Hoje fui almoçar com uma amiga. Acontece que chovia MUITO. No caminho me bateu a dúvida se deveria deixar só as lanternas do carro acesas, ou se deveria ligar os faróis mesmo. Foi aí que me lembrei do fusca e do dia que meu pai foi me buscar no posto de saúde e caiu uma tempestade. Eu falava pra ele "liga o farol", ele respondia "não precisa". Eu teimava "não pro senhor enxergar a rua, é para os outros te enxergarem", ele teimava mais ainda "eu tô vendo". Mentira, não dava pra ver nada, e o fusca não devia nem ter limpador de pára-brisas direito. Meu pai, como todo homem, não aceitava palpites quando estava dirigindo. E no final ele estava dirigindo muito mal. Coisas da idade. Andava muito mais "corajoso", por isso mesmo, mais inconsequente. Isso me traz uma meia dúzia de histórias, daquelas que, de (quase) tão trágicas, viram cômicas. Como no dia que ele levou eu e o Adriano para a Pedra de São Domingos (o Adriano nunca tinha ido lá e acho que nunca mais foi depois disso...) e o fusca (sempre fusca) atolou e ele engatou a ré no lugar da primeira marcha e quase nos joga no precipício. Num impulso puxei o freio de mão, salvei nossas vidas. Ai ai, seu Anizio, teimoso que ele só. Que saudade...
Dia desses a Luiza falou um NÃO!! e fez um gesto com a mão exatamente como ele fazia.
Andei um tempo sem vir aqui. É que andei insatisfeita com a minha vida, insatisfeita com o rumo que certas coisas tomaram e, como a ideia do blog é construir uma herança para a Luiza, não achei justo vir aqui me lamentar, lamentar pelas escolhas que tive de fazer e que devolveram pro lugar comum do qual fiquei tão feliz de sair. Minha riqueza merece mais que isso, uma mãe chorosa, sem forças, sem coragem, num estado depressivo que teima em não passar. Mas a inspiração voltou! Talvez seja o começa da cura, vamos ver onde isso vai dar.
Meu pai adorava fusca. O engraçado é que ele só foi ter um no fim da vida. Ele não tinha nenhum, mas tinha vários. Como ele era mecânico, sempre tinha um fusca lá disponível pra dar aquela volta no fim de semana com a família. Fusca e Jeep. Vou me lembrando disso e as histórias vão voltando. Teve um dia que a gente foi em algum lugar que não vou me lembrar agora, num jeep sem a capota. Na volta choveu, muito, muito, chuva de pedra. AS pedrinhas caíam machucando todo mundo e ele, ao invés de procurar abrigo e esperar a chuva passar, continuou. Eu era pequena. A lembrança que eu tenho é que eu chorava desesperada. Minha mãe conta melhor essa história, com raiva claro, da teimosia dele. E com razão. Veja se isso é coisa que se faça, com quatro crianças no carro. Eita bicho teimoso. Tudo bem, eu o amava assim mesmo. Minha mãe também é muito teimosa, nisso a disputa entre os dois sempre foi muito acirrada. Mas acho que ela cedia mais, ou só ela cedia, sei lá.
E foram muitas chuvas, muitos fuscas, muitos jeeps. Eu aprendi a dirigir já perto de fazer 30 anos. Quando fiz 18 pedi dinheiro para tirar carteira de motorista e ele disse que eu era muito nova pra isso. E repetiu isso uma "par de veiz" (muitas vezes como se diz por lá). E um dia, com meu dinheiro, entrei na auto-escola. Quando fui contar, sabe o que ele disse? "Mas você ainda não sabe dirigir?" "C@$*#¨o, mas você por acaso me ensinou?" Só pensei, não falei. Aí eu virei um peixinho. Ele adoeceu e veio pra São Paulo se tratar. E eu virei sua motorista. E o levava para todos os lados, ele dizia que eu parecia "um peixinho" dirigindo por São Paulo. Explicando: imaginem um peixinho pequenininho que consegue nadar sem dificuldades por todos os lugares. Uau, que elogio, quanto reconhecimento. Acho que essa foi a melhor parte dessa história que tento escrever. Ele foi dando "corda" pro peixinho mesmo sem entender para que oceanos o peixinho queria nadar e por quê nadar nesses oceanos. E reclamou, reclamou, reclamou,porque além de teimoso, ele era reclamão. Mas Deus não permitiu que ele partisse desta vida no escuro. Ele entendeu! E reconheceu! E enfim o caminho se tornou completo.
E hoje termino citando Fernando Pessoa:
Valeu a Pena?Tudo vale a pena se a alma não é pequena.

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