quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Instantes

Sonhei com meu pai esta noite. Não consigo lembrar direito, mas ele estava partindo. Era uma cena bem diferente da que vivi de fato, mas no sonho estava me despedindo. Acho que tenho me despedido todos os dias, nos textos escritos, nas histórias contadas, nas lembranças. Pela manhã falei com minha mãe e ela disse que eles descobriram que meu pai tinha um valor de pis para receber ainda da década de 50, pode? Não sei se isso é bem verdade, a parte da década, mas que o dinheiro existem aí isso sim, só não está muito fácil receber. Meu pai era trabalhador autônomo, não contribuía com previdência alguma até porque acreditava que nunca se aposentaria, o que de fato aconteceu, trabalhou quase que até o dia de sua morte. Parou por uns tempos para se tratar, mas retomou tão logo teve disposição para isso. Engraçado é que eu imagino um futuro igual pra mim: nunca me aposentar. Ele viveu como se nunca fosse morrer, como se fosse eterno, mas se esqueceu de observar como a vida evolui de fato. Não se preveniu, não tomou precauções e agora aparecem estas surpresas. Da maneira maluca dele de ser ele deixou várias heranças, inclusive as que amparam a minha mãe, o mais impressionante é que ele não planejou nada disso. Doces surpresas, até nisso ele foi formidável sem saber.
Estava relendo um dos posts e fiquei me lembrando o quanto ele era expressivo. De olhar você já sabia se ele estava feliz ou triste, preocupado, nervoso. A expressão de seu rosto era de uma autenticidade única, ele não disfarçava. Até fazia a gente passar vergonha às vezes. Algumas imagens ficam voltando à minha consciência, como o último olhar que ele me lançou antes de morrer. Ele estava deitado numa maca no corredor do pronto socorro e eu ao lado tentando ouvir o que diziam os médicos. Contei a ele algumas coisas que ouvi e seu rosto se iluminou de esperança. Não sei porque hoje fiquei com a impressão de que aquele olhar perdido, distante já era um olhar de despedida, não de mim, mas despedida da vida. De repente me pareceu que ele sabia que seu fim estava próximo, era uma questão de horas. Então quando eu contei o que eles fariam com ele e parece que o fio de vida se fortaleceu e ele sorriu, levou as mãos uma de encontro à outra, como quem faz uma prece ou agradece por uma graça. Meus últimos momentos com ele. Aí a médica veio me dizer o que fariam de fato e eu me distraí, por um segundo tirei os olhos dele e quando retornei meu olhar eles o estavam levando para dentro da sala de emergência. Tive um impulso de sair correndo para abraçá-lo, mas me contive, a médica falava comigo nesta hora. Só tive tempo de dizer a ele que o estavam levando, mas que eu estaria ali esperando por ele. E ele me olhava, com a cabeça levantada, como quem não quer se despedir. Sabe aquela cena da gente ou de alguém no ônibus torcendo o pescoço até perder de vista a quem se ama? Foi mais ou menos assim. Toda vez que essa imagem me volta, tento afastá-la. Foi a última vez que o vi e que ele me olhou e nem a dor de tê-lo perdido dói tanto quanto a lembrança daquele olhar. Fico me perguntando porque não saí correndo pra abraçá-lo, o que será que ele pensou naquela hora, com eu ia saber que seria a última vez? Depois disso só o vi entubado e ele já não reagiu mais à minha presença. Fico pensando que se ele pudesse prever seu fim, teria estado mais atento à sua saúde e fico brava por observar à minha volta o quanto as pessoas vivem de maneira distraída, como se fossem imortais e inatingíveis. Meu maior aprendizado nisso tudo é que só se vive uma vez, o que dizem à respeito, até que se prove, são apenas especulações, então não dá pra viver uma vida de rascunhos, não sei se tem outra para passar a limpo. Ainda perco muito tempo com bobagens, mas estou aprendendo a dar valor ao que realmente importa nesta vida. Não tenho certeza de que vou conseguir, mas tenho me esforçado para viver o mais intensamente possível, para que não sobre rascunhos nem arrependimentos. Vou deixar aqui um poema, Instantes, que diziam ser do Jorge Luís Borges, mas que depois descobriram que não é. Seja de quem for, quem escreveu isso se deu conta de que certeza mesmo só temos desta vida aqui.


"Se eu pudesse novamente viver a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.

Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério. Seria menos higiênico. Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios. Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto de sua vida; claro que tive momentos de alegria. Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente de ter bons momentos.
Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos; não percam o agora. Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas. Se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono. Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente. Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo"

Um comentário:

LucianaArruda disse...

Ni, esse texto me fez parar. pensar. me emocionar. me senti ali, no pronto-socorro. o olhar. não tente afastar a imagem não, deixe que ela venha, até não causar mais dor ou tristeza. guarde isso como a despedida sim, mas que valiosa despedida. quantos se vão sem sequer dar um último olhar? te amo.