quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

E a vida segue...

Alguém já teve a impressão de que algumas coisas não combinam entre si? Amo verde e passarinhos, mas tenho horror a certos bichos, principalmente aqueles que se parecem com jacaré. Hoje pela manhã fui pegar o carro pra dar uma volta com meu avô torto (avô do meu marido, biso da Luiza) e lá estava ele, bem na minha frente, um lagarto imenso, devia ter uns 30 cm, uns 20 vai, mas para mim mais parecia uma lagartixa de um metro. Nada no mundo me mete mais medo do que lagartixa, então dá pra imaginar minha aflição com aquele bicho na minha frente. Primeiro ele fugiu, subiu pela parede e se escondeu num buraco que ficava mais ou menos na altura do capô do carro. Depois voltou e ficou me olhando, ameaçando sair de lá. Parece que atrapalhei o passeio do bichinho. Manobrei o carro, vaguinha triste de sair, e ele, sem cerimônia, saltou do buraco e seguiu caminho tão logo saí da sua frente. Quase morri. Ah, só pra constar, estou em Petropolis, cidade imperial, mas a esta altura penso que se trate de algo próximo de uma floresta ou zoológico.
Passeamos pela cidade, almoçamos, voltamos. Guardei o carro e no trajeto de volta ao apartamento lá estava ele, quer dizer, acho que era outro, um pouco menor, grudado na parede do prédio no meio das trepadeiras, o que aumentou meu horror: deve ser uma colônia inteira. Como eu adoro São Paulo. É tanto asfalto e concreto, tanta poluição que uma cena destas é inimaginável. Descobri porque sou tão feliz lá.
Se meu paizinho estivesse aqui ele diria: "coitado do bichinho, ele não faz nada pra gente", mas sua simples existência para mim é demasiada afronta, é o que me basta. Nossa casa lá em Minas fica numa várzea, bem perto do rio. Quando eu era pequena ainda tinha muito mato por lá e sapos, pererecas, lagartixas eram vizinhos constantes. Penso que nunca me senti segura de verdade. Como meus pais nasceram e cresceram na roça, pra eles aquilo era muito normal. Não sei dizer de onde vem tanto medo, até faço uma ideia, mas o fato é que esses bichinhos, principalmente os jacarezinhos, são a parte terrível de minha história. Passei minha vida toda nadando em rio e cachoeira e andando pelo mato como já contei aqui mesmo, por isso penso que não combina muito esse medo, só sei que o tenho.
Estou num lugar que Seu Anivio adoraria conhecer, é uma serra tão linda! Claro que a parte histórica da cidade ele nem se interessaria, mas paisagem...
Sábado, quando vim pra cá, experimentei longas horas de profunda tristeza. Que graça tem descer a serra das araras (que dá acesso ao Rio de Janeiro) se não vou poder contar ele? Este ano começou assim, com uma dura tarefa a ser aprendida: ver o mundo e guardar no coração como seria se ele estivesse aqui.
Os dias estão passando, mas custa entrar na cabeça o que de fato aconteceu. E nem sei se vai entrar. Tenho vontade de ficar ainda muito mais perto das pessoas que amo, fico com medo de não tê-las mais por aqui, e tenho vontade de proibir Deus de levar quem quer que seja de volta ao seu convívio, ah, se eu pudesse...
Minha princesa está grande e forte, mais um pouco e ela estará nos braços. Penso que quando ela chegar não terei muito tempo de ficar pensando estas coisas, mas penso também que aos poucos fui dando conta deste luto. Já não sinto raiva nem indignação. Não posso dizer que estou resignada, mas ao longo deste cinco meses e dezesseis dias fui deixando de conversar com ele e passei a falar com ela. Ainda tenho rompantes, acessos de não querer aceitar, uma teimosia. Mas passa. É difícil quando vou à nossa casa, ainda fico procurando por ele e pensando que tenho de chamá-lo pra almoçar, tenho de ir até ele pra contar algumas aventuras, como esta com o lagartinho, tenho de avisá-lo que já estou de partida. Continuo achando tudo muito estranho: como pode num momento a pessoa está ali, do seu lado, no momento seguinte, não mais. Será que isso passa?
Estou prestes a vivenciar a maior mudança de minha vida e acho que dói mesmo é não poder compartilhar com ele, meu amor mais puro, toda essa riqueza. É uma falta, um buraco imenso, o lugar vazio na foto, na mesa, no sofá. Eu costumava compartilhar tudo com ele e hoje me dói pensar que não vou poder contar a ele como o carioca é mal educado (isso é outra historia), ou como a serra de Petrópolis é linda. Esse lugar é só dele e ninguém vai poder substituir, nem mesmo Luiza. Aliás, ela já tem o dela e é exclusivo. Sei que ele se apaixonaria por ela se estivesse aqui e lhe contaria um sem fim de histórias, mostraria um bocado de coisas e a ensinaria a amar os bichinhos até os jacarezinhos que comem baratas. Posso contar as histórias, mostrar um tantão de coisas, mas amar esses monstrinhos... vou ficar devendo...

2 comentários:

LucianaArruda disse...

ai Ni, monstrinhos!! que maldade! kkkkk então Luíza pode nascer carioca já?? faça-me o favor de morar perto da praia, quero te visitar! amo o Rio! me conta tudo depois...ah! e boa sorte! luz! força!

Unknown disse...

Eu não faria uma maldade dessas de deixar minha filha nascer carioca... eh eh eh... Graças a Deus ela vai ser paulistana....