quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Pelas mãos.


Porque quando somos adolescentes acreditamos muito nos homens. Ouvindo uma música que adoro, Caminando por la Calle - Gipsy Kings, me lembrei de uma das vezes em que fiz papel de idiota na vida, apesar da boca bonita. Fazer o que, faz parte.

Você sabe que está envelhecendo quando começa a lembrar destas histórias e percebe que elas aconteceram há... anos, fazem anos. Mas o efeito desses anos se mostram mesmo, não nos cabelos brancos, não nas marcas no rosto, mas no dorso das mãos. Dá pra colocar botox, cortar aqui, esticar ali, mas nas mãos... A flacidez da pele, as manchas. Muitos cremes e algumas técnicas amenizam, retardam, mas não são capazes de apagar por completo toda a vida impressa naquele pedaço do nosso corpo tão essencial. Não são capazes de devolver o que só nascendo de novo tornaria possível ter. Pelas mãos apreendemos o mundo, pelas mãos entramos em contato com tudo à nossa volta, pelas mãos realizamos coisas, pelas mãos encontramos o outro. Com as mãos controlo o volume da música que ouço neste momento, com elas preparo o jantar da minha família. Acaricio o os cabelos de minha filha, acolho meu marido, deixo que meus amigos se aproximem, cumprimento estranhos.
No inicio da semana tomei um susto: minha mãos pareciam conter rugas. Mas no dia seguinte voltaram ao normal, embora não consiga me lembrar de como eram 10 anos atrás. Nos meus anos de estágio, sempre no fim do dia minhas mãos e meus pés doíam demais, minha terapeuta me dizia que era porque com estas extremidades que eu me relacionava com o mundo. Como pode, me dedico a muitas atividades hoje que exigem demais das minhas mãos, mas elas não doem como doíam quando eu trabalhava quase que exclusivamente com a cabeça (intelecto). Já não sinto a necessidade de estalar os dedos o tempo todo depois das 4 da tarde, nem sinto falta daquela massagem, na maioria das vezes nem lembro dela, só quando vou à manicure, porque massagem é coisa boa de se receber em qualquer situação, sempre, ao menos eu acho.

Fiquei cabreira estes dias todos, pensando nas minhas mãos e me lembrei das muitas mãos que já vi se expressarem na minha frente e claro, as mãos do meu pai falavam muito. E me dei conta de que ele tinha um jeito bem arrogante de apontar o dedo para dizer não ou repreender por qualquer coisa que minha Luiza faz igual. Enfim alguma coisa dele nela. E fico pasma por perceber que as heranças não estão apenas nas feições, mas em tudo. Enquanto ela cresce vamos percebendo uma coisinha aqui e outra ali da tia, da avó, do avô. E por aí vai, duas famílias inteiras que se juntam numa única pessoinha. Engraçado como coisas bem irritantes nas outras pessoas, nela ficam lindas. Como esse gesto do meu pai, nele era insuportável, nela é fofo e engraçado, ao menos por enquanto. E não é só o que faz a mão, mas a expressão e o tom de voz também, igualzinho.
Certa vez estava eu aos beijos com meu primeiro namorado na esquina de casa quando fui flagrada pelo meu pai. Eu tinha 14 anos. Ele ficou doido, ficava repetindo que não podia, que eu era muito nova pra namorar e foi neste quiprocó que eu recebi minha primeira declaração de amor: meu namorado olhou fundo nos olhos do meu pai e disse mas eu gosto dela. Eu não sabia o que se seguiria depois disso, aliás na minha cabeça adolescente eu só conseguia vislumbrar um futuro negro, com o pior castigo de todos, mas naquela hora tudo valeu a pena, tudo bem, ele gostava de mim. E não é isso que a gente quer desta vida? Pensando naquela cena depois, percebi que meu pai não tinha me visto e não me veria se eu continuasse abraçada, teria me escondido dele sem problemas, meu pai era meio lunático e andava na rua pensando nas suas coisas, duvido que ele ficasse reparando em casais apaixonados a ponto de tentar descobrir quem era, mas eu, filha obediente, ouvi o som dos seus passos e reconhecendo, me afastei do jovem mancebo que gostava de mim. "Fui flagrada, meu pai está chegando". Olhei para ele e só depois de alguns segundos ele viu que era eu ali. Fui traída pela minha lealdade. Eu saberia a quilômetros de distância que era ele se aproximando não por sua imagem, mas por reconhecer o seu jeito de andar e o som dos seus passos, jeito tão peculiar que hoje vejo impresso em certos gestos da minha pequena. Devo carregar um tanto deles em meu jeito também e talvez minhas mãos carreguem muito das suas mãos, assim como pude enxergar nas mãos pequenas da Luiza. Não a estética, mas a expressão.

Então, por que querer apagar a marca do tempo? Não quero. Mas confesso, ainda não me habituei a essa nova fase em que posso enfim enxergar o tempo que se passou e tudo o que vivi em cada pedaço do meu corpo. Sempre foi assim, mas em geral só percebemos quando vemos fotos antigas, ou nem tão antigas. Ver no espelho para mim também é novidade.

Meu pai era um contador de histórias, mas tinha horror à passagem do tempo. Cuidava de sua saúde com obsessão. Se diziam que alface era bom pra saúde, comamos alface. Não, couve é melhor, então troca. Coma os dois. E cenouras, muitas cenouras, que é bom pra pele. Ele não queria envelhecer, não queria morrer, embora essas duas coisas possam ou não estar ligadas, mas esse é o curso natural da vida.

É incrivel como vivemos sempre um paradoxo. Quando jovens somos o pique total pra tudo até pra quebrar a cara uns cem milhões de vezes. Aí nos tornamos mais maduros e já não cometemos os erros bobos de antes, mas o pique declina. Não deveria ser o contrário? Quando muito jovens deveríamos ser freados por qualquer coisa para não exagerar e mais tarde, já maduros, enfim o pique total para mergulharmos nas mais deliciosas aventuras de toda natureza, com responsabilidade.

Acho que, como meu pai, também não quero morrer.

Ontem, depois de mais de 2 anos eu descobri do que ele morreu: a super bactéria. Klebisiella Pneumoniae. Nunca vou me esquecer deste nome. Estou certa de que não foram os antibióticos, mas sua fé que o tirou do hospital para que ele pudesse bem viver mais alguns meses e pudesse enfim despedir-se dos seus e da vida. Pelas mãos de Deus, apenas isso. Perdi o medo de falar da morte, não acho mais que só por falar ou pensar nela ela vai me pegar feito bicho papão. Mas passei a ter medo dela, muito medo. E ponto final.

3 comentários:

Anônimo disse...

Depois diz que não tem criatividade para escrever... Está muito intrigante e profundo! Consigo me ver nisso, consigo ver muita gente nisso. - S.

LucianaArruda disse...

é sempre muito bom ler suas palavras... você é especial,minha amiga. que bom que eu sempre soube disso! e olha que frase de best seller: 'fui traída pela minha lealdade'. poderosaaaa!
te amo!
beijo
^^

Flávia Souza disse...

Querida, amei seu post e toda a profundidade que existe nele. E vc também escreve e se expressa muito bem, parabéns!

Bem, vim aqui dizer que concordo com tudo o que escreveu para mim, como também sei que as dificuldades sou eu mesma quem crio. Mas te adianto, com toda a sinceridade do meu coração, que estou lutando para me livrar das limitaçõs que eu mesma me impus. Por mim e pelos meus. E fico feliz em poder contar, nessa batalha, com pessoas especiais como vc, que por meio da sua experiência pessoal me passou uma gde msg de superação pelo amor.

Obg, viu?
De agora em diante, estarei sempre por aqui. Virei sua seguidora e fã.

Bj gde,

Flávia
www.baudetesourosbyflavia.blogspot.com