quarta-feira, 10 de novembro de 2010

752

A inspiração às vezes vem de coisas improváveis. Hoje acordei cedo, vamos receber visitas e a casa precisa estar em ordem. Enquanto fazia café ouvi barulho de sapatos/passos. Pensei que minha vizinha de frente usa sapatos barulhentos, mas não deveria ser ela, talvez o vizinho de cima. Logo me lembrei, meu pai usava sapatos 752 da Vulcabrás, tinha até o comercial na TV. Ele dizia que aquilo sim é que era sapato e costumava ter dois pares, um mais velho pra trabalhar, e outro mais em ordem para ir à missa. E para acompanhar usava chapéu Panamá. Elegante não? Trabalhava assim o dia todo e depois saía para passear. Detalhe: meu pai era mecânico de carros, vivia sujo de graxa. Era uma marca o chapéu, ele era careca e o usava para se proteger do sol, mas vinha dos sapatos o som cadenciado dos seus passos, tão característico, peculiar e único que a quilômetros de distância quem o conhecia já sabia: lá vem o Anizio, como ele era conhecido. Cada pessoa tem uma maneira de ser, de se portar, algumas são mais expressivas, outras mais apagadas, mas cada pessoa guarda características que o definem e pelas quais você a reconhece. E ele era dono de um jeito muito marcante. Eu gostava de ouvir seus passos quando criança e ele me levava no colo. Ele andava devagar, mas com passos largos e firmes, o que tornava quase impossível acompanhá-lo. Minha mãe, com seu 1,43 de altura e pernas muito curtas logo desistiu. Depois de um tempo era coisa rara vê-los juntos na rua. Iam para a mesma missa, mas cada um no seu tempo e com os seus passos. Não, meu pai não era alto, deveria medir 1,66/67, não mais que isso. Era o mais baixinho dos seus irmãos e parentes e acredito que por isso mesmo tinha verdadeira fascinação por gente alta e até se achava alto e ao lado de minha mãe era mesmo muito alto, mas alta mesmo era a sua alma. E grande. E grandiosa. Dono de uma autenticidade rara, não se intimidava com nada e falava o que lhe vinha à mente sem se preocupar se quem ouvia iria gostar ou não. Ele era destas pessoas sem "papas" na língua e chegava mesmo a ser inconveniente em determinados momentos, o que poderia ter lhe rendido alguns inimigos, mas não. Era também dono de uma ingenuidade e suas palavras eram dotadas de tanta verdade que o que ele arrebatava era respeito. Todos o respeitavam. E o amavam. Ele era uma pessoa apaixonante mesmo. De olhar sincero e apaixonado, expressões fortes e contador de histórias emocionado, quem o odiou é porque não sente amor nem dor, é porque não sente. Ele era puro sentimento e isso ficava marcado em cada um dos seus gestos, era exalado pela sua pele e podia ser percebido na cadência dos seus passos calçados de sapato 752. Com o tempo o sapato foi substituído por botas feita sob medida e por sapatões, desses de trabalhar em roça, e o chapéu por boné. Eram outros tempos e o boné lhe concedia um ar mais jovial, como já disse, meu pai tinha medo de morrer e esforçava-se por manter-se muito jovem. Mas seus passos fortes e confiantes mantinham-se os mesmos, até o barulho dos sapatos, não sei como. Acho que o som gostoso dos passos dados no seu 752 passaram a fazer parte dos seus pés e não mais dos sapatos. Apenas no fim de sua vida seus passos fortes tornaram-se inseguros causando-me espanto e dor. Ele já se despedia da vida mesmo sem saber e o esforço para lutar pela vida roubaram-lhe parte da vivacidade, seus passos também se ressentiram. Oscilavam entre forte e fraco, refletindo sua condição interna conflituosa dividida entre lutar e se deixar ir. Não sei, são minhas estas impressões, talvez tenha sido mesmo assim, eu acho. E ele,que não era de se abater por pouco nem era de desistir fácil das coisas (era teimoso que ele só), fez um acordo com Deus por intermédio do Frei Galvão (já contei isso aqui). E por quatro meses e meio ele recuperou a força dos seus passos e passeou por aí como se nada nunca tivesse mudado. Mas o acordo chegou ao fim e enfim chegou o dia e ele deixou-se partir para sempre, magoando meu coração e me deixando desesperada de saudades. Sua herança? Fecho os olhos e ouço seus passos aproximando-se e me flagrando na esquina, sou flagrada sempre pela minha lembrança. Meu amor não me deixa nunca esquecer.

Domingo estivemos na casa do meu pai, da minha mãe. No fim do dia, quando me preparava para vir embora, num impulso virei-me na direção de um dos quartos para me despedir dele. Um segundo de ilusão. Talvez ele estivesse por lá.

Um comentário:

psicojudicial disse...

Os sentimentos são ambivalentes...A lembrança de como se tudo fosse ontem e a saudde como se tudo fosse uma eternidade...sinto o que vc sente!!!!Sinto a presença, o cheiro, a vontade de conversar ou simplesmente ouvir as mesmas histórias de sempre...de uma vida de dor e alegia...de frustrações e conquistas....porém, de um único amor....talvez o mais verdadeiro de todos...o amor que doa, observa, se alegre, corrige e faz crescer....e para o meu pai...eu canto, hoje, depos de 05 meses:

Hoje eu preciso te encontrar de qualquer jeito
Nem que seja só pra te levar pra casa
Depois de um dia normal...
...Hoje eu preciso te abraçar...
Sentir teu cheiro de roupa limpa...
Pra esquecer os meus anseios e dormir em paz!

Hoje eu preciso ouvir qualquer palavra tua!
Qualquer frase exagerada que me faça sentir alegria...
Em estar vivo.

Hoje eu preciso tomar um café, ouvindo você suspirar...
Me dizendo que eu sou o causador da tua insônia...
Que eu faço tudo errado sempre, sempre.

Amiga, amo vc!!!!
Beijo grande...e vamos vivendo dentro de tudo aquilo que aprendemos com os nossos pais....

....Hoje preciso de você
Com qualquer humor, com qualquer sorriso
Hoje só tua presença
Vai me deixar feliz
Só hoje!!!!