quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A Jaca

Acabo de voltar do passeio diário com o Manchinha, nosso cachorro e, para desviar de um sujeito em atitude suspeita, mudei meu caminho. Passando em frente ao local onde usualmente tem uma banca de frutas, pensei que seria bom se as frutas vendidas nesta banca fossem sempre frescas. Foi quando me lembrei do dia em que consegui convencer meu pai a fazer uma caminhada pela pracinha aqui próxima. Ele tinha tido alta de uma de suas inúmeras internações. Sempre que saía do hospital ele se recusava a sair de casa, ficava enfurnado no meu minúsculo apartamento, parecia que ele se envergonhava de estar doente. Mas nesse dia depois de muito insistir ele topou dar uma volta. Saímos em direção à pracinha aqui próxima e na volta ele parou na banca para olhar as frutas e viu jaca, ficou cheio de vontade. Descemos mais uma vez até a praça para mais uma volta e ele parou na banca enquanto eu subia para buscar o dinheiro da jaca. Quando voltei ele já até tinha comido a tal, meu pai adorava jaca, ele e minha irmã do meio. Ele ficou lá um tempão conversando com os donos da banca e comendo jaca, dava gosto de ver. Parecia que por um momento ele se esqueceu de sua condição.
Minha vida com o meu pai é feita de frutas. Quando criança ele me comprava maçãs. Era como dar um presente. Ele fechava a oficina na hora do almoço e ia tomar o aperitivo do dia e voltava com o braço cheio de guloseimas, entre elas maçãs. Tão vermelhas e brilhantes que pareciam as da Branca de Neve. Ele dizia que maçãs eram de lugar frio e por isso eram importadas da Argentina. Dizia que aqui não se conseguia plantar e colher maçãs tão lindas e doces como as que vinham de lá. De fato eu nunca vi um pé de maçã. Mas elas, as maçãs, sempre foram uma parte muito importante da minha vida. Ainda hoje eu prefiro as argentinas.
Já de jaca eu não consegui gostar, mas todas as outras frutas, morangos, mangas, laranjas, bananas, goiabas e tantas outras são minhas companheiras de toda a vida. Um dia sem uma frutinha é como uma vida sem sabor.
Compramos a jaca, acho que depois ele levou o que sobrou pra Cambuí, mas o bom mesmo foi vê-lo feliz, porque era assim que ele era feliz, comendo jaca e aproveitando as pequenas coisas da vida. Foi assim que ele me ensinou a ser feliz e é assim que eu espero conseguir ensinar à Luiza o que é de fato felicidade.
E foi assim que ele viveu os últimos meses de sua vida. Sendo feliz. Acredito que fomos abençoados com um milagre. Por ocasião de uma visita cultural que precisei planejar fui conhecer o Museu de Arte Sacra de São Paulo. Lá descobri se tratar do Mosteiro da Luz construído por Frei Galvão. Algumas coincidências: estive com minha mãe na missa de canonização de Frei Galvão, celebrada pelo papa ano passado no Campo de Marte. Fui parar no Mosteiro por acaso, aliás fiz de tudo para não ir lá, por isso acredito que fui levada. Voltei lá dias depois com minha mãe para pegar as pílulas de Frei Galvão e fiz a novena junto com meu pai ainda no hospital. Terminamos a novena no dia de sua última alta. Minha mãe conta que ele rezava e pedia para que Deus permitisse que ele ficasse ao menos 90 dias em casa descansando, pois estava muito cansado de tudo aquilo e, acreditem, Deus foi ainda mais generoso. Foram 138 dias longe do hospital, levando a vida como sempre foi, como ele gostava. O povo encontrava ele na rua e perguntava se ele tinha mesmo passado por tudo aquilo, pois parecia que nada tinha acontecido, era o Anisio (é assim que o povo chamava ele) de sempre, salvo pela cicatriz na barriga. Andou no mato, colheu verdura, chupou laranja, passeou de bicicleta e até tomou a cachacinha, foi feliz, desta maneira simples e plena, como só ele sabia fazer tão bem. No dia em que passou mal ele ainda passeou por aí e teve tempo de se despedir dos amigos, até de mim ele se despediu, veio morrer aqui em São Paulo.
Quando descobri minha gravidez fiz questão de ir contar pessoalmente para ele e minha mãe, não abri mão de olhar a carinha deles quando ouvissem a notícia. Dias antes passou-me um pensamento pela cabeça: e se não desse tempo e eu negasse a meu pai a alegria de partir sabendo que estava à caminho mais um neto? Rezei, pedi a Deus que não o levasse ainda, que me permitisse compartilhar mais esta alegria, meu coração já sabia que sua partida estava próxima. Ele sorriu e se levantou da cadeira, seu rosto se iluminou: "então vem vindo um Adrianinho", disse. Onze dias depois ele partiu... teria vibrado com a noticia de que eu espero uma bonequinha sapeca...

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