A criança que mora em mim quer acreditar em Papai Noel. A criança que mora em mim é a criança que já fui outrora e que não cresceu. Continua esperando presente no sapatinho, continua esperando a boneca a pilha que nunca veio, continua esperando uma confraternização como aquelas de filmes, não sei o que fazer pra essa criança crescer. Alguém já sentiu saudades do que nunca viveu?
Sábado fomos ver passar o comboio de Natal da Coca-Cola, aqueles caminhões iluminados: lindo! Foi tão rapidinho, mas a Luiza curtiu ao máximo, ficou dando tchau e jogando beijos pro Papai Noel que vinha puxando o comboio a bordo do seu trenó e que por sua vez jogava balas pras crianças. Eu chorei como criança pequena. Aí fiquei na dúvida: chorei emocionada por ver minha florzinha encantada, ou foi a criança em mim que chorou por nunca ter tido nada disso. Todo mundo tem suas crises, suas faltas, mas a gente se adapta e sempre segue adiante. Eu não tenho conseguido. Uma palavra mal dita desencadeou em mim um sentimento ruim que teima em não ir embora, há semanas ando querendo sumir, fazia tempo que não tinha destas coisas. Às vezes me dá uma ansiedade, parece que vou explodir, estou atolada neste sentimento e por mais que eu tente, não consigo sair do lugar. Tem certas coisas que ficam tão enraizadas dentro da gente que, não importa o esforço, os anos de terapia, não sai, não morre, pode até adormecer, mas está lá, quietinho esperando pra pular pra fora na hora certa, pra nos fazer sofrer de novo. Deveria existir uma modalidade de terapia que permitisse passar uma borracha.
Comecei esse ano tendo que digerir um fracasso e sinceramente, estou com medo de fazer planos pro ano novo. Um dia meu marido me disse que o que deu errado pra mim na verdade tinha dado é muito certo. Foi bom dar um tempo e durante este tempo cuidar da casa e da familia me preencheu, me satisfez, me fez feliz. Aguentei um tanto de gente me enchendo pra eu voltar logo a trabalhar, mas era intriga da oposição, eu sentia assim e sentia que no tempo certo as coisas aconteceriam. Perdi a conta do número de vezes que agradeci a Deus por não ter que sair pra trabalhar este ano, depois de uma noite muito mal dormida por conta de uma dor de ouvido, um dentinho novo que está querendo nascer, um pesadelo. Sou mãe e me folgava saber que tinha tempo para ser mãe. Tempo para dormir quando todos já estão trabalhando e repor minhas energias para ser mãe, para ter paciência de ser mãe, para ajudar a minha filha a crescer e dar seus primeiros passinhos, os primeiros que a levarão a ganhar o mundo. Ajuda esta que me faltou, que me foi dada pela metade, que fez de mim uma pessoa insegura, me completava saber e sentir que abrir mão de parte da minha vida me tornava eficiente naquele pedaço que é hoje o mais importante da minha vida: a maternidade. Num dia, num instante tudo desabou na minha cabeça. Sei que cometi alguns erros, dei passos em falso e no tempo certo trataria de cuidar de cada um deles, mas não agora, não nesta hora, não desta forma. Fiquei mal comigo. Tudo o que andei escondendo de mim mesma enquanto descansava e tomava fôlego para enfrentar, puf, pulou na minha frente, pra me machucar, pra me fazer sofrer. Só ando conseguindo enxergar a falta. E anda me faltando muita coisa.
Estou com medo de recomeçar, de fracassar de novo, de novamente fazer escolhas efêmeras, de chegar no fim da próxima metade da minha vida e de novo ver que não consegui, que não foi da forma que planejei e sonhei. Quando criança eu logo aprendi a não desejar o que não poderia ter, apenas sonhava, bem poucas coisas pedia e apenas uma vez pedi uma coisa que de fato não poderia ter e não ganhei e doeu uma dor sem fim, doeu uma vida inteira até que cresci e pude enfim realizar o tal desejo por meus meios. Fechei uma gestalt (como dizem os gestalterapeutas). A partir daí não desejei mais nada, essa coisa de querer um objeto ou outro, uma bolsa nova, um móvel novo, uma viagem. De repente não precisava mais desejar ou sonhar com estas coisas, eu poderia tê-las se quisesse. As revistinhas, discos, livros e mais tarde cds e dvds que não podia comprar até uns anos atrás poderiam ser meus se quisesse, não me faltava nada, enfim eu tinha chegado em algum lugar e ganhado algum poder. E nem por isso me tornei uma pessoa consumista e perdulária. Talvez por nunca ter tido dinheiro pras melhores roupas, sapatos e brinquedos, sempre corri atrás do conhecimento, sempre amei uma biblioteca e logo que aprendi a ler, com 7 anos, pedi dinheiro pro meu pai para comprar livros (afinal eu já sabia ler). Comprei Chapeuzinho Vermelho e Os Três Porquinhos. Esses foram os meus primeiros livros e eu mesma fui lá papelaria da minha cidade comprá-los. Escolhi estes não porque os desejasse, mas porque eram os disponíveis, e eram meus. De resto, qualquer coisa me bastava. Minha inquietude no entanto não me deixou ficar com qualquer coisa e eu quis mais, quis ser melhor e não só ter mais coisas. Mas parece que eu rodo, rodo, rodo e caio no mesmo buraco. Como se eu tivesse errado feio quando desejei ser melhor. Eu poderia apenas ter ficado com o desejo de querer comprar isso ou aquilo, mas eu quis ir além. Só que eu não consegui ir tão além assim. E me perdi pelo caminho e não sei como me achar desta vez. Estou com medo de fazer planos e quebrar a cara de novo. Assim como quando criança, se eu não desejar não vou sofrer se der errado. Dá pra entender? Só que esse sentimento é muito ruim. Ando me sentindo não merecedora das coisas. Falta, falta, falta. Olho o armário e me faltam roupas e sapatos e bolsas. Olho o resto da casa e falta espaço, falta organização, falta coragem. Olho dentro de mim... falta. Meu marido me perguntou o que eu queria de Natal e eu, quase dormindo, respondi: muito dinheiro. Muito dinheiro pra contratar uma lista de personais: um pra me ajudar a me vestir, um pra me ajudar a me comportar. Outro pra me ensinar a procurar emprego. Um pra organizar a minha casa e minha bagunça. Outro pra me ajudar a emagrecer. Uma secretária do lar pra que eu não tenha tanta coisa pra fazer o dia inteiro e enfim possa ter tempo para usufruir de todos os serviços descritos acima. Não quero ser outra pessoa, mas quero ser diferente do que tenho conseguido ser até hoje. Quero mudar o que me faz infeliz, quero aperfeiçoar o que tenho de bom, quero aprender o que ainda não sei quero conseguir chegar lá e ter orgulho do que fui e vivi. Tentei ser melhor, tentei ser diferente, tentei ir além, tentei fazer tudo sozinha, só que eu não consegui.
Ao invés de adotar uma carta no correio meu marido optou por adotar uma criança na Igreja e isso tem me tirado o sono. Não a conheço, nunca nem vi foto, mas gostaria que ela ganhasse coisas que realmente não pode ter por seus recursos. Temo gastar demais nessa hora de pouca grana (é que tem uma lista grandinha com roupa, sapato, lembrancinha...). Penso que não é porque uma pessoa depende da bondade de outras que qualquer coisa serve. Adoraria ser um bom Papai Noel, um de verdade, igual no filmes e nas histórias que a gente ouve contar. Assim esta menina que nem conheço, ao menos uma vez na vida, poderá sair na rua e exibir os lindos presentes que o "bom velhinho" lhe trouxe. Era assim que acontecia quando eu era criança...
Sábado fomos ver passar o comboio de Natal da Coca-Cola, aqueles caminhões iluminados: lindo! Foi tão rapidinho, mas a Luiza curtiu ao máximo, ficou dando tchau e jogando beijos pro Papai Noel que vinha puxando o comboio a bordo do seu trenó e que por sua vez jogava balas pras crianças. Eu chorei como criança pequena. Aí fiquei na dúvida: chorei emocionada por ver minha florzinha encantada, ou foi a criança em mim que chorou por nunca ter tido nada disso. Todo mundo tem suas crises, suas faltas, mas a gente se adapta e sempre segue adiante. Eu não tenho conseguido. Uma palavra mal dita desencadeou em mim um sentimento ruim que teima em não ir embora, há semanas ando querendo sumir, fazia tempo que não tinha destas coisas. Às vezes me dá uma ansiedade, parece que vou explodir, estou atolada neste sentimento e por mais que eu tente, não consigo sair do lugar. Tem certas coisas que ficam tão enraizadas dentro da gente que, não importa o esforço, os anos de terapia, não sai, não morre, pode até adormecer, mas está lá, quietinho esperando pra pular pra fora na hora certa, pra nos fazer sofrer de novo. Deveria existir uma modalidade de terapia que permitisse passar uma borracha.
Comecei esse ano tendo que digerir um fracasso e sinceramente, estou com medo de fazer planos pro ano novo. Um dia meu marido me disse que o que deu errado pra mim na verdade tinha dado é muito certo. Foi bom dar um tempo e durante este tempo cuidar da casa e da familia me preencheu, me satisfez, me fez feliz. Aguentei um tanto de gente me enchendo pra eu voltar logo a trabalhar, mas era intriga da oposição, eu sentia assim e sentia que no tempo certo as coisas aconteceriam. Perdi a conta do número de vezes que agradeci a Deus por não ter que sair pra trabalhar este ano, depois de uma noite muito mal dormida por conta de uma dor de ouvido, um dentinho novo que está querendo nascer, um pesadelo. Sou mãe e me folgava saber que tinha tempo para ser mãe. Tempo para dormir quando todos já estão trabalhando e repor minhas energias para ser mãe, para ter paciência de ser mãe, para ajudar a minha filha a crescer e dar seus primeiros passinhos, os primeiros que a levarão a ganhar o mundo. Ajuda esta que me faltou, que me foi dada pela metade, que fez de mim uma pessoa insegura, me completava saber e sentir que abrir mão de parte da minha vida me tornava eficiente naquele pedaço que é hoje o mais importante da minha vida: a maternidade. Num dia, num instante tudo desabou na minha cabeça. Sei que cometi alguns erros, dei passos em falso e no tempo certo trataria de cuidar de cada um deles, mas não agora, não nesta hora, não desta forma. Fiquei mal comigo. Tudo o que andei escondendo de mim mesma enquanto descansava e tomava fôlego para enfrentar, puf, pulou na minha frente, pra me machucar, pra me fazer sofrer. Só ando conseguindo enxergar a falta. E anda me faltando muita coisa.
Estou com medo de recomeçar, de fracassar de novo, de novamente fazer escolhas efêmeras, de chegar no fim da próxima metade da minha vida e de novo ver que não consegui, que não foi da forma que planejei e sonhei. Quando criança eu logo aprendi a não desejar o que não poderia ter, apenas sonhava, bem poucas coisas pedia e apenas uma vez pedi uma coisa que de fato não poderia ter e não ganhei e doeu uma dor sem fim, doeu uma vida inteira até que cresci e pude enfim realizar o tal desejo por meus meios. Fechei uma gestalt (como dizem os gestalterapeutas). A partir daí não desejei mais nada, essa coisa de querer um objeto ou outro, uma bolsa nova, um móvel novo, uma viagem. De repente não precisava mais desejar ou sonhar com estas coisas, eu poderia tê-las se quisesse. As revistinhas, discos, livros e mais tarde cds e dvds que não podia comprar até uns anos atrás poderiam ser meus se quisesse, não me faltava nada, enfim eu tinha chegado em algum lugar e ganhado algum poder. E nem por isso me tornei uma pessoa consumista e perdulária. Talvez por nunca ter tido dinheiro pras melhores roupas, sapatos e brinquedos, sempre corri atrás do conhecimento, sempre amei uma biblioteca e logo que aprendi a ler, com 7 anos, pedi dinheiro pro meu pai para comprar livros (afinal eu já sabia ler). Comprei Chapeuzinho Vermelho e Os Três Porquinhos. Esses foram os meus primeiros livros e eu mesma fui lá papelaria da minha cidade comprá-los. Escolhi estes não porque os desejasse, mas porque eram os disponíveis, e eram meus. De resto, qualquer coisa me bastava. Minha inquietude no entanto não me deixou ficar com qualquer coisa e eu quis mais, quis ser melhor e não só ter mais coisas. Mas parece que eu rodo, rodo, rodo e caio no mesmo buraco. Como se eu tivesse errado feio quando desejei ser melhor. Eu poderia apenas ter ficado com o desejo de querer comprar isso ou aquilo, mas eu quis ir além. Só que eu não consegui ir tão além assim. E me perdi pelo caminho e não sei como me achar desta vez. Estou com medo de fazer planos e quebrar a cara de novo. Assim como quando criança, se eu não desejar não vou sofrer se der errado. Dá pra entender? Só que esse sentimento é muito ruim. Ando me sentindo não merecedora das coisas. Falta, falta, falta. Olho o armário e me faltam roupas e sapatos e bolsas. Olho o resto da casa e falta espaço, falta organização, falta coragem. Olho dentro de mim... falta. Meu marido me perguntou o que eu queria de Natal e eu, quase dormindo, respondi: muito dinheiro. Muito dinheiro pra contratar uma lista de personais: um pra me ajudar a me vestir, um pra me ajudar a me comportar. Outro pra me ensinar a procurar emprego. Um pra organizar a minha casa e minha bagunça. Outro pra me ajudar a emagrecer. Uma secretária do lar pra que eu não tenha tanta coisa pra fazer o dia inteiro e enfim possa ter tempo para usufruir de todos os serviços descritos acima. Não quero ser outra pessoa, mas quero ser diferente do que tenho conseguido ser até hoje. Quero mudar o que me faz infeliz, quero aperfeiçoar o que tenho de bom, quero aprender o que ainda não sei quero conseguir chegar lá e ter orgulho do que fui e vivi. Tentei ser melhor, tentei ser diferente, tentei ir além, tentei fazer tudo sozinha, só que eu não consegui.
Ao invés de adotar uma carta no correio meu marido optou por adotar uma criança na Igreja e isso tem me tirado o sono. Não a conheço, nunca nem vi foto, mas gostaria que ela ganhasse coisas que realmente não pode ter por seus recursos. Temo gastar demais nessa hora de pouca grana (é que tem uma lista grandinha com roupa, sapato, lembrancinha...). Penso que não é porque uma pessoa depende da bondade de outras que qualquer coisa serve. Adoraria ser um bom Papai Noel, um de verdade, igual no filmes e nas histórias que a gente ouve contar. Assim esta menina que nem conheço, ao menos uma vez na vida, poderá sair na rua e exibir os lindos presentes que o "bom velhinho" lhe trouxe. Era assim que acontecia quando eu era criança...

2 comentários:
Ni que post mais inspierado! encheu meu coração de ternura... e graças a vcs, tbm vamos adotar , mas uma cartinha do correio. adorei a idéia! um beij ocarinhoso...e nunca deixe de sonhar!
Nossa Ni!
Primeiro, aproveite que agora pode, e viva os sonhos dessa criança que nunca pode vivê-los! Não tem idade para sonhar, acreditar...
Sobre fracassar, PARA COM ISSO! Até parece que você, sendo quem é, vai fracassar com algo, principalmente que se diga à profissão. Deixa de ser boba!
E nós também adotamos uma criancinha, dos Correios mesmo. Adoro esse espírito de soliedariedade natalino!
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