quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Nos tempos da escola.

Confesso: não ando me dando bem com a passagem do tempo. Não consigo superar essa crise, meus 34 anos andam pesando demais sobre meus ombros e minhas costas andam gritando com esse peso. Não sei o que fazer. Nunca liguei muito pra esse lance de idade. Quando tinha 12 anos me davam 15, 16. O máximo não? E quando tinha 15 me lembrava das coisas que fazia e falava aos 12 e passava mal. Pensava: como eu era criança. E foi sendo assim até ontem. Não consigo entender o que foi que mudou. Sempre tive alma anciã. Colecionava coisas e registrava histórias em minha memória pensando que um dia estaria sentada em minha cadeira de balanço dividindo toda uma vida com meus netos, mostrando cartas, fotos, quinquilharias, todos guardados com muito amor apenas aguardando para servir a um único propósito: mostrar o quanto vivi intensamente e fui feliz. A coisa ficou meio complicada quando fui obrigada a aprender a usar o computador, me encantei com a agilidade da rede e parei de escrever cartas, acho que minha "herança" ficou comprometida depois disso. Siiiiimmm, herança. No primeiro ano de faculdade tive uma disciplina de nome 'Psicologia da Morte'. O objetivo era estudar as várias teorias sobre o luto, a morte e o morrer, mas para mim foi muito mais que isso. Nunca tinha pensado nela, dado espaço para entender o que era isso e minhas únicas experiências com a "dita cuja" haviam sido o velório do pai de uma vizinha, cujo choro e discurso emocionado soaram muito confusos para mim (eu era bem pequena e acompanhava minha mãe), e a morte de um tio, a primeira vez que vi meu pai chorar. No fim do ano a professora nos pediu como trabalho pra nota que fizéssemos uma caixinha de vida. Uma caixa com o que quiséssemos dentro que pudesse simbolizar tudo que estudamos durante as aulas. Nossa, me realizei. Coloquei lá tudo que havia colecionado até então, cadernos de poemas, aqueles cadernos de recordação que a gente dava pros amigos escreverem, terços, relíquias, fotos, tudo o que tinha importância na minha vida. A professora interrompeu minha apresentação no meio porque estava longa demais e eu não era a única a apresentar. Fiquei mortificada, mas tive de aceitar, era o ultimo dia de aula. Eu estava tão envolvida e apaixonada pela minha caixa de vida... Horas mais tarde, no churrasco de fim de ano da turma ela veio e se desculpar por me interromper e me disse que de todas as caixas apresentadas naquela noite a minha era a que tinha mais vida. Dez para mim! De lá pra cá passei a dialogar diariamente com ela, a morte, e fui tratando de viver bem e bem viver todos os dias de minha vida. E passei a ter pavor da não despedida. Pelo sim pelo não, passei a me despedir das pessoas que amo como se nunca mais fosse vê-las e tratei de não ter mais arrependimentos, não, eles não fazem parte dos meus sentimentos. Mas tudo mudou quando me tornei mãe. Tive que conviver com a emoção de ter uma nova vida crescendo em meu ventre enquanto digeria aquele triste fato de que a morte não é só uma amiga conselheira que andava me ensinando a viver intensamente cada momento. Ela é a dona do destino que até pode ser generosa e enviar avisos de que anda rondando como forma de nos dar uma última chance de fazer as coisas direito, como devem ser feitas, mas sua missão é uma só: nos levar daqui. E ela levou meu pai. A gente tenta racionalizar, ele estava doente, mas não, não abranda a intensidade da dor de não mais poder tocar quem se ama. Acho que neste momento me rebelei. Posso abraçar meu marido todas as manhãs como se fosse a ultima vez, mas não posso me despedir dessa maneira da minha filhinha quando a deixo na escola. Não posso entregá-la à dona do destino, nem posso permitir que ela me leve causando tamanha dor a pessoinha que mais amo nessa vida, que saiu de dentro de mim, não, não! Aí eu cansei de brincar de viver intensamente, não quero mais um dia de cada vez, quero todos os dias, quero ser jovem de novo, quero ter vinte anos no máximo. Abandonei o adeus. Agora é até breve.

Talvez seja isso. Como fui velha até hoje, agora que o tempo do declínio anda chegando, desejo minha juventude de volta. De repente olho em volta e vejo uma mocinha linda, simpática, fofa, fazendo gracinhas e me chamando de mamãe e tenho que coçar o olho para ver que é sim verdade, ela existe e é minha. Ah, eu quero uma vida inteira de novo, quero que seja verdade, que estou tendo uma segunda chance, por que o espelho teima em me contrariar?

E assim vou seguindo, pensando nos tempos da escola, tentando rememorar cada detalhe de uma vida enquanto me divirto sendo de novo criança. Novamente um paradoxo. Preciso dele para viver. E nada da minha memória me dar uma colher de chá e sempre sendo atropelada pelo tempo. Quando criança o Natal demora pra chegar. Mas já é quase Natal de novo? Nem vi o ano passar. Isso me dá mais medo do que a própria morte.

4 comentários:

Kecia disse...

Ai amiga, nem fala, o tempo passa MUITO rápido. Tbm não vi o ano passar!!!

Sobre o Lucas, vou pedir o leite pro governo sim, mas a gastro pediu 2 meses de testes, melhora total dos sintomas, aí sim, me dará o laudo para pedir.
Ninguém merece, né???

LucianaArruda disse...

mas que foi um bom foi! está sendo! tana coisa linda vc ja fez... a gente se encontrou, um ano da Luiza, me viu dançar, aaaahhh o tempo tem sido gentil com vc siiim!
te amo muito!!
^^

Dani Dias Delgado (Mamy Coragem) disse...

Oi gata.
Obrigada pelo teu carinho comigo no meu blog. Amo!
Menina nem me fale em idade, odeio meus 33 anos. rsrsrsrsrs.
Queria ter 15 com a cabeça de 33, com certeza seria mais feliz.
bjks.

Flávia Souza disse...

Querida, deixei um desafio para vc lá no blog "adulto", nesse link vc encontra viu? http://conexaoflavia.blogspot.com/2010/11/fui-desafiada.html

Bjks,

Flávia
http://conexaoflavia.blogspot.com
www.baudetesourosbyflavia.blogspot.com