Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
o que só agora vejo que deveria ter feito,
o que só agora claramente vejo que deveria ter sido
isto é que é morto para além de todos os Deuses...
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci
de sonhar?
Esses, sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-os no meu coração para sempre, para todo o tempo,
Para todos os universos...(Álvares de Campos, Poesias, “Na noite
terrível...”)
Os sonhos por haver... Hoje ao voltar de uma palestra passei ao lado da árvore do Natal do Parque do Ibirapuera e pensei que gostaria de levar novamente meu pai pra ver aquela beleza de árvore e para curtir a fonte das águas que dançam. Ano passado, quando viemos de Cambuí para a cirurgia, passamos ao lado da árvore antes de chegar em casa, para que ele e minha mãe contemplassem aquela imensa árvore de Natal, ainda que só de dentro do carro. Árvore que lá pros lados de Minas não é comum. Lembrei-me deste poema e voltou-me à consciência tudo o que não fiz com meu pai. Não o levei para ver a fonte, não o levei para conhecer o prédio do Banespa e ver a cidade de cima. Não o levei ao relógio do Conjunto Nacional, não fomos à Fortaleza, não andamos de avião juntos. Nem ao Rio conhecer o Cristo Redentor deu tempo. Algumas destas coisas estavam ao alcance das mãos, mas ele já sem tanta energia, não quis ir. Sua auto-estima ficava abalada por estar doente. Como ele sempre acreditou que estava acima do bem e do mal no quesito boa saúde, estar doente para ele era meio que motivo de vergonha. Esse era o grande defeito do Sr. Anivio: o orgulho. Penso que ele deixou de viver algumas emoções no fim de sua vida por sentir-se envergonhado com sua situação e eu, Psicóloga, filha zelosa e apaixonada, nada pude fazer para mudar sua percepção daquele momento. Se bem que não sei se pra ele fez falta como fez pra mim. Acho que não. Eu é que não vivi estas alegrias.
Na minha profissão todos os dias sou confrontada com minha grande impotência: a vontade do outro. E é assim na vida de maneira geral. Meu pai sentia dor, mas só contava quando a mesma já tinha passado, o que dificultava muito o tratamento. Ele falava que os médicos fariam exames e estes revelariam qualquer coisa. O que ele se recusava a entender é que os exames eram pedidos baseados em suas queixas e só ele era capaz de saber exatamente o que sentia, mais ninguém, nem tecnologia alguma. Aprendi com minha amiga médica que quanto maior for o detalhamento de um incômodo, mais condições damos ao médico de nos ajudar. Desconfio que meu pai já andava se sentindo mal e nada disse até que passou mal. Ele ficava repetindo o tempo todo que "agora acabou tudo mesmo", referindo-se à seus incômodos, parecia que estava querendo convencer a si mesmo. E esse jeito teimoso dele de ser nos privou de uma centena de coisas prazerosas que faríamos juntos. Às vezes penso que talvez pudesse ter feito mais, que pudesse arrancar dele mais informações que me fizessem correr, mas logo me consolo em pensar que seus últimos dias ele passou despedindo-se dos amigos e fazendo o que gostava e considero isso um milagre. Ele poderia ter ficado dias a fio num hospital que ele odiava. Poderia ter feito outra cirurgia que não o salvaria. Mas não. Ele viveu. Apenas sinto pena dele ter partido porque ele amava tanto a vida, amava tanto viver.
Nenhum destes lugares que citei lá em cima serão para mim os mesmos lugares. Antes eles eram aqueles que eu queria levá-lo. Agora são aqueles que não o levei. E o não ter feito é que sempre vai pesar. A vida passa num sopro, não dá tempo de refazer, de reviver. Ou é agora ou pode não ser mais. Aí só resta a lembrança do que não foi. Tinham umas frases que a gente escrevia no caderno das amigas quando adolescentes: "prefiro a dor da derrota do que vergonha de não ter lutado" e "prefiro me arrepender do que fiz do que daquilo que não fiz". Hoje é que é a hora. Amanhã? Quem sabe...
Na minha profissão todos os dias sou confrontada com minha grande impotência: a vontade do outro. E é assim na vida de maneira geral. Meu pai sentia dor, mas só contava quando a mesma já tinha passado, o que dificultava muito o tratamento. Ele falava que os médicos fariam exames e estes revelariam qualquer coisa. O que ele se recusava a entender é que os exames eram pedidos baseados em suas queixas e só ele era capaz de saber exatamente o que sentia, mais ninguém, nem tecnologia alguma. Aprendi com minha amiga médica que quanto maior for o detalhamento de um incômodo, mais condições damos ao médico de nos ajudar. Desconfio que meu pai já andava se sentindo mal e nada disse até que passou mal. Ele ficava repetindo o tempo todo que "agora acabou tudo mesmo", referindo-se à seus incômodos, parecia que estava querendo convencer a si mesmo. E esse jeito teimoso dele de ser nos privou de uma centena de coisas prazerosas que faríamos juntos. Às vezes penso que talvez pudesse ter feito mais, que pudesse arrancar dele mais informações que me fizessem correr, mas logo me consolo em pensar que seus últimos dias ele passou despedindo-se dos amigos e fazendo o que gostava e considero isso um milagre. Ele poderia ter ficado dias a fio num hospital que ele odiava. Poderia ter feito outra cirurgia que não o salvaria. Mas não. Ele viveu. Apenas sinto pena dele ter partido porque ele amava tanto a vida, amava tanto viver.
Nenhum destes lugares que citei lá em cima serão para mim os mesmos lugares. Antes eles eram aqueles que eu queria levá-lo. Agora são aqueles que não o levei. E o não ter feito é que sempre vai pesar. A vida passa num sopro, não dá tempo de refazer, de reviver. Ou é agora ou pode não ser mais. Aí só resta a lembrança do que não foi. Tinham umas frases que a gente escrevia no caderno das amigas quando adolescentes: "prefiro a dor da derrota do que vergonha de não ter lutado" e "prefiro me arrepender do que fiz do que daquilo que não fiz". Hoje é que é a hora. Amanhã? Quem sabe...

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