Meu pai consertava carros, mas ele gostava mesmo era de avião. Hoje teve um evento aqui em São Paulo, Renault Road Show, com a demonstração de um carro de formula 1 pilotado pelo Nelsinho Piquet. Eu adoro formula 1, desde pequena. Quando acordei hoje meu cansaço era maior do que a minha vontade de assistir ao show. Lá pelo meio dia vi pela TV e fiquei com uma pontinha de arrependimento de não ter ido, lembrei-me do meu pai. Todo dia lembro, mas domingos são sempre mais vazios, com mais espaço pra saudade. Lembrei-me de sua paixão por aviões e do dia em que a esquadrilha da fumaça foi se apresentar em Cambuí. Que coisa linda! Nunca meus olhos presenciaram tanta beleza. Ele, claro, foi assistir lá do alto do morro, no meio do mato. Sozinho, porque ele tinha um quê de cientista, físico talvez, que mantinha uma relação calorosa consigo mesmo, muitas vezes ele mesmo se bastava. Eu acho isso formidável, pois todos nós temos essa mania de só sermos felizes se temos outros em nossa vida, nunca nos bastamos. A manobra da esquadrilha que mais me impressionou foi aquela em que o avião cai em queda livre, ai que medo!, ai que emoção! Depois da apresentação foi um dia inteiro só falando nisso, relembrando cada pedacinho daquela performance fantástica.
Quando eu ainda nem era nascida meu pai foi pra Bahia, Salvador. Meus irmãos eram pequenos. Ele pegou o ônibus em Cambuí, foi até São Paulo, aeroporto de Congonhas, comprou uma passagem pra Salvador e se mandou. Audácia pura! Engraçado ele escolher Salvador, que é uma cidade histórica, ele adorava modernidade e detestava velharia. Desconfio que ele queria mesmo era andar de avião, Salvador deve ter sido um destino aleatório, não pensei em perguntar, agora já foi, fiquei sem saber. Ele passou a vida falando desta viagem, da emoção de ver a terra de cima, do alto, quanto emoção e orgulho continham nas sua palavras, acho que já nasci encantada por aviões. Partida: 21/11/73. Chegada 25/11/73. Eu nasci em 76. Minha mãe é que não gostou muito desta história. Ele, marido safado, só contou quando ligou de Salvador dizendo que estava lá.
Quando me formei meu namorado, hoje marido, foi trabalhar num país distante. Depois de 2 meses fora ele me enviou uma passagem para me encontrar com ele. Quando fui contar pro meu pai, morrendo de medo dele me proibir de viajar, ele fez menção de dizer não, mas eu, muito esperta na arte de convencer meu pai, não dei tempo dele falar e já contei pro meu irmão, que disse assim: "ele te mandou uma passagem? pergunta se não tem uma pra mim também. " Pronto, pai desarmado, já gostou da ideia, apesar do medo que eu sei que ele sentiu de me perder. Um mês de preparativos, era segredo até quase a véspera da viagem. Tira passaporte, compra mala. Minha mãe é que não gostou muito de novo, "e se o avião cair, e se você se perder num país estranho, o que os vizinhos vão falar da minha filha viajar pra encontrar o namorado?" Meu pai resolveu de outra forma: promoveu meu namorado a noivo, assim dá mais cara de compromisso e não parece que ele deixou a filha se perder lá pelas Europas. Dia da viagem. Era tempo de vaca louca então quis comer um bifinho antes de partir, o que quase me custou a viagem. Dez minutos depois de sair de Cambuí o carro parou na estrada, que estava em reforma. Eu já havia me certificado que as interrupções no tráfego duravam cerca de 20 minutos, mas... não era a obra, era um acidente. Eu prestes a realizar meu maior sonho de consumo por pouco não fico presa em Camanducaia, cidade vizinha, era muito humilhante, nem sei dizer pra quantos santos fiz promessa naquele dia. Naquele tempo eu ainda fazia promessa, que não cumpria. Hoje penso um pouco diferente. Meu pai ficou irado, ficou repetindo que por ele teria saído logo cedo. Tínhamos tempo, mas acidente pode ser resolvido em meia hora ou em dia inteiro. Teve uma vez que eu dormi na estrada porque tombou um caminhão de gás com risco de explosão. Uma hora e pouco depois, transito liberado, um carro por vez e o sonho de novo real. Chegamos ao aeroporto com folga ainda, deu pra fazer o check in com 3 horas de antecedência, como recomendado, comprar dólares, matar o tempo, olhar os aviões. Foi ele e o Tião me levar. O Tião era o melhor amigo dele, nosso vizinho de frente. Meu pai estava com a carteira de motorista vencida, sei lá, desde quando esteve na Bahia? O Tião foi dirigindo. Fico imaginando quanto ele deveria estar orgulho e ao mesmo tempo com o coração partido da menininha dele voar pra tão longe. E vamos nóis. Era tudo tão lindo, tão mágico, ai ai. Um avião tão grande! E o povo falando todo tipo de língua que eu não entendia, quase não consigo jantar. Doze horas voando e uma imagem que nunca vou esquecer: a terra vista de cima tal qual meu pai havia me contado, linda!
Agua e terra, um mapa que hoje a gente vê pelo google earth, mas que em 2001 ainda não estava nesse requinte de detalhes, só ao vivo mesmo. Pousei. As turbinas do bichão eram tão grandes que eu tinha que coçar meus olhos pra ter certeza de que eram daquele jeito mesmo. E aquele povo falando inglês, ai que aflição. E o meu guia de viagem nunca me ajudava quando de fato eu precisava. Muda de terminal, espera, espera, que vontade de ligar pra casa! E como usa o telefone nesta terra? Outro vôo, enfim no destino, o Dri lindo me esperando e a notícia pra casa de que tudo correu bem. Dois meses e a volta, ainda mais difícil que a ida. O mundo atravessava grave crise desencadeada pelo ataque terrorista às torres gêmeas. Oito horas esperando em conexão, de volta pra casa. Saindo do portão de desembarque ele estava lá, sem cor, transparente de preocupação. Entre o avião pousar e você sair leva um tempo, tem que pegar mala, enfim. Quando me viu, ele ressuscitou! Criou vida de novo, seu rosto se iluminou, ganhou de volta aquela cor linda que ele tinha, nunca vou me esquecer. Eram muitos vôos chegando ao mesmo tempo e muita gente saindo por aquele portão. Ele me contou que foi ficando desesperado porque eu nunca que aparecia, e se aconteceu alguma coisa? Graças a Deus eu cheguei e corri a abraçá-lo. Depois fomos tomar um café expresso. O pneu furou, ninguém achava o macaco pra trocar, o carro estacionado ao lado emprestou o dele, e bora pra casa, com direito a bife à milanesa feito pela mamãe. Que aventura! enquanto estava fora eu escrevia e-mails pro meu irmão contando tudo o que estava vivendo. E-mails que ele imprimia e lia pra todo mundo, pelos meus olhos meu pai foi à Europa também. Até ele morrer, ficava repetindo as historias como se ele mesmo as tivesse vivido, lembrava de detalhes que eu logo esqueci e seus olhos brilhavam quando narrava nossas aventuras, minhas e do Dri, naquelas terras distantes. Quanta riqueza, quanta luz ele possua dentro dele, nunca conheci ninguém assim, tão formidável, tão apaixonado, tão deslumbrante. Que honra meu Deus ter sido escolhida pra ser filha de um homem assim!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Por isso que o senhor faz tanta falta!!!!!!!!
Vim morar bem próximo do aeroporto de Congonhas e da minha janela dá pra ver os aviões decolando e pousando. São tantos... enquanto ele esteve aqui, passou algumas horas encantado pela sua paixão e pra mim foi uma honra ter proporcionado isso a ele, uma coincidência divina, não planejei exatamente morar aqui, aconteceu. Minha única frustração é que combinamos uma centena de vezes de viajar de avião e nunca sobrou dinheiro. Aí ele ficou doente. Eu estava planejando levá-lo com minha mãe pro Rio de Janeiro, pra conhecer o Cristo Redentor, pensei em irmos em agosto, mas Deus o chamou de volta antes, não era pra ser... que pena! Mas sei que muito a maneira dele, peculiar como só ele sabia ser, ele viajou o mundo e andou de avião uns cem milhões de vezes em sua imaginação...
Quando eu ainda nem era nascida meu pai foi pra Bahia, Salvador. Meus irmãos eram pequenos. Ele pegou o ônibus em Cambuí, foi até São Paulo, aeroporto de Congonhas, comprou uma passagem pra Salvador e se mandou. Audácia pura! Engraçado ele escolher Salvador, que é uma cidade histórica, ele adorava modernidade e detestava velharia. Desconfio que ele queria mesmo era andar de avião, Salvador deve ter sido um destino aleatório, não pensei em perguntar, agora já foi, fiquei sem saber. Ele passou a vida falando desta viagem, da emoção de ver a terra de cima, do alto, quanto emoção e orgulho continham nas sua palavras, acho que já nasci encantada por aviões. Partida: 21/11/73. Chegada 25/11/73. Eu nasci em 76. Minha mãe é que não gostou muito desta história. Ele, marido safado, só contou quando ligou de Salvador dizendo que estava lá.
Quando me formei meu namorado, hoje marido, foi trabalhar num país distante. Depois de 2 meses fora ele me enviou uma passagem para me encontrar com ele. Quando fui contar pro meu pai, morrendo de medo dele me proibir de viajar, ele fez menção de dizer não, mas eu, muito esperta na arte de convencer meu pai, não dei tempo dele falar e já contei pro meu irmão, que disse assim: "ele te mandou uma passagem? pergunta se não tem uma pra mim também. " Pronto, pai desarmado, já gostou da ideia, apesar do medo que eu sei que ele sentiu de me perder. Um mês de preparativos, era segredo até quase a véspera da viagem. Tira passaporte, compra mala. Minha mãe é que não gostou muito de novo, "e se o avião cair, e se você se perder num país estranho, o que os vizinhos vão falar da minha filha viajar pra encontrar o namorado?" Meu pai resolveu de outra forma: promoveu meu namorado a noivo, assim dá mais cara de compromisso e não parece que ele deixou a filha se perder lá pelas Europas. Dia da viagem. Era tempo de vaca louca então quis comer um bifinho antes de partir, o que quase me custou a viagem. Dez minutos depois de sair de Cambuí o carro parou na estrada, que estava em reforma. Eu já havia me certificado que as interrupções no tráfego duravam cerca de 20 minutos, mas... não era a obra, era um acidente. Eu prestes a realizar meu maior sonho de consumo por pouco não fico presa em Camanducaia, cidade vizinha, era muito humilhante, nem sei dizer pra quantos santos fiz promessa naquele dia. Naquele tempo eu ainda fazia promessa, que não cumpria. Hoje penso um pouco diferente. Meu pai ficou irado, ficou repetindo que por ele teria saído logo cedo. Tínhamos tempo, mas acidente pode ser resolvido em meia hora ou em dia inteiro. Teve uma vez que eu dormi na estrada porque tombou um caminhão de gás com risco de explosão. Uma hora e pouco depois, transito liberado, um carro por vez e o sonho de novo real. Chegamos ao aeroporto com folga ainda, deu pra fazer o check in com 3 horas de antecedência, como recomendado, comprar dólares, matar o tempo, olhar os aviões. Foi ele e o Tião me levar. O Tião era o melhor amigo dele, nosso vizinho de frente. Meu pai estava com a carteira de motorista vencida, sei lá, desde quando esteve na Bahia? O Tião foi dirigindo. Fico imaginando quanto ele deveria estar orgulho e ao mesmo tempo com o coração partido da menininha dele voar pra tão longe. E vamos nóis. Era tudo tão lindo, tão mágico, ai ai. Um avião tão grande! E o povo falando todo tipo de língua que eu não entendia, quase não consigo jantar. Doze horas voando e uma imagem que nunca vou esquecer: a terra vista de cima tal qual meu pai havia me contado, linda!
Agua e terra, um mapa que hoje a gente vê pelo google earth, mas que em 2001 ainda não estava nesse requinte de detalhes, só ao vivo mesmo. Pousei. As turbinas do bichão eram tão grandes que eu tinha que coçar meus olhos pra ter certeza de que eram daquele jeito mesmo. E aquele povo falando inglês, ai que aflição. E o meu guia de viagem nunca me ajudava quando de fato eu precisava. Muda de terminal, espera, espera, que vontade de ligar pra casa! E como usa o telefone nesta terra? Outro vôo, enfim no destino, o Dri lindo me esperando e a notícia pra casa de que tudo correu bem. Dois meses e a volta, ainda mais difícil que a ida. O mundo atravessava grave crise desencadeada pelo ataque terrorista às torres gêmeas. Oito horas esperando em conexão, de volta pra casa. Saindo do portão de desembarque ele estava lá, sem cor, transparente de preocupação. Entre o avião pousar e você sair leva um tempo, tem que pegar mala, enfim. Quando me viu, ele ressuscitou! Criou vida de novo, seu rosto se iluminou, ganhou de volta aquela cor linda que ele tinha, nunca vou me esquecer. Eram muitos vôos chegando ao mesmo tempo e muita gente saindo por aquele portão. Ele me contou que foi ficando desesperado porque eu nunca que aparecia, e se aconteceu alguma coisa? Graças a Deus eu cheguei e corri a abraçá-lo. Depois fomos tomar um café expresso. O pneu furou, ninguém achava o macaco pra trocar, o carro estacionado ao lado emprestou o dele, e bora pra casa, com direito a bife à milanesa feito pela mamãe. Que aventura! enquanto estava fora eu escrevia e-mails pro meu irmão contando tudo o que estava vivendo. E-mails que ele imprimia e lia pra todo mundo, pelos meus olhos meu pai foi à Europa também. Até ele morrer, ficava repetindo as historias como se ele mesmo as tivesse vivido, lembrava de detalhes que eu logo esqueci e seus olhos brilhavam quando narrava nossas aventuras, minhas e do Dri, naquelas terras distantes. Quanta riqueza, quanta luz ele possua dentro dele, nunca conheci ninguém assim, tão formidável, tão apaixonado, tão deslumbrante. Que honra meu Deus ter sido escolhida pra ser filha de um homem assim!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Por isso que o senhor faz tanta falta!!!!!!!!
Vim morar bem próximo do aeroporto de Congonhas e da minha janela dá pra ver os aviões decolando e pousando. São tantos... enquanto ele esteve aqui, passou algumas horas encantado pela sua paixão e pra mim foi uma honra ter proporcionado isso a ele, uma coincidência divina, não planejei exatamente morar aqui, aconteceu. Minha única frustração é que combinamos uma centena de vezes de viajar de avião e nunca sobrou dinheiro. Aí ele ficou doente. Eu estava planejando levá-lo com minha mãe pro Rio de Janeiro, pra conhecer o Cristo Redentor, pensei em irmos em agosto, mas Deus o chamou de volta antes, não era pra ser... que pena! Mas sei que muito a maneira dele, peculiar como só ele sabia ser, ele viajou o mundo e andou de avião uns cem milhões de vezes em sua imaginação...

1 comentários:
que lindo, Ni...eu acho que a primeira vezno vôo é sempre uma emoção...eu tbm fui pra Bahia no meu primeiro vôo...Felipe galedo, com medo, e eu igual criança, levantando os braços e achando lindo a aeromoça...coisa boa de lembrar...teu pai, com certeza, voou mais alto que nós..e está feliz! beijo
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