quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Tarde de sol

Hoje estou especialmente triste. Lá fora está uma bela tarde de sol, com céu limpo, mas não tão azul, destes que parece que tem tanta luz que torna o azul meio desbotado. Um dia igual ao que o meu pai morreu. Dias de sol em São Paulo são meio raros, principalmente como este, que não está muito quente. Normalmente aqui é cinza ou porque está nublado, ou porque está poluído. E quando tem sol são aqueles dias quentes de "rachar" que faz você pensar "que bom que é excessão, que esta cidade é quase sempre cinza".
Hoje acordei muito cedo, para ir ao banheiro como toda boa grávida e, ao retornar para meu merecido sono lembrei-me que hoje eu tinha uma palestra pra ir. Não deu outra, precisei pular da cama pra deixar algumas coisas encaminhadas. Como tinha esquecido da palestras, não preparei nada pra minha saída tão cedo. Ao termino da palestra, quando já me direcionava para a saída, cruzei com uma pessoa dos tempos da faculdade. Nossa, que surpresa! Cinco minutos de conversa e um percurso inteiro de lembranças até o trabalho. Reunião, um papinho antes de vir embora e o percurso de volta pra casa debaixo deste céu ensolarado. Tive que me controlar pra não chorar, pois as lágrimas ofuscam a visão e dirigir chorando pode ser um tanto perigoso. Está um dia muito bonito, e quente. Meu pai detestava frio, ele sofreu um bocado aqui em São Paulo porque aqui só faz frio, especialmente na minha casa que fica bem próxima da serra do mar, como venta! Mas Deus o abençoou com um dia lindo e quente em sua despedida da vida. E também foi um dia lindo e quente o dia de nossa ultima despedida, era um sol tão lindo que minimizava a dor. O cemitério onde ele mora agora fica em lugar alto e ele está descansando defronte de uma linda vista, como ele adorava em vida. Acho que Deus também o abençoou com esta vista.
A doença do meu pai me deu algumas coisas: todo o medo que ainda me restava de dirigir nesta cidade ficou pra trás. Fiz tanta baliza com transito, rampas terríveis e ultrapassagens emocionantes que me habituei. Acho que nunca tinha sido tão independente em minha vida. Até fiquei de motorista de um amigo escritor que veio pra lançar um livro. Se faltar grana dá ate´pra ser taxista (é, não vamos exagerar). O fato é que no sufoco, dizem, se aprende até a nadar, comigo não foi diferente. Sempre fui independente e sempre fui destas que tomam a frente das coisas e sai resolvendo. E com a doença e morte do meu pai não foi diferente. Claro que não fiz tudo sozinha, mas no dia em que ele partiu, no fim eu fiquei pra acertar o que restava para a liberação do corpo e o translado até Cambuí, onde ele foi enterrado. Na viagem pra casa, durante boa parte do percurso eu tinha a forte sensação de que ele estava no banco de trás, embora ele estivesse no carro funerário que não estava nos seguindo. Sentia que era a minha missão levá-lo de volta pra casa mais uma vez, como fiz muitas outras, a ultima vez. Foi a viagem mais triste de minha vida e doía uma dor tão profunda... eu não estava sozinha, meu marido era quem dirigia e minha mãe estava no banco de trás, mas minha sensação era de que ele também estava lá. Chegamos antes do carro funerário, que chegou em seguida. Que tristeza! A casa estava cheia de amigos aguardando ele chegar, já deveria ser umas onze e meia da noite e durante toda a viagem estava uma noite muito escura. Acho que tinha estrelas no céu, mas ainda assim era tudo muito escuro. Na madrugada fez um frio. Fiquei tentada a colocar uma manta em cima do meu pai para que ele não sentisse frio, mas pensei que se fizesse o povo ia me achar muito doida. Passou a noite, chegou o dia, tanta gente. Lá em Cambuí ainda conserva-se a tradição de velar o morto em sua residência e assim foi feito com meu pai.
Minha família é católica e tem o hábito de rezar o terço. Quase na hora de sair o cortejo, olhei o relógio e ainda dava tempo de rezar mais um terço. Minha mãe pediu pra D. Elza, que foi minha catequista, para rezá-lo e ela começou dizendo que rezaria os mistérios milagrosos, porque sempre em velório rezam-se os dolorosos, mas que deveríamos rezar pelo corpo glorioso que já estava junto do Pai, porque aquele corpo ali na sala era só o cadáver. Fiquei muito emocionada e agradecida, e mais, explicou a sensação estranha que tinha de que meu pai não era aquele ali. Um cadáver. Duro, frio, sem vida. Retardei o máximo que consegui a saída do velório porque não o veria mais depois do enterro, mas ela tinha razão: a parte vital já não estava mais ali. É muito curioso. Nunca tinha chegado tão perto de alguém que morreu. Penso que talvez eu tivesse mesmo transportando meu pai de volta pra casa enquanto a funerária levava seu corpo. Não que eu acredite em espíritos que circulem por aí, mas minha missão era muito importante e minha sensação muito forte. E hoje tudo isso me voltou à memória de maneira muito viva, enquanto dirigia, nos trinta minutos que levei para chegar em casa.
Não pude visitá-lo no domingo, dia de finados. Acho que fiquei devendo a visita. Será que ele ficou me esperando, como no dia dos pais que só consegui ligar tarde da noite?

Um comentário:

LucianaArruda disse...

vocÊ o visita todos os dias com sua lembrança e sua prece. não fique preocupada com o dia de finados... beijo