. Podíamos ter o direito de ensaiar antes de entrar no palco, quem sabe assim estaríamos juntos de novo...

Um comentário:
nem sei o que dizer...profundo... me veio a mente os pais vivos, porém ausentes, que não sabem ou querem ser pais. uma pena. que seu amor nunca deixe de fluir. te amo.
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