sexta-feira, 10 de outubro de 2008

As loucuras do Vovô - parte II

Como eu ia dizendo, meu pai, vovô da Luiza, amava a natureza e um dos seus passatempos preferidos era andar no mato. É isso mesmo. Sempre que podia ele terminava seus afazeres e ia andar no mato. É que em Cambuí ainda tem muita mata nativa que ainda não foi destruída, claro que hoje tem bem menos do que há 20 anos, mas tem. Ele colocava uma roupa velha e uma bota feita sob medida para ele e seguia caminho. Saía em busca de novas nascentes, árvores frutíferas, passarinhos diferentes. Ele sempre levava umas garrafinhas e trazia pra casa as águas cristalinas que encontrava pra gente experimentar, ele dizia que aquilo sim é que era água de verdade. E nós tomávamos. Confesso que umas tinham gosto de água simplesmente e outras tinham gosto de barro, mas todas tinham gosto de amor e dedicação, primeiro à natureza e depois por nós. Ele sempre compartilhava o que via.
Teve uma vez que ele viu um tucano e se apaixonou. Ficou tão fascinado que armou uma arapuca para caçar o bicho. E caçou. (Acho que sei de quem herdei tanta petulância). Sabe o que ele fez? Trouxe o bicho pra casa, chamou todos os vizinhos pra ver aquele bico todo colorido e depois voltou pro mato e o soltou. Teve um vizinho que sugeriu que ele o vendesse e eu me lembro como se fosse hoje ele respondendo bravo que só queria que todos vissem àquela beleza, mas que ele era livre, pertencia à natureza e era pra lá que ele deveria voltar. E voltou. Meu pai era uma pessoa fascinante, ímpar. Eu teria medo de caçar um tucano. Ah, vocês vão dizer: no zoológico tem tucano, mas Cambuí não tem zoológico. Gente, que vontade de contar pra ele que eu me lembro disso...
Eram raras as vezes que ele me levava com ele, ele dizia ser perigoso, mas teve uma vez que fomos eu e minha mãe, eu era bem pequena, andar com ele lá pelos lados de onde fica hoje o Solar Clube de Campo. Andamos, andamos e depois de passar por umas árvores chegamos em um gramado e um laguinho, ambos estavam escondido de todo olhar humano e isso tornava o lugar ainda mais mágico. O lago tinha uma água meio cor de mel, mas tão limpa que dava pra ver os peixinhos nadando, as algas balançando, a brisa acariciando aquelas águas. Era até meio brilhante, fiquei encantada e anos depois eu ainda perguntava daquele lugar e desejava voltar lá, mas acho que aquele lago lindo não deve ter sobrevivido à construção do clube.
Passei minha infância olhando os passarinhos, correndo atrás de galinhas nos sítios dos meus tios que ainda viviam na zona rural e alimentando os pombos que moravam no telhado de casa, isso até o meu pai perceber que pombos são pragas e transmitem doenças, além da sujeira que fazem, mas até aí eles eram meus bichos de estimação e eram muitos, e cada um mais lindo que o outro, muito legal.
Hoje quando bebo a água tratada pela SABESP e filtrada por aqueles filtros de parede penso que não é agua de verdade, o sabor é bem diferente das águas cristalinas dos tempos de criança, aquilo sim é que é agua, já dizia meu paizinho, nos seus surtos de amor à natureza e amor por nós. E quando vejo pombos pelas praças eles ainda chamam a minha atenção e eu ainda fico procurando aquele que é o mais bonito... e nunca um tucano pra mim será apenas um tucano, mas um exemplar daquele bicho fascinante que meu pai caçou só pra que eu visse o quanto a natureza pode ser colorida e bela...

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