quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Ai que vontade de comer pamonha.

Ai, que vontade de comer pamonha! Aqui em São Paulo é muito comum a gente encontrar carrinhos nas esquinas vendendo milho e delícias de milho, o problema é que as delícias não são tão deliciosas assim. Comprei um cural uma vez que não havia sido coado, então estava tão cheio de farelo que mal dava pra comer. É que, um bom cural é feito com milho ralado e passado pela peneira várias vezes até ficar bem fininho e só depois vai pro fogo. Tem que cozinhar bem também, para não ficar com sabor "cru". Pamonha é um pouco mais trabalhoso. Aliás, bem mais trabalhoso e minha mãe é a única pessoa que eu conheço que ainda se atreve a fazer, porque hoje em dia dá pra comprar pronto. Mas pamonha nenhuma no mundo é tão boa quanto a dela, nem as de Piracicaba. Nos últimos tempos, quase toda vez que a gente ia pra Cambuí meu pai comprava milho pra fazer pamonha. Meu tio João, viúvo da minha tia Dita, irmã do meu pai, inventou uma maquininha que rala o milho, o que facilitou bem o processo, mas ainda faz uma sujeira danada fazer a tal da pamonha. Dia de fazer pamonha não dá pra fazer mais nada. Acorda cedo, vai buscar o milho, descasca o milho, separa os que estão bons pra pamonha e os que só dão cural, é, porque tem diferença, milho bom pra pamonha precisa estar mais verdinho, se estiver muito granado a pamonha fica dura. Mas o milho, quanto mais maduro, melhor o cural. Quer dizer,se ainda não tiver chegado no ponto de debulhar e jogar pras galinhas. Aí só dá pra elas mesmo.
Voltando. Descasca o milho, separa o milho. Ah, tem técnica pra descascar, pois a casca precisa estar inteira para virar copo. Então com uma faca corta-se na horizontal a parte superior da espiga, como se fosse um chapeuzinho, e vai retirando a "roupa" cuidadosamente. As palhas maiores ficam para os copos, mas não podem estar muito duras, senão não dobra. Ufa, já cansei, e o milho nem foi ralado ainda. Rala o milho, passa na peneira, que tem que ser destas de vime, senão o caldo fica muito ralo e não pára no copo na hora de cozinhar. Depois de ralado e coado, molha-se o bagaço com leite e passa pela peneira de novo para não desperdiçar nada. Separa o caldo em porções e tempera, doce e salgada. Na doce pode pôr manteiga derretida e canela, na salgada, banha de porco. Ou só açúcar e sal. A canela é importante também. Enquanto tempera já tem um tacho bem grande no fogão esquentando água. E "vamo enrolá a pamonha". Pega palha, dobra como se fosse um envelope. Enche com o caldo, coloca um pedaço de queijo minas, que a esta altura já está picado e metade dele já foi consumido pra ver se está bom, próprio para rechear a pamonha. Com outra palha envolve-se o copo, dobrando da mesma maneira. Amarra-se com barbante e coloca no tacho pra cozinhar. Não sei quanto tempo leva pra cozinhar, nunca marquei no relógio, mas minha mãe sempre sabe a hora de tirar uma pra ver se já está cozida. E vai umas boas horas enrolando e cozinhando as benditas. A cada leva, come-se algumas de modo que, quando ficam prontas todo mundo já está estufado. No fim sobra a bagunça pra arrumar. Chão, armários, fogão, a gente, tudo fica respingado de milho, só lavando tudo mesmo pra ficar limpo de verdade. Ah, esqueci da parte que tem que tirar o cabelo do milho, logo depois de descascar, senão fica pamonha com cabelo. Acho que essa é a parte mais chata, dá um trabalho...
Dia de pamonha é dia de festa... ontem, quando fui dormir fiquei com vontade de ligar pra minha mãe e convida-la pra fazer pamonha na semana que vem, que estarei lá, mas me deu um dó de fazer pamonha sem meu pai... A primeira vez que o Adriano foi pra minha casa conhecer minha família teve pamonha. Era reveillon de 2000/2001. Ele ajudou minha mãe a ralar o milho na maquininha e depois disso meu pai entendeu que ele gosta, então sempre que era tempo de milho ele ligava perguntando quando a gente ia pra lá pra fazer. E foi assim, a última vez foi em maio, a pamonha nem ficou boa porque o tempo do milho já tinha passado. É, porque tempo de milho começa agora, final de ano, e vai até no máximo março, depois disso o milho fica xoxo. Hoje em dia a gente vê milho o ano todo, mas do bom mesmo, só no tempo dele. Nos últimos tempos fizemos pamonha tantas vezes... acho que intuitivamente meu pai sabia que seriam as últimas (dele, porque a vida continua, não é? Acho até que ele ficaria bravo se nos privássemos disso porque ele partiu). Não que ele gostasse tanto assim de pamonha, ele gostava de agradar. Em agosto ele comprava morangos pra fazer geléia pro Adriano. Mal sabia ele que a tarada pela geléia sou eu, bom pra mim. Acho que nunca conheci alguém que se deliciava tanto em agradar as pessoas como meu pai. Minha mãe também é assim, mas um pouco menos que ele. Ele até irritava a gente porque ele providenciava o milho, mas não era ele que fazia o serviço sujo. Ele ajudava bastante, mas o grosso mesmo sempre foi ela quem fez e a sujeira eu limpava.
Não tenho números pra contar quantas vezes em minha vida esse ritual se repetiu. Acho que nasci fazendo pamonha. Que dizer, ajudando. Fazer mesmo nunca fiz e nem acho que vou fazer, só num surto de loucura e saudade, ou pra agradar minha mãe quando ela já não der conta do recado.
Quando estava na quinta-série mudou-se pra minha cidade alguns engenheiros que foram pra trabalhar na COFAP, que acabara de se instalar lá, e a filha de um deles nunca tinha visto uma galinha até então.
Essas coisas quase de roça minha princesa não vai ter, porque minha geração é de mulheres empreendedoras, mas muito moles para as prendas domésticas. Por exemplo: não conheço absolutamente ninguém da minha idade que tenha matado um frango, então acho que a Luiza não vai aprender a fazer pamonha como eu aprendi, só se a vovó se mantiver ativa por muitos anos ainda e ensinar. Na época deles, meus pais, não tinha isso de comprar o milho descascado e o frango caipira já morto e depenado, mesmo morando na cidade. Há uns bons 15 anos aí, ou mais, alguém teve a ideia de abrir a "Delicias do milho" lá em Cambuí, a pamonha é boa, bem feitinha, aí já não dá coragem de enfrentar tanto trabalho, só minha mãe mesmo. Na época já existia as pamonhas de Piracicaba.
Quando a gente ia pra lá e minha mãe não estava disposta a enfrentar o batidão, meu pai ia na feira e comprava, mas acho que ele insistia na trabalhareira porque a cozinha dela é a melhor do mundo, e ele concordava com isso. Nos tempos de hospital ouvi ele dizer isso um sem número de vezes, longe dela claro, porque homem daquele tempo não fica elogiando, o que não o impedia de apreciar o que é bom.
Dá uma dor pensar que hoje eles estão separados da forma mais triste e que ele não vai estar lá mais torrando a paciência dela pra fazer pamonha porque a Luiza está chegando pra visitar o vovô e a vovó...

2 comentários:

LucianaArruda disse...

deixe a pamonha, mas por favor não abandone o virado de banana! adoroooo (nem vou tentar fazer, porque sei que a mineirice é que dá o sabor especial) rsrs..beijo!

Unknown disse...

Virado de banana e Pamonha com café.... hummmmmmmmmmm...