terça-feira, 7 de outubro de 2008

Porque o tempo não pára...

Quando alguém muito querido por nós morre, o mundo deveria parar à nossa volta por uns tempos. É um vazio tão grande não ter mais as pessoas que amamos debaixo de nossos olhos e ao alcance de nossas mãos. Só quem já viveu isso sabe do que estou falando.
Estive visitando minha família neste fim de semana e foi muito ruim. Boa parte das coisas do meu pai já não estão mais lá como ele deixou e me doeu muito essa novidade. Como eu já disse antes, a vida continua, quer a gente queira, quer não. Minha mãe ainda está num ritual doido de "arrumar a casa", esta é a maneira que ela encontrou para preencher a ausência deixada por seu companheiro de 43 anos. A casa está toda diferente, minha irmã mais velha está de volta e tudo saiu do lugar, principalmente o canto dele, que já foi meu por um tempo e agora vai ser dela. Algumas coisas ainda estão do mesmo jeito que ele deixou, como a bicicleta encostada na parede e o banco no qual ele tirava a soneca de depois do almoço, mas o resto está saindo do lugar para dar espaço a vida que segue. Sentei no banco dele e fiquei olhando a oficina (meu pai tem/tinha uma oficina mecânica) e me lembrando da minha infância. Eu vivia enfurnada lá, brincando dentro dos carros, balançando no cavalete que levanta os motores... pensei: "como eu era pequena para conseguir me pendurar e balançar num trem tão baixo!" Lembrei-me do balanço de corda com o banquinho de madeira que ele fez pra mim e o quão alto eu subia me balançando, só tomando impulso com o meu próprio corpo. "Meu pai era louco", pensei. Não sei se teria coragem de deixar a Luiza fazer aquilo, mas o fato é que a loucura dele ou a falta de noção de perigo me fez a criança mais feliz do mundo. Meu pai era daqueles pais que fazia todos os gostos, até passava da medida, coitada da minha mãe, eu era mimada e mal criada, dava um trabalho... ele me mimava, comprava doces, levava pra passear, isso até bem tarde, acho que ele fez isso até adoecer, com a diferença que com o tempo o pai da Luiza, meu marido lindo e amado, passou a integrar o grupo. Meu pai também comprava doces para ele e o mimava, aliás, depois que o conheceu, fazia mais por ele do que por mim, o que me deixava e ainda deixa muito feliz: meus dois homens tão em sintonia, se gostando. Ter a aprovação do meu pai nas minhas escolhas sempre foi importante pra mim e ele ter aprovado o homem com quem pretendo passar minha vida inteira e que hoje é o meu porto seguro, meu sustento nesta hora de dor é o melhor presente que meu pai poderia ter me dado. Ele não só aprovou meu marido como o acolheu como filho predileto, cuidava e mimava meu marido como fez comigo a vida inteira e sei que faria pela Luiza também se pudesse. Não que ele não gostasse dos outros filhos, genros, nora e netos, aliás, com sua doença descobri que meus irmãos sentiam por ele a mesma adoração que eu, mas o xodó sempre fui eu por ser a caçulinha, a pequena da casa e acredito que a Luiza tem um sabor especial por ser minha filhinha, a filhinha da filhinha, para todos eles. Fico triste de saber que meu paizinho querido não vai levá-la para jogar pedrinhas no rio como fazia comigo e depois fez com meus sobrinhos. Que ele não vai trazer uma galinha para ser o bicho de estimação dela, até porque hoje o Manchinha e o Johnny, os dogs, comeriam as galinhas. Que ele não levar ela pra ver o patinho que nasceu, nem vai pegar ela no colo pra atravessar a pinguela porque ela tem medo de cair no rio.
Eu pensava que quando tivesse filhos, um pouco desta infância voltaria pra mim. Não que não vá voltar, mas Luiza vai ter tudo isso apenas pelas histórias que eu contar e pelos lugares que eu a levar, mas nunca vai sentir o calor do colo do vovô, nem vai ouvir aquelas musiquinhas inventadas que fazem dormir sem dar medo. Isso eu não vou poder dar a ela. Será que vai sobrar alguma coisa daquilo que ele construiu e deixou pra eu mostrar à Luiza? Será que o cavalete vai estar lá quando ela puder se pendurar?
Hoje de manhã eu fui a uma palestra e na volta peguei um ônibus que passou ao lado do hospital em que ele se tratou. Tive um pensamento muito egoísta: enquanto ele estava aqui eu ainda o tinha próximo aos meus olhos e podia toca-lo quando quisesse. Egoísta porque ele não era feliz ali. Mas enquanto ele esteve internado ele era meu como quando eu era criança, só que trocado, eu é que o mimava e cuidava dele. Agradeço a Deus por tê-lo levado antes que ficasse pior, agradeço por não permitir que ele ficasse preso a tratamentos, vegetando, ele morreria de depressão, mas às vezes dá uma saudade tão grande e a gente não pode fazer nada pra passar... me sinto egoísta pensando estas coisas, mas... o mundo à nossa volta deveria parar por uns tempos quando alguém que a gente ama muito morre...

3 comentários:

Unknown disse...

Nossa Luiza vai ter muito orgulho do vovô, porque a sua mãe linda vai ter todo o cuidado de contar todas as histórias.... E vamos levá-la para jogar pedrinhas no rio também... Sou muito feliz ao lado das duas mulheres da minha vida... Amo vocês.

LucianaArruda disse...

ela vai olhar para você e vê-lo refletido em seus olhos, mineirinha...assim como eu já estou amando o seu pai, só pelas histórias que você está compartilhando...já sinto saudades dele...um beijo

Patrícia Medeiros disse...

Cada história que leio me emociona e faz com que eu também reviva a minha infância com meu pai ao mesmo tempo em que me leva a um futuro totalmente imprevisível.
Bom... desejo que a Luiza (já gostei do nome, rs, rs...) possa escrever a história dela de maneira tão deliciosa como as que você as escreve. Tenho a certeza que em seus atos ela conhecerá seu pai.
Um beijo grande pra vocês...