E chegou o dia. Um frio, quase que desisto. A casa da minha mãe, do meu pai, a casa da minha infância é tão gelada. E eu, velha que estou rsrsrs, ando invocada com o frio. Bem, meu desejo era maior que o frio. E já no caminho certas coisas foram voltando. Hoje temos um carro que marca a temperatura externa, chegou a marcar 6° graus no caminho e fiquei imaginando meu pai perguntando: "Adriano, quantos graus marcou em tal lugar?" Seria divertido. Ele, que se interessava por tudo, ficaria maravilhado com essa novidade. Bem capaz dele querer sair de carro só pra ficar olhando o termômetro. Essa viagem foi mais do que o desejo de sentir sabores da infância, foi um encontro com ele. Um encontro com tudo o que ele foi, com tudo o que vivemos juntos.
Daqui há uma semana serão 4 anos sem ele. No inicio eu ficava me perguntando como seria, não podia imaginar minha vida sem ele. E estou aqui, ainda, e me habituei à sua ausência. Como foi que isso aconteceu? Como pude me acostumar? Isso é assim, de fato?
Bem, tem coisa que é assim.
Mas a aventura não para por aqui. Planejei um monte de coisas, pretendia visitar todo mundo, estava feliz como há muito não me sentia. Mas para falar bem a verdade, só queria festar!!! E lá fomos nós. De cara comi pastel. O sábado estava lindo, um sol maravilhoso como nos anos de minha infância. Aliás, o dia estava tão lindo e o sol tão gostoso que fomos acordar a Luiza de sua soneca da tarde para não perder aquela luz. E fomos andar nas barracas. Para quem possa ler isso, vou explicar: imagine uma rua cheia de camelôs vendendo toda sorte de quinquilharias, ou bugigangas, e no meio disso umas barracas de comida - sanduíches de pernil, maçãs do amor, doces vendidos a quilo. E pipoqueiros, vendedores de balões de gás. E a quermesse: uma grande barraca atrás da Igreja onde se vende pastel, canjica, chocolate quente, cartuchos de doces e mais um tanto de coisas.
Luiza ficou baratinada com tanta coisa pra ver e desejar. Ela se interessava por tudo e pedia tudo, ai que delícia! Por uns instantes era como se eu fosse criança de novo! Além de conhecer a festa, estávamos atrás de um 'rapaz', um boneco tipo Ken (o namorado da Barbie), mas genérico, baratinho, para casar com as bonecas da Luiza, um lance de dias antes. E nas barraquinhas da festa de Nossa Senhora do Carmo é o lugar perfeito para encontrar esse tipo de artigo. Fomos andando e Luiza enxergou de longe o objeto de seu desejo: o noivo e... a noiva!!!!! Eu também quis uma noivinha quando criança! Meu coração se emocionou! E se emocionou também quando ela pediu um tal balão de Branca de Neve e dissemos não e ela devolveu sem reclamar, tão educada e compreensiva! Mas o delicioso mesmo foi quando ela viu o balão de gás hélio da Dora Aventureira e pediu e, como ela abriu mão do outro, esse ela podia ganhar, e ela ficou feliz e saltitante com aquele balão que voava e brincava com o vento. Ela sorria para o vento!!!! E eu me vi no rosto alegre da minha filha. Vi nela uma alegria que já foi minha, uma felicidade extrema da criança mais feliz do mundo, doce e inocente, sorrindo porque ganhou o tão sonhado brinquedo. Existe no mundo coisa mais linda? E eu fui feliz assim, de novo, do mesmo jeito de antes. Foi um reencontro. Comigo mesma, com a tradição criada por meu pai, um reencontro com ele, com nós dois dos tempos de antes. Fazia tempo que não me sentia tão feliz!!!!!!
E voltamos pra casa trazendo maçã do amor e doces, como antigamente. E passado e presente se fundiram num tempo só. E voltei pra casa querendo mais. E já começo a contar o tempo para que a próxima festa chegue e tudo isso se repita, como quando eu era criança e meu pai passava o ano todo dizendo: "dia 16, o dia da Festa, duas horas da tarde, nós vamos nas barracas comer doces!" Pode esperar pai, ano que vem estarei lá, nós dois juntos, você no meu coração, mais a Luiza, mais o Adriano, como sempre...

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