sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A mangueira está triste este ano.

Acho que a maior virtude do meu pai era a generosidade. Ele sabia compartilhar e compartilhava tudo, até o que não devia. Se aparecia alguém pedindo, ele dava. Se pediam contribuições em dinheiro, ele dava. Se tinha queijo, ele chamava o vizinho pra comer um pedaço, se fazia churrasco, chamava pra participar. Se visitava alguém, levava maçãs, queijos, jabuticabas, mangas... e compartilhava suas vivências. Fazia questão de contar tudo o que via e ouvia, o que ele mesmo viveu ou que ouviu de experiência de outras pessoas. Tinha uma memoria formidável. No dia do meu casamento, algumas horas antes da cerimonia ele me disse que não iria na recepção, ele não era muito de festa. Fiquei doida, meu pai tinha dessas, disse a mesma coisa na minha formatura, mas acabou se rendendo após uma pequena chantagem. Eu disse a ele que "iria sim!", estava brava, "que seria o primeiro a chegar, o ultimo a sair e que daria atenção a todos os meus convidados durante toda a festa", ordem que ele obedeceu impecavelmente. Foi a todas as mesas, cumprimentou e conversou com todos os convidados, bebeu vinho, comeu, ficou alegre e depois nos contou em detalhe tudo o que tinha acontecido naquele dia. Fiquei boba! Não é que ele fez direitinho o que eu mandei? E fez até melhor. Ele nos contava em detalhes o que fazia cada amigo nosso, onde morou o tio do Adriano enquanto trabalhava para a Petrobrás, o que fez, onde fez. Eu não teria sido anfitriã melhor. E no final ele ainda nos ajudou a lavar o vidro do carro que nossos amigos pintaram de nugget branco (aquela tinta para sapatos), estava um frio e lá estava o Seu Anivio jogando canequinhas de água junto com o Dri pra gente conseguir ir pra noite de núpcias. Ele não era o máximo? Eu estava em casa, protegida do frio junto com minha mãe, ainda contaminada pela emoção do melhor dia de minha vida.
Hoje olho o álbum e em quase todas as fotos ele está sorrindo. Ele não era de sorrir em fotos, aliás, não saía nas fotos, achava bobagem. Ele estava feliz. Feliz de um jeito que poucas vezes vi. Ele era meio "serião", vivia preocupado com futuro do mundo e tinha péssima mania de sempre puxar suas conclusões pro lado negativo, tipo "esse mundo não vai pra frente, o povo tá lascado", tipo torcer contra o Brasil na copa do mundo, embora tenha vivido sempre de maneira autentica e plena, o que contradizia suas conclusões pessimistas. Era um amante da ditadura militar, como todos da idade dele que não fizeram parte do movimento estudantil. Isso o impedia de ver como hoje vivemos com muito mais conforto conseguido de uma maneira menos sofrida do que antes. E eu consegui convencê-lo disso? Com o tempo passei a compreender certas coisas que ele dizia e não mais questionar como fazia quando adolescente, de alguma forma ele tinha razão. Seu argumento é que naquela época ele conseguiu construir nossa casa. Hoje as pessoas tem cada vez mais tv de plasma e menos casa, quais destas duas coisas realmente importam na vida das pessoas. Meu pai era um grande homem, teria ido longe se tivesse estudado, daria um bom físico, um engenheiro talvez, ou um inventor, mas ele foi só o meu pai, meu Prêmio Nobel de pai, o melhor dos melhores.
Era dono de uma engenhosidade, sempre apresentava soluções mirabolantes para os probleminhas que surgiam no dia-a-dia. Consertava as coisas, nunca se via uma torneira pingando ou uma porta batendo por muito tempo, ele sempre achava um jeito de consertar o que não tinha conserto, era dono de uma criatividade incrível. Para ele não tinha "não sei, não tem jeito, não dá", sempre dava pra fazer alguma coisa. Neste quesito ficamos realmente muito órfãos, até o presente momento ninguém na família nasceu com este dom, quem sabe Luiza...
Como amante da natureza ele sempre sabia onde encontrar as frutas mais docinhas que nasciam no mato e sabia o dia certo de colhê-las. Todo ano ele trazia jabuticabas, escolhia os melhores morangos, as laranjas mais doces como minha mãezinha adora, pêssegos, goiabas, cidra e por aí vai. Quando criança ele encontrava tudo isso no mato, andando. Com o tempo os donos das terras foram resolvendo desmatar e povoar tudo e alguns artigos já não e podia mais simplesmente ir buscar, então ele começou a comprar, mas na minha casa nunca se comeu morango em janeiro, que não é o tempo dele, nem se fazia pamonha em junho. E sempre os produtos que vinham para a nossa mesa passavam por um rígido controle de qualidade, seu Anivio fazia questão de que tudo fosse orgânico e se não tivesse jeito, ninguém podia comer a casca.
Em nosso quintal tem uma mangueira que nasceu de um caroço que meu irmão plantou quando adolescente. Todo ano ela produzia mangas suficientes para abastecer a vizinhança e a "parentada", mais o povo que passava na rua. Uma manga tão docinha, tão saborosa, não existe outra igual, quem comeu pode confirmar. Da última vez que estive lá, meu pai levou a mim e ao meu marido pro quintal para nos mostrar a florada, que esse ano não aconteceu como sempre. Ele disse assim: 'olha só, não deu flor quase esse ano, não vai dar nada de manga". Logo entendi, a mangueira já sabia, não vai dar frutos desta vez porque ele não está mais lá para colher...