Quase não acredito ainda que isto aconteceu. É engraçado, ninguém mais fala nada a respeito. Todas as pessoas que encontro me perguntam pelo bebê, mas ninguém mais diz que sente pela minha perda. O mundo prefere negar que o fim existe, que a morte existe, que todos nós vamos passar por isso cedo ou tarde. Aliás, passamos pela morte todos os dias, estamos sempre perdendo coisas, nos despedindo, ainda que estas mortes diárias sejam apenas simbólicas. Então por que negamos tanto?
Em julho do ano passado meu pai soube que havia desenvolvido um câncer muito comum em fumantes, uma neoplasia maligna de bexiga. O primeiro diagnóstico apresentava boas perspectivas, mas na primeira cirurgia já soubemos que a coisa não era assim tão boa. Era um câncer de tipo raro, um tipo histológico que não favorecia muito a cura, sem contar que já havia atingido o músculo do órgão, mostrando estar em estágio bem avançado. Essa não é uma experiência pela qual se passa impunemente. Ainda na faculdade eu aprendi que o câncer é uma doença que traz muita mudança, para quem o desenvolve e para todo o seu entorno, não há quem não se modifique. Minha supervisora, a Pilé, dizia que o câncer faz com a pessoa o que ela mesma não fez com sua vida, toma conta. Se pensar bem, olha que verdade, todos em volta passam a viver em função da doença. Isto é muito triste, porque deveríamos viver em função de sermos felizes hoje e até o dia da nossa morte.
Meu pai acreditou na cura e amou a vida até o ultimo instante, nunca duvidou de que seria possível se livrar deste calvário. Não sabemos ao certo o que o matou, mas também o que importa saber. Eu e minha família acreditamos que Deus está no controle de tudo e que a hora chega para todos, porque a dele não viria, não é? Mas foi tão rápido. Fico vendo por aí pessoas com muito mais idade do que eu tenho e com pais vivos, que bênção Meu Deus, que bênção ter pais vivos por muito tempo... e tem gente que não aproveita. O que mais me valeu em viver tudo isso foi aprender a ser feliz hoje. Se tenho vontade de comer, como. Se tenho vontade de dormir, durmo. Se tenho saudades, choro. E assim vou levando. Também vejo quantas pessoas com menos idade do que eu já sem os pais, acreditem, isso me deixa feliz, não pelos outros, mas por ter tido a alegria de realizar todas as coisas heróicas que pode fazer uma menina dar orgulho a seu pai: me formei, consegui sucesso profissional, conheci o mundo, fiz um bom casamento e vou ter uma filha. Meu pai esteve em todos estes momentos vibrando, se realizando junto comigo, orgulhoso da filha que teve, isso não é maravilhoso? É sim e é o meu presente que me dou todos os dias quando começo a me lamentar pelas poucas coisas que não fiz. Olho para as que fiz e o quanto trouxe alegria e penso: tenho direito de ser triste? Pois é, somos insaciáveis. Continuo sem acreditar muito no que aconteceu e fico torcendo às vezes para que nada disso seja verdade, que seja só um sonho ruim que acaba quando a gente acorda. Que sonho longo...
Em julho do ano passado meu pai soube que havia desenvolvido um câncer muito comum em fumantes, uma neoplasia maligna de bexiga. O primeiro diagnóstico apresentava boas perspectivas, mas na primeira cirurgia já soubemos que a coisa não era assim tão boa. Era um câncer de tipo raro, um tipo histológico que não favorecia muito a cura, sem contar que já havia atingido o músculo do órgão, mostrando estar em estágio bem avançado. Essa não é uma experiência pela qual se passa impunemente. Ainda na faculdade eu aprendi que o câncer é uma doença que traz muita mudança, para quem o desenvolve e para todo o seu entorno, não há quem não se modifique. Minha supervisora, a Pilé, dizia que o câncer faz com a pessoa o que ela mesma não fez com sua vida, toma conta. Se pensar bem, olha que verdade, todos em volta passam a viver em função da doença. Isto é muito triste, porque deveríamos viver em função de sermos felizes hoje e até o dia da nossa morte.
Meu pai acreditou na cura e amou a vida até o ultimo instante, nunca duvidou de que seria possível se livrar deste calvário. Não sabemos ao certo o que o matou, mas também o que importa saber. Eu e minha família acreditamos que Deus está no controle de tudo e que a hora chega para todos, porque a dele não viria, não é? Mas foi tão rápido. Fico vendo por aí pessoas com muito mais idade do que eu tenho e com pais vivos, que bênção Meu Deus, que bênção ter pais vivos por muito tempo... e tem gente que não aproveita. O que mais me valeu em viver tudo isso foi aprender a ser feliz hoje. Se tenho vontade de comer, como. Se tenho vontade de dormir, durmo. Se tenho saudades, choro. E assim vou levando. Também vejo quantas pessoas com menos idade do que eu já sem os pais, acreditem, isso me deixa feliz, não pelos outros, mas por ter tido a alegria de realizar todas as coisas heróicas que pode fazer uma menina dar orgulho a seu pai: me formei, consegui sucesso profissional, conheci o mundo, fiz um bom casamento e vou ter uma filha. Meu pai esteve em todos estes momentos vibrando, se realizando junto comigo, orgulhoso da filha que teve, isso não é maravilhoso? É sim e é o meu presente que me dou todos os dias quando começo a me lamentar pelas poucas coisas que não fiz. Olho para as que fiz e o quanto trouxe alegria e penso: tenho direito de ser triste? Pois é, somos insaciáveis. Continuo sem acreditar muito no que aconteceu e fico torcendo às vezes para que nada disso seja verdade, que seja só um sonho ruim que acaba quando a gente acorda. Que sonho longo...

Um comentário:
me fez pensar, muito. me emocionei. quando vejo o meu papai de cabelos brancos, fico pensativa...
Postar um comentário