sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Noite insone.

Esta noite acordei por volta de umas 2:30h e não conseguia mais dormir. Odeio quando isso acontece porque fico imprestável depois. Mas já viu né, o sono vai e os pensamentos vêm. Coordeno um trabalho de prevenção à dependência química e estou lendo um livro interessante: Pare de Fumar Para Sempre, de Martin Raw. Para vencer a insônia recorri à leitura e depois fiquei pensando mais um pouco: como pode uma pessoa fumar? O livro é interessante porque aponta vários problemas e caminhos na trajetória de parar de fumar, mas sempre respeitando o desejo do fumante, respeitando sua escolha. A esta altura você deve estar se perguntando se eu fumo. Não, nunca fumei. Aliás, sempre tive verdadeira ojeriza por cigarros. Venho de uma família de fumantes e vem daí meu asco. O livro é por conta do trabalho.
Meu pai fumou por mais de 60 anos (ele viveu até os 75). Não o condeno, pois ele começou a fumar numa época em que nem a ciência sabia ao certo os efeitos nocivos do cigarro. Lembro-me que quando criança ele fumava na mesa depois de jantar e isso era absolutamente normal, eu até brincava de fumar cigarrinhos feitos de papel. Acho que nunca experimentei porque sempre fui muito medrosa, sempre tive medo de ser pega fazendo coisas erradas, por isso não as fazia. Meus pais fumavam, mas diziam que nós, filhos, não podíamos fumar. Eu obedeci. Com o tempo fui "garrando" um nojo de cigarro, não sei bem porque, nem quando isso aconteceu, só sei que foi muito bom.
Quando meu pai descobriu o câncer e o médico disse que ele deveria parar de fumar porque o cigarro era um dos seus inimigos, ele também obedeceu, fumou o último cigarro na véspera da primeira cirurgia, mas... que pena, era tarde, ao menos para ele. Ainda assim estou certa de que seus últimos meses de vida foram melhores porque pôde respirar ar puro. Fumar é como tomar estriquinina todos os dias, só que em doses homeopáticas. Muitas pessoas conseguem encontrar o mote certo para parar, e outras continuam encontrando muitos motes para continuar. Uma amiga muito querida me contou à anos atrás que parou de fumar porque um dia acordou e não acendeu o dito cujo de imediato, o que fez com que ela percebesse que sua roupa cheirava mal, seu cabelo cheirava mal, ou seja, ela andava "fedendo" por aí, não fumou mais. E é isso mesmo, quem fuma não cheira perfume e mais ainda, quem fuma pratica um suicídio lento. Meu pai falava que não sei quem morreu de velho, fumando, bebendo pinga (outro prazer dele) e comendo gordura de porco. Penso que esse povo antigo, por não saberem ao certo o mal que faziam a si mesmos, contavam com uma ajudinha extra dos céus, mas nós, seres viventes nos dias de hoje só podemos contar com nós mesmos. Já nos basta respirar este ar poluído, para que mandar mais veneno para dentro do corpo.
Com toda a minha tristeza, só consigo pensar em vida, só consigo pensar em viver e viver bem. Estou preocupada com o mundo que minha pequena vai encontrar e espero conseguir transmitir a ela todo o mal que é a ingestão de tabaco e outras drogas sem que ela mesma tenha que experimentar.
Eu gosto de tomar uma cerveja de vez em quando, mas ao tomar contato com dependentes químicos, isso mudou minha forma de beber. A droga escraviza de tal maneira que a pessoa acorda e vai dormir pensando em como vai usar, quando vai usar, como vai conseguir e a cada dia me convenço mais de que o cigarro está no topo dos vilões, porque você encontra na banca de jornal, o jornaleiro é o traficante. Não o condeno, pois, segundo uma amiga que tem banca, se não tem cigarro, não se vende jornal também. Não é triste isso? As pessoas enfrentam um furacão pra comprar cigarro se preciso for, mas não arredam o pé para simplesmente se informar, ou comprar pãozinho fresco (huuummm). É muito triste.
Cada droga tem um efeito peculiar, mas todas carregam algo em comum: aos poucos vai degradando o usuario. A dependencia quimica não é algo que escolhi para minha vida, ela aconteceu e eu abracei. A toda hora dou de cara com minha impotencia diante do desejo do outro e vejo pessoas queridas, com potencial, perdendo a noção de dignidade, de responsabilidade, perdendo o amor à vida em prol do amor à droga e eu, com toda a minha vontade, tenho que ficar assistindo porque não posso mudar o desejo do outro se ele proprio não quer. Mas aí voces vão dizer: mas o cigarro não funciona bem desse jeito. Para mim é pior, nunca ouvi dizer que um dependente quimico de nicotina tenha destruído todo o seu entorno por causa da nicotina. Fumantes não chegam ao fundo do poço da mesma forma que um alcoolista, então sua segunda chance custa a chegar e às vezes nem chega. Eu adoraria que meu pai tivesse partido quentinho na sua cama, saudavel, só porque todos nós temos prazo de validade e o dele expirou. Fica na memória os momentos de dor e sofrimento e nossa impotencia diante de algo que não podemos mudar. Por isso a minha indignação: se eu posso escolher viver bem, por que escolho me maltratar? Por que escolho o suicidio lento, por que mando para dentro de mim coisas ruins se posso ficar com as boas. Se nos fosse dada a chance de interferir na escolha das pessoas eu colocaria minha colher torta nisso: ninguém mais escolheria fumar ou usar qualquer tipo de droga. Já temos garantido a dose diaria de veneno pelo imediatismo do homem, para que mais?

3 comentários:

Nivia Gonçalves Masutti disse...

Este é o primeiro texto que tenho vontade de dividir com o mundo, quem sabe alguem se sensibiliza?

LucianaArruda disse...

Bóra divulgar...
=]

Unknown disse...

Eu também acho que vale a pena divulgar. Parabens pelo Blog, nossa filhinha vai adorar quando puder ler as histórias do vovô...