Nada me causa mais admiração do que ver uma mulher da terceira idade dirigindo. Na verdade, da quarta idade, estou falando de mulheres já passadas dos 70, 75. Fico impressionada sempre, porque não é cena comum. Agora mesmo, parei na padaria para cometer alguns abusos e ao entrar no carro para vir embora notei que o carro ao lado do meu era conduzido por uma senhorinha de, digamos, uns 80 anos. Fico admirada porque esta geração de mulheres ainda é àquela submissa ao poder dos homens, a que ficava em casa cuidando do marido e dos filhos e sempre sujeita ao que era por ele, o marido, determinado. E dirigir é coisa de homem, ao menos era. Já as mulheres de 60 são coisa mais comum de se ver ao volante. Estas fazem parte da geração Paz e Amor, irmãs e primas daquelas que queimaram sutiã na década de 60 pedindo igualdade de direitos. Como minha mãe e minha sogra, ambas com idade na casa dos 60. Minha sogra sabe dirigir, minha mãe não. Minha sogra parou de dirigir, só o fazendo em caso de necessidade. Como pode alguém parar de exercer sua liberdade e independência? Agora que sobreviveu a um infarto pensa em retomar esta prática, porque não há experiência de maior liberdade do que o encontro com a morte. Será por isso que dirigir é tão libertador? Não entrarei nesta questão.
As rodas de um carro são a extensão de suas pernas, mais ágeis e fortes, capazes de te levar aonde for possível chegar assim. E a direção. Bem, o nome já diz. E eu posso decidir ir para lá, para ali, meu desejo decide, minhas mãos comandam e o carro obedece. A cada dia percebo que dirigir é um ato muito mais intuitivo que técnico. No inicio é difícil porque precisamos incorporar o carro, fazê-lo parte de nosso corpo para que bem possamos conduzi-lo. Não posso tomar decisões por quem vai ao lado, apenas decido pelo que está dentro de mim. E este complexo brinquedo para a ser parte de mim, parte do meu corpo e obediente aos meus desejos, compensa o que a natureza não me deu, mas que posso conquistar, graças a um certo número de malucos sonhadores que ousou ir além. Que bom que cheguei neste mundo depois deles.
Neste mês completo 5 anos de motorista, uma vitória. Sempre fui destas pessoas que nunca se deixou intimidar diante de nenhum obstáculo. Prestei vestibular contra a vontade do meu pai, fui morar longe, muito longe de casa e completamente sozinha, eu e Deus, nenhum amigo, parente. Viajei para fora do país sem falar nenhuma palavra de outro idioma que não o meu, enfrentei e venci muitos desafios, mas nenhum foi tão difícil quanto este. Aprender a dirigir até que não foi tão complicado. Logo na primeira aula já saí me aventurando por aí e enfrentei uma tempestade. Eu pensava: esse professor é louco. E evolução nas aulas, balizas perfeitas e: reprovei no teste. que desânimo, foi tudo tão rápido, nem deu tempo de repensar a resposta antes de passar para o gabarito. Puf, acabou. Fiquei deprimida, passei quase um ano sem sequer passar de novo na porta da auto-escola, quem dirá entrar. Aí me deu um medão de ter que fazer tudo de novo se não tomasse coragem logo, afinal já estava na última etapa para conseguir o meu "porte de arma" como gosta de brincar uma amiga, ou minha "carta de alforria", minha passagem para a liberdade. No dia do exame quase não consigo ir por conta de uma diarreia. Chegando na auto escola, meu Deus, era um pesadelo, as mesmas pessoas que haviam reprovado comigo anteriormente também estavam lá. Quantos exames não teriam feito até então. Tive um amigo que reprovou 7 vezes antes de passar. Já tinha até perguntado sobre o "quebra", o suborno, me recusava a ficar reprovando uma centena de vezes. E não é que de fato eu tinha escolhido uma auto escola honesta? Nada de quebra, vamos ter que ir na raça. Chego no local do exame, quem estava lá? Meu algoz. O delegado que me reprovou, era uma pesadelo, só podia ser. Ah, a luz no fim do túnel surgiu, não era ele e sim uma delegada que estava comandando os exames. E o meu foi o primeiro, que bom, não iria suportar a pressão de ver a galera reprovando antes de mim, precisava me livrar logo daquilo. E entra no carro, coloca o cinto, liga, engata a primeira, sai, põe segunda, liga a seta, pára, vira a esquina, primeira, segunda, seta, vira, pára no meio do quarteirão e faz a baliza, uma, duas... sua última chance. Puts, e agora? Ao menos desta vez tive chance de rever a resposta. Espera um pouquinho. Respira. Fale consigo mesma, converse com Deus, tudo em voz alta. Organiza o pensamento, os sentimentos, as emoções e vamos lá. Perfeita. Pode seguir. Um errinho bobo, mais duas esquinas e, "cabô". Nem tive coragem de olhar pra delegada, tentava de canto de olho olhar a nota no papel, mas tive de perguntar. PASSEI!!!!!!!! Ela me deu os parabéns e até hoje frequenta minhas boas lembranças e recebe minhas boas vibrações. Eu dizia que Deus mandou um anjo para me ajudar. Minha terapeuta na época brincou que talvez ela tenha ficado com medo do meu Deus caso me reprovasse, afinal conversamos na frente dela no meio da prova. E eu considero esta a minha maior vitória.
Mas a coisa não acaba por aqui. Porque entre ter a permissão e dirigir de fato tem uma enooooorrrrrrrme distância. E foi num destes momentos de exame de consciência, de estar insatisfeita com minhas escolhas que percebi que precisava sair do lugar, figurado e literalmente. De repente me vi com uma criança doente nos braços e outra sendo puxada pela mão, mais sacolas, dentro do metrô, ou um ônibus, não lembro agora, com um carro parado na garagem e uma permissão vencida sem nunca ter sido usada na carteira. Tremi por dentro e daqui saiu a minha coragem de enfim enfrentar este que foi o meu maior desafio até hoje. E consegui. E o resto de medo que ainda morava em mim dissipou-se quando meu pai ficou doente. Na necessidade não dá tempo de ficar pensando muito. E de repente me via fazendo coisas que achei que nunca seria capaz (dirigir tarde da noite e sozinha; fazer baliza com uma fila de carros buzinando e esperando pra passar, e outros).
Cresci numa oficina mecânica e sempre amei os carros. Dirigir pra mim sempre pareceu coisa natural, mas na hora do vamos ver vi que a coisa não era assim, mas consegui. Estou fazendo fisioterapia e por isso tenho saído todos os dias de carro, ando me sentindo. É como se o mundo se rendesse aos meus pés, posso conquistar tudo o que quiser, sou livre e independente para isso. É um prazer inexplicável.
Flávia, quando vi a senhorinha dirigindo logo pensei em você e continuo pensando. Se você quizer, eu te ajudo, a gente acha uma forma.
As rodas de um carro são a extensão de suas pernas, mais ágeis e fortes, capazes de te levar aonde for possível chegar assim. E a direção. Bem, o nome já diz. E eu posso decidir ir para lá, para ali, meu desejo decide, minhas mãos comandam e o carro obedece. A cada dia percebo que dirigir é um ato muito mais intuitivo que técnico. No inicio é difícil porque precisamos incorporar o carro, fazê-lo parte de nosso corpo para que bem possamos conduzi-lo. Não posso tomar decisões por quem vai ao lado, apenas decido pelo que está dentro de mim. E este complexo brinquedo para a ser parte de mim, parte do meu corpo e obediente aos meus desejos, compensa o que a natureza não me deu, mas que posso conquistar, graças a um certo número de malucos sonhadores que ousou ir além. Que bom que cheguei neste mundo depois deles.
Neste mês completo 5 anos de motorista, uma vitória. Sempre fui destas pessoas que nunca se deixou intimidar diante de nenhum obstáculo. Prestei vestibular contra a vontade do meu pai, fui morar longe, muito longe de casa e completamente sozinha, eu e Deus, nenhum amigo, parente. Viajei para fora do país sem falar nenhuma palavra de outro idioma que não o meu, enfrentei e venci muitos desafios, mas nenhum foi tão difícil quanto este. Aprender a dirigir até que não foi tão complicado. Logo na primeira aula já saí me aventurando por aí e enfrentei uma tempestade. Eu pensava: esse professor é louco. E evolução nas aulas, balizas perfeitas e: reprovei no teste. que desânimo, foi tudo tão rápido, nem deu tempo de repensar a resposta antes de passar para o gabarito. Puf, acabou. Fiquei deprimida, passei quase um ano sem sequer passar de novo na porta da auto-escola, quem dirá entrar. Aí me deu um medão de ter que fazer tudo de novo se não tomasse coragem logo, afinal já estava na última etapa para conseguir o meu "porte de arma" como gosta de brincar uma amiga, ou minha "carta de alforria", minha passagem para a liberdade. No dia do exame quase não consigo ir por conta de uma diarreia. Chegando na auto escola, meu Deus, era um pesadelo, as mesmas pessoas que haviam reprovado comigo anteriormente também estavam lá. Quantos exames não teriam feito até então. Tive um amigo que reprovou 7 vezes antes de passar. Já tinha até perguntado sobre o "quebra", o suborno, me recusava a ficar reprovando uma centena de vezes. E não é que de fato eu tinha escolhido uma auto escola honesta? Nada de quebra, vamos ter que ir na raça. Chego no local do exame, quem estava lá? Meu algoz. O delegado que me reprovou, era uma pesadelo, só podia ser. Ah, a luz no fim do túnel surgiu, não era ele e sim uma delegada que estava comandando os exames. E o meu foi o primeiro, que bom, não iria suportar a pressão de ver a galera reprovando antes de mim, precisava me livrar logo daquilo. E entra no carro, coloca o cinto, liga, engata a primeira, sai, põe segunda, liga a seta, pára, vira a esquina, primeira, segunda, seta, vira, pára no meio do quarteirão e faz a baliza, uma, duas... sua última chance. Puts, e agora? Ao menos desta vez tive chance de rever a resposta. Espera um pouquinho. Respira. Fale consigo mesma, converse com Deus, tudo em voz alta. Organiza o pensamento, os sentimentos, as emoções e vamos lá. Perfeita. Pode seguir. Um errinho bobo, mais duas esquinas e, "cabô". Nem tive coragem de olhar pra delegada, tentava de canto de olho olhar a nota no papel, mas tive de perguntar. PASSEI!!!!!!!! Ela me deu os parabéns e até hoje frequenta minhas boas lembranças e recebe minhas boas vibrações. Eu dizia que Deus mandou um anjo para me ajudar. Minha terapeuta na época brincou que talvez ela tenha ficado com medo do meu Deus caso me reprovasse, afinal conversamos na frente dela no meio da prova. E eu considero esta a minha maior vitória.
Mas a coisa não acaba por aqui. Porque entre ter a permissão e dirigir de fato tem uma enooooorrrrrrrme distância. E foi num destes momentos de exame de consciência, de estar insatisfeita com minhas escolhas que percebi que precisava sair do lugar, figurado e literalmente. De repente me vi com uma criança doente nos braços e outra sendo puxada pela mão, mais sacolas, dentro do metrô, ou um ônibus, não lembro agora, com um carro parado na garagem e uma permissão vencida sem nunca ter sido usada na carteira. Tremi por dentro e daqui saiu a minha coragem de enfim enfrentar este que foi o meu maior desafio até hoje. E consegui. E o resto de medo que ainda morava em mim dissipou-se quando meu pai ficou doente. Na necessidade não dá tempo de ficar pensando muito. E de repente me via fazendo coisas que achei que nunca seria capaz (dirigir tarde da noite e sozinha; fazer baliza com uma fila de carros buzinando e esperando pra passar, e outros).
Cresci numa oficina mecânica e sempre amei os carros. Dirigir pra mim sempre pareceu coisa natural, mas na hora do vamos ver vi que a coisa não era assim, mas consegui. Estou fazendo fisioterapia e por isso tenho saído todos os dias de carro, ando me sentindo. É como se o mundo se rendesse aos meus pés, posso conquistar tudo o que quiser, sou livre e independente para isso. É um prazer inexplicável.
Flávia, quando vi a senhorinha dirigindo logo pensei em você e continuo pensando. Se você quizer, eu te ajudo, a gente acha uma forma.

Um comentário:
Vou mandar esse texto por email a minha mam, pois ela tem medo de dirigir e deixou de praticar.
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